Vicioso

1 Prólogo


Notas iniciais
É a primeira vez que eu publico aqui no Nyah. Espero que gostem da fic. É através desse prólogo que a vida da personagem principal irá sofrer mudanças.

Marcela se olhou no espelho enquanto vestia seu uniforme apressada. Sabia que o horário não estava a seu favor. Calçou os tênis, amarrou o cabelo em um rabo de cavalo alto e saiu correndo em direção a porta, levando consigo a mochila.

Olhou mais uma vez para o relógio e negou com a cabeça. Roger seu técnico iria matá-la, ela tinha certeza. Nos últimos meses sua rotina de treinos estava tão puxada que atrasos tornaram-se normais. Ela não podia fazer muita coisa, afinal não tinha culpa mesmo que ele lhe desse uma bronca. O que acontecia todos os dias, na maior parte das vezes com todas as garotas em quadra.

Mas Marcela não tinha culpa.

Não tinha culpa de ter sido atingida por uma bola e gerado uma lesão.

Aquilo simplesmente havia acontecido. Ninguém podia culpá-la, não era como se ela tivesse planejado. Mas quem em sã consciência planejaria aquilo?

Seu técnico às vezes insinuava a hipótese o que a deixava irada e fazia cogitar a ideia de abandonar tudo, por que não?

Chegou dez minutos após o horário. O time estava reunido conversando com Roger que ao avistá-la, dispensou a pequena multidão. Algumas meninas foram treinar em quadra, outras ao banheiro. Marcela sentou-se ao lado do técnico, pegou a garrafa de água e respirou fundo abrindo os olhos em seguida para encarar o treinador que apenas a observava com uma expressão séria.

— O que houve?

Roger olhou para frente. A garota insistiu.

— Aconteceu alguma coisa? É o horário? Desculpa Roger, eu prometo que depois que eu me curar tudo voltará ao normal, você sabe...- Marcela continuaria a falar se ele não a interrompesse.

— Não, Marcela. Não é nada disso. Não agora. Seus atrasos me tiram do sério é verdade, a situação estava incontrolável. Estava me prejudicando. Estava nos prejudicando.Você principalmente. E o time? E a equipe?

A garota abaixou a cabeça numa tentativa falha de se sentir melhor, mas conforme o treinador falava, a angústia em seu peito aumentava.

Ela não tinha culpa, tinha?

Ela não havia planejado aquilo. Não era como se ela tivesse escolhas. A vida tem dessas. Algumas situações são necessárias para o nosso próprio aprendizado.

Mas aquilo estava sendo demais até para ela.

Às vezes chegava a se perguntar o por quê. Por quê se estava no auge dos seus 17 anos, prestes a competir e ser titular pela primeira vez no time de vôlei ao qual praticava desde que tinha 9 anos.

Marcela tinha um sonho. Desde que assistiu pela primeira vez a um jogo de vôlei com o pai aos 8 anos, decidiu que queria fazer aquilo. Começou a treinar pouquíssimo tempo depois e conforme o tempo passava mais confiante ficava.

Chegaria ao topo e seria titular da seleção brasileira de vôlei.

Iria um dia competir numa olimpíada. Viajaria o mundo fazendo aquilo que tanto gostava.

O sub 17 aconteceria em alguns meses. A garota treinava para ter uma chance de mostrar em quadra o que sabia fazer. A convocação veio pouco tempo, pois Marcela treinava no time local e devido a sua persistência, sua chance finalmente havia chegado.

Estava prestes a realizar seu sonho.

Faltava muito pouco. Muito pouco.

Flashback On

Setembro de 2007- Um sábado qualquer

O jogo não era tão importante se comparado a uma olimpíada, porém nem por isso Marcela deixou de jogar com todo o gás que a fazia querer mais e mais daquilo. Jogar era o que a garota sabia fazer e o que gostava de fazer. Muitas pessoas a aconselhavam na época. Lhe diziam que carreira esportiva era curta demais e que ela devia se preparar e ter um plano B.

Mas ela não se importava e não dava ouvidos a ninguém. Era o que queria e tinha o apoio do seu pai. Por isso nada mais importava.

— Pronta? — O pai perguntou quando ela entrou no carro.

— Sim, acho que sim. — A menina sorriu recebendo em troca um sorriso afago do pai.

— Vai dar tudo certo, confie em si mesma. Não tem com o que se importar. Não fique ansiosa e aja normalmente. Eu quero apenas que se divertia, Marcela.

— Eu sei disso. Eu vou me divertir. — Piscou.

Diversão era a última coisa que Marcela teria aquele dia.

Não temos o dom de adivinhar o futuro e se soubéssemos, com certeza haveria dias em que a última coisa que gostaríamos de fazer era se levantar da cama.

Bem, aquele dia seria um desses se Marcela soubesse o que viria a seguir.

O jogo havia começado e seu time havia perdido o primeiro set por pouquíssimo. Vinte e dois a vinte e cinco numa disputa acirrada.

O segundo set havia começado e já estava no fim. Dezenove para seu time contra quinze do adversário. O jogo ao contrário do que ela havia imaginado, estava sendo difícil e o cansaço dava sinais claro disso mesmo que estivesse preparada para aquilo.

Mas então aconteceu.

Tão rápido como num piscar de olhos.

O saque veio do time adversário. A bola teimava em ficar no ar. Ambos os times estavam muito bem preparados. O levantamento, o arremesso e a tentativa falha de Marcela ao tentar mais uma vez evitar que a bola encontrasse o chão realizando um bloqueio.

A garota saltou, mas uma forte dor a impediu que realizasse seu objetivo. Se jogou no chão de qualquer jeito em vão.

A bola atingiu o chão, mas antes quem não deveria em hipótese alguma.

Tudo o que Marcela sentia era um forte dor no tornozelo o que a impossibilitava de se levantar. O preparador físico aproximou-se, médicos foram chamados e tudo o que aconteceu a seguir, era o que ela tentava esquecer desde então.

Flashback Off

Marcela sofreu uma entorse, lesão no tornozelo. A garota ficou duas semanas em casa sem poder fazer esforço algum e só depois desse período pôde finalmente voltar a treinar de leve. Sempre acompanhada antes de uma consulta ao fisioterapeuta.

Era o que vinha fazendo há cerca de 5 meses.

Parecia uma coisa boba. Ela mesma pensava ser apesar da imensa dor que sentiu. O pai dera toda força da qual ela precisava e era o que a fazia não desistir.

No entanto, estava ficando cada vez mais difícil, principalmente ao ter que ouvir as broncas de seu treinador que ao menos se importava com a dor da garota. Marcela tentava parecer forte, mas as coisas estavam se tornando insuportáveis.

— O que você quer dizer com tudo isso? — A garota falou depois que o treinador parou de falar e o silencio se instalou. Marcela esperou que Roger continuasse, mas tudo o que ele fez foi permanecer calado como se estivesse racionando sobre tudo o que havia falado.

— Estou falando que não dá mais, Marcela. Entende? Você compreende o que eu quero dizer?

Ela piscou algumas vezes como se o gesto fosse capaz de fazer com que aquilo não passasse de um pesadelo, mas tudo o que ele fez foi continuar:

— Eu não quero mais você na equipe, Marcela. Você não serve mais.

Seus olhos começaram a lacrimejar, mas ela tentava ignorar e parecer forte mais uma vez.

— Eu posso tentar, ser... — ele a interrompeu.

— Não, Marcela. Eu não quero mais você na equipe, não importa o que venha me dizer. Sou eu. Você é boa nisso, não tenho dúvidas, mas eu não quero mais. O campeonato está chegando e preciso de alguém capaz de ir conosco e você, agora não é a pessoa certa para isso.

Foi tudo o que ela não esperava ouvir.

Saiu da quadra sem olhar para trás quando as lágrimas rolavam pelo seu rosto.

Então era isso?

Sua carreira havia terminado antes mesmo de ter começado de fato?

Então era verdade sobre ter plano B?

Mas ela não tinha plano B!

Aquele era seu plano A, B, C e o vinha acompanhado do alfabeto inteiro.

Chorou até não aguentar mais.

Sua vida definitivamente havia acabado.

Chegou em casa cabisbaixa. O pai preparava o almoço e sorriu ao vê-la, porém seu sorriso murchou ao olhar mais atentamente para a filha que estava com os olhos vermelhos.

— O que houve?

—Acabou tudo, pai. Tudo eu... — respirou fundo e secou as lágrimas — eu fui dispensada pelo Roger. Eu.. acabou! — Sentou no sofá e suspirou tentando de alguma forma encontrar um saída para tudo aquilo.

Gustavo abraçou a filha como se aquele gesto fosse capaz tirar toda a dor que Marcela sentia no momento. Mas não havia tirado. Reconfortou na medida do possível, pois a menina sabia que tinha o pai ali, sempre que precisasse. Afinal de contas, ela não estava sozinha e não ficaria. Gustavo sempre estaria ali ao seu lado para ampará-la.

Ele estava ali, para reconfortá-la sempre que fosse preciso.

Há certas marcas que nem mesmo o tempo é capaz de curá-las.

Notas finais
Eu não entendo nada sobre esportes, tampouco sobre voleibol, mas resolvi me aventurar nesse universo. Acho interessante e nunca encontrei uma fic que abordasse esse tema. Não sei se ficou confuso, mas é através desse prólogo que a vida da Marcela vai mudar drasticamente.Comentem! PS: Se alguém souber algo referente a esportes e quiser me dá um força, ficarei grata!