Vidas Perdidas

2 CAPÍTULO 2: AS ROSAS DE OURO


No domingo acordei no mesmo lugar, metade no sofá e a outra pendendo ao chão, o que me causou uma incrível dor nas costas. Precisava arrumar a casa para então depois abrir a floricultura e separar as flores das entregas de segunda-feira. Coloquei os móveis em ordem, uma diferente da habitual, é sempre bom mudar, tomei uma xícara de café rotineira e abri as janelas na esperança de encontrar um fiapo de sol, mas fui frustrado, o céu estava nublado e parecia tão triste quanto às rosas murchas repousadas no jardim.

Arrumei o melhor casaco, um que não me deixe com frio nem que aqueça de mais. Fechei a porta e saí em direção ao final da rua, o vento batia no meu rosto e deixava às vezes dolorido, que me fazia pensar – “de onde saíram ventos tão frios?”.

Cheguei à calçada da floricultura e abri o portão com cuidado para não ranger de mais, estava um pouco enferrujado e ainda era cedo, poderia acordar os vizinhos. Abri o portão maior e entrei num ambiente mais quente, era ótimo para mim e para as flores que lá estavam. Deixei o casaco no cabide e vesti o avental para não sujar-me de mais, as flores estavam coloridas e viçosas como sempre, Bob e Lincy tinham mãos de anjo. As rosas, as orquídeas, as bromélias, as camélias, copos-de-leite, e tantas outras flores com tantas cores e cheiros que davam vida ao grande galpão. Enfiei-me no meio das rosas para tratar de recolhê-las e fazer belos ramalhetes.

Foi quando eu ouvi o rangido do portão, não era comum alguém aparecer na floricultura aos domingos, mas depois eu me lembrei de que tinha convidado ilustre. Empertiguei-me e me preparei para recebê-la. Procurei-a, mas os cabelos vermelhos se misturaram ao vermelho das flores, me fiz de despercebido à presença de outra pessoa e voltei ao balcão para fingir pegar alguma coisa no armário, quando me virei ela estava lá com os grandes olhos azuis esverdeados ou verdes azulados me olhando com umas flores nas mãos – “Oi!” – disse apenas, ficou olhando um bom tempo para tudo que estava na prateleira, e depois deu um repente:

- Esqueci-me de dar bom dia.

- Não tem problema.

- Sou esquecida para essas coisas, a mãe sempre me disse que é falta de educação, mas eu nunca ligo para o que ela diz.

- Pois devia. As mães geralmente se preocupam com seus filhos.

- Não é o caso dela, ela só se preocupa com a própria imagem.

- Por que com a própria imagem?

- Ela é jornalista. E quer cobrir os mais altos furos de reportagem, não liga para o que acontece em casa.

- E seu pai? Em que trabalha?

- Tá aí uma coisa que nem eu sei ao certo, é algo com negócios, ele nunca me disse.

- Ah...

A conversa ficou vaga e um ar de tristeza cobriu o rosto de Júlia, ela sabia a resposta da minha pergunta, mas não queria responder. Fiquei preocupado, pois detesto mexer nas feridas das vidas dos outros, por isso me calei.

Ela olhava as flores não mãos e segurava-as como se a vida dela dependesse daquilo, quando o silencio estava a ponto de me matar eu resolvi puxar outra conversa:

- O que achou da floricultura?

Ela não respondeu, apenas ficou com a cabeça baixa imaginando algo muito longe:

- Júlia?

- Hã? Desculpe, eu viajei numas lembranças aqui. A floricultura é linda, vocês têm bom gosto.

- Você parece um pouco mais triste desde quando chegou aqui, foi alguma coisa que eu falei?

- Não, olha, é tudo muito lindo aqui, mas eu tenho que ir.

- Não vá tão cedo, eu posso te mostrar as estufas...

- Não, eu preciso ir mesmo tá? Muito obrigado... Vejo-te depois...

E pela primeira vez eu ouvi o tom de seriedade nas palavras de Júlia. Eu não sabia se gostava de vê-la como uma pessoa firme ou frágil, afinal é humana; ou se ficava preocupado com a sua tristeza. Ela saiu e fechou o portão revelando o rangido chato. Desde aquele dia eu aprendi a nunca tocar no assunto “pais” quando conversasse com ela novamente.

Passei o resto da tarde cuidando das rosas mais vermelhas da estufa e me lembrando da cor dos cabelos da pequena criatura e de como seu humor me deixava leve, era radiante e ria das pequenas coisas, pessoas que riem das pequenas coisas são sempre menos frustradas do que aquelas que buscam tudo nos mínimos detalhes e se tornam obsessivas.

Às 05h00min da tarde eu estava quase a fechar as portas do galpão quando o telefone tocou e eu voltei a acender as luzes para atender:

— Alô?

- Floricultura “Rosas de Ouro”?

- Sim Senhor.

- Me traga um ramalhete de copos-de-leite, a rua é vizinha a esta daí, uma casa amarela do jardim florido.

- Sim Senhor.

E desligou. A voz era ríspida e grave. Eu não costumava entregar flores ao domingo, porem eu quis fazer uma ponta por sentir a segurança na voz do homem que imaginei ser o pai de Júlia.

Dirigi-me à casa amarela do jardim bonito. O pequeno portão que dava numa altura acima do joelho se abriu quando me encostei a ele, eu entrei e limpei os pés antes de subir na varanda. Toquei a campainha e esperei a porta se abrir, quem me atendeu foi o mesmo homem grisalho e robusto que desceu do Honda Civic, me tratou de uma total rispidez e sua voz era grave e segura como no telefone:

- Boa tarde, suponho que seja da floricultura.

- Sim senhor.

- Você só sabe dizer “Sim Senhor”?

- Não (soltei um riso leve para responder o riso dele, não imaginei que ele sabia rir) gosto de mostrar certo respeito.

- E faz bem. Aqui está o pagamento. A propósito me chamo Silas, Silas Rubenford.

- Prazer Senhor Rubenford, me chamo Carlos, Carlos Eron.

- Obrigado pelas flores, são belas.

- Eu é que agradeço. Só um instante, sua filha Júlia está?

- Você conhece a minha filha?

- Sim, ela me fez uma visita na floricultura hoje à tarde, ontem ela me procurou em busca de informações sobre o bairro e a cidade.

O homem não disfarçava a desconfiança no rosto:

- Ela deve estar no quarto lá em cima fazendo barulho com a guitarra. Ela não gosta de ser incomodada nessas horas.

- Ah ok. Obrigado Senhor.

Retirei-me do jardim e ao atravessar da rua tive a oportunidade de saudar o português padeiro da esquina e receber um tanto de pães quentinhos. Adentrei em casa e bati a porta com tanta força que senti um medo repentino de poder ter quebrado a fechadura. Tomei aquele conhecido banho e fui para o quarto terminar os trabalhos da faculdade, eram imensos cansativos e monótonos, mas eu já estava terminando. Em um golpe de sorte só faltava uma folha, acabei rapidamente e adormeci ali mesmo na escrivaninha.