Vilão triste com final feliz
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Um estrondo e a tampa do tubo de ventilação no teto caiu com um baque alto. Num pouso suave sua salvadora em vestes claras e expressão amena, um leve sorriso estampando sua face, como em todas as outras vezes em que viram.
— O que você…
— Venha, Slaine. — Ela estendeu a mão, e por um segundo tudo fez silêncio. Seu coração agora dava batidas incontroladas, e toda sua trajetória até aquele momento passou diante de seus olhos. E então notou que não merecia aquilo. Assim como Lemrina achava que não merecia quando se deixou ficar naquela nave e viu a princesa, a verdadeira primeira princesa, partir rumo a sua liberdade e destino.
— ...Por que?
— “Não precisa de motivo para ajudar as pessoas”, é o que uma garota boba e muito corajosa diria. — Ela deu um riso curto pelas narinas, pensando em Asseylum com carinho. — Eu vim porque é você, Slaine. A pessoa que me salvou e deu um lugar para morar, algo em que acreditar, eu estava preparada para ver os céus caírem, se fosse do seu lado. Você me deu um baita susto, sabia? Quando disse que ia simplesmente se entregar, mas aquele seu rosto, no meio de toda a sua dor que você sempre carregava, tinha o alívio mais sincero que já vi em todo o tempo que passamos juntos. Por isso nem adianta querer negar, vamos te levar daqui nem que seja a força.
Slaine ainda estava chocado. — Nós?
Um homem atrás de si lhe chamou a atenção. Harklight. — Bem vindo de volta, Slaine-sama.
— Está vivo…
— Uhum, e agora temos que sair daqui. — Lemrina fez um sinal com as mãos para a corda de saída Seu amiguinho de tapa olho pode não gostar nada quando souber que escapou.
— Algo me diz que ele vai aceitar, no entanto.
— Mas eu só fiz usar você.
— É, e eu te usei pra suprir minha falta de afeto e me aproveitei de seus sentimentos machucados em relação a minha prima. Estamos quites. — Ele ainda tinha aquele olhar. Lemrina escondeu as mãos atrás do corpo. — Se quiser me compensar por alguma coisa, venha comigo e nos faça feliz. É só o que pedirei, não sou generosa?
Slaine deu uma risada curta.
— Justo.
O que eles tinham era uma ligação forte, uma união que só os quebrados podem compreender. Slaine achava que não tinha um final feliz para pessoas como eles, mas ao lado daqueles dois, sentia que uma faísca finalmente poderia se ascender, e talvez, só talvez, as coisas em sua vida não fossem tão ruins assim...
— Certo, e então, Slaine? Onde quer morar? Nas montanhas? Fazenda? Um porto pesqueiro? Os peixes da Terra parecem ótimos. — Ela parecia realmente animada com todos aqueles catálogos de lugares.
Tinham arranjado um lugar provisório que aceitava um adulto e dois adolescentes sem grandes perguntas ou apresentação de identidade, um cubículo todo em madeira gasta e alguns animaizinhos errantes pelos cantos. Muito melhor que a maioria dos lugares em que os dois estiveram.
Troyard baixou os olhos para a mesinha bagunçada com papéis de todas as cores e pegou um folheto. Nele uma cidadezinha com vista para o mar era o foco, gaivotas e outras aves sobrevoando o céu azul com nuvens calmas e um oceano límpido, feito aqueles em seus mais ousados sonhos acerca de seu planeta natal.
— Um lugar com vista para o mar seria bom…
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