Vicissitudes
1 Vicissitudes
A rotina iniciou as cinco horas da manhã, como era o habitual no Recanto da Nuvem, em Gusu.
O sol, ainda não brilhava no céu, mas a brisa refrescante daquela manhã que estava por chegar entrava pela janela anunciando mais um dia de temperatura estável e agradável. Embora o segundo jovem mestre não se incomodasse também quando acordava com o barulho da chuva, ou o uivo do vento empurrando a neve pelo ar, quando era inverno.
Lan WangJi abriu os olhos e com tranquilidade nos movimentos, ele se sentou em sua cama. Apesar de ser uma pessoa sóbria em seus sentimentos, ele estava levemente agitado naquela manhã, pois o Recanto da Nuvem receberia os jovens de outros Clãs para três meses de ensinamentos.
Ele acreditava que estreitar os laços com os outros clãs era favorável não apenas para as seitas, mas, também, para todas as pessoas que se beneficiariam dos ensinamentos de seu tio e mentor LanQiRen.
O Clã Lan apreciava não apenas as regras, mas o caminho correto ao qual os cultivadores deveriam seguir durante sua vida. Desviar desse caminho, era renunciar a preceitos importantes que desequilibravam as leis do plano material e espiritual. Seguir as regras não era um problema para Lan WangJi até aquele momento, pois sua educação foi sempre muito focada na disciplina ao qual ele jamais questionou, ou pensou em um dia questionar.
Enquanto lavava o rosto na água que despejou na bacia, ele sentiu o coração palpitar em ansiedade. Aquele sentimento era uma novidade, mesmo quando lutava contra monstros e espíritos malignos, mantinha sempre a calma e a paz interior inabalável. Suas ações eram sempre feitas de forma comedida, porém alinhado com seus deveres e regras. Não havia espaço para erros ou distrações. Trabalhava seriamente como foi treinado sua vida toda até aquele momento. E, sendo assim, não havia motivos para a ansiedade tomar conta de seu coração.
A não ser que ele estivesse doente, sendo assim, precisaria se consultar com um curandeiro. Embora sua saúde fosse atestada como forte e seu corpo resistente.
Durante a refeição, feita em silêncio, Lan WangJi pensou novamente sobre o palpitar agitado de seu coração. Uma vez, após uma caçada noturna, ele e seu irmão bebiam chá em uma hospedaria. A conversa na mesa ao lado não era de seu interesse, mas as pessoas falavam alto e não havia como ignorar suas vozes e o que elas diziam.
“Naquele dia eu pressenti que algo ruim aconteceria, quando acordei de manhã, senti meu coração bater muito forte, passei o dia todo com essa sensação me incomodando. Ouvi da minha mãe que era um mal presságio, e ela estava certa. Só foi eu sair na rua que o cavalo desgovernado me atropelou, me deixando de cama por um mês inteiro.”
A lembrança daquela pessoa fez LanWangJi suspeitar de seus sintomas. Seria aquela uma sensação de mal presságio? Algo muito ruim estaria para acontecer no Recanto da Nuvem? E se fosse, o que seria?
Com tais questões o incomodando a manhã toda, o jovem mestre encontrou-se com seu irmão em uma das varandas que abria para o jardim de inferno, local que era muito apreciado por ele pelas manhãs.
Após se cumprimentarem, LanXiChen sorriu, a expressão em seu rosto era tranquila, não muito diferente do que o mais novo costumava ver. LanWangJi não precisou dar detalhes de que havia algo o incomodando, assim que o irmão mais velho virou-se para observar mais uma vez o jardim, ele perguntou o que era que o afligia. A resposta foi uma reação muda, quando LanWangJi olhou para o irmão e crispou levemente os lábios.
Embora ele soubesse que expor os sentimentos em palavras fosse a forma mais eficiente de manter o diálogo, fazê-lo na prática não parecia ser uma tarefa trivial.
— Irmão, os convidados estão chegando. Espero que todos se sintam bem. — O mais velho disse, enquanto fazia um movimento com a cabeça.
Lan WangJi concordou, ele poderia esperar o dia pelo menos chegar ao fim para ter respostas sobre o seu coração palpitar.
Entretanto, não precisou esperar muito para saber que as coisas estavam mudando muito rápido. O Recanto das Nuvens possuía regras rigorosas para muitas ocasiões, manter o silêncio era uma das regras importantes. Tais regras aplicavam-se, inclusive, para visitantes. Dessa forma, se você era um visitante, quebrar as regras desse local de visita era duplamente rude.
E as vozes aumentavam, além de ter alguém em especial que tornou o fim daquele dia ainda mais a contra gosto de Lan WangJi, que voltava de seu retiro para uma patrulha. O jovem mestre chamou sua atenção não somente pela quebra de regras, perambulando após o toque de recolher e bebendo álcool, quebrando as regras duas vezes de uma só vez.
Houve então uma tentativa de diálogo, por parte do outro, e quando Lan WangJi menos esperava, ele havia sacado sua espada e iniciava uma luta sobre os telhados. Era proibido lutar sem consentimento no Recanto da Nuvem.
Quando a ronda terminou, ele retornou ao seu quarto e parou perplexo atrás da porta recém fechada. Havia quebrado uma regra, seu coração estava disparado, ele lavou o rosto e se recompôs.
O dia havia chegado ao fim e acreditava que aquela sensação também findaria com o nascer de uma nova manhã. Entretanto, os dias seguintes não foram diferentes, seu coração havia pressentido que mudanças ocorreriam. E elas aconteciam muito rápido diante de seus olhos. Principalmente quando se deparava com Wei Wuxian.
Estava claro que ele se divertia com suas palavras inconvenientes, mas não era apenas isso. Além de seu vocabulário atrevido, ele não possuía qualquer respeito com as regras de etiqueta, era descuidado, falava aos berros e agia de forma inadequada. Tanto que recebeu diversos castigos e, mesmo assim, não se mostrava arrependido. Estava escrito em seus olhos que ele não era uma pessoa arrependida do que fazia.
Toda as suas atitudes culminaram em um castigo ao qual o próprio Lan WangJi seria responsável em observar. E não houve um dia que a voz de Wei Wuxian não incomodasse o jovem segundo mestre do Clã Lan. A menos quando ele lançava um feitiço para mantê-lo em silêncio, quando sua boca ficava fechada firmemente por um tempo, ou pelo menos até ele parar de forçar a fala.
Durante aquele mês, os sonhos de Lan WangJi tornaram-se um caos. Em um dia normal, ele apenas dormiria de forma pacífica, relaxando corpo e mente. Contudo, não havia como sua mente descansar, não quando a voz de Wei Wuxian ainda parecia viva em sua cabeça. Seu corpo também não descansava. Embora ele não estivesse fisicamente ferido, ou exausto pelos treinos, Lan WangJi sentia o calor preencher o seu interior. Começava pelo peito, mas se espalhava por todo o resto, inclusive em regiões mais íntimas. Ainda que seu corpo cedesse ao sono rígido que iniciava as nove horas da noite e ia até as cinco da manhã, ele não estava livre dos sonhos que vinha tendo. E, quando acordava, os vestígios da noite estavam pelo lençol molhado e o rosto aquecido pelo suor.
As lembranças dos sonhos eram vivas demais para serem ignoradas, parecia tão real, que a aproximação do verdadeiro Wei Wuxian causava comoção em seu coração. Mesmo que a sua expressão exterior permanecesse a mesma, por dentro Lan WangJi não conseguia se reconhecer mais.
Ao longo daquele mês, recebeu diversos bilhetes de Wei Wuxian, como prova de que estava arrependido de seus erros. De qualquer forma, entre um bilhete e outro, ele também amaldiçoava as regras do Clã Lan, reclamava do tratamento que recebia e isso só fazia aumentar a suspeita de Lan WangJi de que ele queria apenas se livrar do castigo.
Entre os bilhetes, que Lan WangJi amassava depois de receber, também havia frases lisonjeiras. Primeiro sobre sua caligrafia e postura, depois sobre sua beleza ao qual era muito falada entre as garotas da idade deles. E, por fim, Wei Wuxian escreveu (já que ele estava com a boca selada e impedido de falar), que Lan WangJi era alguém admirável.
É claro que ele lia os bilhetes apenas depois que Wei Wuxian deixava a biblioteca, de qualquer forma, ele não poderia sair dali sem organizar toda a bagunça que o cultivador havia causado.
No último dia, quando Wei Wuxian trocou o livro ao qual copiava por um pornográfico, Lan WangJi sentiu-se ofendido e, mais uma vez, sacou sua espada.
Em seu quarto, sozinho, andou de um lado para o outro pela madeira, sem causar barulho ou chamar atenção. O atrevimento de Wei Wuxian havia passado dos limites, assim como mostrava seu coração que saltava em seu peito de forma implacável.
Quando fechou os olhos, e respirou fundo para tranquilizar seu espírito, a imagem que havia visto no livro pornográfico dominou sua mente. E, já não bastasse tal pensamento impuro, ele ainda se viu no lugar de um dos desenhos e, completando o pesadelo, Wei Wuxian na outra posição, embaixo dele.
Lan WangJi abriu os olhos, mas não adiantava, a imagem estava fresca em sua mente. E não apenas isso, naquela noite, seu sonho ficou ainda mais intenso e claro. Até então ele apenas tinha como imagem Wei Wuxian falando, andando e sentando-se em sua frente. Agora o sonho ampliou em detalhes, unindo os dois em cima daquela cama ao qual ele dormia. O sorriso, a boca movendo-se lentamente ao falar seu nome de nascimento.
Acordar naquela manhã não acalmou a situação, apenas trouxe mais questionamento.
Como poderia ele, Lan WangJi, não conseguir controlar seus próprios sonhos. E porque Wei Wuxian mexia tanto com seu interior, sua mente e seu coração? Os dois não eram parecidos em nada. Divergiam entre as regras, o bom senso, a moralidade.
E mesmo que tentasse se afastar de Wei Wuxian, o mundo parecia conspirar contra ele em colocá-los sempre lado a lado daquele dia em diante.
Em uma manhã, quando encontrou o irmão mais velho na varanda em uma manhã, ouviu de Lan XiChen que ele parecia bem. Por dentro, Lan WangJi não estava nada bem, cheio de dúvidas e pensamentos que não deveriam ser sequer pronunciados. Então como o irmão poderia dizer tais palavras?
— Parece que está se dando bem com Wei Ying.
Lan WangJi olhou sério para o irmão mais velho, estaria ele o zombando?
— Eu... — Ele não terminou a fala, desviando o olhar para o chão, enquanto as mãos sossegavam atrás do corpo, o dedo indicador inquieto, roçando no outro.
— Todos já vão retornar para casa, então, acredito que ele deve ser o mais empolgado para ir embora. — O leve sorriso de Lan XiChen voltou a surpreender Lan WangJi.
— As coisas vão voltar ao normal. — Ele contemplou a visão do jardim.
— Será mesmo? — O irmão se despediu e afastou-se andando devagar, até que ele desapareceu das vistas do mais novo.
Assim que seu olhar direcionou novamente para o jardim, o coração de Lan WangJi voltou a se agitar. Talvez por não concordar com as palavras do irmão, desejava que as coisas voltassem a ser como eram antes e não via por que a mudança acontecer.
E, mais uma vez, a imagem de Wei Wuxian veio intensa na sua mente. Dessa vez, não por pensar em imagens inadequadas dele sem roupas, mas pela simples ideia de vê-lo se afastar e não saber se a vida faria com que seus caminhos se unissem novamente no futuro.
Era temor.
E depois de tal pensamento, ele sentiu o coração se tranquilizar. Uma sensação leve de paz acomodou seu interior, tal como se ele estivesse em meditação por horas a fio. O sorriso débil de Wei Wuxian era a única coisa que Lan WangJi pensava naquele momento, enquanto olhava as flores do jardim.
O coração respondeu sua maior dúvida naquele momento. E, diferente de antes, não se sentia ansioso ou envergonhado. Muito pelo contrário, era melhor ter conhecimento do que aqueles sentimentos significavam, do que passar uma vida com uma venda nos olhos.
Contudo, seu coração ainda não sabia que iria passar por provas e obstáculos dali em diante, até que, finalmente, pudesse ser correspondido.
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