Vida Interrompida (HIATUS)
7 6. Despertar
Notas iniciais
6. Despertar
Bem, eu estou esperando o meu chamado para despertar
E tudo, tudo é culpa minha
Save Me — Unwritten Law
A escuridão me consumia, enquanto eu me afogava. Tentei nadar, bati os braços ao redor do corpo, mas eu sentia meu corpo afundar cada vez mais profundo. Abri a boca, a procura de um oxigênio que não existia. Meu corpo frio ficando cada vez mais sem forças. Senti meu coração bater cada vez mais devagar, lentamente, e a vida deixando meu corpo.
Eu estava morrendo.
Fechei a boca rapidamente, como se aquilo fosse me salvar. Senti meus pulmões implorarem por ar e meus braços flutuaram ao meu redor. Minha cabeça tombou para trás enquanto eu fechava os olhos e sentia meu corpo afundar ainda mais.
Até que uma mão segurou meu braço. Abri os olhos, sobressaltado, e tudo o que eu via continuava sendo a escuridão. Senti meu corpo ser puxado para cima e, de repente, emergi.
Arfei fortemente, sentindo o ar gelado entrando em meus pulmões. Tudo o que eu via era branco.
Respirei fundo, repetidas vezes em desespero, e olhei assustado ao redor. Quatro pares de olhos me olhavam estupefatos.
Um homem, de jaleco branco, me olhou como se não acreditasse no que via. Três mulheres também de branco o acompanhavam. Meus olhos sensíveis aos poucos foi se acostumando melhor à claridade, e eu prestei atenção no que havia ao meu redor. Aquilo parecia um hospital...
Mas por que eu estava no hospital?
O médico começou a falar algo, mas eu apenas o olhava sem entender uma palavra que saía da sua boca. Por fim, ele parou de falar e rapidamente saiu do quarto com as mulheres, provavelmente enfermeiras.
Olhei para mim mesmo e vi tubos enfiados em minhas narinas e meus braços avermelhados e arranhados, com curativos. Minha cabeça doía, e ao meu lado uma máquina não parava de fazer “bip’s”.
Eu deitei melhor minha cabeça no travesseiro, olhando para o teto branco acima de mim. Fechei meus olhos brevemente, e aos poucos todas as imagens do acidente me vieram à mente. Abri os olhos rapidamente, e engoli em seco. O médico entrou novamente no quarto, dessa vez, acompanhado pela minha mãe.
Ela me olhou com lágrimas nos olhos e correu para me abraçar. Tentei abraça-la de volta, meio desajeitado, e ela encheu meu rosto de beijos.
– Finalmente você acordou. – ela murmurou com os lábios contra minha testa.
****
Eu passei três dias em coma.
De Sexta, desde a hora do acidente, até a noite de Domingo. Eu teria que permanecer internado para alguns exames que o médico cismou em fazer, para ver se havia alguma sequela. Tentei convencê-lo de que além dos cortes nos braços e rosto, a costela quebrada e a mão esquerda torcida, eu me sentia bem.
Era mentira, óbvio.
Minha cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento, meus ombros pareciam carregar toneladas e eu sentia uma agonia absurda, uma dor no peito inexplicável.
O médico me explicou que eu, segundos antes de acordar, poderia ser considerado morto. Meus batimentos estavam fracos demais, quase inexistentes, e de repente eu acordei. Como se algo tivesse me resgatado.
Não deixava de ser verdade.
Eu ainda sentia o toque da mão que segurou meu braço e me puxou para cima da água escura. Mas aquilo devia ser alucinação, não?
Fechei os olhos com força ao lembrar do sonho que havia tido. Eu não contei aquilo a ninguém, não tinha nem como. Eu mal conseguia lembrar, muito menos falar sobre.
Holly... A imagem do seu rosto sofrendo me fez sentir uma dor incômoda no peito. Aquele homem a machucando, e sorrindo com isso. Engoli em seco, respirando fundo.
Eu vou enlouquecer.
– Toc, toc. – Jake falou, colocando a cabeça para dentro do quarto. – Posso entrar?
Sorri levemente para ele e ele sorriu abertamente, entrando no quarto e fechando a porta. Jake se sentou na cadeira que havia ao lado da minha cama, olhando ao redor.
– Nossa, quantas flores. – ele falou, olhando para o vaso de vidro com rosas na cabeceira da cama.
– Minha mãe. – falei, revirando os olhos.
– Como você está, cara?
Jake e sua mania de perguntar como uma pessoa, — obviamente machucada – está.
– Estou ótimo. – falei. – Novo em folha.
Jake crispou os olhos e suspirou.
– Ok, foi uma pergunta idiota, me desculpe. Mas você nos deu um susto. Eu já estava rezando para que o professor não colocasse aquele nerd estranho, o Garry, como minha dupla na aula de História.
– Obrigada por ficar mais triste por ter que fazer dupla com o Garry, do que pela minha morte. – falei, sorrindo em deboche.
Jake deu de ombros, rindo.
– Mas como foi? – ele perguntou de repente.
– O acidente?
– Não... – ele murmurou, parecendo pensar se devia ou não falar. – Você sabe... Como foi ficar em coma?
O olhei sem entender.
– Como assim?
– Algumas vezes, quando vim te ver, você parecia... Perturbado. – ele falou. – Não sei, você apertava os olhos com força, parecia querer acordar, mas não acordava de jeito nenhum. O médico responsável por você quase enlouqueceu, ele não entendia o que estava acontecendo.
Assenti fracamente, sentindo um arrepio percorrer minha espinha. Eu devia falar, ou não?
Como se diz para o seu melhor amigo que, durante os três dias em que você ficou em coma, você sonhou com uma garota que morreu há exatamente duas semanas atrás? E não, não foi um sonho qualquer.
Ela era torturada. Cruelmente.
Optei por não falar nada. Eu não precisava de outra pessoa, — além de eu mesmo – me achando louco.
Conversei por mais alguns minutos com Jake, que me contou o que aconteceu durante o tempo em que fiquei desacordado. Basicamente, nada de interessante aconteceu. Apenas um assalto à loja de conveniência do posto de gasolina próximo à minha casa.
– Aliás, a Kate... – ele começou, e eu o interrompi.
– Eu não quero... – murmurei, e ele assentiu, se calando. – Depois falamos sobre Kate. Eu me sinto exausto agora.
Jake assentiu e decidiu ir embora. Já estava ficando tarde, e depois que eu sofri o acidente, ele contou que a mãe dele ficou paranoica e quase tirou o carro dele. Ele se foi, e eu fiquei naquele silêncio, sozinho.
Na parede ao meu lado, a mais ou menos um metro de distância, havia uma janela. Eu estava em um andar alto do hospital, já que apenas conseguia ver o alto dos postes de luz da rua.
Uma enfermeira veio me ver, e me medicar. Eu ainda sentia dor, então ela me deu um analgésico. Como eu já estava meio grogue, rapidamente senti o sono vindo, e a enfermeira foi embora.
Talvez tivesse se passado horas desde que eu havia cochilado, até que acordei no meio da madrugada. Meu quarto estava com as luzes apagadas, sendo iluminado apenas por uma fraca luz que saía dos aparelhos. Passei os olhos pelo local, ainda sonolento, e bocejei.
Com esforço consegui pegar meu celular na cabeceira da cama. Minha mãe deve ter deixado lá quando veio me ver, e eu nem percebi. Havia oito chamadas perdidas de Kate. Suspirei.
Eu ainda lembrava perfeitamente do que havia visto, e sinceramente, a última coisa que eu quero ouvir agora são as desculpas esfarrapadas dela. Se bem que ela não me deve desculpas alguma. Ela sabe o que faz com a vida dela.
Deixei o celular sobre a cabeceira novamente e me ajeitei contra o travesseiro. A dor de cabeça diminuíra, mas meu corpo ainda doía um pouco. O impacto contra a carreta deve ter sido realmente forte.
Fechei os olhos para tentar voltar a dormir, quando senti um vento frio passar por mim. As janelas estavam fechadas, não estavam?
Abri um pouco os olhos e senti meu coração perder uma batida ao ver o que havia ao lado da janela. Ela usava um vestido branco, os cabelos loiros caíam delicadamente sobre seus ombros e ela me olhava com a expressão confusa.
– M-M-Mas o q-quê...? – gaguejei, sentando rapidamente.
Senti meus braços doerem devido ao esforço, mas logo a dor passou. Olhei assustado para a garota à minha frente, e ela parecia assustada também.
– Josh... – ela murmurou, passando os olhos por todo o meu corpo. – Você está bem. – ela sorriu um pouco, mas parecendo feliz, e deu um passo em minha direção. – Céus, como eu fico feliz por isso, eu...
– Fique onde está! – praticamente gritei.
Ela parou onde estava, me olhando assustada. Eu a olhei de cima a baixo, tentando entender o que era aquilo.
Não podia ser verdade... Não mesmo...
A enfermeira me deu LSD, ou alguma merda assim, porque eu realmente não posso estar vendo Holly Walker na minha frente.
– Você... – falei com a voz falha. – Você está morta. O que...?
Ela pareceu ser atingida por minhas palavras. Seu corpo pequeno se contraiu levemente, e ela passou as mãos pela saia do vestido nervosamente. Ela sempre fazia isso...
– Eu não sei. – ela murmurou.
– Eu estou enlouquecendo. – murmurei para mim mesmo, voltando a deitar vagarosamente, enquanto encarava o teto. – Eu estou enlouquecendo.
Fechei os olhos com força e, quando os abri de novo, olhei para onde ela havia estado anteriormente.
Nada.
Olhei ao redor, procurando em cada canto por um sinal da minha loucura, mas ela havia desaparecido tão rápido quando apareceu. Respirei fundo, tentando controlar minha respiração.
Ótimo. Para fechar essa semana com chave de ouro: eu vejo gente morta.
Fale com o autor