Vikings da atualidade
2 Festival do Degelo
Notas iniciais
Sinceramente, eu não sabia mais o que fazer para me livrar do Festival do Degelo, um nome bastante sinistro já que não está “degelando” nada no momento. Na verdade, ultimamente tem feito muito calor aqui em Berk, o que pode ser considerado uma grande anomalia.
– Soluço, você não precisa ficar assim. Melequento sempre acaba com você, esse ano não vai ser diferente! Então... não há nada de anormal na situação toda!
Olho para Perna de Peixe e sinto vontade de arranca-la fora! O que seria fácil já que ele não possui muito pescoço para contar a historia.
– Obrigada Perna de Peixe! – digo amargamente.
O cheiro da comida fez com que Perna de Peixe saísse de perto de mim, não que eu queira isso, ficar sozinho na hora do recreio é uma coisa normal para mim, só que, ainda não deixa de ser muito ruim!
Me levanto e coloco minha bandeja no suporte do lixo, despejo o resto que sobrou da minha merenda e vou até meu armário, coloco a cabeça na porta e respiro, lembrando pra mim mesmo que talvez esse ano não seja tão ruim quanto o ano passado. Tento contar até 10 e lembrar que ainda estou na escola.
– Está tentando ler os pensamentos do seu armário? Aposto que ele vai pedir uma limpeza daquelas com jatos bem potentes!
Levo um susto! Olha para Astrid e tento entender como se fala novamente, abro a boca e única coisa que sai é “hum run”.
– Não liga pro Perna de Peixe! – ela diz – Sabe, você provavelmente vai perder esse ano e...
– Obrigada Astrid! – digo. Abro meu armário, pego meu horário e vejo quais serão as aulas agora – Sua sinceridade é comovente!
Ela sorri.
– Você é um perdedor incrível sabia?! – ela se aproxima mais de mim – Só acho que não ficaria bem como vencedor!
Entenda, temos ambos 16 anos, ela é poucos centímetros maior que eu, e estávamos a menos de meio metro de distancia um do outro, a única coisa que eu poderia fazer era me aproximar mais, mesmo significando que ela poderá se afastar.
– Ótimo! – é a única coisa que sai. Incrível Soluço!
– Entenda Soluço, você parece aqueles caras que quando ganham alguma coisa ficam doidos e malucos e começam a se achar. E então, provavelmente vai virar igual aqueles filmes idiotas em que o nerd tímido ganha do grande gostosão do colégio e se torna o desejo de toda a escola!
– O grande gostosão seria o Melequento? – digo irritado – E aproposito, o termo correto é geek!
– Claro que não! Ele é um idiota!
– Ele é louco por você desde que a gente era pequeno Astrid! Você sabe que o povo quer...
– Que a gente fique junto? Ah Soluço por favor né! Se eu fosse seguir tudo o que esses bandos de idiotas falam, eu estaria usando uma saia justa mostrando a bunda e salto alto! Além de quilos de maquiagem no rosto.
Acabo sorrindo com a cena da Astrid parecendo uma das biscates da nossa escola, com certeza essa não seria a Astrid.
– E além do mais – ela continua – Você me impressiona sabia?
Pera! O que ela disse?
– A forma como sempre perde com dignidade! Nunca deixa o Melequento nem essa cidade maluca te subirem a cabeça! É realmente incrível Soluço!
Olho para ela sem entender merda alguma, ela sorri e parece estar se divertindo com a cena.
– Astrid o que...
– Que tal assim, dependendo dos resultados do Festival, você me leva para jantar. O que acha?
Ela sorri e some pelo corredor.
Olho para Astrid enquanto ela lentamente tira o celular do bolso, seu corpo é incrível, perfeitas curvas, a bermuda da escola tinha um caimento perfeito. Astrid era linda, em todos os sentidos.
– O que será que ela queria dizer com isso? – pergunto a mim mesmo – Será que eu se eu ganhar a gente vai sair? Tipo, eu e Astrid? Juntos? Parecia coisa de outro mundo. E tecnicamente iria chatear todo mundo, afinal, todos querem que ela faça par com Melequento, se casem, tenham dois filhos e três cachorros, além de Dente de Anzol e Tempestade.
– Falando sozinho Soluço?
Hoje o mundo estava gostando de me dar vários sustos. Bocão estava sorrindo como sempre, seus olhos me olharam de cima a baixo. Odiava quando ele fazia isso, me sentia bastante estranho. Sempre desconfiei que ele era gay, e quando fui perguntar, achei que ele iria pegar um dos seus instrumentos de tortura/estimação e me aniquilar. Mais a única coisa que ele disse foi um simples “sim”, perguntou se eu tinha alguma coisa contra e saiu.
Desde então nunca parei de observa-lo, e a forma como ele sempre olhava meu pai. Isso é meio estranho para mim, mais, ainda sim...
– Não acho que a Astrid esteja falando de você ganhar a competição Nanico! Talvez seja o contrario!
Então ele sai, e começa a cantar sua velha musiquinha sem sentido — Com meu machado e minha...
Não assisti as ultimas aulas. Corri para a academia da escola e fiquei horas treinando, no final da tarde estava exausto, meus braços pareciam que iriam saltar do corpo de tanto peso que levantei, meus pés não sabiam mais como pisar no chão e minha cabeça latejava, e meu corpo todo parecia um vulcão preste a entrar em erupção.
E de alguma forma, eu consegui ficar mais fraco do que de costume. Entrei na ducha e fiquei vários minutos em baixo da agua fria. Parecia que ele lentamente tirava cada dor que eu sentia... pelo menos! Enquanto eu estava no banho. Depois que sai a dor voltou mais pelo menos eu não estava todo suado e fedido.
Quando cheguei em casa, fui direto para a cama e me joguei. Só me lembro do Banguela correndo em minha direção com sua tigela de comida vazio. Desculpe amigão, mais eu preciso...
– FILHO! ACORDA SOLUÇO! O FESTIVAL JÁ ESTÁ PARA COMEÇAR!
Outro susto, acabo caindo da cama, sinto uma tremenda dor na perna, mais quando me espreguiço a dor vai embora, pelo menos, grande parte dela. Meu pai esta sorridente. Segurando o que parece ser meu capacete de “batalha”.
Nossa cidade é meio antiquada, como já disse, e no Festival de Degelo, todos nós nos vestimos de vikings e gritamos, comemos com as mãos, batemos em baldes e dançamos em volta de uma enorme fogueira que sempre queima os traseiros dos embriagados. É sempre uma coisa linda de se ver.
Meu capacete, que eu prefiro chamar de capacete enquanto Bocão e meu pai o chamam de “Elmo Peitoral” fica ridículo em mim, quando mais novo, nem conseguia enxergar com essa coisa!
– Já sei pai! Já sei!
Vou até meu armário e pego a caixa onde se encontra minha roupa de viking, meus pais e os outros usam uma espécie de vestido cheio de pelo com uma calça grudado por baixo, além de uns sapatos estranhos, Bocão sempre coloca um gancho em sua mão, e meu pai sempre deixa crescer a barba nessa época do ano. Ele parece um daqueles bruxos antigos, mais só que bem maior, e com a barba loira avermelhada e cheia de pequenas trancinhas.
– ESPERO VOCE LÁ FORA FILHO!
– SIM SENHOR PAI!
Começo a falar como viking, alto, rude e totalmente DESNECESSÁRIO!
Visto minha roupa de viking e olho no espelho, bagunço os cabelos. Não sei muito bem como explicar minha roupa, uso uma espécie de blusa grande e verde, calças marrons e botas pretas. E uma... coisa que parece um colete mais é feito com pele falsa de animal. Não entendo muito disso! Coloco meu capacete e pego meu machado. Que é bem real para uma coisa de brinquedo.
E então... me lembro de Banguela!
Corro até a sala e o encontro fitando a lareira. Ótimo! Ele esta zangado.
– Amigão?
Banguela bufou, ou eu acho que fez uma coisa parecida, saiu baba para todo o lado. Pego sua ração e o seu spray de bacon na cozinha e preparo tudo com muito carinho em sua tigela, depois, volto e pego o resto dos bifes que meu pai e o Bocão não comeram na noite passada.
– Amigão?
Banguela parece ter me perdoado no momento que olha sua tigela de comida. Ele devora tudo em menos de cinco minutos. E então se joga em cima de mim e começa a me lamber. Pior coisa que tem é você tomar um banho de um cachorro que acabou de comer uma gororoba as oito da manha de um domingo.
Depois de conseguir tirar Banguela de cima de mim, vou até o banheiro e tento lavo meu rosto, tirando sua baba. Ele fica esperando na porta abanando o rabo. Ele pelo menos está feliz.
Vejo todos indo para a praça, onde o Festival geralmente acontece. Começo a correr já que como sou filho do chefão tenho que ser um dos primeiros a chegar.
E então a vejo, Astrid sempre usa a trança de lado e franja caindo no olho, a mesma saia que para ela, é uma arma para todas as mãos bobas e todos os safados dessa cidade. As botas e blusa vermelha justa. Ela me olha e pisca para mim, e com esse gesto muito estranho da parte dela, escorrego e derrubo um Cabeça Dura.
– Soluço! Da próxima vez que quiser beijar o chão, me avise para sair do seu caminho!
– Por que eu iria querer beijar o chão Cabeça? E sinto muito...
Nos levantamos e nossos cachorros começam a brincar de pegar sabe se lá o que esteja voando nesse exato momento entre as pernas das pessoas.
– Não sei! Eu já beijei! E não é muito bom, prefiro beijar garotas!
– Claro! Claro!
E então, meu pai começa seu discurso, falando de como o feriado é importante e tudo mais. Me preparo para entrar na arena junto com os outros. Melequento me empurra na metade do caminho e acabo caindo perto de uma poça de lama. Perna de Peixe vem me ajudar.
– Você está bem Soluço?
Olho bem para ele, para que possa ver bem a resposta dentro de meus olhos..
– Não, você não esta nada bem!
Eu poderia narrar tudo o que aconteceu nos jogos, eu poderia. Mais não vou! Por que não tem muita coisa divertida para contar. Fiquei em segundo novamente e fui obrigado a entregar a medalha a Melequento. Sei que não deveria estar irritado mais, essa era a única chance que eu tinha para sair com a Astrid e...
– Bom trabalho Soluço!
Olho para trás e encontro Astrid, Tempestade e Banguela estão sentados brincando de bater as patinhas um do outro. Eu até poderia achar bonitinho se não estivesse...
– E então... eu escolho o lugar?
– O que?
– Soluço! Sem perguntas! Eu escolho, ou você escolhe?
Demorei algum tempo para responder e Banguela parou um tempo com sua brincadeira e latiu para mim.
– E-eu esco-colho!
– Então tá! E então? Vai me chamar para dançar ou vou ter que dizer sim ao Melequento?
Sorrio e puxo ela para perto da grande fogueira. Essa era a parte que eu mais gostava dos festivais, dançar com Astrid!
Continua..
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