Vida de Cão
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Vida de cão
Cachorros, como tartarugas, deviam viver mais de cem anos. Tarô só viveu quinze e alguns meses. No final da vida já não podia mais andar, mal comia e sequer tomava água. Tinha que abrir sua boca à força e enfiar o que pudesse goela abaixo, segurar a boca até ele engolir e depois coçar a barriga do animal para que ele soubesse que não estava fazendo aquilo por maldade. Tarô não entendia que precisava se alimentar para se manter forte e vencer a doença que lhe acometera a alguns meses. “Se tivesse vindo antes, mas...”, disse a veterinária, “Ele já está velho... talvez não passe da anestesia”. Decidiu, portanto, não operar. Gastou em remédios. Mandou Sôichi cuidar do cachorro quando fosse trabalhar. Mas Sôichi vivia no mundo dentro de seu celular, e quando chegava tinha que alimentar, hidratar e enfiar remédio goela abaixo para que o cão pudesse voltar a sujar suas calças de terra do quintal quando voltasse do trabalho. Mas certo dia, quando chegou e foi fazer seu ritual de alimentar, hidratar e medicar Tarô, viu sua mãe debruçada sobre ele, chorando como se tivesse perdido um filho. “Ah, meu amiguinho... não soltou nem um gemido... Ah, Tarô”.
***
Eles não tinham carro. O último havia sido roubado há quase um ano – não tinha seguro – e suas economias não permitiam extravagâncias. Sôichi disse que havia um serviço da prefeitura que retirava cadáveres de animais. Mas Tarô não era um “cadáver”. Bem, talvez fosse... Para ele não era. Sôichi que era um idiota mesmo, e se voltasse a dizer essas coisas daria uns sopapos nele. Levaria Tarô ele mesmo a algum centro de animais que fizesse esse tipo de serviço de uma maneira mais humana, nem que fosse a pé. Por fim, Hotaru passou para ver Sôichi e, quando soube da morte de Tarô, chorou junto à sua mãe. “Ah, coitadinho... Sinto muito mesmo! Tetsu-san deve estar tão triste!”. Claro que estava. Mas ver Hotaru chorar tornou tudo pior. O aperto que sentiu no peito foi tão forte que levou a mão à região, como se tentasse massagear um músculo tensionado. Tentou mudar de assunto, mas Sôichi foi mais rápido. “Hotaru, você veio de carro? Pode nos levar àquela pet shop perto do Centro?”. Tetsuhiro sentiu bile subir à boca, mas trancou os lábios e engoliu forçadamente.
***
Sôichi era quase dez anos mais novo que ele. Nasceu logo depois que seu pai os deixou, sem nem se despedir. Para que ele não se sentisse rejeitado, sua mãe o tratou com o dobro de mimos, mandando que ele fizesse o mesmo. Tetsuhiro era obediente, e o fez. Sôichi cresceu dentro de uma redoma criada por ele e pela mãe. O resultado era que, depois de terminar o ensino médio, ainda não se decidira por uma carreira. Não tinha qualificação e por isso não conseguia emprego. Nem parecia estar procurando, na realidade. Ficava o dia todo no celular falando com sabe-se lá quem. Quando saía com os amigos, voltava tarde e não dava nenhuma satisfação. Sua mãe, já idosa, morria de preocupação. Mas também não o responsabilizava. “Ele é jovem”, dizia, “daqui a pouco ele se decide”.
Tetsuhiro não teve esse tipo de opção. Logo que terminou o colegial sua mãe o fez ajudá-la na loja da família. Queria fazer uma faculdade de Letras, mas sua mãe o convenceu que contabilidade dava mais dinheiro. Mal tinha tempo de sair com seus colegas enquanto conciliava o trabalho e os estudos. Depois veio o estágio no escritório, o trabalho de conclusão de curso e o novo emprego. Em uma única tarde, quando estava doente e faltou ao trabalho, foi que ele pôde sair. Evitou as ligações da mãe. Foi ao cinema assistir um filme, sozinho. Era um filme sobre a antiga rixa entre os makigumi e kachigumi nas colônias japonesas. Conseguia entender as falas em japonês sem as legendas, corrigindo-as em voz baixa. A moça ao seu lado riu baixinho. Olhou-a e parecia não ter mais que quinze anos. Tinha olhos grandes para uma nissei. Assistiu ao resto do filme pelo reflexo da tela nos olhos dela. Depois da sessão ela lhe deu um sorriso que o lembrou de Da Vinci. Em seu transe, mal percebeu quando a sala se esvaziou, seguindo-a com os olhos, tremendo não sabia se pela febre ou pelo ar condicionado do cinema.
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Dias depois voltou a ver a menina do cinema. Ela estava de mãos dadas com Sôichi, na entrada de sua cozinha. Pareceu reconhecê-lo, seus olhos grandes brilhando divertidamente. Não eram olhos de nissei, mas de yonsei. Não tinha quinze, mas dezessete. “Sou velha”, riu ela. Chamava-se Hotaru e namorava Sôichi. Conversava animadamente com sua mãe, embora ela mantivesse uma carranca que a fazia parecer um obake. Tarô sujou suas calças de terra, mas pela primeira vez não se importou. Ela sorriu para ele e, daquela vez, ele lembrou-se de sorrir de volta.
***
Pousou sua mão sobre Tarô, como costumava fazer quando conseguia sentar-se no sofá para descansar um pouco depois do trabalho. Tarô costumava rolar para que ele coçasse sua barriga, o que ele automaticamente fazia. Mesmo enrolado no lençol ele ainda podia sentir o frio do corpo de Tarô. Olhava para frente, o topo das cabeças de Hotaru e Sôichi emoldurando a avenida pela qual passavam. Quando paravam no semáforo, Hotaru tirava a mão da marcha e pousava-a no joelho de Sôichi, que escrevia algo no celular. Olhava-a rapidamente e logo voltava a sua atenção para a tela colorida. Depois de três ou quatro semáforos chegaram ao seu destino. Hotaru tinha resgatado um gatinho há alguns meses, que ela nomeara ironicamente de Tetsu. “É que ele também está sempre com cara de sono”, brincou ela cruelmente, sua risadinha tilintando em seus ouvidos como uma campainha alta. Quis responder que “Se eu não precisasse sustentar uma casa com três pessoas poderia descansar mais”, ou “Se eu tivesse alguém que pagasse minhas contas eu dormiria mais e ficaria com uma cara boa” ou “Você preferiria se eu fosse folgado como Sôichi, é?”. Mas ficou calado, dando uma risadinha para disfarçar o silêncio. Por fim, o gato Tetsu não resistiu à sarna e acabou morrendo. Foi a primeira vez que viu Hotaru chorar e aquilo lhe embrulhou o estômago. Sentou-se perto dela na ocasião, sentindo o calor emanando do corpo franzino dela mesmo a um palmo de distância. Tocou de leve o ombro dela e sua mão pareceu queimar. Hotaru levou o cadáver do gato para este pet shop, que o encaminharia para a prefeitura. Era onde eles estavam agora.
Tirou Tarô do carro com cuidado, como se ainda pudesse machucá-lo. Tarô era pequenino e gordo – ou era antes de adoecer. Era uma mistura de pug com alguma outra raça. Vira-o andar no chão perto da escola de futebol de Sôichi quando foi buscá-lo. Estava frio e ele teve dó do filhote. Pegou-o no colo e ele logo se aconchegou em seus braços. Sôichi descia as escadas quando viu o animal que segurava. “Eu quero! Vamos ficar com ele! Por favor! Me dá ele, Tetsu, me dá!”. Como não sabia dizer não a Sôichi, ele obedeceu.
***
A atendente os levou aos fundos da loja, onde funcionava uma clínica veterinária. Levou-os até uma sala de atendimento, pedindo que eles deixassem Tarô ali. “Eu vou fazer o recibo e acionar a prefeitura. Sinto muito por sua perda”, disse ela. “É, quinze anos não é fácil”, respondeu Sôichi, que guardara o celular pela primeira vez desde que saíram de casa. “Querem se despedir?”. Tetsuhiro balançou a cabeça positivamente. Sôichi já se debruçara sobre Tarô, levantando o lençol para vê-lo uma última vez. Acariciou Tarô atrás das orelhas como costumava fazer. Chorou silenciosamente sobre o cão, enquanto Hotaru o abraçava por trás. Tetsuhiro sentiu-se um intruso naquele momento, saindo da sala por respeito. Ouviu Hotaru chamá-lo, “Tetsu-san, não quer se desp-”, mas ele apressara o passo para não ouvir mais a voz dela. “Tenho que assinar os papéis”, ofereceu como resposta, mas já estava distante para que ela o ouvisse. Foi até o caixa, pagou a taxa e assinou o recibo. “Sinto muito por sua perda. Não se preocupe com nada”, disse novamente a atendente. Voltou aos fundos, onde Sôichi e Hotaru o esperavam. Sôichi ainda soluçava, limpando o nariz com a manga da camiseta. Encarou Hotaru e ela não sorria. Seus olhos grandes e vermelhos pareciam tragá-lo. Lera alguma obra que falava de “olhos de ressaca”, e se tivesse que dar um exemplo, seriam os olhos de Hotaru naquele momento. “V-vamos”, falou, a boca seca como se estivesse comido terra. “Você não vai se despedir?”, disse Sôichi, o rosto inchado depois de chorar. Olhou-o como se tivesse sugerido algum absurdo. Sem que ele percebesse, Hotaru pegou sua mão, levando-o até a sala onde estava o cadáver de Tarô. O cão que ele encontrou um dia, que ele levou pra casa e cuidou. Que sujava suas calças de terra, babava nos seus sapatos e que gostava que ele coçasse a sua barriga. “Cachorros, como as tartarugas, deviam viver mais de cem anos”, balbuciou desajeitado. “É”, Hotaru respondeu, ainda segurando sua mão, “Deviam mesmo”. De repente ela soltou e ele se desesperou. Não queria mais ficar ali, não queria ficar sozinho. Mas logo os braços finos de Hotaru o abraçaram por trás. Sentiu novamente o calor de seu corpo franzino, sua respiração no meio de suas costas como se o marcasse a ferro em brasa com as iniciais dela. Olhava fixamente para Tarô, que já não podia lamber sua mão para acalmá-lo. Pousou sua mão sobre ele e por um momento pensou sentir de novo sua barriga quente enquanto o coçava. Na verdade era sua própria mão que estava quente, seu próprio coração que quase arrebentava os ossos para pular para fora. Sentiu medo, raiva, tristeza e inveja, todos os sentimentos que tentava esconder, marejarem seus olhos. Lembrou da imagem da tela refletida nos olhos de Hotaru, agora fechados e colados em sua camisa, a respiração dela causando-lhe arrepios.
“Tetsu-san... Pode chorar. Vou continuar aqui. Chore” e Tetsuhiro, como cão treinado, obedeceu.
終わり
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