Vida Interrompida (HIATUS)
4 3. Olá, tem alguém aí fora?
Notas iniciais
Me desculpem pela demora, gente!
Capítulo fresquinho para vocês! :D
Espero que gostem!
Capítulo 3: Olá, tem alguém aí fora?
“Algumas vezes, quando fecho meus olhos, eu finjo estar bem. Mas nunca é suficiente”.
Echo – Jason Walker
Uma noite perturbada.
Eu me revirei na cama novamente, tentando achar uma posição confortável. Suspirei, olhando para o teto branco acima de mim. Algumas sombras se mexiam nele, vindas da janela. A árvore ao lado da minha janela, no quintal. Levantei, tropeçando na minha própria bagunça enquanto caminhava até a janela. Olhei para o lugar lá fora através dela.
A rua estava escura e deserta. Chuviscava um pouco. Respirei fundo, tentando levar um pouco de ar para os meus pulmões que pareciam querer sair para fora do meu peito. Ou explodir. Ou qualquer coisa estranha.
Era normal eu me sentir assim?
Não, não era.
Holly Walker não passava de uma garota que me perseguia desde o jardim de infância, e que agora havia sido assassinada. Eu não a conhecia. Eu nunca havia conversado com ela, com exceção do dia em que ela fora sequestrada, se é que aquilo pode ser considerado uma conversa.
Holly Walker não passava de um nome que deixava toda essa cidade deprimida agora.
O problema é: eu me sinto deprimido também.
Bufei, fechando a cortina e voltando para a cama. Eu só esperava que amanhã estivesse tudo normal no colégio.
Peguei minha mochila e desci para a cozinha. Encontrei apenas Anna sentada à mesa. Ela me olhou estranhamente enquanto eu me sentava ao seu lado, mas logo desviou seu olhar de volta para o seu café-da-manhã.
– A mamãe já saiu? – perguntei, quebrando o silêncio.
– Sim. – ela murmurou. – Seu carro já chegou do conserto, o mecânico o trouxe.
Apenas assenti e comecei a comer as panquecas que minha mãe havia preparado. Anna terminou de comer antes de mim, e já pegava sua mochila que estava pendurada na cadeira.
– Eu já estou terminando de comer, eu posso te levar. – falei rapidamente.
Anna assentiu e foi esperar na sala. Praticamente engoli a comida e desengasguei bebendo o suco. Limpei minha boca com o guardanapo e peguei minha mochila, chamando por Anna, que apareceu rapidamente. Fomos para o carro e eu sorri ao ver ele todo limpo e consertado. Passei a mão por seu capô, sorrindo, e vi Anna revirar os olhos.
Todo o caminho até o seu colégio foi silencioso, e logo chegamos. Ela se despediu brevemente e saiu do carro. Eu a observei andar até os portões do colégio, sem falar com ninguém. Suspirei e voltei a colocar meu carro em movimento, indo para o meu colégio.
Estacionei o carro ao lado do carro de Henrie e enquanto fechava as janelas, vi Kate e Jake vindo até mim. Ambos com a expressão séria. Saí do carro, olhando ao redor. Todos os grupinhos separados, conversando entre si. Sérios.
Aquele estacionamento nunca esteve tão mórbido.
– Isso aqui está animado, hein. – resmunguei assim que os dois chegaram até mim.
Kate me lançou um olhar cortante.
– Você queria que todos estivessem dando risada depois do que aconteceu ontem? – ela perguntou.
Fiquei quieto. Discutir com Kate era a última coisa que eu queria agora. Jake jogou um braço sobre os meus ombros, acho que mais para se apoiar, já que ele vivia com sono a essa hora e fomos andando em silêncio até a parte gramada do campus do colégio. Henrie estava lá com os outros caras do time.
Rindo.
Todos eles riam.
É claro, eles não se importavam.
– Eu não vou. – ouvi Kate falar, parando onde estava no meio do caminho.
– Por que não? – Jake perguntou.
– Olha para ele. – ela falou, rindo sem humor. – Eu não tenho mais paciência para Henrie, e provavelmente eu voarei no pescoço dele por tudo o que tenho aturado ultimamente.
Sem nos dar chance de responder algo, ela nos deu as costas e começou a andar na direção contrária. Jake me cutucou.
– Vamos com ela ou ficamos com Henrie? – perguntou.
– Ela não parece muito bem.
– E não está. Desde ontem, quando a deixamos em casa. E antes de você chegar vimos Ashley abraçando Henrie...
Bufei. Aquele cara não se tocava do quão ridículo ele era?
– Vamos ficar com ela. – falei.
Jake assentiu e corremos para alcançar Kate. Assim que chegamos até ela, joguei um braço sobre seus ombros e ela nosso olhou surpresa.
– O que vocês... – ela murmurou, sem saber o que dizer.
– Vamos ficar com você, baixinha. – Jake falou sorridente.
Kate revirou os olhos, mas sorriu. Nós a acompanhamos até um grupinho onde estavam suas amigas. Ela falou algumas coisas com algumas das garotas e logo fomos sentar na mureta ao lado das escadas do colégio. O sinal iria tocar dali a uns 10 minutos.
Ficamos jogando conversa fora, e Kate estava até se animando, quando Ashley passou por nós. Ao invés de nos ignorar, ela retardou seus passos e olhou para Kate de cima a baixo. Duas de suas amigas sorriram com deboche, e Ashley deu a típica jogadinha de cabelo, indo embora em seguida. Kate rosnou.
– Isso foi um rosnado? – Jake perguntou rindo. – Kate, se acalma aí...
– Me acalmar?! – ela elevou a voz. – Você viu o modo como ela me olhou?! Como se fosse melhor do que eu!
– Sim, mas se estressar não adiantará de nada. – alertei.
Kate assentiu, respirando fundo. Jake parou de rir e passou uma mão sobre a cabeça dela.
– Fica tranquila. Você é muito mais legal do que ela. – ele disse.
Kate o olhou com uma expressão que me fez querer rir, mas eu prendi o riso.
– Jake, se você falasse que ela é melhor do que eu, eu te bateria. – ela falou entredentes. – Você é esperto.
– Claro que sim. – ele sorriu.
Kate revirou os olhos e riu, balançando a cabeça. Mas logo seu olhar pousou em Ashley, que estava no outro lado do campus com uma parte do grupo de populares, e ela fez careta.
– O que ela tem que eu não tenho? – ela murmurou.
Jake e eu olhamos para Kate, e em seguida para Ashley. Ok, Kate era linda, mas Ashley... Bom... Digamos que Ashley era bem avantajada em vários sentidos. Fora o cabelo loiro a deixava com aquele ar de modelo, e aqueles olhos azuis e levemente puxados ajudavam a deixar todos que queixo caído. E Kate era baixinha e tinha um corpo bonito, mas normal. Mas seu rosto compensava bastante, seus olhos eram de um verde intenso.
– V-Você é melhor. – Jake gaguejou, dando um sorriso nervoso e um tapinha no ombro de Kate, que nos olhou com uma expressão séria.
– Garotos... – murmurou, revirando os olhos.
Demos de ombros, e ela sorriu. Ela sabia que era melhor do que muitas garotas desse colégio. E muita gente concordava com isso. Ouvimos o sinal sinalizando o início das aulas soar. Rapidamente pegamos nossas mochilas e entramos no colégio. A primeira aula seria de Biologia, e eu a faria com Kate. Jake logo se despediu de nós dois no corredor, indo para a sua aula de Matemática.
– Aliás, há um trabalho de Biologia para a semana que vem, não é? – perguntei enquanto andávamos até a sala de aula.
Kate arqueou uma sobrancelha e sorriu irônica.
– Semana que vem? Está sonhando alto demais. – falou. – É para depois de amanhã.
Arregalei os olhos.
– Como assim? Está muito em cima da hora!
– Em cima da hora?! O professor nos deu duas semanas para fazer o trabalho, você é que esqueceu por causa dos jogos. – falou revirando os olhos.
Já havíamos chegado à sala e eu me joguei na cadeira da segunda fileira, colocando as mãos no rosto. Kate riu de mim e se sentou na cadeira ao meu lado, já que fazíamos dupla nessa aula.
– Podemos fazer o trabalho amanhã, o que acha? – ela falou.
Suspirei.
– Tudo bem. Na sua casa ou na minha?
– Na minha é melhor, eu tenho que cuidar da Amy amanhã. – ela falou pensativa.
Amy era sua irmã mais nova. Ela tinha 7 anos e parecia uma boneca. Concordei em fazermos o trabalho na sua casa e o professor chegou. Todos os outros alunos se acomodaram em seus lugares e quando a sala ficou em silêncio – sendo preenchida apenas pelas conversas em cochichos -, o professor foi até o quadro branco. Peguei minhas apostilas e, quando deixei minha mochila pendurada ao lado da mesa, meu olhar inconscientemente vagou para a cadeira vazia ao meu lado. A que ficava ao lado da janela que dava vista para o campus.
A que Holly sentava.
Fiquei observando a cadeira e mesa vazias, e tudo ao meu redor ficou silencioso. O que havia acontecido com ela naqueles 7 dias? Quando encontraram seu corpo ela estava morta...
Ela foi assassinada, mas foi apenas isso? Aquele homem, o que a mantinha presa, havia feito algo mais?
O quê?
Saí dos meus devaneios ao ver a cadeira que mantinha meu olhar preso ser arrastada. Pisquei, e levantei o olhar. A menina que fazia dupla com Holly se sentava, enquanto tirava seus livros de dentro de sua bolsa afoita. Eu não lembrava seu nome...
Ri com escárnio para mim mesmo. Eu pensei a mesma coisa quando Holly veio falar comigo naquele dia. Eu sabia que era algo com “H”, mas o nome? Ele me era desconhecido.
E agora eu sei. E isso me atormenta.
Senti Kate me cutucar levemente com o cotovelo, e vi que o professor já havia começado sua aula. Ouvi um farfalhar baixo, e ao olhar para baixo vi que Kate havia escrito algo em uma folha e me passou. Discretamente a peguei para ler, para o professor não notar.
“Eu não consigo parar de pensar... O que aconteceu com ela?”
Então eu não era o único com esse pensamento, afinal.
Era como se nada tivesse acontecido.
Quando eu cheguei, no início das aulas, todos estavam silenciosos. Todos comentavam sobre aquilo. E agora...
Bom, a vida voltou ao normal em menos de 4 horas.
– Como é possível agirem assim? – Kate resmungava, olhando com descrença para as líderes de torcida que se insinuavam para os outros caras do time de basquete. – Uma garota que estudou com a gente desde o jardim de infância foi sequestrada e morta, e todos agem como se fosse um dia normal!
– Kate, a Holly não era conhecida. – Jake falou, suspirando ao final. – Eu mesmo não sabia ao certo o nome dela até isso tudo acontecer.
– Mas a conhecia! – Kate falou. – Podia não saber o nome dela, mas a via todos os dias. E tirava com a cara dela. – ela resmungou ao final.
Jake se encostou melhor em sua cadeira.
– Acha que eu me orgulho disso? – perguntou. – Eu nem a zoava, ok? Eu apenas estava com Henrie quando ele fazia isso.
– Por falar em Henrie... – comecei, e vi Kate apertar com mais força a caixinha do suco que ela bebia. – Vai ignorá-lo assim até quando? Acho que ele já está percebendo.
Eu achar que ele já desconfiava era uma blasfêmia. Já estava mais do que óbvio que Henrie havia percebido que Kate o ignorava, e consequentemente, eu e Jake também. Kate tinha as amigas dela, mas era algo corriqueiro. Eu via que por mais que ela gostasse das amigas dela, ficar com elas não lhe era algo muito divertido.
Kate por vezes confessou não ter muita paciência para meninas que falavam apenas dos jogadores de basquete, maquiagem e fofocas. Então, eu e Jake ficávamos com ela. Não por pena, nós gostávamos. Não iríamos deixa-la sozinha.
E Henrie percebeu. E eu também percebi o seu olhar irritado sobre mim.
E isso não é bom.
– Até quando eu me acalmar. – ela respondeu, suspirando.
– Você vai ter que conversar com ele. – Jake falou. – Já está dando raiva até em mim, ver Ashley quase se jogando no colo dele.
– Como se ele não gostasse. – Kate revirou os olhos.
– Kate, o Jake tem razão. Não adianta adiar isso. – falei.
Ela me olhou por alguns segundos, e abaixou os olhos, assentindo.
Logo voltamos às aulas, e o dia decorreu assim.
(...)
Cheguei em casa e vi tudo escuro. Já havia anoitecido e eu havia saído para lanchar com Kate e Jake após o colégio. Já era para a minha mãe ter chegado...
Joguei minha mochila em um canto da sala e fui acendendo todas as luzes. Eu odiava ficar no escuro sem conseguir ver nada. Fui para a cozinha e me preparava para acender as luzes de lá quando vi algo ao lado da geladeira. Arregalei os olhos ao ver que não era algo.
Era alguém.
– Anna? – chamei, me aproximando.
Ela arfou alto, se encolhendo mais com os joelhos contra o peito e o rosto escondido neles, as mãos ao lado da cabeça.
– Anna, o que aconteceu? – perguntei.
Eu me aproximei mais e me agachei na sua frente. Ela não falou nada, apenas continuou lá balançando a si mesmo levemente, enquanto murmurava algo. Sua voz estava embargada. Ela chorava? Eu me assustei ao ver que sua calça jeans estava toda suja de terra, assim como seu tênis.
Onde essa garota esteve?
– Anna, fala comigo! – pedi, segurando seus ombros.
Ela sobressaltou, quase pulando para longe de mim, mas suas costas bateram com tudo na parede e eu a olhei assustado. Ela chorava, seu rosto estava pálido e seus olhos vermelhos. Seus cabelos eram uma confusão ondulada ao redor de seu rosto. Seus olhos vagaram afoitos por todo o meu rosto, parecendo não me reconhecer, mas logo seu olhar suavizou.
– Josh... – murmurou.
Minhas mãos estavam à minha frente, onde antes estavam seus ombros, e ela as agarrou fortemente.
– Anna, o que aconteceu? – perguntei com a voz baixa. – Fizeram algo com você?
– Não. – ela murmurou.
– Você se machucou? Está toda suja... – ela me interrompeu, negando algo com a cabeça veemente.
– Eu fui até lá. – ela sussurrou.
Eu a olhei sem entender. Novamente: aonde essa garota se meteu?
– Até lá aonde? – perguntei.
– Ao enterro. – sussurrou. Seus olhos estavam arregalados, e ela parecia estar confessando algo proibido. – Ao enterro da menina.
Senti um arrepio percorrer a minha espinha e engoli em seco.
– Por que você foi até lá? – perguntei. – Você não a conhecia.
– Eu tive que ir. – ela sussurrou novamente. – Eu sempre tenho que ir. Sempre. Entende?
Ela voltou a chorar silenciosamente, e eu me apressei em secar suas lágrimas. Senti meu coração bater cada vez mais rápido, e já me sentia um pouco sem ar. Minhas mãos trêmulas enquanto eu limpava as lágrimas do rosto pequeno de Anna.
– Eu não entendo, Anna. – falei, gaguejando um pouco. – Eu não entendo, me explique.
– Eu...
Ela ia falar quando ouvimos o barulho de carro estacionando em frente de casa. Samantha, nossa mãe, havia chegado. Olhamos ao mesmo tempo para a janela da cozinha, e vimos a luz branca do farol sendo apagada e o carro desligando. Voltei a olhar para Anna, que olhava a tudo assustada.
– Suba para o seu quarto, tome um banho e vá deitar, ok? – falei. – Se a mamãe te ver assim irá enlouquecer.
Anna assentiu fracamente. Suspirei.
– Eu vou até lá levar algo para você comer e conversamos.
Anna não falou mais nada, apenas ficou de pé com as pernas fracas e subiu. Assim que ouvi a porta de seu quarto no segundo andar ser fechada, minha mãe entrou em casa. As luzes da cozinha ainda estavam apagadas e eu rapidamente as acendi e fui até a geladeira para pegar algo para beber. Minhas mãos ainda tremiam.
– Nossa, estava tudo tão silencioso que eu pensei que não tivesse ninguém casa! – minha mãe falou, me olhando com um sorriso no rosto e dando um beijo em minha bochecha. – Chegou agora?
– Sim, faz uns dez minutos. – falei, bebendo um copo de suco rapidamente. – E como foi lá na editora?
– Ah, está tudo bem! O livro está previsto para ser lançado em Dezembro. – falou com os olhos brilhando de felicidade. – Estou ansiosa!
– É visível. – eu ri junto com ela. – Eu vou subir para tomar um banho.
– Ok, eu vou preparar nosso jantar. A Anna já está aí, né?
Senti um aperto no peito com a menção do nome de Anna, mas apenas forcei um leve sorriso e assenti. Ela pareceu aliviada e eu subi para o meu quarto, pegando a minha mochila na sala antes. Rapidamente tomei um banho e coloquei uma bermuda e uma blusa. Assim que desci as escadas, já sentindo o cheiro da comida da minha mãe, a campainha de casa foi tocada.
– Eu atendo! – gritei para minha mãe, que agradeceu.
Quem era àquela hora?
Abri a porta e dei um passo para trás quando vi que era Kate. Toda de preto. E com um olhar ansioso e doentio.
– Preciso de você! – ela falou. – Agora!
– Calma aí, o que aconteceu? – perguntei assustado. – Por que está vestida assim?
– Eu ouvi Henrie combinando de sair com a Ashley hoje, eu preciso da sua ajuda para segui-los!
Suspirei.
– Desculpa, mas eu não vou brincar de Super Espiãs Demais com você. – falei cruzando os braços.
E aí ela fez... Kate fez aquele olhar que me desarmava completamente. Aqueles olhos grandes e verdes ficaram de repente muito melancólicos, e ela fez biquinho.
– Não, Kate. – murmurei. – Por favor, não.
– Por favor, Josh... – ela murmurou com aquela vozinha atingida. – Eu preciso da sua ajuda. Você é meu melhor amigo.
– Jake também é, chame a ele para ir com você. – falei.
– Mas o Jake está em um encontro... – ela murmurou novamente, agora com voz de choro. – Eu só tenho você, Josh.
Essa garota devia ser presa.
Suspirei, rendido. Ela sorriu abertamente, de repente o olhar melancólico se foi.
– Quem é, querido? – ouvi minha mãe perguntar, aparecendo atrás de mim e sorrindo abertamente ao ver Kate. – Kate, quanto tempo!
– Olá, sra. Thompson! – Kate cumprimentou sorridente. – A senhora está linda!
– Olha quem fala. – minha mãe revirou os olhos. – Quer entrar e jantar conosco?
– Ah, me desculpe, não vai dar. – Kate falou.
– Eu vou ter que sair com ela, mãe. – falei.
– Agora?
– Sim.
– Tudo bem, então. – minha mãe falou, dando um sorrisinho.
Revirei os olhos. Ela nunca iria esquecer a ideia absurda de que eu e Kate formávamos um casal? Eu já cansei de tentar tirar aquele sorrisinho insinuante do rosto dela e fazê-la esquecer, mas parece ser impossível.
Deixei Kate esperando na cozinha com a minha mãe, as duas conversando sobre o mais novo livro de Samantha Thompson que estava para ser lançado, e fui ao meu quarto trocar de roupa. Rapidamente vesti uma calça jeans, uma blusa e uma jaqueta, e calcei meu tênis. Eu me olhei no espelho e fiz careta ao ver que também estava todo de preto.
Katherine Jones enlouquece qualquer um.
– Já estou pronto. – anunciei ao entrar na cozinha.
Ri ao ver que Kate já estava agarrada a uma fatia de bolo de chocolate. Era sempre assim quando ela vinha na minha casa. Ela rapidamente terminou de comer o bolo, se babando de calda nas bochechas. Logo ela limpou o que estava sujo com um guardanapo e se despediu da minha mãe, agradecendo sorridente pelo bolo igual a uma criança.
Saímos de casa e eu me encolhi dentro da jaqueta, colocando as mãos nos bolsos. O Oregon estava em pleno mês de Maio, na Primavera, mas as noites pareciam querer nos congelar.
– Qual é a dessa touca com orelhas, hein? – perguntei prendendo o riso, enquanto andávamos lado a lado na calçada.
Kate me olhou atravessado, fingindo uma expressão séria. Eu soltei o riso e ela sorriu, revirando os olhos.
– Me deixe com as minhas toucas, Josh. – falou.
– Ok, tudo bem. – suspirei, ainda sorrindo. – E aí? Aonde vamos?
– Eu ouvi Henrie combinar de ir ao parque com ela.
– Ao parque? – perguntei, estranhando.
– Sim. – Kate falou. – Também achei estranho. Mas enfim, eu os ouvi combinar isso.
– Então iremos ao parque e ficaremos rondando até encontrarmos eles? – perguntei.
– Exato!
– Tchau. – falei enquanto dava meia volta e andava em direção à minha casa novamente.
Kate veio rapidamente até mim e pegou meu braço, me puxando.
– Você vai comigo! – resmungou.
– Ficar a noite inteira no parque, nesse frio, só para stalkear o Henrie com a Ashley? Kate, você já está ficando maluca! – reclamei.
Ela bufou e começou a me puxar para andar com ela novamente. Suspirei me soltando de sua mão e a acompanhando por livre e espontânea obrigação.
Percorremos todo o caminho em silêncio até o parque. Já estávamos quase chegando à entrada do mesmo, mas antes tivemos que passar em frente ao cemitério. Passei meus olhos pelo local, cercado por um muro baixo de pedras e cercas de ferro negras sobre ele. Alguns postes de luz o iluminavam fracamente, e me peguei procurando pelo túmulo de Holly.
Logo as palavras de Anna me vieram à cabeça, sobre ela ter ido ao enterro:
“Eu tive que ir. Eu sempre tenho que ir. Sempre. Entende?”
O que ela quis dizer com isso?
– Chegamos. – Kate falou, segurando na manga da minha jaqueta e olhando ao redor. – Será que eles já chegaram?
– Vamos entrar e descobrir. – falei.
Ela assentiu e entramos no parque. Ao contrário do que eu pensei, não estava vazio. Havia um número considerável de pessoas, e eu vi o motivo: estava tendo uma apresentação de algum cantor. Provavelmente um cantor local, geralmente o parque fazia alguns eventos assim de noite. O que mais havia ali eram casais, sentados em mesas e bancos. Havia algumas barracas de comida também, e algumas lamparinas coloridas espalhadas.
– Não consigo imaginar Henrie aqui. – falei, olhando tudo ao redor.
– Ele nunca nem sequer considerou me trazer em algo assim. – Kate murmurou com os olhos tristes. – Eu pedi uma vez, e ele disse que era uma coisa idiota.
– Kate... – murmurei.
Ela negou algo com a cabeça, e eu entendi que era para eu não falar nada. Bom, eu realmente não sabia o que dizer. Continuamos andando pelo local, olhando a tudo para ver se encontrávamos Henrie e Ashley. Logo eu os avistei, e pensei em falar para Kate que eu já os havia encontrado enquanto ela ainda olhava para o outro lado do parque. Mas desisti de lhe dizer quando vi Henrie puxar Ashley pela cintura, sorrindo – sorrindo de verdade, não aquele sorriso carregado de deboche de sempre -, e beijá-la.
Engoli em seco e, antes que Kate pudesse se virar para ver a cena, parei na sua frente para bloquear a visão e a segurei pelos ombros, sorrindo nervosamente.
(Para quem quiser ouvir... Dá um clima).
– Que tal comermos algo? – perguntei.
Ela me olhou, estranhando minha súbita mudança de humor.
– Ah... Tudo bem. Tem uma barraquinha ali vendendo... – ela falava, e eu a interrompi rapidamente, a virando para a direção contrária de onde Ashley e Henrie estavam.
– Não, aqui não! Vamos naquela lanchonete de sempre e...
Kate parou se desvencilhando das minhas mãos.
– Mas temos que procurar pelo Henrie e a Ashley. – lembrou. – Depois nós vamos comer algo.
– Não, tem que ser agora. – falei rapidamente.
Kate crispou os olhos para mim.
– Você está estranho... – murmurou. – O que aconteceu?
– Nada. – sorri nervoso. – Eu estou com fome. Vamos embora logo, por favor.
Kate revirou os olhos e se preparou para voltar a andar na direção em que Henrie e Ashley estavam. Eu a segurei novamente, mas ela conseguiu se soltar e riu, andando rapidamente. Arregalei os olhos e ela se virou. E seu olhar caiu sobre o que ela não devia ter visto.
Os dois ainda se beijavam, e ao fundo o cantor contratado cantava uma música romântica. Não era triste, – talvez isso até fizesse tudo aquilo parecer menos infeliz do que realmente era. Ela era feliz, e falava sobre um amor bom. Um amor que te cura.
Não era o caso de Kate.
Segurei seu pulso, e ela não me olhou nos olhos. Vi Henrie agora conversando com Ashley, ainda segurando sua cintura.
– Vamos. – ela murmurou me dando as costas e indo na direção contrária, em direção à saída do parque.
Eu me esgueirei entre as pessoas e consegui alcança-la. Ela não queria falar nada, e eu é que não iria invadir seu espaço. Andamos lado a lado pela calçada, em silêncio. Depois de minutos, Kate parou e me segurou pela manga da minha jaqueta. Eu me virei para ela e sem me olhar, ela me abraçou. Suspirei, rodeando seus ombros com meus braços. Eu a ouvi chorar baixinho e afaguei o topo de sua cabeça. Ficamos um tempo na mesma posição, mas eu não me incomodava. Doía em mim ver Kate daquela maneira...
Vaguei com meu olhar pela rua brevemente e, a alguns metros, eu vi alguém parado no meio da pista. Apertei meus olhos, tentando enxergar quem era. Devido a distância, eu não conseguia ver o rosto da pessoa, mas era perceptível que era uma menina.
Aparentemente nos observava, estava parada estática olhando em nossa direção. Mesmo da distância que estávamos eu pude ver os pés descalços no asfalto, e um vestido simples e branco. Os cabelos lisos e loiros que caíam sobre os ombros e...
Estaquei. Não, não podia ser.
Arregalei os olhos ao ver um carro vindo em alta velocidade em sua direção, ao longe. Eu quis gritar, mas a voz não saía. Inconscientemente apertei Kate ainda mais em meus braços, mas ela não pareceu perceber. O carro se aproximou mais e eu fechei os olhos fortemente ao ver que ele iria atropelá-la. Afundei meu rosto no ombro de Kate, respirando arfante.
– Josh? – Kate chamou baixinho com a voz embargada. – O que foi? O que você tem?
Não respondi. Levantei o rosto receoso, olhando para a rua novamente.
Nada.
Apenas o vislumbre do carro ao longe, já tendo passado por nós, e suas marcas no asfalto.
Olhei ao redor, para os dois lados da rua, sob o olhar curioso e confuso de Kate. Ela perguntou novamente o que havia acontecido, também olhando ao redor para tentar entender o que eu tinha.
– Mas... – arquejei. – Ela...
– Ela quem? – Kate me olhou ainda mais confusa. – Josh, o que aconteceu?
Ela limpou os vestígios das lágrimas que havia em seu rosto, e olhou para a rua. Em seguida seu olhar pousou em mim novamente.
– Enlouqueceu? – perguntou, sorrindo levemente.
– Estava ali agora a pouco. – murmurei, sentindo minhas mãos suarem frio.
Passei os dedos nos cabelos, fechando os olhos. Senti a mão de Kate em meu ombro.
– Josh, me explica o que aconteceu. Você está me assustando. – ela falou.
Engoli em seco.
Balancei a cabeça, forçando um sorriso para ela.
– Nada. Não foi nada. – falei.
– Quer mesmo que eu acredite que você está tremendo, com as mãos suando frio e o coração acelerado por nada? – perguntou revirando os olhos. – Você parece que viu um fantasma!
Engoli em seco, meu olhar indo para onde eu havia visto a garota. Ri nervoso, balançando a cabeça novamente.
– É. – ri novamente. – Vamos embora? Vou te deixar em casa.
Kate me olhou como se eu fosse um louco.
Talvez eu fosse.
Notas finais
Eu realmente achei essa música a cara da Holly, do Josh e até da Kate! HAUHUAHUAHU.
Enfim, gostaram? Esse capítulo iria ficar maior até, mas eu resolvi não ter pressa. Cada coisa no seu tempo, por isso a Holly ainda não apareceu para o Josh, como está escrito lá na sinopse... Mas logo isso acontecerá! Ela já deu os "primeiros passos", viram? heheh.
Me digam se estão gostando, please! Reviews! *u*
Logo eu postarei o próximo!
Beeeeeeeeeeeijos!
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