Vidas Em Guerra
2 Acho Melhor Correr...
Notas iniciais
Assim que chegou em casa John já estava arrependido; afinal, porque gritara com ela? Porque ficou irritado? Não deveria ter discutido; que culpa ela tinha se os outros meninos viviam o incomodando? Era óbvio que ela não poderia saber disso e o respondeu como se fosse qualquer outro garoto que viesse incomoda-la. Era mais ou menos isso que ele estava pensando até o dia seguinte quando ele e Josh saíram pela manhã. Porque querendo ou não ele não podia se impedir de esperar encontra-la outra vez. Aqueles olhos cinzas não lhe saiam da cabeça, aliás “como podiam ser dessa cor?” ele se perguntava. John já havia visto olhos azuis acinzentados, mas os dela não tinham o toque de azul costumeiro, eram mesmo completamente cinzas. Mas, apesar de torcer por isso, ele não a encontrou; nem naquele dia, nem nos seguintes. Chegou até a pensar que nunca mais a veria.
Durante aquela semana Sarah ficou praticamente presa a suas tarefas na organização da nova casa. Tanto que se sentia quase sufocada. Odiava aquele lugar, odiava as poucas crianças que conhecera na vila, odiava acima de tudo não poder sair de casa, e odiava aquele garotinho intrometido. “Certo”, pensava ela, “eu estava nas terras deles, não é come se ele tivesse ido lá me irritar de propósito”. Ela ainda não sabia por que tinha avançado nele com socos. Talvez por ter dito que ela estava chorando, mas, ainda assim, não era culpa dele que ela estivesse irritada com a mudança, nem que sua única amiga na vida toda tivesse ficado quilômetros atrás.
Por isso tentava não pensar nele. Mas não se impedia de dizer a si mesma que havia sido rude com o menino de cabelos negros e olhos cor de chocolate. “Ahh! Nem o nome dele eu sei”, e agora pensava que a idiota tinha sido ela, “poxa, ele nem sabia brigar, não pareceu ser daqueles garotos que ficam implicando com os outros. Talvez ele nem tenha perguntado aquilo por mal e eu, com certeza, o deixei com um olho roxo”, esse ultimo pensamento lhe tirou um pequeno sorriso, “Tenho que pedir desculpas quando vê-lo outra vez”.
O segundo encontro deles, entretanto só ocorreu 15 dias depois. Foi na festa ao inicio da colheita que a vila fazia todo ano, um mês antes do inicio da colheita dos grãos para celebrar as boas condições climáticas durante o ano. Nela todos os agricultores e moradores da vila se juntavam no centro do vilarejo, em volta de uma grande fogueira, com comidas e bebidas (alguns músicos itinerantes costumavam aparecer pela região na época), e todos comiam, bebiam,cantavam,dançavam e contavam historias dede metade do dia ao amanhecer do dia seguinte. A maioria dos agricultores chegava depois do meio-dia, pois tinham de adiantar o trabalho do dia seguinte. Mas os Hawkey’s não tinham plantações naquele ano então chegaram mais cedo para ajudar com os preparativos.
Sara não queria ficar com as outras crianças, que eram bem poucas na verdade (3 meninos e 2 meninas pouco mais velhos que ela e outros 5 rapazes e 4 moças entre 12 e 15 anos). Mas também não aguentou muito tempo as fofocas chatas que as mulheres da vila ficavam a contar á sua mãe. Assim, poucas horas depois de chegar, ela já estava se embrenhando na floresta que cercava o vilarejo.
Passava um pouco do meio-dia quando John e a família chegaram. Josh logo foi com os mais velhos e John tentou ficar o mais perto possível dos pais para evitar os outros meninos da sua idade. E, bom, até que ele conseguiu, pelo menos por um tempo. Isso porque quando começou a escurecer e a conversa dos adultos passou a ter demasiada influencia do vinho e da cerveja ele teve de se afastar, antes que alguém o mandasse fazer isso. Ele ainda evitouos outros meninos por um tempo, mas acabou caindo nas mãos de Bris; que era o mais velho da turma, com olhos verdes e cabelos louros estava com quase sete anos e..., bom, o pequeno John não teve como escapar.
Já fazia horas que o Sr Hawkey havia notado a ausência da filha, mas se tinha alguém que conhecia Sarah era ele. Por isso sabia que ela deveria estar entre as arvores evitando todos. Mas quando o sol terminou seu caminho e se pôs, e ele estava para ficar preocupado, viu-a passar a beira da luz de uma das fogueiras indo em direção ao estábulo da única estalagem que havia na vila. Fazia pouco que ele tinha visto as outras crianças da idade dela seguirem pelo mesmo caminho, então pensou que a filha teria, de certo, feito algum amigo e voltou a festa.
Escurecia quando Sarah resolveu voltar, não queria preocupar os pais, por isso só saiu do alcance das luzes quando teve certeza de ter sido vista pelos dois. Ela ainda queria ficar sozinha, por isso seguiu até o estábulo da estalagem pensando “Posso achar um bom lugar para sentar lá, e esperar que mamãe e papai queiram ir embora”. Era isso que planejava até se afastar o bastante para que o som dos instrumentos não passasse de algo indistinto e ela começasse a ouvir risadas com vozes típicas de crianças. Estava para voltar quando ouviu um gemido de dor e um soluço de choro. “Não é da minha conta. Não é da minha conta” *som de soco* *gemido* “Tá, agora já chega, acho melhor alguém começar a correr”.
--Vamos lá, levanta Snown – gargalhada – eu nem te acertei tão forte – esse era Bris.
--Ele é um molenga, nem parece que temos a mesma idade – agora era Frank, cinco anos, dois meses mais velho que John, olhos azuis e cabelos castanho escuro.
--Ela pode até ser mesmo um molenga, mas até onde sei três contra um é covardia, não acham?
Quando o grupo se virou, viram Sarah encostada a parede lateral dos estábulos com um olhar sério e um sorriso forçado.
--E você que é? – essa era Mila, irmã do Frank, seis anos, olhos e cabelos iguais aos do irmão, mas compridos e lisos.
--É a garota nova – disse a outra menina, baixinho, por ser mais tímida, tinha olhos azuis também, mas os cabelos eram louros e encaracolados.
--Cala a boca, Beatrix – ralhou Bris.
--Achou que o nome é Hawk, ou alguma coisa assim – a frase foi seguida de um risinho um tanto sarcástico por parte de Nick, seis anos, loiro, olhos azuis, cabelo em curto.
--É Hawkey, imbecil – disse Sarah perdendo o sorriso, odiava que brincassem com seu nome – Agora deixem o garoto aí e vão procurar coisa descente pra fazer – ela já estava a dois passos de Bris quando terminou de falar.
--E você acha que faremos isso só porque você mandou? – perguntou o maior erguendo uma sobrancelha.
--Não – disse ela – farão isso porque, do contrario, faço saírem à força.
Todos eles riram, John tinha acabado de se levantar apoiando-se a parede. Viu o olhar dela e achou impossível não se lembrar de 15 dias atrás. Foi quando viu Frank chegar por trás dela e prender as mãos da menina atrás das costas dela.
--EEEIII!!!! Me solta, seu animal!!!
--Solto não – e gargalhou
Sarah se mexia tentando se soltar e todos começaram a rir. Riram tanto que não viram John pegar um pedaço de pau que estava no chão e acertá-lo em cheio nos ombros de Frank. Assim que se viu livre Sarah girou e agarrou os cabelos do menino logo acertando-lhe um soco na boca do estomago do mesmo e então atirando-o aos pés de Bris. E..., tudo bem, eu sei que ela só tinha cinco anos, mas aquele olhar fez até mesmo Bris dar um passo pra trás e arregalar os olhos ao ver o amigo caído a sua frente e as mãos em punho da menina. Foi ai que John começou a rir.
--Sabe, Bris; ela já derrubou meu irmão só com um chute. Então, é você quem sabe, mas acho melhor correr – disse enquanto ria.
Aquele grupo a tinha deixado realmente irritada, a ponto de ficar triste ao ver que quatro haviam escapado. Mas, bom (sorriso sarcástico da autora), Bris não teve essa sorte. Ele bem que tentou, mas depois de três passos caiu com a cara no chão; Sarah tinha lhe passado uma rasteira. Os outros quatro já estavam longe quando ele se levantou (é, ela esperou ele se levantar). Quando Bris tentou agarra-la pelo pescoço, John quase gritou, mas não teve tempo. Sarah deu um passo para o lado fazendo Bris agarrar o nada; dessa vez ela não esperou ele se recuperar. Assim que ele se virou ela lhe acertou um soco no rosto (que com certeza deixaria um olho roxo), logo depois deu-lhe um chute no joelho esquerdo, fazendo-o cair.
--Desculpa – chorou ele – eu vou embora, é sério.
--Você pode até ser mais forte que ele – ela disse apontando para John – mas parece que ele é o mais esperto. Deveria ter corrido.
E então dessa vez ele entendeu, pois se levantou e num piscar de olhos já estava bem longe.
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