Vida Dupla

5 Capítulo 4


Gustavo acordou tarde como de costume, depois de ficar jogando até às quatro da madrugada. De pijama e com os cabelos à la Robert Smith do The Cure, ele desceu as escadas bocejando e foi para a cozinha. Agora tinha quinze anos, já estava há quase um ano naquela casa, tinha conhecido muitas músicas, jogos e filmes diferentes, não vivia mais sem seu smartphone.

Despertou ao encontrar Saulo sentado à mesa. Saulo nunca fazia nenhuma refeição com ele. Raramente era visto no casarão.

— Boa tarde, Gustavo. Achei que nunca iria descer — disse. Guto arqueou uma sobrancelha, deu de ombros e se sentou se servindo de cereais. — Isso por acaso, é comida que se preze?

Gustavo suspirou. Saulo nunca estava presente e quando aparecia, ficava o aporrinhando. Nem o Ano Novo passaram juntos, apenas um Natal bem lúgubre e tedioso com um jantar abundante e nenhum assunto. Foi uma tortura, tudo que Guto queria era subir as escadas e passar mais uma fase do seu novo jogo.

— Então... Alguém morreu? Pra você decidir aparecer, alguém deve ter morrido.

— Muito engraçado. Essa sua mordomia está prestes a acabar. Te matriculei no colégio Baudelaire.

— O que? — Gustavo parou a colher no meio do caminho até sua boca. Fazia tanto tempo que só tinha aulas em casa que ele nem sabia mais o que era interagir com pessoas da sua idade. Começou a ficar nervoso. — Por que isso agora?

— Porque, obviamente, você não vai passar o resto da sua vida trancado no quarto. Relaxa um pouco, rapaz, vai ser legal. — Saulo abriu seu largo sorriso bilionário. Gustavo retribuiu com um sorriso forçado.

— Ok. Vou precisar de material escolar então? — Pela primeira vez, Gustavo sentiu que Saulo poderia ser sua família. Comprar material escolar juntos, tomar sorvete, conversar sobre a escola, era como ele imaginava ser adotado quando ele estava no orfanato.

— Já está tudo no seu quarto.

— Ah... Claro. — Ele devia ter imaginado.

— Não está ansioso para ver suas coisas? Vamos. Vai lá pra cima.

Gustavo largou o cereal na metade e subiu as escadas. Menos empolgado e mais nervoso com a ideia de conhecer tantas pessoas da sua idade. Já imaginava que todos deveriam ser mimadinhos arrogantes criados pela babá e ganhando viagens e carros da mamãe e papai para suprir a ausência deles em suas vidas.

Gustavo suspirou ao entrar no quarto e a porta foi aberta novamente logo em seguida.

— Colégio Baudelaire, aí vamos nós! Está empolgado? — Era Tati, sua melhor companheira desde que chegara. Gustavo refletiu um pouco, Tatiana era sua babá, ele tinha virado aquilo que mais criticava: um mimadinho arrogante. — Ih, que cara é essa?

— Não estou empolgado para conhecer um bando de riquinho idiota, Tati.

— É, eu também não estaria para falar a verdade. — Tati se sentou na cama, enquanto Gustavo checava seu material escolar. — Mas uma coisa que eu aprendi, é que sempre vamos encontrar pessoas boas, não importa aonde você vá, pode ser no pior lugar do mundo. Olha aqui, por exemplo, você me encontrou.

Tatiana fez uma careta convencida que fez Gustavo gargalhar.

— Você tem razão. Pode ser bom.

Poucos dias depois, Guto estava se preparando para seu primeiro dia de aula. Passou gel nos cabelos pretos, colocou uma jaqueta de couro e jogou a mochila nas costas.

Ele era alto e estava começando a ficar mais forte já que há alguns meses, Saulo tinha lhe entregado uma sequência de exercícios para fazer na academia da mansão.

Assim que saiu de casa, ele colocou os óculos escuros. Mesmo que ainda fosse sete horas da manhã, já estava sol como era natural do mês de fevereiro.

O motorista o levou até o colégio. Um prédio enorme e muito bonito. Alguns grupinhos de jovens estavam reunidos no jardim conversando. Gustavo respirou fundo. Sabia que assim que saísse, ele seria o centro das atenções, afinal era o aluno novo, todos ali deviam ter estudado junto a vida toda e ele seria o intruso.

Como pensou, chamou a atenção. Ficou surpreso de receber alguns sorrisinhos de garotas, mas não correspondeu. Como sempre, tentava fingir que não estava impressionado com o lugar, mas suas mãos suavam dentro dos bolsos.

Depois de rodar um pouco procurando pela secretaria, foi parado por uma garota de cabelos loiros longos e lisos. Gustavo nunca tinha visto alguém tão perfeito e ficou encantado assim que colocou os olhos nela.

— Oi, você precisa de ajuda? — ela perguntou. A voz doce e delicada como tudo nela.

— Na verdade, é eu preciso sim — respondeu com um sorriso sem jeito. — Acho que estou perdido, preciso ir até a secretaria.

— Eu te levo lá. Meu nome é Amanda. Sou representante de classe, faço parte do clube de dança e handbol.

— Uau. Tudo isso. Você joga?

— Sim, ninguém acredita quando eu falo. Aposto que acha que eu sou péssima, devia vir me ver jogar qualquer dia.

— Não, aposto que é boa, não subestimo garotas — ele disse. Elena tinha o ensinado que garotas franzinas também podem ser bem espertas e agora Amanda, ele seria maluco se subestimasse qualquer uma delas. — Mas iria adorar te ver jogar.

— Legal. Você não me disse seu nome.

— Ah desculpa, é... Gustavo, mas pode me chamar de Guto.

— Está entregue, Guto, a secretaria é aqui. Qualquer coisa, pode me chamar.

— Obrigado, se não fosse você eu ainda estaria perdido por aí.

Ela abriu um sorriso largo e se afastou, mas Gustavo ainda ficou um tempo parado no mesmo lugar, aquele sorriso tinha o deixado meio aturdido. Ele precisava encontrar ela de novo.

***

Elena agora ajudava com mais frequência na padaria. Passava a tarde lá depois da escola. Também estava ajudando a fazer os doces, por isso ficou ansiosa quando um cliente pediu um pedaço de bolo de creme e doce de leite.

Ela levou até a mesa. O cliente era um rapaz de uns dezenove anos, cabelos compridos presos em um coque e carregando um violão. Elena achou o estilo bem interessante.

— Aqui está. — Ela colocou o pratinho com o bolo na mesa, mas não se afastou.

— Ahm… obrigada, ér você quer um pedaço? — perguntou ao ver que a garota não se afastava.

— Ah não, não. Não é isso. Só quero saber o que acha do bolo, ahm foi eu que fiz e você é o primeiro a pedir um.

— Ah! Claro. — Ele sorriu, mordeu um pedaço e saboreou devagar deixando-a na expectativa, mordendo os lábios de uma maneira adorável. — É, está bem mais ou menos.

— Ah… poxa, tudo bem, eu… eu vou melhorar.

— Brincadeira, está uma delícia. Você é boa. É sério.

— Não me assusta desse jeito. — Ela bateu em seu braço, depois olhou em volta, se seus pais vissem ela batendo em um cliente teria que ouvir sermão a noite toda. Então disfarçou esfregando a mão onde tinha batido, fingindo limpar algo e se surpreendeu como ele era forte por baixo da blusa leve de manga comprida.

— O que está fazendo, Elena? — perguntou sua mãe.

— Nada, mãe, só limpando uma sujeirinha que estava na blusa do senhor…

— Rafael, só Rafael.

Assim que a mãe de Elena se afastou, os dois riram.

— Você mereceu.

— É, isso é verdade. Qual é o seu nome?

— Elena.

— Espero te encontrar mais vezes, Elena. E seus bolos também. — Ele se levantou, se despediu com um sorriso bonito e saiu da padaria. Elena suspirou. Ela também queria vê-lo de novo.

Notas finais
Gustavo e Elena seguindo com suas vidas. O que estão achando? Sugestões, teorias? Perdoem qualquer errinho. Espero que tenham gostado!