Vidas Em Guerra

19 Nova Casa, Novo Quarto e um Esquadrão Indiferente


Notas iniciais
Gente, ai está.
Boa leitura pra vocês =]

A decisão do Diretor e dos instrutores que haviam avaliado Sarah demorou a sair. Eliot, sob a condição de não se manifestar, acompanhou as discussões que duraram até depois do sol se pôr. Sarah não voltou ao quarto alugado por ela e o pai naquela noite, ficou andando sem rumo pela cidade. Pela manhã encontrou Eliot sentado sobre a própria cama esperando-a. Acompanhada do pai ela voltou a Academia sem que uma única palavra fosse trocada entre os dois. Pátio central; corredores; escadas; corredores; sala do Diretor-Comandante e Sarah se viu sentada em frente a um Rohkston irritadíssimo. Esse foi o inicio da manhã dela.

As discussões da noite anterior se basearam, principalmente, em dois fatos: 1) a impressionante habilidade e perícia demonstradas por Sarah e 2) ela ser uma mulher. Por um lado nenhum deles podia negar o quão raro era alguém possuir a capacidade dela; por outro temiam que essa capacidade fosse desacreditada nos comentários e boatos que, certamente, surgiriam caso eles a aceitassem. Mas houve um ponto não discutido nem comentado do qual todos tinham conhecimento e concordavam: se, depois de tudo o que ela demonstrou, eles a reprovassem algo muito mais complicado e difícil de controlar do que a presença dela na Academia iria acontecer. Isso estava bem claro a todos que notassem as ações dela. Sarah não perdoaria se reprovada por ser mulher e eles não podiam reprová-la pelas habilidades que ela havia demonstrado. A solução pra eles seria que ela desistisse, o que não parecia que seria fácil de acontecer.

“Você esta aprovada”, foi a primeira coisa que ela ouviu de Rohkston naquela manhã. A segunda foi sua alocação nas turmas. Devido a forma com que derrotou o rapaz da 3ª Ordem era obvio que ela não poderia ser inserida em um nível mais baixo. Mas, para ela conseguir se graduar precisaria ter três vezes mais vitorias; o que significava ter de enfrentar três vezes mais duelos; o que pra ela não era assim tão ruim. A partir daquele instante, então, ela passaria a ser o 50° membro da turma 3-B. O que ela não sabia, mas demoraria muito para descobrir, era que esse era o pior grupo de alunos da Academia toda. Muitos deles já estavam naquela turma a mais de dois anos. Esse era também o grupo com os piores lutadores. A consequência e o significado dessa decisão era simples: ela não poderia contar com a ajuda dos colegas porque a presença dela só pioraria a reputação deles e ela não poderia progredir facilmente cercada de pessoas que a ignoravam.

--Você ficará em um dos quartos reservados a visitantes. Poderá decidir com que roupas comparecerá aos treinos. Darei ordens aos instrutores e aos alunos para que não a provoquem. Também te dou permissão para fazer suas refeições na cozinha caso não se sinta a vontade no refeitório – essas foram as palavras de Rohkston depois dele anunciar que ela estava aprovada.

--O dormitório do 3-B tem 50 lugares; vou ocupar a cama que esta sobrando lá. Também pretendo usar os uniformes padrões da Academia. E pelo que sei os alunos podem frequentar as cozinhas livremente. Quanto às ordens que você quer dar aos seus alunos e instrutores, não me importa que você não diga nada a eles. Não preciso e nem quero que você me dê privilégios. Entrei aqui com minhas habilidades assim como muitos dos seus alunos e posso muito bem ser tratada como eles. Se quiser dizer a eles para não se meterem no meu caminho eu não me importo, teremos menos feridos na sua enfermaria, mas se estava planejado fazer isso como forma e me ajudar então esqueça. Não preciso da ajuda de ninguém – ela se levanta e começa a sair da sala, para e se vira quando chega à porta – Vou buscar minhas coisas, estarei me apresentando ainda essa manhã aos treinamentos na Academia – depois de dizer isso ela sai deixando Eliot e Rohkston sozinhos.

--Pelos céus, meu amigo. Diga-me que não terei tanto trabalho com sua filha quanto imagino que vou ter – diz Rohkston apoiando seus cotovelos na mesa e encarando Eliot.

--Infelizmente para o seu sossego – diz Eliot com um pequeno sorriso – Eu creio que será exatamente o contrario. E se me permite; também não acho sensato dizer aos alunos para não mexerem com ela. Faria parecer que você a esta protegendo e isso tornara as coisas ainda piores.

Enquanto eles discutiam o que era prudente ou não Sarah caminhava pelas ruas indo buscar suas coisas. Ela ainda não tinha ideia do que iria enfrentar, mas sabia que Rohkston deveria ter algo planejado para fazê-la mudar de ideia e desistir. Até certo ponto podia-se dizer que ela estava ansiosa por isso; poderia provar a ele e a todos do que ela era capaz.

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Passava da metade da tarde quando tudo relacionado à permanência de Sarah foi resolvido. Eliot conseguiu permissão para que ela passasse suas horas livres na forjas observando os trabalhos dos ferreiros. Depois de alguns dias de observação ele daria a ela algumas lições básicas, uma área de trabalho e materiais; o resto seria por conta dela. Por causa desses e de outros pontos Sarah só foi levada por Rohkston até os dormitórios momentos antes das ultimas atividades do dia acabarem.

O dormitório era um quarto retangular com 25 beliches dispostas em quatro filas de cinco delas lado a lado formando três corredores mais largos entre as filas e um mais comprido numa das laterais maiores do cômodo e na mesma direção da porta que ficava num dos cantos de uma das paredes menores. Na fila de beliches mais afastada da porta, na ultima beliche, sobre a cama inferior, estavam três conjuntos de calça e camisa de mangas compridas, ambas de algodão grosso e um conjunto de linho. Embaixo de cada beliche haviam dois baús; Sarah encontrou aquele que ainda tinha uma chave no cadeado e o abriu. Em poucos minutos ela já estava com o uniforme cuja cor ela não podia distinguir bem devido a falta de iluminação no local, mas que lembrava ser de um tom cinza pelo que já havia visto.

Ela teve poucos instantes de espera nos quais guardou suas posses e seus uniformes sobressalentes no baú; a espada, que ela ainda nãotinha permissão de carregar, tinha sido vendida a um dos ferreiros; o livro foi escondido embaixo do colchão e a corrente de sua tia ficou guardada no fundo do baú cuja chave Sarah pendurou num cordão tirado da mochila e amarrou no pescoço. Ela terminava de guardar o baú de volta embaixo da cama quando ouviu a porta se abrindo e o som se passos. Não demorou muito e vários deles estavam em volta dela. Dezenas de pares de olhos fixos nela. Só isso, talvez, teria intimidado muita gente, mas não ela. Curiosidade ainda era o único motivo da presença deles em volta dela e Sarah sabia disso.

Sentada em sua cama ela tentou encara um por um de seus novos colegas, o que não foi tarefa fácil. Muitos não ficaram perto tempo o bastante para que ela captasse qualquer coisa. Os que ela pode realmente ver, no entanto, a surpreenderam. Diferente do ódio que ela esperava ver encontrou apenas curiosidade. Pura e simples curiosidade. Como se o fato dela ser mulher fosse apenas mais um fato curioso a seu respeito. Mesmo o numero desses olhares sendo pequeno, Sarah viu nisso um motivo de animo. Ela também viu indiferença; muita indiferença. Como se a presença dela não influenciasse no que aconteceria ou não dali em diante e isso a intrigou. Bem, devo dizer que não demoraria muito para ela entender o motivo dessa indiferença.

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Duas semanas de treino foram o suficiente para Sarah entender o que o velho Rohks tinha planejado para ela. Na Academia todos os esquadrões treinavam em grupos, assim, um grupo fraco dificilmente teria um lutador muito forte. Mas nãoe Ra só força o que faltava ao 3-B; era união e companheirismo. Todos os outros esquadrões os desprezavam; eles eram o que havia de pior em toda a Academia. Mas não era apenas isso; nenhum deles tinha técnica, conhecimento nem talento para progredirem sozinhos. E era exatamente assim que eles estavam: sozinhos. Ignorados pelos outros esquadrões; ignorados pelos instrutores e ignorados por eles mesmos. Parecia não haver esperanças para o 3-B. e, no fundo, isso irritava Sarah, mesmo ela aparentando indiferença em relação aos seus colegas (mesma indiferença que eles tinham para com ela eu tenho que dizer).

Naquele inicio de primavera, enquanto Eliot ajudava a organizar a área de trabalho cedida pela ferraria da Academia, ela pensava em seu esquadrão. Alguns rostos já eram bem conhecidos, alguns nomes também, mas aquela situação de conformismo deles a incomodava profundamente. Mas isso talvez não durasse por muito tempo.