Victorian Love
2 Capítulo II
Notas iniciais
Quando Rose desceu da carruagem, a irritação dela por causa do vestido ainda não havia desaparecido. Tudo bem, havia perdido o fôlego ao se ver no espelho, mas isso não compensava o tremendo desconforto que sentia. O espartilho estava extremamente apertado e o tecido tinha detalhes demais — detalhes que coçavam e perturbavam-lhe.
Além disso, ela tinha certeza de que a mãe não estava guardando aquele vestido "por acaso", ele era do exato tom de azul dos seus olhos. Havia sido feito sobre encomenda.
Assim que percebeu não ter como ir até a cidade para comprar uma vestimenta adequada para o jantar — uma das carruagens havia quebrado, a outra estava à disposição do seu tio George, que estava em Londres para a chegada do sobrinho, e a outra estava transportando encomendas —, Rose teve que fazer a coisa que mais odiava no mundo: pedir ajuda. A surpresa foi que a mãe não a repreendeu. Não, ela parecia estar esperando por aquilo. O que tinha magoado o ego de Rose um pouco, afinal, ela não era tão esquecida assim, era?
Arrumou mais um pouco o cabelo ruivo, que estava preso num coque, e tentou ajeitar os fios que se soltavam, inutilmente. Suspirou.
— Rose! — chamou Hugo, já perto da porta.
A ruiva levantou a saia e foi em direção ao resto da família. A Mansão Potter era, pelo menos, duas vezes maior do que sua casa. Contava com vários salões e um terreno enorme, o que era extremamente conveniente, especialmente para os famosos bailes dados. As portas foram abertas e criados seguraram o que lhes era entregue. Rose, mais uma vez, observou o interior do lugar com admiração. Cada pequeno detalhe lembrava-lhe do casal ali que morava — uma mistura sofisticada de gentileza e ousadia.
Foram guiados à sala onde todos ficariam até que o jantar fosse servido. Os Potter vieram cumprimentá-los, gentis como sempre eram. Então, Rose teve que saudar todos os outros convidados — os Finnigan, os Thomas, os Scamander, etc. — para que Lily pudesse arrastá-la para os jardins.
— Estou tão nervosa, Rose. — Lily disse, torcendo as mãos.
— Ora, e por quê?
— É bastante bobo, na verdade. Mas... faz tanto tempo que não o vejo, que nem sei se lembro-me direito como ele era!
Rose sorriu.
— Albus? Não creio que ele tenha mudado muito, prima. Mas, caso você tenha esquecido: ele tem olhos verdes, um sorriso gentil, é inteligente e divertido. O tempo não mudou isso nele, espero.
Lily sorriu de volta, mais confiante.
— Ah, como pude esquecer! — a Potter exclamou, de repente. — Teremos um casamento, logo, logo.
— Grande novidade, Lily! — Rose desdenhou. — Às vezes parece que as pessoas dessa cidade só pensam em... Quem é o casal, mesmo?
— Charlotte Finnigan e Edward Thomas!
— Darei o braço a torcer, pois são um casal adorável, realmente. — Rose concordou. — Você acha que...
Mas ela se interrompeu, percebendo que a outra não prestava atenção.
— Lily? — preocupou-se.
Ela virou-se para Rose com um sorriso enorme e os olhos brilhando.
— Ele chegou!
— O quê? — Rose franziu a testa, confusa. — Mas...
— Mamãe pediu que a carruagem viesse pelos fundos, para que Albus pudesse se trocar antes de descer para o jantar. — explicou, animada. — Tenho quase certeza de que ouvi o barulho dos cavalos, é melhor voltarmos.
As duas caminharam tranquilamente, mas, ainda assim, chegaram cedo o bastante para presenciar a cena que se desdobrava.
O Sr. Weasley estava com a face escarlate de raiva, e o braço era detido pelo aperto firme da esposa, que sussurrava para que ele se acalmasse. O motivo da inquietação eram os convidados cruzando a porta. Mais especificamente, o convidado: Draco Malfoy. O Sr. e a Sra. Potter foram cumprimentá-los, ignorando a reação do cunhado/irmão.
É de se esperar que, com a idade, rixas infantis sejam esquecidas, mas esse não foi o caso com Ronald Weasley e Draco Malfoy. O primeiro, pobre, era constantemente atormentado pelo outro. Agora, Ronald era um homem bastante influente e de considerável fortuna e o Sr. Malfoy tivera a família envolvida em um escândalo. Ainda, entretanto, cultivavam um ressentimento orgulhoso um do outro.
Então, o Sr. Malfoy foi guiado gentilmente até o canto do salão oposto ao que o Sr. Weasley ocupava. Este, já mais calmo, embora o tom avermelhado não deixasse suas orelhas, deu um gole em sua bebida, ouvindo o sermão da esposa sobre bons modos.
Ao lado de Rose, Lily sorriu culpada.
— Bem, mamãe e papai sabem como o tio Ronald é. — sussurrou. — Se tivessem contado que o Sr. Malfoy vinha, ele nunca viria também.
— Infelizmente, sei que é verdade. São duas criaturas impossíveis. — respondeu. — Mas há algo que não entendo. Por que o Sr. Malfoy tem que comparecer à este jantar?
Lily arregalou os olhos levemente.
— Oh, achei que já tinha dito! Albus não voltou sozinho da viagem; o filho dos Malfoy veio com ele. Acho que se chama Scorpius, ou algo assim. É um grande amigo do meu irmão, eles estão sempre juntos em Cambridge. — ela disse.
Rose estava prestes a falar algo, mas foi interrompida pelo tocar de um sininho. Um homem robusto e de ar levemente desinteressado anunciou o Sr. Albus Potter e o Sr. Scorpius Malfoy, que surgiram ao topo da escada.
E é engraçado como as coisas são, pois se alguém perguntasse então à Rose Weasley qual era a aparência do Sr. Malfoy ela nunca saberia dizê-lo. Seus olhos estavam no primo, e apenas nele. Os olhos verdes eram, basicamente, as únicas coisas que continuavam exatamente as mesmas. Albus Potter havia saído de Londres um menino magricela e, agora, voltava um homem feito. Ele estava mais alto do que ela se lembrava, e mais forte também. Os cabelos negros tinham um novo corte e as roupas eram diferentes. Rose nunca havia pensado na questão antes, embora sempre fosse óbvio: Albus era absurdamente bonito.
Ela estava com mais saudade dele do que havia ousado pensar. Mas, embora quisesse atravessar o salão correndo e abraçá-lo, Rose sabia que antes ele deveria deixá-lo matar a saudade da família imediata.
Lily pulou em cima do irmão, e foi só então que Rose direcionou os olhos para o Sr. Malfoy, com curiosidade.
O contraste entre Albus e seu amigo era desnorteante. Como se Scorpius Malfoy fosse todo desenhado em sombras, Rose pensou.
Era uma figura interessante, pois de tanto ser claro era obscuro. A pele de Scorpius era tão pálida que beirava a translucidez, seu cabelo loiro de um tom tão claro que chegava ao prateado, seus olhos cinzentos como o céu tempestuoso. Mas essa falta de cor era compensada pela dureza de suas feições e o rosto anguloso lhe garantia uma importância inegável.
Não se podia dizer que ele era bonito — sua compleição era demasiado estranha para tal. Mas certamente havia algo que prendia o olhar em sua aparência inusitada.
Algo que havia prendido o olhar de Rose.
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