Vidas Em Guerra
28 Primeira Missão – Parte 2 - Continuação
Avançar não estava sendo uma tarefa fácil e ficou ainda pior quando a neve cobriu os rastros e o grupo passou a depender apenas do instinto de Phillip. Por conhecer melhor aquela região o Crensor era capaz de identificar caminhos que, com a neve, eram quase invisíveis para os outros. Assim, com uma pista ou outra que aparecia eles tinham a vaga noção de ainda estarem no caminho certo.
Com o vento fazendo a neve virar uma cortina translucida em frente a eles o grupo saiu de uma trilha com rochas de ambos os lados e chegou a um espaço aberto. De um lado se erguia uma parede de pedra e a frente era possível ver vários caminhos onde neve e rochas se misturavam. Assim que o ultimo deles saiu da trilha Sarah pôs a mão sobre o ombro de Phillip parando-o.
--O que houve? – pergunta o Vice-Capitão olhando-a preocupado.
--Ouvi algo – ela responde olhando e volta e fazendo sinal para que os outros ficassem próximos das pedras.
Todos ficaram alertas com as mãos sobre suas armas, prontos para se defenderem e prestando atenção aos menores ruídos. Sem o som de seus próprios passos eles puderam ouvir um ruído que parecia com garras contra a pedra. Era como ouvir um gato caminhar entre pedras e terra com suas garras raspando a pedra e sendo abafadas na terra. Quando identificou o som Phillip ficou pálido e com uma expressão de medo.
--Escudos!! Formação de Defesa!!! – gritou ele puxando Sarah e mais alguns outros para perto do paredão de pedra.
No 4-B cada um tinha uma função e/ou especialidade, no caso os maiores e mais fortes eram os únicos a carregar escudos, mas não eram escudos comuns. Cada um tinha 1,10m de altura e 0,6m de largura, feitos de ferro reforçado o que deixava o peso deles bem maior que o de um escudo normal. No total, 23 deles possuíam esses escudos, mas 3 estavam com Kaill, então eram apenas 20 para obedecer a ordem de Phillip, o que fizeram imediatamente.
--O que está havendo, Phillip?!?! – perguntou Sarah confusa ao ver a expressão confusa dele, mas quando Phill não respondeu ela o segurou pela gola da camisa e sacudindo-o enquanto dizia – Recomponha-se, Crensor, e me diga o que esta acontecendo!!!
--P_panteras....panteras da neve – sussurrou ele assustado.
--Phill – chamou Sarah num tom mais baixo e mais firme – Eu preciso que você me explique o que esta acontecendo.
Phillip a encara e respira fundo, depois de alguns segundos ele responde:
--Panteras da Neve. São maiores que as panteras comuns que encontramos nas florestas. Tem o pelo completamente branco e olhos azuis. E, diferente das panteras comuns que vivem sozinhas, essas andam em bandos de 3 a 5 animais. Mas elas não deveriam estar tão a oeste – disse Phillip parecendo voltar ao seu normal – Elas costumam habitar A Parede mais perto das Montanhas do Fim.
--Porque elas estão aqui não nos importa. Elas estarem aqui é que é o problema – falou Sarah se virando para os outros e encarando as costas dos Escudos enquanto pensava – Quero todos atentos – disse ela se aproximando do centro do semicírculo formado por eles – Lanças sobre escudos e quero também uma linha interna com os arqueiros – ordenou ela se aproximando de Nathan e Dalton que estavam lado a lado na linha dos escudos – Nathan, quero suas facas longas.
Nathan encarou Sarah confuso, mas com sua Capitã dando uma ordem e apoiando o escudo dele para que obedecesse ele não teve escolha além de puxar as duas facas que carregava na cintura e que tinham pouco mais da metade do comprimento de uma espada. Sarah pega as armas segurando-as com uma só mão e retira o cinto da bainha de sua espada da cintura entregando-o a Nathan.
--Guarde isso e é bom não ter nenhum arranhão quando me entregar de volta.
--O que acha que esta fazendo? – pergunta Tomas se aproximando com os olhos arregalados – Não pode estar pensando em sair detrás dos escudos e enfrentar esses animais. Isso seria suicídio!
--Estou tentando salvar nossas vidas, Tomas – falou ela seria encarando-o – E não vou permitir que você contrarie minhas ordens ou questione meus atos, esta me entendendo?
Dizendo isso Sarah deu as costas a ele e começou a tirar a grossa capa que usava para se proteger contra o frio e a bolsa de viagem dos ombros.
--O que você quer fazer é suicídio! – continuou Tomas seguindo-a.
Sarah se virou rápido e com uma faca em cada mão. Uma das laminas foi parar em baixo do queixo de Tomas enquanto ela olhava dentro dos olhos dele. Aquele olhar fez tanto Tomas quanto alguns outros que estavam mais perto tremerem.
--Eu trouxe vocês até aqui e vou levá-los de volta a suas casas vivos, está me ouvindo? – falou ela num tom calmo e baixo que deu tanto medo quanto o olhar que ela lançava a Tomas — Mas se ficarmos aqui parados eu não vou conseguir isso. Agora preste bem atenção ao que eu vou dizer. Eu sou a mais rápida, a mais ágil e a mais flexível de todos aqui além de ser também a melhor lutadora. Alguém tem que estar do outro lado dos escudos para tentar afastar essas panteras e nenhum de vocês pode fazer isso. Eu sou a Capitã de vocês, não por escolha minha, mas sou, e já que a situação é essa eu vou fazer o que tiver de fazer para impedir que qualquer um de vocês fique para trás. Estamos entendidos, Tomas?
Depois disso ninguém mais a questionou e alguns instantes depois Sarah estava do lado externo do circulo de escudos enquanto Phillip, do lado de dentro, tentava encontrar um caminho que pudesse levá-los até uma caverna onde poderiam se proteger. Graças aos treinamentos moverem-se naquela formação não era complicado. O mesmo não podia se dito quanto ao trabalho de Phillip em encontrar um abrigo já que, apesar de ainda não ter anoitecido, as nuvens da tempestade impediam a luz do sol de chegar até eles de forma satisfatória e útil, mesmo que eles ainda não estivessem em escuridão total.
--Porque elas ainda não atacaram? – perguntou Dalton num sussurro.
--Estão esperando a escuridão – respondeu Phillip da mesma maneira – Dalton? Pode ver o que eu acho que estou vendo? – perguntou o Crensor apontando para frente.
Dalton olhou na direção apontada pelo amigo e arregalou os olhos. Tinham acabado de ver um ponto de luz, o que só podia significar que tinham encontrado os fugitivos. Chamaram Sarah e ela sorriu ao descobrir que poderia acertar dois coelhos com uma só flecha. A partir daí chegar até a fonte da luz é que se tornou outra complicação. A luz do dia também não pode cooperar por tanto tempo quanto seria necessário.
--Phillip – falou Sarah a pouco mais de três metros do resto do grupo já sem se importar se chamaria a atenção ou não, afinal, as panteras os estavam seguindo a um bom tempo – Se algo acontecer comigo vocês continuar até acharem o abrigo. Se eu mandar vocês continuarem e me deixarem para trás é isso o que vocês vão fazer. Isso é um ordem e você não tem a opção de não cumpri-la.
Phill e Dalton se entreolharam e ambos responderam afirmativamente a ela. Sabiam que era a única coisa a fazer. Minutos depois o sol se pôs e a primeira das panteras apareceu aos olhos de Sarah. Era um animal de aproximadamente 1,20m de altura com olhos azuis que brilhavam na escuridão. A Hawkey se afastou ainda mais dos escudos causando certo desespero entre seus soldados. Sarah também estava tremendo, mesmo que nenhum deles pudesse ver. Enfrentar um animal selvagem era algo completamente diferente de lutar contra uma pessoa. Pessoas eram previsíveis e possuíam táticas que poderiam ser desvendadas, aquelas panteras não tinham nada disso. Lutar contra elas seria como enfrentar um oponente invisível. Tudo com o que ela poderia contar seriam seus instintos, por esse motivo quando avistou o primeiro animal deu a ordem para que o resto do grupo continuasse sem ela. Mas não foi o que todos eles fizeram. Phillip, Dalton e Nathan se entreolharam e decidiram que não a deixariam sozinha. Phill e Nathan eram os mais rápidos e por esse motivo Nathan abandonou o escudo com um dos outros mais fortes e, junto a Phillip, saíram os dois do circulo de proteção e se juntaram a ela deixando as próprias costas contra as costas dos outros. O grupo continuou a avançar em plena escuridão sem conseguir distinguir quais eram as sombras das panteras e qual era a de Sarah e dos outros dois quando os animais avançaram. Isso não durou muito tempo, já que o grupo de 5 panteras se interessou mais pelas três presas desprotegidas do que pelo grupo maior escondido pelos escudos e, como continuaram a avançar, logo nem as sombras do lugar em que humanos enfrentavam os animais eram mais visíveis.
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O esquadrão acabou encontrando os fugitivos, ao menos 3 deles. Entre os três sobreviventes do primeiro ataque das panteras estava o líder dos bandidos, o que os deixou muito contentes, já que isso significava que conseguiriam cumprir a missão, isso é se conseguissem descer a montanha sem mais incidentes. Claro que esse contentamento não afastou o medo e a preocupação deles com os três que ficaram para trás. Eles não estavam prontos nem preparados para perder sua Capitã e seu Vice-Capitão de uma só vez.
Um relato do que realmente aconteceu com os três que ficaram para enfrentar as panteras nunca seria ouvido por ninguém. A forma com que os três conseguiram sobreviver ao ataque de tão ferozes animais também seria um mistério para toda a academia por muito mais tempo do que seria imaginável. O fato é que, logo antes do sol nascer a tempestade passou e, assim que os últimos flocos de neve caíram e Dalton começou a organizar um grupo de busca para Sarah Phillip e Nathan os três apareceram na entrada do pequeno túnel que levava a uma caverna relativamente grande (N/A: era grande o bastante para acomodar todos e ainda sobrava um bom espaço).
Phillip vinha no meio sendo amparado por Sarah e Nathan, cada um segurando por cima dos ombros um dos braços do Crensor que parecia estar quase desmaiando. Junte a isso as roupas rasgadas e cobertas de sangue e as armas também completamente ensanguentadas das empunhaduras as bainhas e você consegue uma visão perto da que Dalton teve ao ir até a abertura da caverna. Phill não era o que tinha os piores ferimentos, no entanto eram os ferimentos mais complicados de se conviver. Sarah e Nathan estavam com cortes e arranhões por todos os braços e costas, além de parte superior e inferior do tronco. Phillip, no entanto, tinha uma ferida de, não se sabe se de mordida ou garra, na panturrilha e quatro cortes fundos feitos pelas garras de uma das panteras nas costas. Entre cuidar dos ferimentos dos três e deixá-los descansar o 4-B junto a seus prisioneiros só saíram da caverna no dia seguinte. Descer a montanha foi quase tão complicado quanto subi-la, mas ao menos não havia tempestade de neve.
A surpresa das pessoas por onde o grupo passava era mais do que simplesmente grande. Terem superado a tempestade por si só já tinha sido um feito e tanto, mas, além disso, por onde paravam era necessário cuidar dos ferimentos dos três e, nessas ocasiões, os boatos começavam a se espalhar. Os fugitivos também acabavam confirmando a história ao relatar a perda de seus companheiros e a fuga deles mesmos das panteras. Ao final disso, depois de terem entregado os últimos prisioneiros ao juiz residente nas propriedades do Marquês Crensor, o 4-B retornou a Academia tendo cumprido sua primeira missão de forma perfeita e sem nenhuma perda.
Notas finais
Bjs
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