Vicodin
1 Único
Notas iniciais
Vicodin
O frasco alaranjado deslizava por entre os dedos. A substância analgésica fazia o seu melhor trabalho, percorrendo o caminho de sempre no corpo cansado e mal cuidado. Entre doses e mais doses de uísque, as super dosagens corriqueiras e o estresse do trabalho. Aos poucos a dor era aliviada, mas nunca terminada.
Sempre viria mais forte, mais impiedosa, como uma verdadeira avalanche de Sensações desagradáveis e penosa, causada por um estado anômalo do seu organismo.
Deixou o pote cair no carpete de sua sala vazia, não havia ninguém para lhe socorrer. A dor retomou, mas não em sua perna. Dessa vez o coração gritava por socorro e ajuda, essa que não vinha tão rápido como das outras vezes. Essa que já estava acostumado, mas agora a situação não era mais a mesma, deveria se acostumar a viver só.
Solidão, tristeza, abandono...
Acostumar-se...
Mas seu coração não estava em condições de passar por mais uma prova de fogo como tal.
Caiu no chão assim como seu frasco de Vicodin. Apertou a mão no peito quase sem ar. Os olhos avermelhados e a mente confusa. Já não enxergava mais colorido, tudo estava escurecendo, as cores sumiram de sua vida completamente, seus olhos se fechavam e a dor então se alastrou para todo o seu corpo cansado e vicioso.
Claridade, ilusão, branco...
Acostumou-se com aquela luz tão branca em seus olhos falhos, com dificuldade mas, incrivelmente sem a dor. Respirou fundo, checando tal como o médico que era, sua saúde!
Saúde? Branco, olhos, dor. O que acontecia ali já fora visto antes, mas não imaginou que ficaria novamente feliz. Mais uma vez satisfeito por morrer.
— Antecipando novamente sua viajem? — A voz melodiosa vinha atrás de si. Gregory virou-se para constatar que não era um fantasma. Não! Era de uma forma real muito bizarra, mas real. – Para que tanta pressa? O ônibus não partirá antes do momento certo.
Curiosamente não havia resposta para aquilo. Manteve-se calado fitando a mulher loira com um sorriso nos lábios e de olhos fechados sentindo a brisa que vinha da janela do além.
Mantiveram-se assim, por longos e infinitos minutos. Até que ele já não aguentava mais aquilo.
— Já lhe disseram que é uma péssima fantasma? Não conseguiu me assustar nenhuma das vezes que apareceu. – Procurou nos bolsos por algo, aquela mania estava para ser terminada urgentemente. O frasco laranja não era mais necessário.
— Não quero te assustar. – Pausou um instante se levantando do banco de trás, daquele ônibus branco conhecido pelos dois anos atrás. – Você já faz isso por conta própria.
— Eu tenho pesadelos todos os dias, não mantenho uma equipe por mais de cinco meses e ainda estou recebendo conselhos da fantasminha camarada. Se estou louco porque não continuei naquele centro psiquiátrico? – Resmungou procurando por mais gente no ônibus, agora sim, assustadoramente white.
— Porque sempre faz as perguntas erradas? – Ela lhe sorriu, tranquila. Não era a Amber que estava acostumado a conviver.
— E quais são as certas?
— Porque tentou se matar? Porque não mantém mais a mesma equipe? Porque deixou Thirteen, se entregar tão facilmente aquela doença? Porque não foi visitar Cuddy quando sua filha fora atropelada em frente a escola? Porque ignorou o convite de Cameron e Chase para conhecer o bebê recém nascido? Porque ainda quer perturbar a paz de Wilson? Para que ainda deseja saber sobre a morte de Kutner? Deixou Foreman só quando ele mais precisou de você! E agora, precisa de uma fantasma para lhe fazer pensar nas respostas para essas perguntas também?
Os olhos de Amber não eram mais ferozes como antes, House estava vivendo no seu passado, ele agora entendia um pouco mais da morte? As pessoas nunca mudam, isso ele tinha convicção. Mas depois de morrerem?
— Tem razão! – Ela sorriu achando aquilo fácil demais. – Você é um péssimo fantasma. – Levantou-se do banco, a dor também regressou. A dor voltou! Gregory voltou seus olhos para a loira, que mais uma vez sentada naquele banco esperava a hora certa para que um dia pudessem terminar aquela conversa.
Aos poucos a dor no pulmão aumentava, mas não era ruim, era ter novamente o ar circulando. Abriu os olhos de uma só vez e estava cercado por todos ali.
Recebeu um tapa, antes de mais nada, vindo de Lisa. Ela se levantou do chão reclamando do susto, saiu da sala antes que alguém a visse secar as lágrimas.
Com a ajuda da equipe sentou-se na cadeira, procurou nos bolsos por algo e tirou de lá o frasco alaranjado. Olhou para cada um naquela sala, queria poder dizer a eles sobre várias coisas. Mas quem acreditaria no médico viciado?
Esticou o braço jogando os comprimidos na lixeira. Todos fitavam a cena embasbacados, mas qual for a explicação para aquilo, com certeza seria uma pegadinha, estavam acostumado aquilo. Acostumados até demais com aquilo, e quando fosse verdade? Saberiam?
Ouviu uma voz tão bom conhecida na sua mente, a melodiosa e suave voz da morte que o seguia. Dizendo-lhe que ainda não era o fim.
House abriu a gaveta da escrivaninha, pegando outro frasco reserva, pôs o bolso e catou sua bengala. Saiu do escritório. Já era hora do almoço e estava faminto. Talvez Wilson lhe pagaria um lanche.
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