Vida, vida, vida
5 Qual é a graça na vida desbotada?

Organizando as roupas que havia pedido para Martino comprar para ela, Regina se preparava para sair daquele lugar. Os dias que havia passado ali, os cuidados da equipe do hospital e a atenção oferecida por Martino, tinha formado uma redoma poderosa para sua recuperação.
Em sua alma, um pequeno incômodo surtia o mesmo efeito de um espinho em sua carne. Aquela voz suave que tinha sido ouvida naquela noite, ainda permanecia latente em seu coração. Como gostaria de saber quem a havia visitado naquele momento!
— Quer ir embora agora? O médico já liberou você.
— Eu não gostaria de voltar para minha casa, Martino. Gostaria de ficar um período afastada de todos a quem conheço.
— Sua família não ficará preocupada com você?
— Disse a ele que decidi ter um tempo sozinha. Emma cuidará bem de Henry e isso me tranquiliza.
Regina levanta os olhos e depara-se com aquele olhar vulpino em tom de mel, olhando-a com o mais absoluto carinho e paciência. Aquele homem existia mesmo?
— Estou com medo dos efeitos da quimioterapia, Martino.
— Por que ter medo? Nem começaram as sessões! Além disso, você é forte e quando perder essa força, pode experimentar pedir para Deus. ELE tem muita força para ceder um pouquinho para seus dias...
— Vai me falar de novo de Deus?
— Por que tanta relutância? Lembre-se de que Deus sem você, continua sendo Deus. Mas você sem Deus, não é nada. – Martino apanha a bolsa e indica a cadeira de rodas que teria de usar para sair do quarto. Sorri sem exibir os dentes.
Regina dá uma última olhada naquele quarto e sente-se aliviada em poder fugir dali. No corredor, ela é cumprimentada pelos atendentes e enfermeiros, retribuindo com agradecimentos. Quando a porta do elevador é aberta, um homem grande, de rosto feroz, trajando roupas escuras sai e passa pelo casal.
— ELE continuará a seu lado, Regina. Busque e será curada. – ele diz e se afasta do casal, continuando seu trajeto.
— O que? — tentando virar-se para ver melhor o desconhecido, Regina quase cai da cadeira, sendo amparada pelas mãos fortes de Martino. — Aquele homem falou comigo, Martino! Vamos atrás dele!
Ajoelhado diante da cadeira, Martino a impede de levantar-se.
— Shhh! Regina, acalme-se! – ele espalma as mãos sobre as coxas dela. – O homem passou silencioso. Não disse nada.
— Ele falou meu nome! Disse que ele continuará comigo e quer que eu busque a minha cura!
— Quem continuará com você?
— Eu não sei! Não sei de quem ele falou! O que está acontecendo?
Martino atrevidamente toca o rosto bonito de Regina, mas de maneira tão carinhosa que consegue fazer toda a tensão ser dissipada.
— Seu corpo sofreu uma violência muito poderosa, querida. Seu organismo está sob o efeito de muitas drogas e isso afeta seu emocional. Você ficou fragilizada e esteve suscetível às influências externas. Suas defesas ficaram baixas e você está impressionável.
Horas depois, Regina é apresentada a um quarto simples, embora muito aconchegante. Limpo e com uma cama grande junto à janela do cômodo. Martino coloca a bolsa com as roupas, sobre a cama e vai abrir as cortinas de tecido fino.
— Esta casa pertenceu a minha avó. Depois da morte dela, meus tios decidiram que iriam vender e eu consegui comprar. Tudo está do jeito que ela sempre manteve. Pode ficar o tempo que desejar, mas com a condição de que conversará com sua família todos os dias.
Um sorriso involuntário surge nos lábios de Regina.
— Semana que vem, começaremos as sessões de quimioterapia. Serão mais de dez sessões. E se meus cabelos caírem? E se eu ficar fraca demais? E se minha beleza for destruída? – ela se senta na cama e desaba em lágrimas.
— Vamos, menina! Milhares de pessoas passam por isso todos os anos! Há uma infinidade de maneiras para amenizar o sofrimento e tudo o que precisa fazer, é conhecer essas maneiras. – Martino se senta ao lado dela na cama e envolve seus ombros num abraço. – Não sofra antes do acontecimento.
— Mas as consequências...
— Enfrentaremos juntos como dois amigos inseparáveis. Casos seus cabelos caiam, poderemos conseguir lindas próteses capilares ou mesmo compraremos belíssimos lenços. Até pode fazer uma tatuagem na cabeça! Caso fique fraca, pedirei para a minha vizinha que faça os mais deliciosos petiscos para que se alimente. E se sua beleza for afetada, pagarei sessões todos os dias em um salão de estética. – ele acaricia os cabelos dela. – Para tudo há solução, exceto para a morte.
— E se eu morrer?
— Sugiro que antes disso acontecer, prepare a sua alma para o que irá encontrar do lado de lá.
Regina se deita nas coxas de Martino e fica quietinha ali por bastante tempo. Apenas sentindo a paz que os toques daquele quase desconhecido exerciam sobre ela. As mãos dele eram pesadas, mas se tornaram suaves e macias como algodão, quando entravam em contato com sua pele. Por segundos, ela sente vergonha por ter se esquecido de seu namorado Robin. Como ele estaria lidando com seus filhos sem a presença dela? O que ele estaria pensando de sua decisão de afastamento súbito? Por que ele não havia feito um telefonema pelo menos? Estaria ofendido ou magoado? Bom, o que importava? Naquele momento, somente o fantasma do câncer e a assombração da quimioterapia estavam sendo mais valiosos do que os sentimentos de um namorado melindrado.
Ela se senta na cama e encara Martino. Ele pisca pesadamente e sorri sem exibir os dentes.
— Poderia dormir um pouco aqui comigo?
— Sem problemas. Vou apanhar alguns cobertores. – ele se levanta da cama sob os olhares atentos de Regina. – Não sei quanto a você, mas adoro dormir pela tarde com a janela aberta.
— Gostoso é fazer amor pela tarde. – ela sorri.
— Sexo é sempre bom, quando feito da maneira convencional e sem ardilações pecaminosas. O sexo é algo abençoado entre o casal e é uma das formas mais puras de estar próximo a Deus.
O rosto de Regina se torna alterado.
— Como é?
— Quando o sexo é feito sem bizarrices ou invencionices visando apenas a luxúria, é um ato abençoado sim. Por que o espanto?
— Nunca pensei sob este ângulo. Eu preciso conversar mais com você sobre essa sua maneira nova de ver o mundo. Parece ser bem interessante.
Martino estende os cobertores e arruma os travesseiros. Ajuda Regina a retirar os sapatos e a acomoda na cama, deitando-se ao lado dela, logo em seguida.
— No hospital eu me senti tão protegida, como se fosse a Polegarzinha e estivesse na palma da mão de minha mãe.
— Talvez você estivesse mesmo deitada nas palmas de mãos. Mas não de sua mãe. Talvez as mãos pertencessem a alguém muito maior e que resolveu tocar em sua vida. Alguém que resolveu voltar os olhos em sua direção.
Regina não responde. Apenas se aninha nos braços do homem e adormece, sentindo-se envolvida por uma imensa rede protetora.
— E seu carro?
— Estou usando o seu, enquanto o consertam. Resolvi simplificar tudo.
Era madrugada quando o som de passos faz com que Regina desperte. A princípio, pensa que Martino havia se levantado e saído da cama, mas o movimento do peito dele que subia e descia, informa que ele continuava adormecido sobre a cama. Regina se senta na cama e continua ouvindo o som no corredor lá fora.
Saindo da cama e sem sentir o mínimo da presença do medo, ela abre a porta do quarto e mesmo o corredor estando escuro, consegue ver a silhueta de um homem muito grande, descendo a escada para a sala principal. Sem hesitar, faz o mesmo trajeto que o desconhecido e não teme o que pode encontrar.
Na sala, de costas para a janela e de frente para a escada que subia para os quartos, o homem esperava por Regina. Era grande e poderia ser perfeitamente um gladiador da Roma antiga, pelo seu porte. Seu rosto estava protegido pela semi escuridão da sala e ele parecia ser um homem comum.
— Você ficará curada, Regina.
— Quem é você? De onde me conhece?
— Você ficará curada, filha. – ele vira as costas para ela e não se move mais.
Regina se aproxima do desconhecido e apoia sua mão espalmada em seu ombro e quando o obriga a vira-se para encará-la, ela desperta sobressaltada e percebe que ainda está na cama, aconchegada nos braços de Martino.
— O que houve? Você está bem?
— Eu creio...que tive...um sonho.
— Quer que eu pegue um copo com água?
Rapidamente, Regina segura o braço de Martino e impede que ele saia da cama. Olha assustada na direção da porta e seu olhar diz como está sua alma.
— Você está bem, mesmo?
— Poderia me levar para a casa, amanhã?
Passava do meio dia, quando o carro de Regina é estacionado em frente a sua casa. Martino sai do lado motorista e dá a volta, abrindo a porta para sua valiosa passageira. Auxilia sua saída, apanha sua bolsa, uma mochila grande e a conduz para a direção da varanda da mansão. Um telefonema dado horas antes avisava a família de sua chegada e da notificação a todos sobre uma importante notícia.
Abrindo a porta com propriedade, Martino permite que Regina entre primeiro e receba todos os olhares de seus familiares, preocupados com o teor do telefonema. Ao mesmo tempo, os olhares se voltam para o desconhecido que vinha carregando a bolsa pessoal e uma mochila, fechando a porta como se estivesse em casa.
— Olá, família! – ela sorri e retira os óculos escuros.
Henry é o primeiro a vir abraçá-la e como sempre fazia, a envolve com muito cuidado, como se ela fosse quebrar. Era um velho hábito seu.
O filho de Robin salta do sofá e avança correndo na direção de Regina e antes que pudesse saltar em seus braços, é impedido pela mão grande de Martino, que a posiciona entre a criança e o ventre de Regina. O menino freia e fica assustado, olhando o desconhecido.
— O que está havendo? Quem é esse sujeito? – Robin não contém a súbita crise de ciúmes.
Emma se aproxima de Regina e com um sorriso tímido, tenta tirar respostas de sua amiga fujona.
— Este é Martino, meu novo amigo! Emma é a mãe biológica de Henry. Este é meu filho Henry. – Regina sorri e depois aponta para Robin. – Aquele é Robin, pai deste menino lindo!
— O que está acontecendo, Regina? – a voz de Robin sobe uma nota.
— Abaixe o seu tom de voz. Você não está falando com sua filha. – Martino se manifesta possessivamente.
— Quem é esse sujeito? Onde você esteve em todos esses dias? Estarei errado ou você me traiu e casou-se com esse cara? Por que ele protegeu sua barriga? Está esperando um filho dele?
Todos olham na mesma direção e imediatamente Robin percebe que fez perguntas impertinentes demais.
Regina se senta amparada por Martino e a preocupação surge estampada nos rostos.
— O que houve, mãe?
— Eu passei por uma pequena cirurgia.
Emma se senta ao lado da amiga e segura sua mão.
— Por que teve de passar por isso sozinha?
— Não estive sozinha. Martino esteve comigo o tempo todo. Ele me socorreu quando senti as dores e estávamos no parque.
— O que faziam no parque? – Robin não contém a pergunta tola.
— Por que ela passou mal? Esta é a pergunta correta. – Henry se mostra maduro. Segura a outra mão da mãe. – O que sentiu?
— Bom, eu já iria ser submetida a uma cirurgia nas próximas semanas. Apenas foi adiantada.
— E o que este sujeito tem a ver com isso?
— Por que não conta tudo a eles, querida? – Martino coloca os óculos no decote da camiseta e cruza os braços diante do peito.
— Querida? – Robin não suporta a força de seu ciúme. – Você sai do serviço no meio do dia, deixa todos de nossa família sem notícias; abandona meus filhos e eu; apenas diz que precisa ficar fora da cidade a agora retorna casada com este cara! Já estava grávida dele, mesmo estando comigo? Por isso ele impediu meu filho de abraçá-la, protegendo sua barriga, Regina?
A reação do tranquilo Robin toma a todos de assalto, exceto por Martino, que o escara como se fosse a reação de um insano. Olha para Robin como se estivessem nascendo tentáculos ao lado de seus braços.
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