Vidas que desabrocham

6 Um terrível despertar


Notas iniciais
Boa leitura

Ouvi o estridente som do despertador no meu ouvido. Sempre demoro uns cinco minutos para acordar e levantar da cama.

O mesmo não se pode dizer do Lucas. O garoto já deve ter acordado há horas porque sua cama estava vazia e muito bem organizada. Pergunto-me como ele conseguiu aquela proeza tão silenciosamente sem me acordar em nenhum momento.

Levanto ainda sonolento e vou até o banheiro pra lavar o rosto. Estou muito cansado por causa de ontem e hoje vai ser assim de novo. O pior é que minha escola é extremamente competitiva e, ao invés de acordar no horário certo, os jogadores de todos os times que vão participar tem que levantar bem mais cedo pra treinar. Isso é muito exaustivo. Eu me pergunto o que o Lucas faz a essa hora, porque obviamente ele acordou bem mais cedo do que eu. Tenho a impressão de que ele provavelmente tenta me evitar, afinal ele não joga em time nenhum!

Comecei a descer as escadas assim que terminei de me arrumar. Os corredores dos dormitórios ficam muito silenciosos há essa hora, chega a ser assustador.
O sol mal havia nascido e eu já estava de pé antes dele.

Felizmente não sou o único. No final do corredor, quase fazendo papel de uma assombração estava meu velho amigo Luís. Ele não joga futebol, joga tênis, mas mesmo assim tem que levantar cedo pra treinar.

–Bom dia. — ele estava sonolento, e era quase óbvia a força que fazia para manter os olhos abertos. — odeio a época de campeonato, não tenho tempo nem de dormir!

–Realmente. Você parece muito cansado. Se eu estivesse no fim do corredor e visse você juraria que estava dormindo em pé.

Andamos juntos até o prédio dos esportes. Sim, nessa escola há um prédio inteiro reservado para esportes. Tanto que boa parte dos campos de treino está ai dentro.

O campo de futebol, logicamente menor que o oficial, ocupa o 2° andar inteiro.
Subimos cansados e totalmente indispostos pelas escadas até chegar ao 2° andar onde nos despedimos.

Fiquei com pena dele, afinal teria que subir mais sete andares até sua quadra de tênis. O elevador estava em reforma e demoraria um pouco pra gente poder usar de novo. Se bem que, cá entre nós, eu desconfio que isso seja só parte de um plano elaborado do diretor para nos fazer subir as escadas pra exercitar o corpo de manhã.

Andei até os bancos onde os outros jogados estavam. Meus olhos teimavam em cair e era difícil mantê-los abertos.

Praticamente todos do time já estavam lá e assim que me viram chegando gemeram de insatisfação. Mas aqueles gemidos não eram contra mim. Na verdade acho até que eles queriam que eu demorasse mias porque agora que eu cheguei teriam que se levantar e começar a treinar.

Esses treinos pesados estão acabando com o time. Eu não sei como o diretor ainda não notou isso. Mas fazer o que? Se nos recusamos a treinar estamos fora da equipe e isso conta como atividade extracurricular, eu preciso disso já que minhas notas não são lá essas coisas.

Eu já estava quase desmaiando quando ouvi o sino bater indicando que poderíamos tomar banho e nos arrumar para as aulas.

Sai do campo com pressa e fui direto para os banheiros do time. Acabei não prestando atenção enquanto corria e bati com tudo em cima de uma garota:

–Mélody? Desculpe, sinto muito não quis te derrubar.

–Tudo bem.

Ela se levantou com um sorriso no rosto e me deu bom dia. Pelo visto havia levantado cedo também já que parecia bem cansada.

–Esses horários são horríveis não são?

–É o que eu diga! Tive que pegar um ônibus pra chegar aqui a tempo porque levantei atrasada. Pelo menos há essa hora quase não têm passageiros e pude vir sentada. Acho isso tão injusto. Quer dizer, se você paga pra andar de ônibus é seu direito ir sentado né?

Ri das reclamações dela. Parece que ela ODEIA andar de ônibus. E, francamente, acho que ninguém gosta muito do transporte publico porque é uma droga!

–Você mora onde?

–Por que a pergunta?

Ela me olhou meio incomodada com os olhos receosos. É tão estranho quando ela de repente muda de humor quando eu pergunto algo pessoal, ela fica arrisca. Não entendi direito o porquê disso, mas resolvi não perguntar:

–Não, é só que… se você quiser, alguns garotos vêm de carro. Se morar perto deles acho que te trazem aqui numa boa.

–NÃO!… não… não será necessário. Eu venho sozinha mesmo.

–... Mélody… esta tudo bem com você?

–Sim! É melhor você ir tomar um banho né? Quer dizer, você só tem quinze minutos para se arrumar para as aulas, cada segundo é precioso!

Tentei voltar ao assunto da casa, mas desisti. Se ela realmente fosse falar por que não quer ninguém perto da casa dela não teria desconversado. Me senti meio incomodado com aquilo. O que ela teria a esconder?

Fiquei olhando a loirinha correndo pelo corredor até sumir da minha vista. Fui rápido ao banheiro e me arrumei. Faltavam só dois minutos pra bater o sinal da primeira aula e eu nem tinha terminado de me vestir. Fiquei afobado. Detesto horários e o pior é que hoje a primeira aula é do professor Heitor e ele não tolera nem um minuto de atraso e eu acabaria perdendo a aula dele ou ficando com falta por causa disso. Não posso perder a aula do professor Heitor porque é inglês e só tem uma vez na semana o que dificulta ainda mais minha vida já difícil.

Sai correndo com o pente na mão pelo prédio de esportes até o de salas de aula que era ainda maior que o outro. Eu até pediria para o diretor aumentar o tempo de quinze minutos para vinte e cinco, mas acho que no fim das contas seria pior pra mim porque ele descontaria esses dez minutos nos fazendo acordar mais cedo ainda pra treinar. Aliais o sem vergonha deve estar dormindo ainda, tenho certeza, ele nunca esta na sala dele antes da segunda aula.

Vi no fim do corredor o professor se aproximando da sala. Aumentei a velocidade e quase trombei com uma garota. Por sorte- ou milagre- cheguei à sala dois passos antes dele e recebi como recompensa um olhar feio. Não sei bem se o professor estava bravo porque eu cheguei quase no ultimo segundo ou se era porque tinha conseguido chegar antes dele na sala e ele não poderia me mandar para fora. De qualquer forma não importa, eu consegui.

Sentei-me na última carteira, estava cansado e queria ver se conseguia tirar um cochilo nas aulas em que geralmente vou bem.

Notas finais
Obrigada por ler.