Vidas Perdidas
1 CAPÍTULO 1: OS NOVOS VIZINHOS
Eram 04h00min da manhã quando o celular tocou. Eu não queria atender, mas tinha ânsia de desligar a porcaria. Vibrou, vibrou até cair do criado mudo. Eu abri os olhos e tateei a procura do abajur, o aparelho caiu no carpete, por sorte uma fortuna não foi ao lixo.
Eu nem quis olhar o número, para evitar surpresas. Sabia que não iria conseguir dormir de novo, por isso resolvi ficar em claro mesmo, madrugada de sábado, não tinha aula. Tomar um banho quente me deixaria mais tranquilo, mas primeiro teria que conseguir coragem para sair de debaixo dos cobertores, muito difícil. Saí me arrastando até o banheiro e jogando as roupas pelo caminho, tranquei a porta, abri o chuveiro e esperei a água me abraçar...
Ainda de toalha eu desci as escadas para olhar o movimento, ou a falta dele, morar sozinho não é tão fácil assim. Liguei a TV no canal de musicas para me sentir seguro, tocava uma faixa de Oasis. Fui à cozinha para preparar um café rápido, e voltei ao quarto para me vestir.
Quando acendi a lâmpada pude visualizar o astral pitoresco que cobria meu canto de aconchego, corri os olhos pelo quarto para ver o guarda-roupa no canto, do lado da mesa do computador, meu rádio e todos os discos, os amontoados de pôsteres e outros mil penduras nas paredes, minha escrivaninha enfeitada de livros e papéis, meu criado mudo, minha cama e meu apanhador de sonhos na cabeceira.
Corri para vestir a primeira calça que achei que combinava com meu conjunto de camisas novas e também com as minhas cuecas, eu era um padrão de cores ambulante. Pus o celular no bolso, peguei a chave e antes de bater a porta pude visualizar o que era o quarto de meus avós, e aquele momento nostalgia das memórias de criança, alegrias que não voltam mais...
A cafeteira notificou que o café estava pronto, sentei-me em uma das cadeiras da cozinha, ao olhar para a sala me lembrei do que deveria esquecer; Diana ainda pairava por minha mente como um fantasma que chama as almas ao abismo, mas não adiantava, “por mais que a gente tente, pedir para esquecer é um jeito de lembrar...”, mas águas passadas não movem moinhos...
O café terminou de aquecer minhas entranhas e resolvi cuidar do jardim, as flores precisavam do meu carinho. Já eram 07h00min da matina quando saí na varanda (como o tempo voa!), eu estava no meio do jardim, cuidando das flores amarelas, quando o caminhão de mudanças chegou com um Honda Civic logo atrás, era preto e brilhava, parecia que acabara de sair de um lava-jato. Do carro desceu um homem grisalho, alto e robusto; e sua mulher logo depois estava na frente da casa amarelinha de jardim bonito (superava o meu), deram as instruções e uns homens gordos começaram a descarregar os móveis. Olhei de novo a tempo de ver a pequena ruiva sair do carro, tinha um cabelo desgrenhado com uma cor forte que brilhava ao sol muito mais que o próprio carro, usava um sapato de cano longo e belas roupas, lançou-me um olhar desafiador e desconfiado e eu retribuí com um sorriso e um gesto de braço, ela sorriu de volta, um sorriso que eu nunca mais esqueceria, correu e sumiu na grande porta... Que droga! Apaixonei-me de novo...
Às 11h00min em ponto deixei as plantas para almoçar, afinal também mereço cuidados; tomei outro banho, desta vez com a água mais gelada para refrescar, depois deitei na cama olhar o teto; ao passar do tempo eu olhava e via as coisas que devia ter feito e não as fiz, coisas que ainda tinha para fazer, a pilha de papéis na escrivaninha, as contas para pagar (ah sim, eu pagava as contas). Eu era precoce e estava sempre à frente na tomada de decisões, já que tinha herdado a casa de meus avós...
Há um ano eu morava na casa dos meus pais, eu e minha irmã, mas na província não havia muitas oportunidades, por isso fui atestado com maioridade e passei a tomar conta de mim... Pude vir para a cidade procurar novos horizontes e galgar novos sonhos... Logo que me mudei para Burtington, conheci Lincy e seu marido Bob, que me acolheram e me convidaram a ajudá-los na floricultura, com o passar do tempo valorizaram o meu trabalho e acabei virando sócio da empresa. Ganhando meu próprio dinheiro passei a me abastecer melhor e reparar aqui e ali na casa antiga, para deixar a meu gosto...
__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__
Resolvi que almoçaria fora, já fazia algum tempo que eu não saboreava a arte da culinária oriental, o restaurante era perto, por isso eu resolvi ir a pé... Abri a porta e a sineta tocou acordando Xing Tao no balcão, que caiu da cadeira como uma fruta cai do pé, levantou atordoado coçando os olhinhos puxados. Xing Tao era um senhor baixinho e muito ágil e era um dos moradores mais antigos do distrito. Fiz o meu pedido e sentei-me em uma das cadeiras, pouco a pouco os clientes foram chegando e enchendo o lugar, o tempo fechou e começou a chover, e mal dava para ver os carros lá fora de tanto que o vidro ficara embaçado...
A sineta tocou e chamou minha atenção estranhamente, ela entrou e sentou numa das cadeiras do balcão, e só a reconheci depois que retirou o capuz do casaco, revelando a cabeleira ruiva...
Depois que terminei de comer todo tipo de coisa pedi a conta, ela percebeu e virou, sorriu novamente e eu retribuí, paguei a saí...
__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__//__
Com o frio castigando corri o mais rápido que pude para chegar a casa, assim que bati os sapatos na soleira e entrei feito um maluco em casa, como um dia que estava tão lindo pode ficar tão frio de repente? Busquei um moletom qualquer para me agasalhar e liguei novamente a TV para ouvir as músicas clássicas... Foi quando a campainha tocou. Quando abri a porta pude visualizar novamente os cabelos ruivos, desta vez menos brilhantes por causa da falta da luz do sol, parecia com frio, falou gaguejando:
- Boa tarde. Eu sou sua nova vizinha, acabei de me mudar, prazer meu nome é Júlia.
- Ah sim, claro, prazer meu nome é Carlos. Entre por favor, está frio aqui fora.
- Obrigado.
Ela entrou e ficou olhando os detalhes do corredor, parecia uma criança em um parque de diversões:
- E então Júlia... Que ventos te trazem a este lugar?
- Concluir meus estudos.
- E onde você morava antes?
- Não muito longe daqui.
As respostas eram curtas e diretas, primeiras eu achei que ela me ignorava, mas estava apenas distraída, fiquei encantado com o jeito que os olhos dela corriam pela casa, para pegar cada coisa, cada detalhe. Quando passamos pela sala fui surpreendido por um grito e me assustei:
- Adoro essa música!
Fiquei parado no meio da sala olhando a pequena criatura pular de alegria olhando para a TV e pensei comigo mesmo: “Essa garota não é normal”. Passamos o resto da tarde conversando sobre as coisas que gostávamos ou que não gostávamos, e ali eu sentia que nascia uma grande amizade, ela era dinâmica e divertida, às vezes falava de coisas estranhas, às vezes falava de coisas de ponto de vista, e falava coisas de natureza tão sublime que parecia uma filósofa. Não vimos o tempo passar, já era quase noite, a chuva cessou, mas o frio continuava a castigar, Júlia olhou o relógio e assustou:
- Opa! Tenho que ir!
- Mas tão cedo?
- Olha as horas, se eu demorar mais um pouco meus pais me matam, a hora do jantar é sagrada.
- Passa amanhã na floricultura!
- Passo lá! Prometo!
Saiu correndo e nem esperou eu abrir a porta, foi como se o vermelho dos cabelos da pequena criatura fizessem as flores da casa alegres, e espalhou uma aura de boa energia por toda a sala quede frio se tornou mais que aconchegante. A única coisa que pude fazer foi vê-la acenar da portinha do jardim. Peguei a xícara de café, deitei no sofá, a música me fez sonhar acordado, eu já não estava mais ali.
Fale com o autor