Vidas Cruzadas
2 Conversa Inusitada
Notas iniciais
Sem paciência, sem humor, sem vontade de tentar ser simpática com os outros era assim que Isadora se encontrava algumas semanas após todo o ocorrido. Não dava mais para seguir com a vida normalmente, não quando todo o momento no qual fechava os olhos as imagens daquela noite dominavam o pensamento dela por completo. Como fingir que nada havia ocorrido? Como esquecer daquele tiro? Como tirar da memória aquele rosto? Ela tentou ao máximo esquecer tudo, mas dessa vez parecia impossível deixar para lá todo ocorrido e isso apenas a amedrontava ainda mais.
Nos primeiros dias após sair da delegacia ela estava tão tensa por conta do medo correndo em suas veias que nem conseguiu parar para raciocinar sobre todo ocorrido, apenas ficava a todo instante procurando vestígios de alguém a seguindo, afinal havia entrado no programa de proteção a testemunha. Com medo de a polícia estar vasculhando sua vida a mesma checou todos seus e-mails, arquivos, documentos ou qualquer outro lugar no qual podia guardar algum vestígio capaz de prejudicar Bruno de qualquer forma possível. Agradeceu pelo fato das aulas ainda não terem voltado na faculdade, pois se Júlia estivesse no apartamento iria desconfiar de todas as atitudes um tanto quanto suspeitas de Isadora, como a mania de ficar alerta a qualquer barulho diferente vindo do corredor do apartamento. Uma semana após o ocorrido ela respirou fundo diversas vezes no sofá da sala antes de se levantar e ir para sua aula de boxe. Poder socar e descontar um pouco de toda sua frustação e seus problemas no rinque e nos sacos de areia foi um tanto quanto aliviante, por isso os 3 dias seguintes foram quase passados inteiramente socando e chutando um boneco de plástico. Ao voltar para casa no sábado à tarde ela sentia-se muito menos amedrontada e capaz de enfrentar a vida novamente, mas não apenas por causa do boxe, mas também pelo novo chip de celular no qual Bruno de algum modo havia a enviado naquele sábado à tarde dentro de uma caixa com novas luvas de treino. O fato de estar por perto de olho nela e preocupado com ela o tanto quando ela estava com ele foi o suficiente para a fazer seguir em frente, afinal não podia abandonar o barco tão facilmente. Isadora sabia que ele deveria ter descoberto sobre o programa de proteção a testemunha, por isso tinha sumido por todo aquele tempo e depois deu um jeito de a mandar aquele novo número. No instante no qual colocou o chip no celular o mesmo começou a tremer com diversas mensagens de Bruno. Conversaram por horas, mas não se ligaram, pois acharam perigoso demais afinal a polícia poderia já ter descoberto algo e grampeado o novo número de celular deles.
No domingo antes da chegada de Júlia, Isadora estava num intenso misto de apreensão e medo, poder falar com Bruno havia a ajudado muito a tirar várias coisas da mente, mas não haviam apagado outros terríveis medos. Quando Júlia chegou ao apartamento com o seu sempre brilhante cabelo ruivo, o rosto em formato de coração, o sorriso radiante, a baixa estatura e sua mania de não fechar a boca por nenhum instante Isadora sentiu-se aliviada ao notar que nada havia mudado apesar da distância entre as duas durante a breve férias de fim de ano. Por horas Júh havia contato todos os detalhes da viagem pela Espanha com Kodi seu namorado e assim sem perceber ajudando a amiga a esquecer por alguns instante sobre o ocorrido a pouco mais de uma semana atrás. Galvão a ouviu a pôr horas até as duas terminarem de devorar uma pizza e resolverem ir cada uma dormir em seu quarto.
Durante a primeira semana de aula Isadora não estava nada bem, mas agradeceu imensamente pelo fato de Briana e Kate estarem tão preocupadas em contar a novidades e planejar a festa que não foram capaz de notar nenhuma mudança, apesar de Galvão ter passado a semana toda no mais completo silêncio apenas concordando com tudo no qual as duas diziam sobre qualquer assunto. Isadora apenas andava com as duas exatamente pelo fato delas estarem tão preocupadas com elas mesmas que não sobrava tempo para mais nada, Isa odiava ter os outros se metendo na sua vida e principalmente querendo saber sobre o seu passado. Ao se mudar para Munique, no ano anterior, aos 21 anos para fazer finalmente sua 1º faculdade a única coisa na qual Isadora queria era poder ser uma folha em branco para todos, pois se ninguém conhecesse seu passado ela não precisaria mais lembrar-se dele a todo instante, por isso evitava pessoas curiosas e preferia andar com as egocêntricas, pois elas não tinham tempo nem disposição para lidar com as outras pessoas ao seu redor e o fato de poder andar com algumas pessoas sem ter de ficar falando sobre si era uma imensa vitória para ela. No começo do primeiro ano ela havia afastado de si todos aqueles capazes a trazer qualquer tipo de tormento para sua nova vida, com isso perderá a amizade de Sarah, mas ganhará a estabilidade e o direito de se resguardar novamente e no momento apenas isso importava de verdade.
Na terceira semana já cansada de ficar olhando a todo momento para trás quando andava para qualquer lugar, extremamente irritada por ter se deixado enganar com aquela mentira do policial e morrendo de saudade de Bruno, ela resolveu esquecer tudo e aceitou sair com algumas novas amigas da faculdade para se divertir e beber um pouco antes da terrível provas semestrais começarem. Precisava relaxar um pouco e tentar esquecer de tudo no qual havia passado, precisava tirar da mente as cenas da morte de Matheus o mais rápido possível e sabia o quanto 3 doses de tequila seriam por hora o remédio ideal para ajudá-la em seu processo de cura.
Era a primeira festa da faculdade desde a volta das aulas e todos iriam comparecer ao evento, principalmente pelo fato de ser uma das festas mais esperada do ano todo. Era um sábado e Isadora se encontrava sozinha em casa após voltar da academia, Júlia como sempre havia ido passar o final de semana em algum lugar com o namorado, ela estava tão exausta que no momento no qual Briana a ligou para confirmar o horário da carona a mesma pensou seriamente em passar o resto do dia em casa apenas vendo filmes e esperando ansiosa por talvez um telefonema de Bruno. Pelo breve instante no qual Briana ficava sem parar tagarelando no outro lado da linha sobre como havia demorado horas com Kate no shopping para achar uma roupa descente, Isa pensou seriamente em mil desculpas para não ir na festa, porém tinha gastado tanto tempo e energia ajudando suas amigas na organização da festa que parecia meio inútil nem ao mesmo se dar ao trabalho de ir lá checar tudo pronto.
_Então que horas passo ai para te pegar e depois irmos pegar a Kate na casa dos pais dela? – Perguntou Briana despertando Isadora que estava a uns bons minutos analisando seu reflexo nu no espelho. Havia passado tanto tempo na academia nas últimas semanas e o fato de mal ter tido fome, ou tempo para se alimentar, tinha deixado com o corpo deslumbrante. Galvão olhou-se mais uma vez no espelho antes de decidir que precisava colocar seu corpo dentro daquele microvestido preto no qual ganhará de Bruno no ano anterior, afinal assim como qualquer outra mulher eram raras ás vezes nas quais realmente se sentia tão orgulhosa de seu corpo.
_As 10:30h, pode ser? Agora tenho de ir tomar banho e dormir, nós vemos mais a noite – Respondeu ela antes de desligar o celular e resolver ficar mais alguns minutos no espelho orgulhosa com seu próprio corpo, naquele momento não duvidaria de nenhum dos exagerados elogios de seu namorado. Queria tanto Bruno ali a observando naquele momento.
Na hora combinada Isadora se encontrava radiante no seu vestidinho preto indefectível com os longos cabelos loiros dançando na breve brisa noturna, uma maquiagem forte e precisamente executada. Naquele momento ela não precisava de ninguém para a dizer o quão radiante estava, mas as cantadas na qual levará na rua e o queixo caído de Briana após ela entrar no carro não fizeram mal nenhum ao seu ego. Após pegarem Kate as 3 se dirigiram ao local da festa, uma balada no centro da cidade, ao entrar no lugar Galvão sentiu-se aliviada e orgulhosa ao mesmo tempo. O lugar estava lotado, a decoração em vermelho instigava a todos e a música animada não deixava quase ninguém fora da pista de dança. Enquanto as 3 andavam pelo o lugar para ver se estava tudo certo foram paradas por diversos caras, a maioria decidido a tomar para si a beleza estonteante de Kate, mas também se sentiriam muito satisfeitos se pudessem ficar com Briana ou Isadora. Kate naturalmente era excessivamente bonita, mas naquela noite nem mesmo uma miss seria capaz de instigar mais os desejos masculinos do que ela e seu vestido vermelho. Logo Briana e Kate foram para pista de dança, mas Isadora ainda sentia a dor muscular forte de uma semana de treino pesado, por isso resolverá ficar sentada no bar praticamente sozinha, pois mundo naquela noite preferia sacudir seus corpos na pista.
Isadora sentou-se no bar e pediu uma bebida e alguns minutos depois um bonito homem sentou-se ao seu lado apesar de ter outros milhares de bancos vazios. Ela sabia muito bem que logo ele iria abrir a boca, tentar puxar assunto, insistir em pagar uma bebida para ela e depois dela recusar mil vezes e ter de falar que tinha namorado outras 2 mil vezes o cara acabaria desistindo e voltaria para pista de dança atrás de outra mulher. Passados 5 minutos com o cara em silêncio ao seu lado contemplando a pista de dança ela começou a discretamente observá-lo de canto de olho. Era alto, no mínimo 1,90, corpulento, mas nada muito exagerado, com braços grandes e um peitoral no qual ela apostava ser um tanto quanto definido por debaixo da camisa xadrez larga, moreno com o cabelo levemente enrolado e totalmente bagunçado, um olhar enigmático, uma barba negra meio rala, uma boca carnuda um tanto quanto vermelha.
_Então minha bebida acabou – Disse ela depois de 20 minutos sentada ao lado do cara e tendo certeza de ter o notado a observando também te canto de olho. Todo aquele silêncio estranho a estava tirando do sério, afinal qual era a daquele cara?
_Você vai querer mesmo fazer isso? – Perguntou ele um tanto quanto sarcástico pela primeira vez a encarando com aqueles intensos olhos castanhos a fazendo se perguntar desde quando castanho podia ser uma cor tão bonita?
_O que você está querendo dizer? – Perguntou ela totalmente confusa, devia apenas ter se levantado e ido embora ao invés de abrir a boca e tentar conversar.
_Estava te olhando ali da pista de dança e você não parecia ser do tipo de garota desesperada. Pensei que você estava aqui só porque estava cansada de dançar e queria um pouco de paz e não porque estava esperando algum cara ficar te dando mole e enchendo sua paciência até você se mandar ou ele conseguir convencê-la como é sua melhor opção da noite! – Afirmou o misterioso e sarcástico homem antes de erguer o copo dela no ar sinalizando para o garçom trazer outra bebida.
_Eu vim aqui para ficar sozinha, não para esperar um babaca vim encher minha paciência, mas como sempre aparece um, então você chegou e ficou calado me olhando de rabo de olho durante os últimos no mínimo 20 minutos – Disse Isadora um tanto quanto ofendida, mas ao mesmo tempo intrigada com aquele jeito inesperado dele de ser e agir.
_Você é bonita, não do tipo de beleza no qual gosto, mas é bonita.
_Isso foi um elogio? Se foi obrigada. – Agradeceu ela não sabendo se mandava dali ou esperava para ver até onde aquela conversa inusitada poderia chegar.
_Disponha. Além do mais você deve ter gastado um bom tempo fazendo maquiagem e depois ainda se deu ao trabalho de vestir um vestido muito curto e justo, sem contar o enorme e sexy salto alto, sendo assim o mínimo no qual eu podia fazer era ter a dignidade de inflar o seu ego – Disse ele sério, mas depois de falar a surpreendendo com um enorme sorriso de covinhas. Aquela cena era ao mesmo tempo tão clichê e inesperada que Galvão não sabia como reagir, sendo assim acabou sem perceber soltando um riso abafado.
_Isso por acaso foi um cantada? Porque se foi eu tenho namorado e nem mesmo seu senso de humor, suas roupas despojadas tentando mostrar a todos que não sabe o quão sensual e bonito é ou seu sorriso de covinhas me faram cair nesse papo mole. Então melhor tentar com outra – Disse Galvão extremamente sincera tentando o deixar tão estupefato com a situação quanto ela estava. Afinal que tipo de conversa entre dois desconhecidos era aquela?
_Vai como calma, mocinha! – O alertou sorrindo junto com ela de toda situação — Primeiramente obrigado pelo comentário e por acabar com a minha farsa de fingir que não passei horas escolhendo essa roupa e de que naturalmente não sou arrogante e prepotente pelo fato de me orgulhar do meu corpo.
_Disponha
_Quanto sarcasmo embutido em uma única palavra, mocinha. Entretanto não estou dando em cima de você, eu apenas achei que você parecia ser uma garota legal e simpática e não mais uma desesperada por terminar a noite com um homem, por isso resolvi tentar me aproximar para conversar, mas no momento no qual sentei ao seu lado percebi o quão ridícula era essa ideia.
Isadora bufou cínica tentando fingir não estar se divertindo com toda aquela situação, mas o ambiente descontraído e leve já havia os absorvido por completo, por isso ele riu e mexeu os cabelos balançando a cabeça dele em desapontamento.
_E meus amigos me trouxeram para essa festa e estão tentando me arrumar de qualquer modo uma mulher, porque eles acham que se eu dormir com alguém hoje amanhã não irei resolver voltar com a minha namorada. Eles sempre fazem isso quando eu brigo com a Lauren.
_E alguma vez deu certo? – Perguntou Isadora antes de bebericar sua bebida.
_Já, mas eu sempre acabo voltando com a Lauren, então nem vale a pena ficar dormindo com outras mulheres se no final vou voltar com a minha namorada. Quando te vi toda bela aqui sozinha sabia que se eles me vissem conversando com você iriam se esquecer de mim por essa noite.
_Então todo esse papo descontraído não passa de um esquema para enganar seus amigos?
_Desculpa, mocinha. Eu sou um tanto quanto maligno, vou só ficar mais uns minutos aqui antes de te deixar em paz de vez ou antes de seu namorado aparecer e querer me bater.
_Com certeza ele iria te matar! – Afirmou ela honesta rindo de toda situação. Da onde aquele cara vinha para ser tão sincero e descontraído?
_Garotas loiras cheias de curvas como você sempre tem namorados possessivos – Relatou ele descontraído bebendo alguma bebida na qual ela nem havia o visto pedir. Desde quando caras tão bonitos podiam ser tão legais? Meu Deus, aonde aquele homem estivera durante este tempo todo?
_Você é sempre assim tão sincero? – Perguntou Isadora enquanto tirava seu salto alto de tão relaxada que estava com toda aquela conversa leve. Ela nem se lembrava a quanto tempo conseguira falar com o homem sem o notar a medindo ou desejando de cima abaixo.
_Não, na verdade eu não costumo ter conversas assim com ninguém, nem mesmo com a Lauren, mas você parece uma loira digna de confiança – Notou ele sorrindo como um pai orgulhoso o que a fez gargalhar alto.
_Obrigado?
_Sim, dessa vez isso foi um elogio mocinha. Aliás prazer, Thomas – Disse ele estendendo sua enorme mão.
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