Vicioso

4 Capítulo 3


Notas iniciais
Eu não morri! Eu tô viva! Eu tô aqui! Esse capítulo está escrito desde quando postei o prólogo e confesso que enrolei.Mas,semana passada eu não tive muito tempo pra postar nem pra colocar a leitura em dia porque eu estudo e a matemática me consumiu.

Gustavo estacionou o carro na única vaga disponível.Olhou para a filha e esperou que ela dissesse alguma coisa,mas Marcela permaneceu quieta,encarando a paisagem do lado de fora que nem era tão bonita assim.

Estava se arrependendo de ter aceitado aquele convite.

– Tudo bem? – O pai perguntou,um tempo depois.

– Acho que sim.

Ele saiu do carro e a garota fez o mesmo.Não! Definitivamente não queria estar ali.Até porque,estar ali significava que ela estava assumindo que era mesmo uma viciada.E isso,ela não aceitava.

A clínica tinha um ambiente acolhedor,embora para a ex atleta,parecia mais uma casa de loucos.Para Marcela,de nada adiantaria estar ali,se sabia bem o que viria a seguir.

Na recepção uma moça os atendeu.O ambiente estava calmo demais e Marcela odiava aquilo tudo.

Algumas pessoas esperavam para ser consultadas.Uma senhora lia uma revista.Marcela decidiu fazer o mesmo,no intuito de se distrair e não pensar muito de porque estar ali.Ela podia muito bem se livrar do vicio da bebida,do cigarro e das drogas.Ela só precisava de um tempo.

Tempo esse que nunca chegava.

O pai sentou-se ao seu lado.Olhou para o relógio preocupado.

– Será que vai demorar?

– Vai. – respondeu um pouco ríspida.Gustavo decidiu ignorar.Não iria discutir com a filha ali.Isso só iria agravar ainda mais a situação.

Leu uma,duas,três revistas.Nada daqueles assuntos a interessava.Futilidades.As últimas dos famosos,quem estava pegando quem,o que usar em qual situação,festa,dicas de maquiagens.Como se de fato,aquilo fosse fazer alguma diferença significante na sua vida.

Jogou a revista de qualquer jeito no lugar onde estava e respirou fundo.

Por que estava ali?

Fechou os olhos e se lembrou do dia em que fraturou a canela.Se lembrou de quando resolvera sair de casa,numa noite qualquer com algumas amigas na época e experimentara pela primeira vez a droga.O primeiro cigarro,o primeiro gole de bebida.

Então se lembrou de Caio,pelo incrível que pareça.

Por que ele invadia seus pensamentos?

– Marcela?

A recepcionista chamou e ela rapidamente abriu os olhos.

– Acho que chegou sua vez. – O pai disse baixinho.

Ela afirmou com a cabeça e se dirigiu a sala que a recepcionista havia lhe indicado.Entrou na sala e respirou fundo fechando a porta logo em seguida.

Olhou para o homem ali,a sua espera e desejou correr o mais rápido que pudesse.

Ela tinha a impressão de que o conhecia.E gostaria de estar enganada.

– Marcela Werneck? – Ele sorriu de modo genuíno.E ela teve vontade de vomitar. – Eu sou o Eric.Eric Balzer.Pode se sentar.

Havia três cadeiras na sala.Duas estavam disponíveis,uma já ocupada por ele.Ela,nada podia fazer,afinal,estava ali para isso.O pai estava lhe dando apoio e ela prometera tentar.

E estava tentando,embora quisesse fugir.

Sentou,assim como ele lhe indicara.Fechou os olhos e respirou fundo.

Que se iniciasse a sessão tortura.

***

Era por volta das quatro horas da tarde quando Caio resolveu ir embora.Sim.Ir embora do trabalho por livre e espontânea vontade.Aquela redação o deixaria louco ele tinha certeza disso.Seu nível de stress estava chegando ao máximo e ele se controlava para não dizer umas poucas e boas aos seus colegas de trabalho.Principalmente para o seu editor chefe.

Ah! Como ele odiava aquele cara!

Wagner sempre se dirigia a ele com arrogância e lhe pedia na maior parte das vezes,para refazer o seu texto,melhorá-lo.

Caio tentava.Gostava do que fazia.Só não gostava das pessoas.Tentava chegar na perfeição.A perfeição que Wagner lhe cobrava mas ele sabia que isso era meio impossível.

Perfeição não existe!

Como queria trabalhar em casa.

Alegou uma enxaqueca e Wagner o liberou,a contra gosto,afinal era uma sexta-feira e ele devia sair mais tarde aquele dia.Era assim,toda semana.Wagner o olhou torto.Não gostava de Caio também, então resolveu liberá-lo.

Saiu do prédio da editora e tudo o que encontrou foi o transito da Paulista.

– Sério isso? Às quatro da tarde?

Estava sem carro,aliás,nem tinha carro.Por conta de algumas dividas,teve que vender o seu tão amado sandero.No fim,o apartamento era muito mais importante.

Iria de metro.Era o que lhe restava.Não estava a fim de esperar por ônibus nenhum.Não queria chegar as sete da noite em casa.

***

Marcela chegou em casa bufando.O pai percebera a raiva da garota.Precisava ter uma conversa séria com ela,afinal Marcela não era mais uma adolescente de 16 anos.Era uma moça de 24 anos que precisava resolver logo sua situação.

Gustavo jogou as chaves do carro na mesa e se sentou no sofá,enquanto a filha subia as escadas apressada.

Durante o percurso de volta,o pai tentou algum contato,mas a filha respondia minimamente.Ele então entendeu que ela não queria conversa,o que o levava a crer,que a tarde na clinica,havia sido perdida.Pela expressão da garota e sua atitude anormal,Gustavo logo concluiu que aquilo seria mais uma vez um fracasso.

Já não sabia o que fazer com Marcela.

Sabia que ela precisava de ajuda.Isso era visível.Ela mesma sabia disso,mas parecia ignorar e se afundar cada vez mais num caminho sem volta.

Passou as mãos pelo cabelo nervosamente.Aquilo estava o consumindo.

No quarto,Marcela tentava ignorar as lágrimas que insistiam em cair.

Por que era tudo tão complicado?

Fechou os olhos e então se lembrou da pequena discussão de mais cedo,com Eric.

– Você não quer falar? – Ele a encarou sério e aparentemente irritado com a postura da jovem.

– Não fui com a tua cara.

Eric surpreendeu-se.

O que raios havia feito pra que aquela garota o tratasse daquela forma tão ríspida se ele estava ali para justamente para ajudá-la?

– Eu não estou entendendo. – Disse tentando aparentar paciência.

– Não quero falar com você.Só estou aqui,porque meu pai acha que isso tudo é preciso,mas não é.Eu sei me cuidar sozinha e vou sair dessa sozinha também.

– Você precisa de ajuda,porque ninguém vive sozinho.

– Eu vivo.

– Vive?

Silêncio.

–Não sente falta de estar perto de pessoas? De se sentir amada e querida? A convivência faz bem Marcela.

– Estou convivendo com você agora e não estou obtendo retorno alguma com isso.

– Porque começamos da maneira errada.Porque a gente não começa novamente?Eu já disse meu nome.Já disse o que eu faço.Você já sabe sobre mim,mas eu não sei quase nada sobre você e gostaria muito de ouvir.

– Não acho justo.

Ele franziu o cenho.Se controlando para não mandar a menina pastar.Estava tentando ser paciente,mas ela não estava ajudando.

– O que você não acha justo? – Ele insistiu.

– Você. – Ela o encarou. – Nós vamos conversar,vou dizer um monte de coisas pessoais e principalmente o motivo que me trouxe até aqui e você,vai continuar aí,sentando anotando sabe Deus o quê.Tirando conclusões precipitadas baseadas nas suas ideias e conceitos.Mas,há uma grande diferença entre falar e ouvir.

– E qual é? – Marcela estava começando e ele não iria interrompê-la agora que a conversa estava fluindo.

– Eu posso falar qualquer coisa aqui.Posso mentir até.Posso dizer uma coisa e você entender outra.E não acho isso certo.Pra você me ajudar é preciso que me conheça porque só quem conhece outra pessoa de verdade,é capaz e ajudar .Saber diferenciar e entender o que a outra pessoa fala,só pelo ato de te olhar.

Eric suspirou.

Marcela não deixava de ter razão.Ela parecia ser boa com as palavras,mas ele também era.

– Você quer dizer então que,para que uma pessoa,possa de fato ajudar outra,é preciso se conhecer verdadeiramente?

Ela acenou com a cabeça.

– Você está certa.Eu sou humano posso muito bem errar no que eu concluir,achar ou pensar.Então já que é assim,por que não viramos amigos?

A garota bufou.

Aquele cara estava a irritando.

Sério essa história de virar amigos?Ele pensava que eles estavam aonde? No jardim de infância?

Eric pegou o porta-retrato que estava na mesa e mostrou para Marcela.

– Esta aqui é minha filha.

Ele disse num ato impensado. Não sabia nem o porquê de estar fazendo aquilo,até por que não era permitido.Era anti ético e ser anti ético seria ultima coisa que ele faria.

Ela olhou pra foto. Lembrava-se de já ter visto antes.

No quarto de Caio.Ah claro! Lembrou-se de ter ouvido o amigo comentar sobre um psicólogo chamado Eric.Naquele dia não havia dado tanta atenção, mas hoje,visto que Eric não desistiria,desistiu observar melhor.

A criança devia ter por volta de pouco mais de 1 ano de idade.E era muito bonita.

Os olhos eram verdes e Marcela notou que era herança do pai.

Eric olhava tão concentrado pra foto que Marcela podia notar a angústia.

Havia algo ali que ela não soube decifrar o que era,mas sabia que não era algo bom.Eric estava tão concentrado que ela não se sentiu no direito de chamá-lo.Parecia ser um momento só dele.

E ela mais que ninguém,sabia muito bem o que era sentir aquilo.Encarou o homem ali,na sua frente.Reparou bem em seus traços,no rosto,em seu corpo.

Ele era bonito.Muito.

Se pegou então observando a mão esquerda.Ah! ele não tinha aliança,então isso significava alguma coisa.Tratou logo de espantar os pensamentos,o que ela estava fazendo?

Olhou para seu rosto mais uma vez.Sua expressão ainda era de sofrimento.Parecia que seus olhos estavam lacrimejando.Logo concluiu que devia ser separado e o fato de estar ali,olhando para filha,devia ser saudades ou algo do tipo,envolvendo separações,brigas na justiça pela guarda.

– Você está chorando? – Ela resolveu se pronunciar.

–Não. –Ele colocou o retrato no lugar onde estava. – Ele a encarou.E ela retribuiu o olhar.

Queria dizer algo,mas não sabia o que.Esperou que ele dissesse mais alguma coisa,mas ele apenas continuava a olhá-la.

Como se tivesse tentando lhe dizer algo,mas não sabia bem o quê.

Ela corou.

Desde quando sentia isso?

– O fato de saber que ela é sua filha,não te torna meu amigo.

–Não,não torna,mas teremos muito tempo pra isso.Porque você vai voltar.Vai voltar por que sabe que precisa disso.Se não precisasse,não estaria aqui.

Ele encerrou a sessão aquela tarde,com um convite para que ela voltasse.

E ela estava com vontade de voltar.

Por que estava lembrando disso?

Fechou os olhos.

–Marcela? – O pai bateu na porta.

– Oi!

– Não vai descer para jantar?

– Já desço.

Limpou as lágrimas e olhou uma última vez para o espelho.Ela precisava mudar.

Desceu as escadas e encontrou o pai ao telefone.Gustavo parecia empolgado.Resolveu observá-lo.

– Próximo sábado? Por mim tudo bem.

Aquilo parecia um encontro.Mas espera! Era um encontro.Marcela pôde constatar isso,quando ouviu o pai dizer que buscaria.

– Quem era? – Perguntou.

– Ah, uma amiga. – Ela arqueou a sobrancelha.

– Uma amiga?

– Trabalho Marcela....apenas trabalho. O pai respondeu-lhe ignorando olhar para a filha enquanto arrumava a mesa.

– Ela é bonita?

– Por que a pergunta? – Gustavo a olhou curioso.

–Sei lá...curiosidade.

Gustavo sorriu.Estaria Marcela sentindo ciúmes? Mal ele sabia que tudo o que ela mais queria era que o pai arrumasse uma namorada.Vivia sozinho desde que a esposa morrera no parto e desde então,tem se dedicado a filha,mesmo ela não merecendo toda a atenção.

Ela sabia disso.

Enquanto arrumavam a mesa,a campainha da casa tocou.Marcela logo fora atender e encontrou Diego encostado a parede.

– Diego? – Despertou.

– Ah! Oi Marcela – Sorriu. – Eu tenho uma ótima noticia pra te dar.

– Não quer entrar? – Ela deu espaço mas Diego não entrou.

– Não,não precisa.Eu só vim mesmo avisar que o Roberto resolveu te dar mais uma chance.

– Você quer dizer que...

– Sim Marcela,ele resolveu voltar atrás na sua decisão e resolveu te recontratar.Ele pediu pra que você fosse amanhã à tarde pra conversar com ele.Tudo bem?

Marcela sorriu.

– Sim,eu vou pode deixar.

– Mas olha,por favor não faz besteira.

Marcela suspirou.Desde que deixou o vôlei e largou a faculdade tentara trabalhar.Já fizera de quase tudo.O último emprego havia sido na boate onde quase sempre ela se descontrolava.

– Diego...você sabe que... — ele a interrompeu.

– Você só não consegue se não quiser.

– Tudo bem...te vejo amanhã...acho.

Diego acenou com a cabeça e saiu.

– Quem era?

– O Diego.O Roberto pediu para que ele viesse até aqui..eu consegui meu emprego de volta pai. – Ela sorriu olhando para o nada.

– Que noticia boa Marcela.Só que por favor,não me desaponte.

Gustavo disse em um tom magoado e Marcela o entendeu perfeitamente.

Notas finais
Gente,vocês viram o jogo de terça-feira? haha Parei. Vicioso está há um mês no ar! /