Vidas

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Continuação do capitulo anterior

ELE

Ele olhou o relógio com desprezo, o sono ainda o dominava por inteiro

Levantou do sofá, viu sua mala posta, e lembrou-se da proposta, seguiu adiante nada importa

Foi à cozinha serviu-se de café, sentou na cadeira mais perto sua cabeça doía, ardia

Ouviu a porta se abrir seu amigo o olhou com tristeza, lembrou da chave ainda no pescoço, sorriu um sorriso desgostoso.

Caminhou atordoado, no bolso ainda o isqueiro, o desapego

Viu o porteiro, o aperto, subia as escadas desgastadas com o tempo, o olho ainda o condenava, desalento

Sentiu arder seu peito, tirou as chaves sem jeito e o apartamento ainda tinha seu cheiro que desespero na mesa o cigarro o cinzeiro.

Seguiu até a janela a violeta ainda bela. Na estante o cristal revoltou-se ardia ainda mais o peito que sofrimento.

A lagrima corria sobre seu rosto, e o grito o sufocando desatento a janela aperta e o vento frio das tardes de abril o congelando por inteiro, tirou o anel e o jogou na mesa, olhou tudo pela ultima vez, se desfez.

Sentiu que o sonho havia se desfeito e o seu pesadelo aceito.

Sobre outros olhos

Ele

Ele abriu os olhos relutantes, ardia e queimava

Sentia todo seu corpo imóvel, um desconforto

Viu flores, não sabia onde estava no fundo sabia onde estava, tentou levantar-se seu corpo ainda doía.

Quis colocar os pensamentos em ordem, latejava como sua cabeça latejava.

-Não faça esforço.

Ouviu uma voz amiga a dizer, nos teus olhos despeja conforto.

-Dr. Marcos.

Lentamente as lembranças voltavam à tona e com ela a dor infiltrando em seu peito.

Quis perguntar, mas só olhar já dizia tudo, tudo.

Os fechou, sua garganta fechou seu peito...

Ele saiu, sem rumo caminhou, não quis os lírios dos jardins, rejeitou o café o pão, saiu, no bolso ainda a chave.

Viu o apartamento, cruzou o porteiro, o lamento, subiu as escadas, desgastadas, à porta.

Relutando entrou, não queria estar lá.

Na mesa ainda o cigarro, isqueiro a xícara do café preto, seus olhos ardia.

Na sala o cheiro, o seu cheiro.

Ardia, ardia tudo ali ardia, doía.

Não suportou gritou, se jogou, a estante balançou e o cristal se quebrou.

O sangue fresco em sua mão fazia as lembranças irem e virem de sua mente, ainda o desejo ardente

Ele se olhou no espelho e viu as lagrima rolarem.

Ele não se viu, ele não sentiu.

Foi à cozinha a dor queimando, ardendo, a dor batendo, ainda latente.

Jogou o anel na mesa e chorou se quebrou.

Sentiu que o sonho acabou, e que seu pesadelo apenas começou.