Vigilantes
1 Interlúdio: Outono de 1967
Notas iniciais

Diário de del Sangre
03 de Fevereiro de 1967
04:35
Essa cidade está cada vez mais podre, esse país está cada vez pior.
Não precisou um mês de posse para que o novo presidente iniciasse a sua tão prometida repressão aos clandestinos e à todos que ousam ajudá-los de alguma forma. Três dias atrás, um dos nossos evaporou ao sul do mapa, junto de dois civis do mesmo lado. Nenhuma testemunha, nenhum vizinho ou último contato no trabalho, ainda assim, as chances dos dois civis voltarem existe — já no caso do clandestino, praticamente nula. Não posso deixar de imaginá-lo agora, provavelmente sob tortura, pressionado a entregar outros, ou então morto, jogado em algum rio qualquer.
Não posso deixar de imaginar a cabeça dos outros nesse momento, sem saber se sentem ou não saudade do governo anterior e toda a prisão em massa. E o que pretendem fazer agora que ser apenas preso é um sonho distante. Mas eu sei que não abandonarão sua luta. Não os que realmente lutam.
Eu só não sei dos civis. Quer dizer, a maioria continuará como esteve até então: passiva quanto à própria repressão sofrida, ativa e violenta à favor da nossa. Porque somos a corja que mancha o legado dos Vigilantes, porque somos menos que lixo, perigo-mor para a sociedade, mais do que os próprios criminosos. Nada de novo — talvez no máximo tornem-se ainda piores. A minha dúvida é quanto aos que lutam, ativa e passivamente, explícitamente e por debaixo dos panos. Esconderijos, armamento, testemunhos, infiltrados no sistema, nós precisamos de ajuda mais do que nunca.
Porque eu sei, o pior está por vir. Sinto em cada segundo lento e silencioso, em cada centímetro de espaço dessa cidade podre, em cada esquina cheirando à mijo e maconha e nos becos sujos de sangue e sémen, em cada crime crescente, sinto cada vez que meu punho afunda em algum rosto vagabundo e sinto cada vez que afundo o rosto e o quadril em Irene. Tudo nessa cidade grita o pior, como a segunda vinda de Yeats. E eu espero, pacientemente, me preparando para quando chegar a hora.
E por isso, me questiono sobre a lealdade dos civis. De quem mantenho contato e a lealdade parcial, principalmente.
Essa noite, sob a máscara e o céu chuvoso de São Paulo, visitei o mais antigo e confiável dos meus informantes. Ele estava colocando o filho para dormir e me repreendeu por entrar pela janela, de novo. Ele nunca se acostuma. Mas eu fui silencioso e nos esgueiramos até o corredor para uma breve conversa. "As coisas estão piorando", foi o que ele disse. Que é apenas o começo, foi o que eu respondi. Questionei sobre sua lealdade, se ele continuaria a me ajudar. Lutero (não posso correr o risco anotando seu nome verdadeiro aqui) é quem me ajuda com informações internas do governo, é quem me informa sobre os vigilantes de campo e sobre os Cinco. Se eu perdê-lo, não terei nada que me coloque lá dentro.
Por sorte Lutero concordou em continuar o que está fazendo, ainda que tenha transparecido um certo receio. Sei pelo que ele teme, sei que tem família para proteger. Mas um homem como Lutero, com ideais fortes e sede por justiça, não consegue e nem pode permanecer parado enquanto o país ruína. E eu posso contar com ele por mais um tempo.
Saí de lá com essa certeza e uma informação importante sobre o caso atual, do desaparecimento da garotinha Marcela. Lutero conseguiu acessos à pasta do caso e agora eu sei sobre a comparação de digitais e sobre os suspeitos. Como eu suspeitava, um deles é o prefeito Allegro e isso está sendo mantido em grande segredo. Se for ele, e eu sei que é, eles pretendem manipular o resultado da perícia e do julgamento. Como não fariam isso? Allegro é um dos maiores nomes do estado, um dos maiores apoiadores e apoiados do atual presidente, além de ter grande reconhecimento pelos civis. Uma proposta de acabar com as prostitutas da cidade promulgada nos tempos de vereador, e agora ele pode ser um maldito pedófilo sem ser pego.
Mas não por muito tempo, não enquanto eu estiver vivo. Vou descobrir o paradeiro da garotinha, vou provar o que aquele desgraçado fez e então todos saberão a verdade.
Malditos políticos de merda.
Que fiquei registrado: eles são piores que qualquer criminoso de rua.
Amanhã volto a trabalhar no caso. Mas por agora permanecerei onde estou, porque Irene acaba de chegar com o corpo e o vinho quente. E pelas próximas horas nada mais importa.
[...]
Diário de del Sangre
11 de Março de 1967
05:15
Três clandestinos desaparecidos e dois mortos no último mês. Os jornais os pintaram como culpados por crimes mal resolvidos da parte dos malditos Cinco. E os civis comemoraram seus fins.
Há momentos em que me questiono se devo continuar a defender o mesmo povo que aplaude a minha morte, se eles não merecem a realidade podre em que vivem, a manipulação suja a que foram submetidos. Mas não dura muito tempo. Logo me recordo dos que ainda acreditam, dos que lutam e dos que pedem socorro. E mesmo os que cospem em nossos rostos e nos amaldiçoam, eles também são em parte vítimas. E mesmo que não sejam, ainda tenho pelo quê lutar.
E carregarei essa maldição nos ombros. É um peso que vale a pena suportar. Por garotinhas como a que foi sequestrada, por civis como Lutero e Irene, e por todos os clandestinos que sucumbiram à perseguição.
Mesmo que em noites como essa, em que o noticiário e a falta de pistas nos casos me façam ir para casa mais cedo, me façam sentar na beirada da cama com nada além de uísque barato e pensamentos duvidosos. Porque sei que logo passa.
Sobre o caso da garotinha Marcela: nada o último mês, nenhuma pista sequer, nada que ligue ao maldito Allegro. O desgraçado sabe o que faz e tem as costas quente.
Mas eu não desisto. Amanhã é outro dia e tenho um ex-segurança para visitar. Sinto que posso conseguir algo. Deus me ajude.
[...]
Diário de del Sangre
13 de Março de 1967
07:01
Visitei o ex-segurança de Allegro, Vicente, um homem de meia idade vivendo sozinho em um apartamento úmido do centro. Me recebeu com um .38 e uma calma admirável. Eu o respondi com o mesmo, sem usar dos meus poderes — alguns homens devem ser vencidos com a mesma arma que empunham.
À meia luz de sua sala e jazz tocando no rádio, ele sentou em sua poltrona e eu me mantive de pé, as miras apontadas firmemente para o outro. Perguntei sobre Allegro, sobre sua vida particular e sobre suas fraquezas. Vicente não demonstrou interesse em cooperar. Pensei em espancá-lo até tirar qualquer coisa além de sangue, mas sua postura sóbria e seu histórico me detiveram, além das armas que atrairiam a atenção que não podia ter ali. Talvez eu conseguisse algo com o que tinha até agora. Joguei em seu colo o envelope que levara no sobretudo, esperando que funcionasse. Ele o abriu com a mão direita, sem abaixar a pistola com a outra.
O observei enquanto ele lia a cópia do legista e as fotos que eu mesmo tirei de Allegro em visitas à casa de Marcela após o desaparecimento. Esperei em um longo silêncio, nada além de jazz e o cheiro da noite vazia entrando pela janela aberta. Quando ele terminou de ler e olhar as fotos, guardou tudo de volta no envelope, me estendendo-o. O guardei de volta no sobretudo e esperei.
Vicente permaneceu alguns segundos parado, olhando para a janela, a mira ainda apontada para o meu peito. Quis atirar logo em sua mão e arrancar qualquer coisa à força. Mas de novo esperei. Valeu a pena.
Vicente se levantou e caminhou até a estante atrás de mim. Serviu-se de uísque e me ofereceu um copo. Eu aceitei, sabendo que conseguira convencê-lo. "Malditos políticos de merda", ele disse após um longo gole. A pistola não estava mais apontada para mim. Eu guardei a minha.
Aparentemente ele não estava tão surpreso. Mas o que importa é que me deu informações sobre Allegro e sua residência secreta, sua vida particular e uma cópia de chave que esquecera consigo após se aposentar. É a chave do escritório do apartamento de Allegro, o secreto que divide com sua amante. Desgraçado de merda, estou a um passo de pegá-lo, sei disso. E graças a Deus que Vicente odeia pedófilos tanto quanto eu.
Saí de lá embriagado de Johnnie Walker e determinação.
[...]
Diário de del Sangre
15 de Março de 1967
09:10
Visitei o apartamento de Allegro pela madrugada. Ficava num prédio mediano também no centro, do tipo perfeito para que ninguém desconfie que pertence a um dos mais importantes do estado. Precisei arrombar a porta da frente, mas a chave que Vicente me deu abriu a do escritório. Não havia ninguém, mas sabia que teria companhia a qualquer momento. Revistei tudo o mais rápido que pude, atento para qualquer documento, foto, chave, qualquer coisa que pudesse ligá-lo de forma absoluta ao desaparecimento.
Depois de revirar cada canto do escritório, quando me preparava para sair pelo mesmo caminho que entrei, ouvi barulho de alguém chegando. Um grito feminino assustado e precisei pular para a sacada do escritório, me escondendo. Espiei em silêncio a mulher adentrar o escritório com uma faca de cozinha em mãos, questionando quem estava lá. Eles sempre fazem isso, como se alguém fosse responder.
Sem mais o que fazer e disposto a voltar para casa dolorido, quando a mulher se aproximou para olhar a sacada, pulei de uma em uma até chegar ao térreo. Ela me viu e gritou por ajuda. Derrubei dois seguranças e fui para casa.
Não encontrei merda nenhuma que o ligue à Marcela. O máximo que posso fazer é divulgar provas de seu caso com uma prostituta qualquer, mas não é isso que quero. E esperar que a invasão não complique as coisas, ainda que eu saiba que é exatamente isso que vai acontecer.
A única coisa boa da noite foi Irene. Ela costuma ser a única coisa boa do meu dia, muitas das vezes. Quando cheguei, estava deitada na minha cama, pintando as unhas dos pés, bebia uma de minhas cervejas. Ela prefere invadir à bater na porta, por isso chega mais vezes antes de mim que o contrário. Eu não me importo com isso.
Irene percebeu minha frustração e me recebeu em seu colo, disse que tinha uma novidade. Conheceu um capanga de Allegro no bordel e fez questão de escolhê-lo como cliente. "Um homem grande e feio, além de que não sabe usar o pau sujo que tem. Mas fiz esse favor pra você", ela disse. Irene tinha um sorriso no rosto enquanto me contava o que o homem dissera em seus braços, e eu precisei me forçar para prestar atenção. Odeio que ela faça essas coisas por mim, que aguente esses imundos por mim. Mas ela sabe o que faz e me odiaria se eu tentasse impedí-la de me ajudar de alguma forma.
As informações que me deu, no entanto, não eram muito úteis. Mas ela fez questão de convidar o capanga para outras noites. Tirar coisas dele seria um processo, ela disse. E eu mordi a língua para não negar.
Quando terminou, a levei para tomar um banho comigo. Queria limpar toda aquela sujeira de mim e dela.
[...]
Diário de del Sangre
20 de Março de 1967
21:17
Acabo de voltar do apartamento de Vicente. Decidi ir lá para tentar conseguir algo mais sobre Allegro e me deparei com a porta arrombada e tudo quebrado. Havia sinais de tiro, e sangue no tapete. Mas nenhum rastro de como as coisas terminaram. Foi recente, talvez na noite passada ou mesmo pelo dia, pelo que analisei. Precisei sair pela janela, porque a polícia chegou em seguida.
Espero que ele tenha fugido ou que esteja morto. Porque se foi pego com vida pelos capangas de Allegro, então estou muito fodido.
Quanto ao caso de Marcela, nenhuma novidade. A polícia e os vigilantes continuam investigando, muito entre aspas. O caso segue sem mais pistas. Lutero disse que provavelmente irão culpar um suspeito qualquer e dar o caso como encerrado. Inferno. Como podem encerrar o caso se não acharam o corpo da vítima? Eu respondo: eles sabem que foi Allegro. E não seria bom para eles acharem um corpo com digitais daquele filho da puta.
Irene segue tendo encontros com aquele capanga de merda. Ela não trouxe informações boas, mas promete que a cada vez ele diz um pouco mais sobre o trabalho sujo que faz. E, de acordo com ela, o sexo só piora.
"Ossos do ofício", ela fala rindo. E eu tenho que concordar, olhando pra ela com o punho cerrado, imaginando a cena.
Ossos do ofício.
[...]
Diário de del Sangre
01 de Abril de 1967
22:22
O corpo de Vicente foi encontrado essa manhã no rio Tietê. Nem o inchaço e as mordidas dos peixes esconderam os terríveis hematomas pelo seu corpo pútrido. Pelos cortes nos pulsos e tornozelos, ele passou mais tempo no pau-de-arara que na água. Só Deus sabe o que fizeram com ele e o que conseguiram tirar, além da vida.
Preciso estar mais atento do que nunca nas ruas agora. Por sorte nunca fui pego e não sabem das minhas identidades. Mas há olhos por todos os lugares e eu ainda tenho que sair para investigar.
Irene continua sem conseguir nada além de reclamações de trabalho. Nada que realmente coloque Allegro sob maiores suspeitas, nada que eu já não saiba.
As coisas não andam bem para mim, nem para os outros. Mais dois clandestinos presos, culpados por coisas que não fizeram.
A única coisa que me mantém hoje esperançoso é o contato de Lutero. Disse que tem novidades, mas não pareceu muito animado ao telefone. Espero que seja apenas sua voz cansada e que ele tenha algo bom para mim.
Se não tiver, não sei o que farei. E não posso não fazer nada por aquela garotinha. E por todas as outras.
[...]
Diário de del Sangre
03 de Abril de 1967
06:16
Lutero me recebeu com pressa e repreensão por entrar pela janela do quarto de seu filho. Quando fomos para o seu escritório, ele não enrolou para começar. "O caso foi encerrado, acharam o corpo dela". Esperei por mais informações, pedi mais, mas Lutero ficou em silêncio brevemente e foi me servir um copo de uísque. Eu pude sentir a tensão que emanava e aquilo me tirou ainda mais a paciência. Quando me entregou o copo, pedi para que fosse direto ao ponto.
"Ela foi encontrada em uma chácara no interior do estado, o cadáver estava pútrido, mas os legistas confirmaram que ela foi morta apenas semana passada. Você vê? Três meses viva em cativeiro por um desgraçado! Mas o pior..." Lutero me olhou e então desviou o olhar, respirando fundo antes de continuar. Eu precisei apressá-lo. Havia algo de errado. "O pior, meu amigo, são os resultados da perícia com as digitais e a origem da chácara".
Ele me encarou com os olhos semicerrados, como se medisse minha reação. Uma parte de mim soube o que veio a seguir. "Algumas digitais confirmaram que Allegro está diretamente envolvido".
Meu estômago embrulhou, "Algumas?". No plural. Lutero confirmou com um aceno. Senti o sangue ferver. "E quanto as outras?"
"São do filho do dono da chácara."
"E quem é o desgraçado?"
"É um vigilante, mas não posso te dizer o nome."
"De campo ou um clandestino?"
Lutero balançou a cabeça, deu um gole no uísque. Eu soube antes de ouvir, "É um dos Cinco."
A coisa toda é pior do que eu pensava, duplamente pior. E Lutero disse que ainda não foi decidido o culpado, que ninguém esperava um dos Cinco envolvidos. E agora Allegro é o menor dos problemas. A questão do caso chegou ao presidente.
Lutero me pediu calma, para que eu não agisse por impulso, que esperasse nas sombras. Estúpido.
Saí de lá embriagado de Johnnie Walker e ódio.
[...]
Diário de del Sangre
21 de Abril de 1967
05:15
Allegro foi preso, condenado por sequestro, estupro, tortura e abuso de menor. Sozinho. Sacrificado pelo presidente em nome dos Cinco. A cidade está um caos.
Uma parte de mim está satisfeito por vê-lo se fodendo, pagando publicamente pelo que fez. A outra sabe das suas regalias na prisão, além de que outro culpado está por aí, com um uniforme colorido e a merda de uma reputação nacional intacta. Malditos Vigilantes. Mas a população e os pais de Marcela ganharam uma conclusão satisfatória e o caso foi encerrado. Todos estão satisfeitos com o final agora. A garotinha recebe homenagens e há protestos na frente da delegacia. Ninguém menciona os Cinco, eles não sabem o que eu sei.
E eu não sei metade do que aconteceu. Qual deles está envolvido? Qual é o mais podre entre os Cinco? Com exceção da única mulher da equipe, pode ser qualquer um. Pode ser até mesmo aquele desgraçado inútil, mas uma parte de mim duvida, a parte que o conheceu antes de tudo isso, que lutou nas ruas ao seu lado. Mas eu não o conheço de verdade, se conhecesse teria desconfiado quando ele aceitou ir para o outro lado. Pode ser qualquer um, até mesmo mais de um. Eu não duvido.
Essa cidade está cada vez mais podre, esse país está cedendo à sarjeta. O que fizeram de nós?
Preciso fazer algo a respeito, não posso ficar parado olhando tudo ruir. Mas o que fazer? Não tenho nada que prove o envolvimento com os Cinco, Lutero também não tem acesso, e mesmo se tivesse... Eles dariam um jeito. Talvez nem precisassem, os civis estão cegos demais há tempo demais. Não acreditariam em nada. E só Deus sabe o que tem acontecido por debaixo dos panos e o que ainda vai acontecer.
Algo tem de ser feito, da raiz do problema. E tem de ser feito logo.
[...]
Diário de del Sangre
03 de Maio de 1967
15:15
Muitas das vezes, Irene é a melhor parte do meu dia. Muitas, também, a única.
Hoje ela veio até mim com mãos e língua sábias. Quando estávamos descansando, me disse, "Por que não entra em contato com outros clandestinos? Conte o que sabe, não pode vencer os Vigilantes sozinho".
Eu falei que não podemos trabalhar em conjunto, que não é seguro, uma vez que estamos em constante perigo de sermos pegos. E se estamos sozinhos quando isso acontece, nenhum outro é prejudicado. É assim que sobrevivemos. Eu sequer conheço outro clandestino pessoalmente. Mas Irene parecia um tanto inspirada por aquela sugestão, tentou me convencer com mais algumas frases sobre trabalho em grupo e a diferença de poder e influência entre nós e eles. Ela estava me escondendo algo.
"O que você andou descobrindo?", questionei.
Ela se sentou na cama, me olhando como um brilho nos olhos de uma criança arteira. "Eu tenho me encontrado com outro clandestino, ele tem ido à Casa algumas noites."
"Eu quase me sinto traído", eu disse. E apesar do tom irônico, não estava mentindo.
"Não seja bobo, ele é um cliente. Você eu não cobro" Irene me beijou e eu precisei me controlar para afastá-la, queria ouvir o que tinha a dizer. "Mas ele é um homem muito gentil, admito, e muito solitário também. Igual a você, em alguns sentidos, mas ele é mais gentil." Ela me ofereceu um sorriso venenoso, eu a mandei para o inferno.
"Por que não vai direto ao ponto, querida?"
"Porque eu gosto de te ver com ciúmes, querido. Mas o rapaz... ele está tão puto quanto você, em relação aos Vigilantes e ao caso da menininha Marcela. Ele não me falou o quê, mas aparentemente sabe mais do que foi dito nos jornais. E parece que é algo terrível. Tem a ver com os Vigilantes, você sabe o que é?"
Eu não disse para Irene sobre o outro culpado, só dei a entender que havia um. Respondi que podia imaginar o que era, mas desviei o assunto, voltando para o que ela tinha a dizer.
"Pois bem, eu disse pra ele 'Por que não entra em contato com outros clandestinos? Não pode vencê-los sozinhos'."
Perguntei-lhe se tudo o que me falava na cama já havia sido dito para outro homem horas antes. Ela gargalhou, a cabeça pendida para trás. Estava linda.
"Não seja tolo, meu amor, só repito quando é necessário. E adivinhe?" Irene gosta de suspense e piadinhas sujas, eu não. Apressei-a. "Você é entediante, às vezes... Mas tudo bem, quanto ao outro, ele concordou com o que eu disse. Mas me falou o mesmo que você, sobre não ser seguro trabalhar com outros clandestinos, além de que aparentemente ele não conhece nenhum outro pessoalmente. Mas ele demonstrou interesse na ideia. Sabe o que ele disse? Que arriscaria se reunir com clandestinos se isso significasse uma chance de acabar com os Vigilantes. Que qualquer preço era negociável. Você não concorda?".
Depois que Irene foi embora, passei o restante da noite e dia seguinte pensando sobre isso. Eu compreendi sobre a possibilidade e compreendi o que o outro clandestino pensa sobre preços e negócio. Mas também sei quais são as chances de conseguir ir contra os Vigilantes, e elas são baixas.
Ninguém deseja acabar com isso tanto quanto eu, mas não posso simplesmente arriscar algo do nada. Por enquanto, seguirei sozinho. E isso terá de ser suficiente.
[...]
Diário de del Sangre
21 de Maio de 1967
23:01
Outra criança foi encontrada morta.
Um garotinho da Zona Oeste, sete anos, classe média. Não houve nenhuma queixa de desaparecimento, mas ele estava em cativeiro há três semanas. Pais envolvidos. Lutero quem me passou as informações, porque os jornais mentiram novamente. E o pior de tudo: o culpado é de novo um dos Cinco.
Lutero disse que o governo está estudando o que fazer com ele, mas que não vai simplesmente prendê-lo e julgá-lo. Aparentemente vão puxar sua orelha e colocar de gastigo. Tudo por debaixo dos panos.
O culpado publicamente foi um clandestino qualquer. E agora há uma onda de protestos pelas capitais pedindo nossas cabeças. Como se fôssemos todos culpados, como se o clandestino preso fosse culpado.
Não se passa um dia sem que as coisas piores. E agora eu não posso descansar ou permanecer parado por nem mais um minuto. Preciso fazer alguma coisa, senão todos nós vamos sucumbir à isso. Porque os protestos não vão parar por aí e ficarão cada vez mais violentos e cada dia culpar um dos nossos passará a ser mais do que o protocólo, pode se tornar a chave para começar uma onda de extermínio que que eu sei ser um dos pontos desse governo.
Sem falar no verdadeiro culpado, um dos Cinco. Malditos Vigilantes com V maiúsculo. 777 vezes malditos. Não serão culpados, não pagarão pelo que fazem. E enquanto isso acontecer, outras crianças continuarão a serem violentadas e mortas.
Preciso fazer alguma coisa. E agora eu não apenas compreendo aquele clandestino, eu também concordo. Qualquer preço a ser pago é negociável se isso significar a possibilidade de destruir os Vigilantes. De limpar essas ruas da podridão que eles trazem.
É por isso que concordei em encontrá-lo, por intermédio de Irene. Se para chegar até os Cinco eu precise da ajuda de outros dos meus, então que encontre quantos forem necessários, porque estou decidido. Tenho um plano e não pretendo parar até que eu consiga colocá-lo em prática.
É hora de vigiar os Vigilantes com a mesma violência e sangue derramado com que eles têm nos vigiado desde o ínicio.
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