Vida de Flor

Somos todos flores no jardim da vida. O dia ensolarado era ótimo para os passeios pela orla, saíamos da aula desesperadas por liberdade, jogando as mochilas nos armários enfileirados e saindo às pressas para a rua. Estava calor, não muito mais quente que o normal, e a brisa fresquinha vinda do mar nos deixava confortável. Era nossa melhor diversão nas terças-feiras, fugir um pouco das aulas e caminhar ouvindo o som das ondas, ignorar completamente as responsabilidades e criar o nosso momento — era proibido comentar sobre trabalhos, provas, compromissos, qualquer coisa chata, tudo era banido dos nossos momentos, apenas assuntos alegres eram permitidos. Aqueles pedaços de tempo pertenciam apenas a nós duas, Renata e eu, e nenhuma de nós ousava quebrar aquela rotina. Eu caminhava ao lado dela balbuciando sobre minhas estratégias para dominar o mundo, e ela ria sabendo sempre que eu estava brincando.

— Alice, você é fofa demais pra dominar o mundo.

— Mas ser fofa é a minha arma principal! Eu consigo tudo o que quiser com esse rostinho.

— Eu não acho que fofura e um rostinho bonito consigam o mundo por você. Você ia precisar ser inteligente pra isso.

— Ei! Eu sou inteligente. Não tanto quanto você, eu sei, mas você não pode dizer que eu não sou.

— Precisa ser MAIS inteligente. Mais até do que eu. — Renata olhava para o mar, parecia sempre buscar alguma coisa pelas pequenas ondas da baía. — Eu gostei do que fez no seu cabelo. — Ela dizia cortando completamente o assunto. — Acho que deixou você mais fofinha.

Eu parava para pensar em como estava o meu penteado. Os cachinhos ruivos se enrolavam ao lado de meu rosto em duas mechas, uma de cada lado, passando em frente as orelhas enquanto o restante do cabelo se pendurava em um coque, com fios descontrolados saltitando pelos lados.

— Eu... Eu só prendi ele. — Disse com medo de que o penteado estivesse feio.

— Eu gostei, devia prender ele assim mais vezes.

— Eu não sou boa em fazer penteados diferentes. Às vezes olho o cabelo de umas pessoas e fico com tanta inveja... Acho muito lindo quem tem cabelo colorido, tipo a Bia lá da turma.

— Ah sim... — Renata se virava para cima, parecia desapontada. Só então eu notava o erro bobo que tinha cometido, o cabelo dela também era colorido, duas mechas, azul e roxa, do lado esquerdo do cabelo, listras de cor em meio ao preto absoluto. — É, a Bia é bonita.

— Eu também gosto do seu. — Disse tentando corrigir o erro. — Você também é muito bonita, Rê.

— Eu sei disso. — Ela respondia seca. — Pode dar seus elogios pra alguém que precise.

Eu não respondia, não sabia como lidar com Renata quando ela se chateava com algo que eu dizia, sabia apenas me sentir mal com a situação e involuntariamente começava a lacrimejar. Não estava chorando, mas acontecia toda vez que eu pensava ter magoado alguém, eu ficava vermelha e criava lágrimas. Minha mãe costumava dizer que eu chorava pelos outros para tentar me desculpar, mas sempre preferi acreditar que isso acontecia por que o arrependimento me fazia esquecer de piscar, então meus olhos ressecavam e as lágrimas apareciam. Nunca descobri qual das duas estava certa. Renata olhava para mim e eu conseguia sentir que ela instantaneamente mudava seu humor de frustrada para sensível. Ela não aguentava me ver chorando, não importava o motivo.

— Lice, não chora! Eu tava brincando, você sabe que seus elogios são os mais importantes pra mim, né?

— Eu... — Passava a mão no rosto secando os olhos. — Eu não tô chorando, é o vento. Acho que a gente devia voltar, já tá quase na hora.

— E a regra de não pensarmos na aula aqui fora?

— Mas uma hora a gente precisa voltar pro mundo real, não?

— Mas eu não quero voltar. E você também não que eu sei, então vamos aproveitar.

— Mas…

— Aproveitar. — Ela interrompia me puxando pela mão, não queria pensar nas aulas, não queria pensar no mundo.

Nos sentamos em uma grande pedra de frente para o mar, era um local magnífico, havia uma brisa fresca e o som das ondas, o céu azul, uma cidade vizinha como vista ao longe e quase nenhum carro passando pela rua. Me sentia em uma fotografia, era um momento eterno, é eterno. O vento brincava com o cabelo de Renata enquanto ela tentava achar uma posição confortável para as pernas, sabendo que eu as usaria como travesseiro na primeira oportunidade que visse, e o fiz, me deitava olhando para as nuvens escassas enquanto renata acariciava meus cachos com cuidado para não desfazer o penteado.

— Aquela parece um dragão. — Ela dizia apontando para cima. — Ali! A boca, as asas, tá até cuspindo fogo.

— Tô vendo! Aquela outra ali parece um coração, olha.

— Um coração?

— Sim, ali, mais pra esquerda do seu dragão. — Eu apontava para a nuvem que se deformava agora parecendo mais uma galinha gritando do que um dragão.

— Aquilo não é um coração, Lice! Você está apaixonada? Pra ficar vendo corações no ar assim…

— Não! — Eu respondia um pouco corada. — Por quem eu me apaixonaria? Pelo seu dragão?

— Não... — Ela disse novamente frustrada. — Por alguém que goste de você.

— Que besteira, Rê, se for assim eu nunca vou me apaixonar, ninguém gosta de mim.

— Ei! Eu... Eu sei que isso não é verdade.

— E como você sabe? Ai meu deus, Rê, você sabe de alguém que gosta de mim? — Eu estava surpresa, minha mente gostava de criar teorias de tudo o que eu ouvia, e naquele momento começava a buscar pistas de todas as pessoas que poderiam gostar de mim.

— Sei. — Ela dizia insegura. — Mas eu não vou contar.

— Como não?! — Eu me levantava chocada, estava curiosa, muito mais do que aguentaria aceitar. — Você PRECISA me dizer!

— Eu... — Ela olhava para o mar hesitante. — Oh não, olha as horas! — Dizia em um tom sarcástico de surpresa enquanto se levantava e me puxava pela mão novamente. — A gente vai se atrasar, Lice, corre!

— Mas você…

— Não dá tempo! Vamos pra aula.

E me deixava sem uma resposta enquanto andávamos de volta para a aula. Minha mente criando várias conexões tentando descobrir quem poderia ser o amante secreto, e eu, ingênua, não percebia que ele estava do meu lado o tempo todo, me levando para dentro e fora do mundo real, aproveitando comigo as melhores tardes da minha vida.

Os momentos eram como pétalas em nós, desabrochavam nas condições mais perfeitas e coloriam o jardim da vida. E nós, como flores, sabíamos que as estações nos mudarariam. Era só uma questão de tempo até que cada pétala fosse apenas uma lembrança, mas nenhuma flor é eterna, nenhum jardim permanece o mesmo para sempre.

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