Vida e Morte: Paralelos De Charlotte.
1 Sentindo-se viva.
Notas iniciais
Gotículas de água caiam sobre a vidraça de vidro fosco, ventos sopravam no exterior impulsionando os galhos da árvore alta a fazer um ruído incessante. Ela não tinha medo, não tinha expressão, não tinha voz. Da sua cama, escrevia no seu diário, com a iluminação de um abajur importado — presente da sua vó que morava no exterior — No interior do seu quarto, seus paradigmas atormentavam-a como fantasmas, como névoas que vinham e desapareciam com o vento... seus anseios, já não existiam mais, haviam morrido com o tempo, com as frustrações, com as tempestades incessantes quando à do lado de fora da sua janela.
- Filha, o jantar está pronto — Exclamou sua mãe. — Charlotte! Desça já desse quarto! Saia desse mundo! Acorde para a vida filha. — 20 minutos após, toda sua família havia jantado, sem a sua presença, evidentemente.
- Charlotte! — Três batidas na porta, antes da maçaneta se mover e passos firmes de salto alto fazerem um "toc-toc" que soou aos seu ouvidos como berros de uma criança.
- Outra vez, Charlotte? — A garota apenas seguiu com os olhos sua mãe sentar-se na cama ao seu lado. — Tira essa roupa preta, corta esses cabelos longos, acorde minha filha... relacione-se com pessoas, seja humana.
Aquilo irritou-a profundamente. Ela era humana, mais do que os outros, a reflexão era seu alimento, a poesia seu aconchego e o seu quarto o seu mundo. Pensou em responder, entretanto havia jurado para si que não iria entrar em discussão, não perderia seu tempo. Não valia a pena.
- Charlotte! Estou falando com você! Acaso passou cola nos lábios?
Ela não entenderia — Pensou — sua insensibilidade supera os limites. Olhou para frente, vendo as cortinas balançarem, sentiu a brisa suave lhe dar uma sensação de alívio. Ela só queria agora ficar sozinha.
- Irei te internar, garota! Você tem sérios problemas, irei contratar uma psicóloga, psiquiatra, irei colocar camisetas de força... Charlotte! — Nem os gritos fizeram-a reagir. Calada estava, muda se tornou.
A porta se bateu e ela voltou à escrever. Escreveu sobre a experiência do dia.
"Estava no trem, voltava do colégio... e vi uma cena que me tirou do sério, uma garota, cabelos longos e ondulados, rosto coberto... não deu para ver muito, pela velocidade do trem, mas mantinha a face cabisbaixa e ao correr para a vidraça olhando para trás percebi que vestia trapos pretos. Poderia ter uma mansão, cantar uma canção exaltando o seu pelas suas riquezas... mas na sua alma havia um vão, uma escuridão... uma eterna tristeza — 4 de outubro de 2011"
Fechou o diário e colocou-o sobre seu colo, em seguida ouviu gritos, eram seus pais, como sempre que mantinham um casamento por interesses sociais. Charlotte refletiu sobre o quanto vão e inútil é o dinheiro, corrompe a mais pura alma com sangue carmesim — pensou -
Levantou-se e foi até a janela. Abriu-a e percebeu que a chuva havia cessado. Sentou-se, as pernas para fora e observou a cidade do segundo andar da sua casa. Ao olhar para baixo, viu o menino que gostava, encontrando-se com uma garota normal. Charlotte então percebeu o quanto inútil era... o quanto irreal se mostrava, o quanto a fantasia entrava em si... porém não sentiu tristeza, não sentiu ódio, ira ou qualquer outro sentimento. Chalotte apenas sentiu o nada, o nada que sempre a acompanhava, o nada que substituia os sentimentos, simplesmente nada.
Olhou no relógio 00:03 hs , estava tarde, precisava dormir. Charlotte não tinha sono, não tinha vontades de se deitar naquela imensa cama que mais parecia um castelo de uma princesa. Outro dia se doparia com os remédios tarja preta que havia roubado da sua mãe. Outro dia apagaria, outro dia não saberia o que era sono.
Amanheceu, o sol a acordou. Esquecera de fechar as cortinas. Se levantou, colocou sua camiseta do Nightwish e seus colares e braceletes, jogou os cabelos longos e lisos para trás e os amarrou em um coque. Pegou a mochila jogada no canto do quarto e desceu as escadas, sem tomar café. Passou em frente uma padaria e comprou um bolo de chocolate, no caminho encontrou com sua vizinha que levava a filha adolescente à escola. Charlotte nem inveja sentiu... apenas deu de ombros, seus pais sempre foram ocupados demais para ela, isso jamais mudaria.
Chalotte andou alguns quarteirões em direção à linha de trem. Se deparou com uma senhora que tinha uma caneca na mão, poucas esmolas no recipiente, Charlotte sentiu uma lágrima descer, sentiu uma pontinha de angústia e imediatamente reprimiu o sentimento. Não sentir torna as coisas mais fáceis.
Ao descer as escadas da estação, encontrou uma mulher da vida que olhou com luxúria à ela, Charlotte poderia sentir nojo, mas ignorou. Não sentir torna as coisas mais fáceis.
A viagem transcorreu bem, porém ao chegar na escola não conseguiu se concentrar nas aulas e foi advertida... dia comum para Charlotte, então voltou para casa. Antes de chegar, a chuva deu o ar da graça novamente e pela primeira vez Charlotte se sentiu viva... as gotas geladas tocavam violentamente seu corpo fazendo-a tremer. Charlotte caiu de joelhos e chorou... sem entender o porquê, mas sentiu-se melhor. Charlotte percebeu o quanto entorpecida estava, confortavelmente entorpecida... mas o confortável a incomodava. A chuva a fez se sentir viva, perguntava-se o porque... mas não conseguia entender. De repente, uma súbita raiva lhe veio e descobriu-se tendo sentimentos, procurou algo e encontrou uma pedra pontiaguda. Chorando, a fixou sobre o pulso e com força a puxou, rasgando sua pele. Charlotte sentiu dor e então sorriu.
Charlotte percebeu o sorriso e entendeu que se sentia feliz, seus paradigmas não conseguiram entender porque, mas Charlotte sentia adrenalida... viu o sangue escorrendo no asfalto e sentiu medo. Continuou sorrindo, sorrindo porque sentia o sangue correndo em suas veias, Charlotte achou lindo, humano, real... então sua vista ficou turva. Charlotte pela primeira vez em sua vida se permitiu sentir e de tanto sentir, afundou-se na escuridão. O sangue continuou a escorrer e Charlotte o passava sobre seu corpo sorrindo loucamente. A rua estava deserta, todos acomodados em suas casas, mas Charlotte se sentia viva no meio do asfalto com o pulso escorrendo sangue e a chuva o lavando. De repente os lábios de Charlotte tremeram e um prazer inundou seu corpo. Um formigamento, uma sensação de paz, um ruído estranho, a perda da audição... Charlotte se entregou, aquela era a sensação mais incrível, a sensação de o ar faltar-lhe no pulmão, do coração acelerar, do corpo tremer...
Charlotte pensou e se entregou à conclusão de que se ela não se entregasse, esse momento não seria vivido completamente. Charlotte sabia sobre diante o que estava, sabia o que viria depois disso, mas decidiu entregar-se. Se deitou no chão e esperou que a paz viesse... que a escuridão a encontrasse e que o sono profundo a abraçasse.
E aconteceu... o último sopro saiu dos seus pulmões e seu corpo estirado era lavado pela chuva. Na última imagem via-se o sangue escorrendo ainda do pulso e os cabelos grudados em sua face. Charlotte agora definitivamente não sentia, mas havia desfrutado de uma grande sensação.... sentir se viva e finalizou sentindo a melhor sensação de todas: o sono profundo, a paz eterna, a morte.
Fale com o autor