Vidas Paralelas
1 No Eurotúnel
–- O que pensa que está fazendo agachado aí?
–- Estou observando.
Ele disse isso calmamente, como se fosse muito comum se agachar dentro de um metrô em movimento. Eu sequer o conhecia. Mas odeio ficar sendo observada. Sim, eu não sou muito comum. Nem muito bonita. Isso me incomoda. Aquele garoto era bonito. Ele era muito irritante, mas estava lá, me olhando intensamente e começando a me dar arrepios. Quando começava a desconfiar mais dele, ele sorriu. Ele sorriu. Droga.
–- Cara, quem é você? Não é nenhum psicopata é?
Uma senhora do meu lado me cutucou.
–- Menina, não vê que ele está virado pra mim? Abusada! — ela estava usando um chapéu de urubu e um vestido verde. Eu já vi isso num filme, num bicho-papão... Mas peraí.
Abusada? Eu? Quem essa velha pensa que é?
–- Pois fique com ele pra você! Eu nem conheço ele!
–- Ah, você me conhece sim. — ele disse. Sua cabeça estava virada para o corredor, mas me observava ainda do canto do olho. Seus cabelos eram muito lisos, oleosos e repicados, e tinha um nariz proeminente, como aqueles franceses esquisitos, mas charmosos Ainda estava de barba. Eu juro pelos meus cabelos cor de cobre em nu artístico que não. Ele era um estranho pra mim.
–- De onde? — meu coração estava apertando.
–- Não vou te responder, você vai se lembrar. Porque eu me lembro de você. Olhe para si mesma! Eu não esqueceria esses olhos assustadores e belos. Verdes como o musgo do Lago.
Isso foi um elogio?
–- Por Merlin! Me deixe em paz! Arrume um banco! — olhei para os lados, algumas pessoas estavam apreensivas. Outras ocuparam os poucos assentos vazios e lá estava eu, de frente para um desconhecido que já estava me deixando nervosa... Eu mexi no galho de salgueiro que estava na bolsa. Bem, chamaria agora de arma.
–- Me diga seu nome.
–- Não. Me diga o seu primeiro.
Ele parou para pensar.
–- Sou Austerus.
–-Mentiroso.
–- Prove. — ele deu um sorriso enviesado — prove isso.
Eu fechei os olhos. Eu estava irritada. Eu não conhecia aquele homem.
Então ele sussurou.
–- Meu nome é... Severo. Severo... Snape.
Aquele cabelo... agora fazia sentido! Eu... acho que o conheço. Mas...
–- Você não era o Ranhoso?
–- Ranhoso quem?
–- De — olhei para os lados e cochichei — Hogwarts.
Ele pensou por um instante, e disse.
–- O que é Hogwards?
–- É HogwarTs e não HogwarDs! — disse irritada.
–- Tanto faz. Isso morde?
–- Não, isso ensina. É a minha escola. Agora... Eu juro que já te conheço, e você não era assim.
Ele se levantou triunfal. Desnecessário, sério.
–- Então você admite que me conhece.
–- Estou te confundindo. Se você não conhece minha escola, é apenas uma coincidência.
–- Eu já estive em muitos lugares ultimamente. A maioria desertos. Bem, adentrei uma propriedade antiga e abandonada há alguns dias. Outubro? Sim, eu estava na Escócia.
Outubro eu estava em Hogsmeade.
–- E o que você viu nessa propriedade? — levantei minha sobrancelha. Ele só podia estar falando da Casa dos Gritos. Fiquei muito inquieta mexendo em minha bolsa. Ele tentava se segurar nas barras. O Eurotúnel não era muito legal pra ficar de pé.
–- Vi uns animais estranhos — ele começou — Eu sou pesquisador da vida selvagem sabe. Claro, com foco em coisas das trevas. Coisas assustadoras, digo. Sou fascinado por animais exóticos, ou até mesmo lendários!
Ele estava me assombrando. Só havia uma pessoa que gostava das Artes das Trevas.
–- Como eles eram?
–- Tão magros... Quase lhes apareciam os ossos! Eram escuros e tinham corcundas. Tentavam pular alto. Por um estante pensei até ter visto um voando!
Testrálios. Ele viu testrálios.
–- Algo mais?
–- Porque? Estou descrevendo algo importante para você?
Quem era aquele homem que tinha tanta semelhança com Snape, sem ser ele? Pelas barbas de Dumbledore! Ele acabava de descrever um testrálio aos olhos de um trouxa. Ele era um trouxa?
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