Notas iniciais
Mais um cap =]
Espero que gostem

Já era verão e muita coisa havia mudado. A guerra se intensificou, o que forçou o Diretor-Comandante Ron Rohkston a graduar todos os alunos antes da hora e aceitar novos antes do outono. Anthon Culligan, sendo filho de um nobre, se formou antes para liderar parte das tropas de seu pai. Sarah tinha, finalmente, terminado de estudar o livro dos Hawkey’s e agora trabalhava em um projeto próprio. Ela também já não era mais tratada como “a mulher que havia entrado na Academia”. Sarah Hawkey era agora a Capitã do Esquadrão 4-B, além de um nome que impunha tanto respeito quanto o do pai e admiração também. Na verdade, o numero dos que a desprezavam caia na mesma velocidade com que crescia o daqueles que se apaixonavam por ela.

No começo aqueles cujos títulos dos pais os fazia acreditar que tinham mais chances do que os outros foram até Eliot pedir a mão dela. Pode-se dizer que a surra que estes levaram por pensar que poderiam passar por cima da vontade dela falando com Eliot ensinou a todos que se quisesse a mão dela deveriam falar diretamente com Sarah. Pode-se dizer também que poucos tinham coragem para isso. E, apesar de tudo, Sarah nunca demonstrava favoritismo, nunca tratava alguém diferente e nunca voltava atrás em sua palavra. Assim, aqueles nos olhos dos quais ela via sinceridade eram tratados com calma e respeito ao receberem um sonoro “não” como resposta. Os que chegavam achando que poderiam tê-la só por causa de dinheiro, títulos ou poder encaravam uma parede dura e fria que eram os olhos dela ao receberem, além de um sonoro “não”, a lição de que ela não era uma mulher como as outras. O fato é que o 4-B se tornou muito unido e Sarah muito respeitada.

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Naquele dia, o primeiro da ultima folga do mês, Sarah estava trabalhando em seu projeto nas forjas quando Dalton e Phillip apareceram.

--O que querem aqui? – ela perguntou, mas continuou a prestar atenção aos metais que tinha no forno.

--Viemos chamá-la para sair com todo o grupo – disse Phillip antes de Dalton começar com as brincadeiras – Vamos todos sair para comemorar nossa promoção.

--Podem ir, Phill. Estou trabalhando nesse projeto e queria começar uma parte mais complicada dele hoje – Sarah finalmente se virou para os dois e eles puderam notar a forma com que ela estava vestida. Um avental e luvas de couro como todos os ferreiros, as calças e as botas que sempre usava nos treinos e uma camisa mais fina que estava completamente molhada de suor. Ela também tinha os cabelos presos em uma trança de forma que os fios não a atrapalhassem.

--Desde quando esta aqui? – perguntou Dalton curioso.

--Desde cedo, Dalton – respondeu Sarah já esperando uma piada de mau gosto.

--Humm – disse ele pensando um pouco – Olha Hawkey, eu sei que você não pediu para ser nomeada capitã. Que você até quis recusar e tudo o mais, mas você agora é a nossa Capitã. Eu também sei que lhe causamos muitos problemas, mas essa comemoração não estaria acontecendo se não fosse você. Então, acho que você deveria vir.

Sarah ficou até espantada com o jeito de falar de Dalton, era raro ele agir tão serio.

--Certo. Eu vou, mas com uma condição – disse ela depois de refletir um pouco.

--Qual? – perguntaram os dois ao mesmo tempo fazendo com que os três rissem um pouco.

--Eu vou se essa reunião não acontecer em nenhum dos lugares que Dalton e Nathan indicam – disse Sarah com o inicio de um sorriso.

Phillip riu e Dalton ficou com uma cara emburrada por causa da piada. Os lugares que Dalton e Nathan frequentavam eram indiscutivelmente os mais baratos, mas se resumiam a pequenos bordeis e estalagens caindo aos pedaços com uma péssima qualidade tanto das bebidas quanto dos frequentadores. Nas quatro ou cinco vezes em que Sarah os acompanhou a algumas dessas saídas das duas uma: ou algum bêbado idiota resolvia tentar a sorte com ela e acontecia uma briga ou um dos rapazes do esquadrão se envolvia em alguma confusão por ter bebido demais e ela tinha de ajudar a trazê-lo de volta a Academia.

Bem, na verdade, Sarah sempre os deixava caídos em algum canto do pátio principal, mas impedia que eles acabassem perdidos em algum canto das vielas da cidade. O ponto é que Sarah não acreditava que Dalton aceitaria sua condição, mas, surpreendendo a todos, ele aceitou.

--Certo – disse Dalton meio contrariado – Deixo o Phill escolher o lugar e você vai. Vamos mandar o Kaill te chamar antes de sairmos.

Dalton nem esperou uma resposta de Sarah, virou as costas e foi saindo.

--Acho que você vai ter que ir agora – disse Phillip com um meio sorriso – Até mais, Hawkey.

Sarah bufou com irritação e voltou ao seu trabalho, que agora teria de deixar pela metade. Ainda assim, apesar do transtorno que aquilo lhe causaria, ela não pode deixar de sorrir um pouco. Não era fácil ser responsável por 49 idiotas, mas ela se sentia bem em tê-los por perto. Quando estava com eles era mais fácil não se sentir sozinha e se focar em coisas menos dolorosas. Mesmo que não conseguisse isso em todos os momentos era bom tê-los a animando e incomodando.

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Começava a anoitecer quando Kaill apareceu nas forjas. Sarah já estava arrumando suas coisas e mandou que ele dissesse que ela os encontraria no portão principal. De lá todo o grupo seguiu Phillip e Tomas que tinham escolhido o lugar. Tomas tinha os olhos verdes muito escuros, cabelos castanhos claros que caiam sobre seus olhos, pele morena, 1,79m de altura, ombros largos, era um ótimo lutador com espada e escudo, tinha 21 anos e era o filho bastardo de um nobre relativamente rico; apesar de poucos saberem dessa ultima informação.

O lugar escolhido por eles era uma estalagem relativamente grande. No térreo funcionava um bar onde eram servidas também algumas refeições. Era grande o bastante para acomodar todos eles e isso era o que mais importava. O grupo se espalhou pelas diversas mesas. Sarah preferiu um dos bancos em frente ao balcão. Em pouco tempo todos eles tinham uma caneca de cerveja nas mãos e começavam a beber. Os assuntos das conversas eram os mais variados possíveis e iam desde mulheres até os treinos puxados que Sarah lhes impunha.

Deveria ser quase meia-noite quando o assunto surgiu. Todos já tinham bebido o suficiente para não mais se importarem com o que diziam e, num momento estavam zombando da falta de sorte de Phillip com as mulheres e no outro Tomas estava perguntando sobre a vida amorosa da Hawkey fazendo todos os presentes se calarem e arregalarem os olhos.

Sarah estava sentada ao balcão de frente para eles e até sorria com as brincadeiras, mas ouvindo aquilo ficou de cara fechada e mais seria e irritada do que eles já a haviam visto antes.

--Qual o motivo dessa pergunta, Tomas? – quis saber ela encarando o rapaz.

--P_perdão eu...eu só... – tentou dizer Tomas logo abaixando a cabeça para terminar a frase – Foi só curiosidade, Capitã. Apenas isso.

--Acho que esse seu olhar já o assustou o suficiente, Hawkey – brincou Dalton tentando fazer piada, mas vendo que não seria tão fácil desfazer aquele clima tenso que pairava entre eles.

--Essa foi uma pergunta abusiva, Capitã – disse Phillip encarando Tomas – Todos aqui sabemos que foi – então ele volta a olhar para Sarah – Mas você conhece tudo sobre cada um de nós e não sabemos quase nada sobre você.

No fundo Phill tinha razão e Sarah sabia disso. Todos eles haviam confiado nela sem questionamentos por um longo tempo. A diferença era que naquele momento as coisas não se resumiam mais apenas a treinos. A partir do momento em que eles a escolheram para guiá-los em missões passaram a colocar suas vidas nas mãos dela. Nada mais justo do que conhecerem a pessoa que poderia vir a salvá-los ou levá-los a morte.

FlashBack: on – Uma Semana Atrás

Era a noite anterior a primeira folga do mês e estavam todos, incluindo Sarah, no dormitório em volta de Phillip. Naquela manhã tinham recebido a noticia de que todos seriam promovidos a 4ª Ordem e Phill havia ido falar com o Diretor-Comandante naquela mesma tarde e voltara logo antes do fim dos treinos para falar com eles.

--Segundo o Diretor – começou Phillip encostado ao beliche que dividia com Dalton – Na manhã do dia em que votarmos da folga ocorrera a nossa cerimônia de graduação. Ele disse também que me escolheu como capitão do esquadrão – terminou ele com uma expressão irritada.

--Mas... Sarah é quem deveria ser a capitã – disse Kaill verbalizando o que todos eles pensavam e vendo os outros concordarem de alguma forma.

--Eu não quero isso, Kaill – foi a primeira coisa que Sarah falou. Ela tinha estado o tempo todo sentada na cama de baixo ao lado de Phillip, mas ao ouvir Kaill começou a se levantar – Phillip é uma ótima escolha.

--O papel de líder não me serve bem – disse Phill fazendo Sarah interromper seu caminho até a própria cama – Dalton tem mais perfil de líder do que eu, mas ninguém será melhor do que você.

--Eu não quero, Phillip – disse ela ainda de costas a todos – Não quero que a vida de todos vocês esteja nas minhas mãos e dependendo das minhas decisões. Sei que você deve ter perguntado ao Velho Rohks porque a escolhida não fui eu e sei a resposta dele. Sou instável demais, Phill.

--Não foi esse o termo exato que ele usou – comentou Phill sério.

--Não importa – contrapôs Sarah – Ele já te escolheu e eu estou satisfeita com isso.

Isso encerrou a conversa, mas na manhã seguinte todos eles se reuniram sem que ela soubesse para discutirem o assunto. A cerimônia consistia apenas no Capitão escolhido receber o emblema que usaria também como selo ao enviar mensagens e o novo esquadrão demonstrando respeito a nova liderança. No começo parecia tudo normal; Phillip andou até estar e frente ao Diretor-Comandante Rohkston quando foi chamado, mas quando este ia entregar o emblema foi surpreendido por Phill que pegou a caixinha acolchoada onde o emblema estava e se afastou.

--O que acha que esta fazendo, Crensor?!?!? – gritou Rohkston já bufando de raiva, mas sendo completamente ignorado por Phillip que continuou até parar em frente a Sarah.

--Não. Faça. Isso. Phill – disse ela repreendendo-o com uma expressão seria e quase cansada.

--É o certo – respondeu ele com um pequeno sorriso.

Rohkston já tinha desistido de impedi-lo depois de ver os sorrisos cúmplices do resto do esquadrão.

--Você é a nossa líder – disse Dalton ao lado dela.

--Não estaríamos aqui sem você – disse outro deles mais ao fundo, mas ela não conseguiu identificar quem foi.

--Você nos deu técnica – disse Phillip fazendo Sarah voltar a encará-lo – Nos deu força, confiança, coragem. Mas, e principalmente, você nos deu amigos. Aceite – completou ele estendendo a caixa com o emblema para ela.

Sarah sacudiu a cabeça como se desistindo de discutir e estendeu a mão, mas antes de retirar o emblema ela encarou Phillip seria.

--Vocês são loucos – disse ela – E parece que a culpa é minha.

Phillip sorriu, todos sorriram e ela retirou o emblema da caixa. Todo o esquadrão deu um passo atrás e Phil se juntou a eles enquanto Sarah se virava para encara-los. Eles bateram os calcanhares das botas como se começassem a postura de respeito que o exercito usava, mas ao invés de manterem os braços paralelos ao com]por e a cabeça baixa eles ergueram o rosto e bateram o punho direito sobre o ombro esquerdo num sinal que passariam a usar apenas com ela.

Devem estar se perguntando porque Rohkston não fez nada. Bem, não é que ele não pudesse ter feito algo para parar Phillip ou até invalidar o ato deles, o que foi exatamente o que os instrutores insistiram para ele fazer. Mas ele escolheu não interferir, afinal, o que um esquadrão deveria ser era exatamente o que eles se mostraram; o que Sarah fez deles.

FlashBack off

Foi lembrando-se disso que ela olhou nos olhos de cada um deles. Homens que em sua maioria eram todos mais velhos do que ela, mas que confiavam mais nas decisões dela do que nas suas próprias. Sarah então fechou os olhos pensando que Phillip não deixava de ter razão. Voltou a abrir os olhos e se levantou, andou até uma das mesas onde eles estavam, pôs a mão sobre o ombro de Nathan que se levantou cedendo a cadeira a ela. Sarah pôs seu copo sobre a mesa e encostou as costas no apoio da cadeira encarando todos eles.

--Passei quase a minha vida inteira achando que era apenas a filha de um agricultor – disse ela encarando seu copo na mesa – Não foi ruim, eu tinha um bom amigo que cresceu comigo e me entendia, mas eu não tinha sido feita para aquela vida no fim das contas.

--O que aconteceu? – perguntou Nathan arrastando outra cadeira e se sentando atrás dela sendo copiado por todos os outros que se reuniram em volta da mesa em que ela estava.

--Mercenários – disse ela simplesmente – Foi isso o que aconteceu. E, não sei se por sorte ou pura ironia, John e eu não estávamos por perto quando eles chegaram.

--John era o nome desse seu amigo? – perguntou Kaill.

--Sim – respondeu ela antes de beber um gole de sua cerveja para depois continuar – Tínhamos 15 anos na época – ela fez uma pausa – Vimos a família inteira dele ser morta. Minha mãe também morreu naquele dia; meu pai não conseguiu salvá-la. Lorde Clinfort vinha perseguindo aquele grupo de mercenários – outra pausa – John seguiu com ele. Hoje eu já não sei mais se ele esta vivo ou morto.

--Lorde Clinfort aceitar levar alguém assim não é comum – disse Tomas.

--John não era comum – respondeu Sarah encarando-o – Antes de saber quem eu realmente era eu já sabia empunhar uma arma. Se acham que foi o treinamento do meu pai que me ensinou a lutar tão bem estão enganados. Meu pai me ensinou as diversas formas de se usar uma espada, mas eu aprendi sozinha, e bem cedo, o que era vencer uma boa briga. Fui eu quem ensinou John a brigar. Naquela época ele já era melhor do que vocês eram quando eu cheguei aqui.

--Você o amava – constatou Phillip olhando para ela com o inicio de um sorriso.

--Ainda amo – afirmou Sarah bebendo o que restava em seu copo.

--Por isso recusa a todos, mesmo achando que ele pode estar morto? – perguntou Tomas insistindo no assunto.

--Não, Tomas – respondeu ela irritada – Recuso a todos porque até agora nenhum me fez sentir coisa alguma.

--Porque escolheu entrar para a Academia? – perguntou Kaill tentando desviar o assunto.

--Porque achei que encontraria aqui o meu lugar – respondeu Sarah fechando os olhos e deixando a cabeça pender para trás – E juro que acerto essa caneca na cabeça do próximo que me perguntar mais alguma coisa.

--E quanto a... – começou Dalton, mas foi interrompido pela pancada de uma caneca e sua testa – AAAAIIII!! ISSO DÒI!! Merda! – gritou ele esfregando a mão na testa e fazendo todos rirem.

O assunto acabou assim e, horas depois, todos voltavam meio bêbados para o dormitório. Sarah não tinha contado tudo e eles sabiam disso, mas o que ela disse foi o suficiente para eles saberem que ela também confiava neles e essa confiança era tudo o que eles queriam.