Vidas Paralelas
8 O tempo fica confuso
Notas iniciais
Eu realmente queria saber o que eu fiz pra merecer tanta coisa no mesmo dia. Eu não vou recapitular, porque essas coisas não vão parar de surgir do nada. Alguma coisa está acontecendo, e eu não consigo pensar em uma resposta. Talvez... Talvez seja algum tipo de maldição de muito, muito mal gosto.
Porque agora as diabretes se soltaram e estão voando pela plataforma azul.
É! Pra se ter uma idéia, aquele belo feitiço que eu utilizei contra o trouxa da arma de raios simplesmente pintou toda a plataforma — quando eu digo toda, quer dizer que eu também estou azul. Que. Droga. Eu, Lilian Evans, cabelos cor de cobre e belos olhos, estou com a pele mais azul do que um Avat... Ops, spoiler do futuro.
Certo. Estou mais calma. O trouxa sumira. Se eu estiver correta, ele conseguiu se agarrar ao teto da estação e fugir pelo lado de fora abusando de sua sorte. Eu estou aqui na Plataforma 10 olhando pra Snape, que caiu no chão estupefato. Eu não entendo de mais nada, sério. Como um trouxa usou magia? Como ele pode ter feito isso? Ele pode... ser um aborto? Mas não pode ser, não desde que Filch desenvolveu aquele... Ops, falando do futuro de novo. Me perdoe, Dumbledore. Me perdoe!
— Imobilus! — grito para aqueles monstrinhos, que flutuam agora segurando um objeto estranho nas mãozinhas.
— O que aconteceu? — Snape se levanta, com um sorriso bobo no rosto, um sorriso... — eu me sinto tonto.
— Você lutou contra um tro- digo, contra um homem perigoso. Ele se defendeu. — eu disse, apesar de nem eu mesma acreditar.
— Eu sinto minhas mãos formigando — ele se levantou devagar, se demorando sobre seus joelhos e gesticulando as mãos, como se não acreditasse que seus dedos ainda estivessem ali.
— Eu senti algo muito legal — ele admitiu olhando pra mim — eu senti como se eletricidade passasse pelas minhas mãos, como se o que eu desejasse fosse possível.
"É como eu me sinto quando a mágica se manifesta!", pensei.
— Eu senti até cheiro de chá, senti suas mãos sobre as minhas, senti uma lufada de ar da porta... — ele devaneou.
— Do que você está falando? — perguntei, olhando para trás, enquanto conjurava uma gaiola e prendia as diabretes definitivamente. O objeto ainda estava nas mãos delas.
— Eu sou Snape!
— Sim, você é! — eu disse, depois — Não, não é! Ah — exasperei — você pode me dizer de onde saiu Levicorpus?
Ele se levantou finalmente, com uma cor azulada em sua pele, os olhos negros faiscando de excitação. Um trouxa com sangue mágico, ou sei lá o que eu estiver imaginando, só Dumbledore poderá me explicar.
— Eu apenas pensei, como... Como se estivesse escondido em minha memória. Vi o homem e... Era um homem mesmo?
— Não sei — me surpeendi com a pergunta — você viu algo diferente?
— Por um momento, pensei ter visto algo volumoso — ele apontou com as palmas das mãos para o próprio peito.
"Espere, era uma mulher? Que roupa de mal gosto, viu, vou te contar!".
**************************
Snape continua sentado onde está, sua face é uma mistura de terror e absoluta desorientação. O duende entra silenciosamente pela sala, os pés descalços, a roupa suja de lama e folhas de grama, e em sua mão anormalmente grande ele traz um vira-tempo. Um vira tempo bonito e dourado. Parece que ainda não foi usado. O duende olha nos olhos de Snape, e este percebe o grande erro que cometeu.
Ele entendeu a profecia do jeito errado.
Ali estavam os olhos vermelhos, os olhos de quem daria a resposta para toda insanidade.
Mas, se ele estava assustado, Lilian estava mais. Ela era trouxa, e nunca tinha visto nada tão estranho em sua vida, nada fora da TV. "Bem, pelo menos as orelhas eles acertaram", ela se agarrou pensando. Para ela, o mundo estava errado, o que ela andou tomando?
— Severo, depressa — o duende falou, sua voz era grave e rascante, como alguém com rouquidão — não há tempo — ele disse balançando o cordão — na verdade, Há tempo, mas você me entendeu.
— Quem é você, o que está fazendo? — ele conseguiu falar.
— Você confundiu as coisas, o homem ofídio, Tom, não deve ser combatido.
"Do que ele está falando? Aquele homem é das trevas!"
— Ele precisa ser parado, Duende, ele precisa. Ele matou um trouxa, está atrás da gente! — Lilian falou desesperada.
— Espere — o duende disse — você disse "trouxa"?
Os olhos verdes e lacrimosos da garota encararam os dois à sua frente. Ela olhou para a saída, esperando que a resposta viesse.
— Eu... não entendo. Foi como uma memória recente, como uma palavra na ponta da língua. — ela conseguiu definir.
Snape a encarava, fitando seus olhos verdes. Ele conseguia ver resquícios da outra Lilian nesta, ele podia ver os movimentos de sombrancelha, o apertar dos lábios... "Não temos tempo para isso agora" ele se repreendeu.
— O que devemos fazer? — Snape disse para o duende.
— Usem este vira-tempo até o horário de saída de Lilian da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. — ele disse, entregando o objeto nas mãos do garoto.
— E?
— Coloque este papel nos livros dela, sem que ela perceba — o duende entregou um pedaço de pergaminho ali. Um pergaminho esverdeado...
— Espere, isso é de Sonserina? — ele perguntou.
— Sim! — o velho duende riu — você me entregou, apesar de não lembrar. Isso vai salvar a linha temporal.
— Salvar — o quê? — Lilian estava cada vez mais confusa.
O duende mirou seu relógio de pulso, olhou para o teto do depósito, e depois para o relógio. Sem tirar os olhos dele, perguntou:
— Vocês tomaram o chá de Coquelles?
— Sim. — responderam em uníssono.
— Muito bem, 4 voltas devem bastar — o duende disse, sabiamente — Boa sorte. Volte em segurança, Lilian Evans.
— Obrigada — eu disse enquanto o policial lia meus documentos e então os entegava.
Pra te situar: a situação tá feia aqui na King's Cross. É claro, consegui limpar parte da bagunça usando o feitiço Limpar (extremamente prático, e tolamente óbvio), e só não usei o Reparo porque muitas autoridades chegaram na hora. Tipo, policiais, bombeiros, a segurança da Estação, e vi até um Guarda da Rainha no meio disso tudo. Pra completar, Snape continua abobado com o uso de magia. Ele agora tá mexendo em um papel dentro do livro.
— Hum — ele resmunga, enquanto chega perto de mim — Lilian, quando foi que te dei isso?
Eu olho para o pedaço de pergaminho esverdeado e começo a sorrir. Os papéis coloridos. Xenofilo Lovegood e suas excentricidades. Ele criou papéis timbrados com as cores das Casas: vermelho, verde, amarelo e azul. Lindos. Se a gente tem sorte, eles fazem barulhos, como os animais dos emblemas. Este aqui, decerto, poderia sibilar. Mas... ele não me deu papel nenhum. Como poderia? É trouxa mesmo.
— Eu... do que está falando? — me enrolo no cobertor que o bombeiro me deu, porque o vento começou a esfriar em Londres. Olho pra ele, esperando.
— Essa letra é minha. Neste papel. — ele aponta — Se me lembro bem, foi esta palavra que usei. Isso foi o que gritei com aquele pedaço de vareta na mão.
"É varinha! Espera, O QUÊ?"
Tomei o papel da mão dele. Ali estava. Levicorpus.
Encarei por longos segundos aqueles olhos negros esperando encontrar uma faísca de mentira ou até mesmo maldade. Mas não vi nada. Comecei a me perguntar o que estava acontecendo de tão grave, que estava influindo em tudo, de repente.
— Para onde vamos, Lilian? — ele me perguntou.
— Vamos desaparatar. Precisamos de carona pra isso.
Comecei a andar na direção da grande porta de vidro, decidida a descobrir alguma coisa.
— Lílian, suas coisas! — Snape veio gritando atrás de mim, mas eu já estava de saída.
Fale com o autor