Vida que segue
5 Lança Perfume. Rita Lee
Notas iniciais
M: Quer um café Nanda?
N: Aceito. Vou aproveitar que o Francisco está em segurança na casa do bff dele para me esticar um pouquinho antes de voltar. Agora que eu sou uma mulher séria e, portanto, cada vez mais chata, daí essas saídas estão raras até para mim.
Nanda fala acompanhando Manu até a cozinha.
M: Então quer dizer que a senhorita agora finalmente me entende?
N: Óbvio que não, pois eu estou assim de cansaço, você é chata de natureza.
M: Vou já desistir desse teu café... Manu fala rindo.
N: Mas aproveitando que está só nós duas, quero dizer que amei a Juliana e, principalmente, amei saber que você estava bem cuidada em Florianópolis.
M: Ela é um barato né? Eu amo a Maria e o trabalho dela, você sabe, mas estou empolgada de ter a Juliana tanto no meu time profissional quanto na minha vida pessoal.
N: E por lembrar que você é chefe dela, eu guardei umas perguntinhas para quando tivéssemos a sós.
M: Do que?
N: Ora do que Manuela? Desses casos e acasos de Floripa. Estou morrendo de curiosidade de uma coisa que só uma pessoa muito sem noção como eu tem coragem de tentar arrancar de você.
Me fala, como foi ter uma relação casual? Pergunto porque eu te conheci virgem santa, depois casada com meu irmão e depois de namoro de porta com o Gabriel. Essa Manu aí de Floripa é novidade para mim.
M: Ah Nanda, vou me abrir com você porque realmente é uma história muito louca que acabei não dividindo com ninguém.
Foi muito estranho ir para cama com outro homem depois do Rodrigo. Eu me senti tão mal, tão mal... tinha a sensação constante de estar traindo-o. Acho que foi por isso que continuei dando atenção para o Rafa, e nossos encontros eram cada vez mais constantes, pois queria superar essa barreira que eu sabia que não fazia o menor sentido, principalmente depois do Rodrigo me dizer que tinha voltado com a Ana.
N: Mas foi ruim assim? O sexo?
M: Não! Nem um pouco! Aliás, pelo contrário. Até aquele momento tinha sido a melhor experiência sexual da minha vida. O problema era que eu me sentia culpada depois, quando a respiração voltava ao normal e eu olhava para ele e caia a ficha.
Aliás, eu fui percebendo que enquanto o sexo em si fosse o foco, eu estava completamente livre. Tanto do drama que ficou aqui em Porto Alegre, quanto de mim mesma. Da minha versão super adulta, responsável, mãe, chefe, etc.
N: Peraí que você não vai só mencionar essa nota de rodapé que foi o melhor sexo da sua vida.
Longe de mim investigar o talento do meu maninho na cama, mas pelo visto era uma bela merda né, já que entre duas pessoas ele ficou no segundo lugar...
M: Na verdade, segundo lugar de três.
N: Não estou contando o Gabriel, porque veio depois, apesar que não ia chutar ele por último
M: Não estou colocando o Gabriel nessa lista.
N: Manuzinha Manuzinha, teve mais quem nesse rolê? Você está começando a me chocar.
M: Na verdade não é o que você está pensando. Não dormi com mais ninguém em Floripa, mas acho que você está pensando que o Rodrigo foi meu primeiro, mas não é o caso.
N: Mentira! Quem foi o desbravador desse mar?
M: O André, lembra? Meu namorado quando estava no ensino médio.
N: Ahh lembro sim que você tinha um rapazinho grudado em você no terceiro ano. Mas achei que fosse só amiguinho. Nem imaginava você iniciando os trabalhos naquela época. Nanda fala em tom de brincadeira e faz Manu rir.
M: Pois é... ele foi fazer faculdade no Rio e daí meio que a gente acelerou o passo para rolar. Acho que para ele era para não chegar virgem lá e para mim acho que era porque nunca pensei que alguém pudesse se interessar por mim de novo e não queria deixar de experimentar isso.
N: Nossa Manu, realmente a sua autoestima merece os mais variados estudos e anos de terapia. Mesmo quando você vestia aquela fantasia de patinho feio, você sempre foi linda, simpática, doce e ainda por cima era capaz de deixar qualquer pessoa enfeitiçada com um mero brigadeiro.
M: Bom... brigada Nanda, mas nunca foi bem assim para mim. De qualquer forma o André viu algo que interessou e foi legal ter tido essa experiência com ele. Chegamos até a nos cruzarmos de novo quando eu já morava em Gramado, antes de me envolver com o Rodrigo.
N: Ahhh é? E rolou um remember?
M: Pior que rolou.
N: Manuela, Manuela...
M: Foi legal. Acredito que ele já tinha bem mais experiência e daí foi mais interessante para mim...
N: Entendi... você descobriu que o falatório todo tinha razão de existir e não era só uma experiência dolorida e desconfortável.
As duas riem quando Manu concorda.
N: Mas então, voltando ao comparativo infeliz do meu irmão e Rafael.
M: Ai Nanda, estamos falando do Rodrigo, não te incomoda?
N: Considerando que não imagino você tendo esse nível de conversa com a Juliana por enquanto, o fato da tua outra opção ser a Ana, portanto sem comentários, e o fato que a minha curiosidade supera meu desconforto, vou fingir que o Rodrigo é um ex aleatório seu, sem nenhum laço consanguíneo comigo. Desembucha. Ele era tão ruim assim?
M: Nanda, não é isso. Não era ruim com o Rodrigo. Só era sempre calmo, cuidadoso, carinhoso...
N: Peraí que peguei no sono com essa descrição de sexo.
M: É sério. Não era ruim porque eu sempre chegava onde tinha que chegar e sei que ele também, mas quando transei com o Rafa, entendi que dava para ser outra coisa também. O Rafa me queria, tirava minha roupa com vontade, me virava na cama, tocava e beijava o meu corpo todo.... era uma ebulição constante.
N: Ou seja, você descobriu uma palavra chamada tesão.
M: É, acho que foi isso. Essa energia toda não existia na minha intimidade com o Rodrigo. A gente se gostava, mas hoje percebo que não tinha desejo. No meu caso até sei que tinha da minha parte, mas eu tinha vergonha. Ele tinha a iniciativa de me procurar, mas era uma coisa muito respeitosa, meio que ele sempre estava pedindo autorização para não me assustar. No início, mesmo sabendo que não tinha como ele não ter percebido, tive até coragem de perguntar se ele sabia que não era o meu primeiro. Queria que ele entendesse que eu não ia quebrar.
Ele ficou constrangido e disse que percebeu, e acho que deu uma melhorada. Mas a real é que com o tempo, até mesmo depois que tivemos mais privacidade, não sabíamos o que fazer para mudar como nos habituamos a fazer amor. No caso dele, acho que ele nunca me viu muito mulher...
N: Como não te viu mulher Manu? Você era literalmente mulher dele.
M: Eu sei, mas era tipo um resquício de quando morávamos em Gramado com a vovó e começamos a nos envolver. Sexo era sempre programado, com a rotina da Julia organizada para termos privacidade, era sempre baixinho para não alertar ninguém. Nem grana para motel a gente tinha e quando íamos não era natural para nós dois. No máximo transávamos no carro quando eu não ficava encanada e ele estava em algum estado de desespero para insistir, pois sabia que eu morria de medo de sermos pegos.
N: Entendi.
Que pena né? Sexo com vinte e poucos anos, com amor ainda por cima, deveria ser uma coisa inebriante. Pelo menos naquela época você não tinha muita coisa para comparar. Tipo um Dj, que com certeza levou o ofício para jogo. Rodrigo estaria encrencado se você conhecesse os talentos dos dedos de um profissional antes de deitar com ele... Nanda fala com risada.
M: Eu tinha certeza que essa piada vinha e você não decepcionou, então só por isso eu vou confirmar para você que sim. O Rafa tocava como ninguém e eu só descobri o quanto esse tipo de música era boa, em Florianópolis.
As duas caem na gargalhada.
N: Mas, falando sério, se o sexo era o melhor da tua vida com o tal do Rafa, por que isso não foi para frente? Pelo que a Juliana falou ele era bacana, te tratava super bem, tinha um trabalho legal, bonito e te satisfazia na cama. Por que não engrenou?
M: Na verdade acho que nem passou pela nossa cabeça um relacionamento real.
Nossa dinâmica era muito clara. Quando eu tava afim, a gente se encontrava na boate, bebia um pouco, dançava até as coisas esquentarem, trocava uma ideia sobre música, filme, ou qualquer banalidade para ocupar o ritual de ida até um dos nossos quartos e transava até cansar. Era um ciclo confortável e funcionou bem pra gente porque sabíamos que o meu coração estava fechado para balanço e acho que ele estava longe de querer compromisso.
N: Basicamente um PA, então.
M: O que seria um PA?
N: Quando eu estou esquecendo que você é pura, vem uma pergunta dessa. Pau amigo? Uma versão mais casual de amizade colorida.
M: É, acho que no fim foi isso. Eu curti muito, não vou negar. Mas tinha certeza que não era uma questão de ter relacionamento. Ele resolveu meu problema de corpo, pele, mas eu continuava amargurada no coração.
N: Você acabou guardando essa ficha para o Gabriel né? Confesso que mesmo contra meus interesses pessoais de te ter como cunhada, eu estava torcendo por ele.
M: Ah.. o Gabriel foi outra coisa. Estava em outro momento quando ele me achou. Eu tinha com ele uma amizade real. Tinha interesse em ver ele, conversar com ele, saber da vida dele.
N: Dar para ele...
M: Hahahahaha.. isso também. Até mais do que com o Rafael.
Se eu descobri o que era tesão em Floripa, não sei nem explicar o que eu descobri com o Gabriel.
N: Puts... maninho segue despencando na lista de performance. Pelo visto só ganhou do virgem.
Manu empurra Nanda de leve pela piadinha.
M: É diferente, afinal o Rodrigo acaba tendo vantagem se eu for considerar que foi o único que transei com amor...
N: Não estamos considerando. Estamos julgando por quantidade e qualidade de orgasmos e tempo de atividade contínua.
Manu ri e faz o comentário que pega Nanda de surpresa:
M: Se eu for fria nesse nível então, diria que o Gabriel está em outra competição.
Nunca pensei na vida que pudesse existir sexo como era com ele.
Como tinha sentimento, apesar de não ser propriamente amor, acabava tendo uma camada extra do que rolava com o Rafa, mas mais do que isso, ele realmente sabia o que estava fazendo. E era forte, seguro, e se comunicava comigo de um jeito que eu nunca considerei, principalmente na hora H.
N: Era do tipo falador então?
M: Não exatamente. Era do tipo interessado.
N: Como assim?
M:Ele me incentivava a falar o que queria, o que me dava mais prazer, colocava minha mão na mão ou na cabeça dele e falava para eu guiar, me perguntava se eu gostava mais de um jeito ou de outro, posicionava a gente na frente de um espelho para aprendermos um com o corpo do outro e além de tudo isso, era um gostoso.
Você não tem ideia do corpo dele, da força, dos braços, do jeito que ele pegava... Parecia que ele estava no deserto e eu era um copo de água no qual ele queria mergulhar.
N: Melhor parar por aí porque eu já tô ficando nervosa com tanta informação e sou capaz de ressuscitar qualquer PA perdido na minha agenda do celular.
M: Deveria. Se for como Gabriel, recomendo.
N: E você não sente falta?
M: Sinto. Muita. Mas mais do que o sexo, sinto falta da parceria dele.
N: Vocês se falaram de novo?
M: Algumas vezes. Quando tinha alguma desculpa a gente se ligava. Mas na real eu precisava deixar ele livre de mim. Ele claramente queria construir algo que eu não estava pronta. Daí deixei as coisas esfriarem com o tempo ao ponto que hoje, não sobrou nem amizade.
Acho que enquanto estávamos juntos, cheguei perto de amar ele e diria que se não fosse a reaproximação do Rodrigo bagunçando comigo depois da cirurgia, eu teria começado a abrir meu coração de verdade. Deixar que 1+1 fosse 2 sabe?
N: Entendo.... tive isso com o João recentemente, mas quando senti as borboletas no estômago, quis logo encerrar. Esse espaço ainda está reservado para o Lui.
As amigas se olham e se entendem.
M: Sei como é Nanda. Mas uma hora você vai ter que deixar acontecer. Eu freei com o Gabriel por uma escolha dele, mas não sei como estaríamos se ele tivesse deixado a vida levar. Vai que hoje eu estava em outro lugar?
N: Bom, vou considerar então o João um test drive.. quem sabe o próximo...
N: Mas vem cá, tem outra coisa que me deixou encucada com o que a Juliana falou.
Como é essa história do tal do irmão da Mariana, dona do hotel? Eduardo né?
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