Vicios
7 Sétimo
Notas iniciais
A medida que o filme passava, Bianca queria se espremer na cadeira de tanto medo e apertava a mão de João que quase considerou em abraçar ela. O fato dela segurar sua mão já era um milagre e ele não queria forçar nada.
– Ei, já tá quase acabando. – murmura em voz baixa acariciando de leve a mão dela tentando fazer que ela se distraísse.
O coração de Bianca parecia querer saltar pela boca.
A morena agradecia aos céus pelo fato da sala estar escura pois tinha certeza que seu rosto estava vermelho e xingou-se mentalmente por estar tão alterada. Era apenas o João! Desde quando ela ficava assim?
– Eu sei. – balbuciou atordoada sem conseguir ter a coragem de retirar sua mão.
O gamer apenas sorriu e voltou sua atenção para o filme sem perceber que o amigo cabeludo observava tudo, tudo menos o filme. Pedro Ramos estava incrédulo. Seu amigo viciado estava finalmente conseguindo conquistar a irmã de sua esquentadinha e nem parecia se tocar desse fato.
– Eu vivi para isso! – riu consigo mesmo logo recebendo um tapa forte no braço vindo da loira ao seu lado que olhava fixamente para a tela.
– Shiu! – K sussurrou fazendo um bico querendo assistir o filme embora estivesse curiosa com o que o namorado dissera.
– Linda. – ignorou o cabeludo tocando de leve no rosto dela que não conseguiu evitar um sorriso embora os olhos azuis cintilantes estivessem focados no filme, sua mente já estava em outro lugar.
A sessão do filme logo acabou e Bianca finalmente pode respirar aliviada, jurando consigo mesma que não iria mais assistir filme de terror no cinema. Levantou-se tão rapidamente e mal percebeu que arrastava João consigo segurando sua mão.
– Calma aí Bianquinha! Querendo ficar sozinha comigo é? – implicou o de olhos verdes se divertindo com a situação e bufou tentando esconder seu constrangimento
– Me erra garoto! – resmungou com a cara fechada finalmente notando que suas mãos estavam entrelaçadas.
Ela não precisava olhar para João para saber que ele continha um sorriso malicioso em seu rosto. Largou de imediato a mão dele e correu para o caminho do banheiro justificando a si mesma que estava apertada.
– Ei, me espera Bi! – ouviu a voz da irmã que corria atrás dela e desacelerou seus passos olhando para trás vendo a loira lhe alcançar com um aquele brilho típico nos olhos azuis.
A culpa lhe atingiu de modo avassalador ao ver o quão apaixonada Karina estava pelo Pedro. Reprimiu a vontade intensa de contar tudo sobre a demo e colocou um sorriso torto no rosto. Não tinha coragem.
– Nossa, sua cara murchou ai. O que eu fiz? – cutucou a loira rindo de leve erguendo as sobrancelhas.
Karina tinha aqueles olhos azuis que pareciam ler a alma da pessoa.
– Nada, eu só tô com fome. – disfarçou de leve mudando o rumo para a praça de alimentação fazendo que K a olhasse de forma estranha.
– Mas você estava indo para o banheiro. – murmurou Karina a encarando esperando resposta embora sua vontade fosse correr para o local e fazer suas necessidades básicas.
Antes que a morena pudesse inventar algo, o celular começou a vibrar em sua bolsa sinalizando uma ligação. Desviou os olhos e o atendeu, agradecendo mentalmente pela sua sorte que aparecia nas horas certas.
– Oi filha, você está perto da Karina? – ouviu a voz grossa do pai assim aceitou a ligação.
– Ela está aqui do meu lado. – sorriu de leve fazendo que K a olhasse com curiosidade sem perceber que Pedro chegava por trás querendo surpreender a namorada.
– Ótimo, então o menestrel e o viciadinho devem estar juntos também. Convoca todos, menos o capirotinho.. Ai Dandara! Desculpa, pode levar o capiroto também. Enfim, quero todos daqui trinta minutos em casa para jantarmos todos juntos! – terminou de falar o mestre Gael enquanto Bianca ria de leve fazendo que mais olhares curiosos fossem lhe dirigido.
– Pode deixar pai. A gente logo vai estar ai! – afirmou a morena logo encerrando a ligação e erguendo o rosto para encarar os três que tinha a curiosidade estampada na testa.
Ela explicou brevemente e K aproveitou para ir rapidamente ao banheiro começando a pensar qual seria o motivo pelo jantar. Várias ideias passaram na cabeça, o que deixava a loira ainda mais curiosa.
– Por que eu tenho uma impressão que esse jantar é suspeito demais? – resmungou João coçando a nuca tentando imaginar o motivo e nenhum deles parecia “bom”.
– Bom, vamos descobrir quando chegarmos. – sorriu Bianca que já imaginava qual seria o assunto. E geralmente, ela nunca se enganava.
Assim que K voltara do banheiro, os quatro sairam do shopping procurando um táxi. Como eram muitos, João ficara na frente enquanto Bianca segurava vela para o casal Perina atrás do carro. K era discreta mas era Pedro que roubava os beijos da namorada envergonhada.
Chegaram em frente do prédio em menos de vinte minutos e assim que todos racharam o preço do táxi, finalmente desceram do carro indo em direção ao apartamento. O viciado de jogos continha a cara séria encarando a porta e se deparando com a mãe a abrindo com um sorriso gigante.
– Meu amorzinho! Desmancha essa cara. – Dandara envolveu o filho em um abraço logo beijando o rosto de modo como se ele fosse uma criancinha.
– Ai mãe, você tá queimando meu filme. – murmurou o gamer envergonhado fazendo que os presentes na sala rissem.
A professora de música abraçou todos e logo foi para perto da mesa onde Gael permanecia em pé com os olhos fixos na mesma querendo falar algo que iria mudar a vida deles. Esperou todos se acomodarem na cadeira e apertou a mão da mulher que o incentivava com os olhos.
– Eu não estou gostando disso. – João mantinha os olhos desconfiados prestando atenção em qualquer detalhe fora do comum.
– Shiu, deixa ele falar. – a atriz lhe deu uma cotovelada querendo ajudar o pai.
– Então, antes de comermos essa maravilhosa comida...Eu tenho um comunicado muito importante. Karina e Bianca, nossa casa vai aumentar. Pois, eu e a Dandara vamos nós casar! – exclamou o mestre eufórico e a mesa explodia em aplausos.
João não conseguia acreditar no que havia ouvido.
– Perai, isso é alguma piada? Não tem a menor graça! – indagou o gamer com os olhos faiscantes encarando a mãe que suspirou fundo, já esperando essa reação do filho.
– Não é piada não João, eu e o Gael vamos nos casar. – afirmou Dandara com os olhos sérios e um sorriso feliz no rosto tentando expressar sua felicidade.
O de olhos verdes que sempre teve o costume de dar ataques com a relação da mãe com o mestre Gael apenas se retirou da mesa com a carranca estampada no rosto indo em direção á porta se controlando para não dizer algo que magoasse sua mãe.
Ele tinha a enorme mania de falar coisas que não se devia quando estava com raiva.
– Eu vou atrás dele. – murmurou Bianca preocupada com a reação nada normal de João.
O silêncio predominou na mesa, todos se encarando e observando a atriz se retirar do apartamento atrás do gamer que já estava quase atravessando a rua querendo ir mais longe o possível para assimilar a noticia.
Sua analista quase teria orgulho.
– João! – gritou a morena bem no exato momento que ele atravessaria.
– Bianca? – murmurou João franzindo a testa ao ver que a garota que se aproximava hesitante com os olhos castanhos preocupados. – Olha não se preocupa, eu não vou atrapalhar nem nada os planos deles, eu só quero... – acrescentou rapidamente com a voz seca atravessando a rua sem olhar para trás indo em direção para a praça.
A garota apenas permaneceu em silencio o seguindo e se sentando ao lado dele no banco. Ele olhava para o céu que continha poucas estrelas, podendo até contar nos dedos quantas havia. Tentava pensar em tudo menos na noticia que recebera há poucos minutos.
– Eu não acredito que ela está fazendo isso. Se casando... – tremeu irritado só de imaginar sua mãe seguindo a vida e consequentemente o deixando por trás.
Crispou os olhos tentando controlar o sentimento de medo e irritação que o percorria.
– Calma João, olha para mim. Foque em mim. – a atriz tocou no rosto dele fazendo que seus olhos verdes a fitassem intensos e incrédulos com o gesto dela.
– Bi-Bianca... – murmurou rouco se perdendo naquele incrível olhos castanhos que tinham a mania de o hipnotizar desde aquele dia em que ele a viu pela primeira vez.
Bianca já sentia o coração acelerar e quase se esqueceu do que iria falar, se perdendo nos incríveis olhos verdes do garoto.
– Não é o fim do mundo sabe? Eles se amam, sua mãe tá feliz, não é o que realmente importa? Ver nossos pais felizes? – falou de maneira suave tentando fazer que ele entendesse.
O gamer suspirou fundo assentindo de leve com a cabeça tocando de leve na mão dela que estava no seu rosto.
– Eu só... Estou acostumado a ter ela só pra mim. Sempre fomos eu e minha mãe desde que meu pa..pastel nós abandonou. E é estranho ver que tudo vai mudar. – desabafou pela primeira vez com alguém que não fosse com sua analista.
– Eu nunca abandonaria você. Quero dizer, hãn, a gente nunca abandonaria. – corou consertando o que havia falado e um sorriso de leve se instalou no rosto de João fazendo que ela retribuísse.
Tomado por uma coragem repentina, João se aproximou mais ficando perigosamente próximo do rosto dela que prendeu o ar sem saber o que fazer. Fechou os olhos ao sentir um leve beijo em sua bochecha.
Aquele simples toque foi o suficiente para que ela estremecesse por dentro e que seu coração batesse em ritmo frenético.
– Obrigado Bianca. – antes que ela pudesse processar, fora puxada de leve e envolvida em um abraço podendo sentir o maravilhoso perfume que ele exalava.
Ao longe, quatro pares de olhos observavam a cena na sacada do quarto das irmãs, sugestão feita por Pedro que esboçava um sorriso a lá “gato de Chéssire” fazendo que K risse.
– Dandara, só eu estou estranhando isso? – indagou Gael que observava sua filha mais velha ao longe abraçando seu futuro enteado.
– Acho que somos dois, meu amor. – Dandara não disfarçava o sorriso divertido no rosto e apoiou a cabeça no ombro do futuro marido.
E assim terminou a noite sem mais nenhuma novidade, a professora de música e seu filho foram para seu apartamento onde conversaram e no fim, João embora não assumisse, aprovou internamente o casamento da mãe pois sabia que o mestre Cruel iria fazer sua mãe feliz. E era só isso que importava.
O dia logo amanheceu na bela cidade maravilha, os gringos que iriam visitar os pontos turísticos já acordavam querendo chegar cedo antes de começar o movimento, a rua aos poucos começou a ficar movimentada e as pessoas acordavam prontas para um novo dia de trabalho e outros permaneciam dormindo aproveitando as férias.
– João, meu filho hoje você tem que ir no Ribalta para renovar sua matricula! – Dandara entrou no quarto abrindo as cortinas fazendo que o sol fosse bem na cara do garoto que crispou os olhos.
– Mãe! Fecha essa cortina. – resmungou colocando um travesseiro no rosto, irritado com a claridade repentina.
Como na grande maioria das noites, ele passara até cinco da manhã jogando seu jogo sem parar e teria ficado mais se não tivesse com os olhos cansados demais. Aquele vicio estava acabando consigo mas não conseguia parar.
– Acorda dorminhoco, a Bianca combinou de esperar você junto com a Karina lá no Ribalta para irem no clube hoje. – a mulher se aproximou da cama abraçando o filho que resmungava baixo.
– Já to indo. – João bocejou coçando os olhos e observou a mãe sair do quarto rindo consigo mesma.
Fora do quarto, a mulher arrumava o café cantarolando, se sentindo mais feliz como nunca. Seu casamento seria daqui doze semanas e mal via a hora de finalmente poder chamar o homem que ama, de marido. E claro, também tinha o fato de seu filho finalmente estar sendo um pouco mais aberto em relação ao casamento.
– Tudo graças á Bianca. – murmurou Dandara com um sorriso aberto.
Depois de terminar o café ás pressas, o gamer caminhou estranhamente feliz até o prédio da academia onde no segundo andar estava o Ribalta. Acenou de leve para Gael que arrumava as coisas da academia e subiu as escadas procurando uma certa pessoa com os olhos.
Bianca ainda não havia chegado.
– Sim, é ela mesmo. O que houve? – o gamer virou o corpo na direção da voz familiar e encontrou ao longe do corredor a dançarina Jade Gardel.
Jade sentiu suas pernas bambearem ao assimilar a ligação que recebera do hospital. Não conseguia cair a ficha que sua mãe, a mulher que sempre fora dura com ela, exigindo seu melhor e que havia a criado com muita determinação enquanto seu pai havia as abandonado, estava agora, no hospital internada em estado grave.
O câncer havia a consumido e voltado com mais força.
Apoiou sua coluna na parede e sentou-se no corredor puxando seu joelho sem perceber que João a observava de longe. A garota não conseguia controlar as lágrimas que lhe escorriam em seu rosto e começou a mexer em seu cabelo nervosamente puxando os fios com força.
– Jade? – paralisou ao ouvir uma voz vagamente familiar e escondeu seu rosto apertando os joelhos para si.
– Vai embora. – soluçou sem a menor vontade de encarar seja qual for a pessoa.
Ela queria ficar sozinha, apenas com sua dor e chorar até conseguir se recompor. Seus soluços saiam estrangulados querendo os reprimir. Antes que pudesse reagir, sentiu seu corpo ser levantado e puxado para um abraço confortante.
– Ei, vai tudo ficar bem. – Jade finalmente reconheceu o dono da voz, era João, o gamer viciado que sempre corria atrás de Bianca.
O de olhos verdes não sabia o que estava acontecendo, mas não gostava de ver Jade, a garota que sempre demostrou ser segura e inabalável, agora desandando no meio do corredor.
O que seria capaz de destruir aquela garota?
– Você não tem como saber. – a voz dela saiu rouca e abafada pelo fato que chorava em silencio apertando seu rosto contra o peito do garoto.
– Tem razão, mas é melhor ser positivo. – murmurou tentando a acalmar acariciando o cabelo escuro dela.
Jade odiava aparentar fragilidade, odiava o fato que alguém a tinha visto daquele jeito, mas sentia uma estranha gratidão pelo garoto que a abraçava sem forçar saber o que havia acontecido.
– Eu... Obrigada. – balbuciou se afastando limpando as lágrimas se forçando a abriu um sorriso mínimo mas sincero.
– Não precisa agradecer, sempre que quiser, pode molhar minha camisa. – sorriu João ao ver ela uma risada fraca.
A dançarina havia se acalmado mas a preocupação pela mãe ainda persistia. E aquele fato fez seu breve sorriso murchar e o aperto em seu coração se intensificar ainda mais.
– Minha mãe! Eu preciso ver ela, ela foi internada! – sua voz saiu urgente e desesperada fazendo que João segurasse a mão dela tentando a acalmar.
– Eu te levo, vamos, tente se manter calma. – murmurou João enquanto ela assentia freneticamente tentando controlar uma nova onda de lágrimas que queriam descer.
Ao longe, Bianca observava tudo com os olhos faiscantes sem entender a sensação de estar queimando por dentro e com uma imensa vontade de estrangular alguém.
Corou de raiva sem compreender, ao ver que Jade e João desciam as escadas de mãos dadas. Tinha que se acalmar urgentemente. Estava enlouquecendo.
– Aconteceu algo? Você tá com uma cara de quem vai matar alguém. – crispou os olhos encarando Pedro que havia ido ao Ribalta para renovar sua matricula assim como a maioria dos alunos.
– Nada, tô ótima! – resmungou ela irritada consigo mesma caminhando até as escadas sentindo o olhar suspeito do guitarrista sobre si.
No QG, Cobra abria seu estabelecimento e franziu os olhos ao ver Jade saindo com João de mãos dadas. Seu rosto ferveu e antes que pudesse fazer algo, percebeu que o rosto de sua dama estava vermelho e os olhos pareciam se controlar para não desandar.
Somente aquilo foi o suficiente para que corresse até a rua bem no exato momento que chamavam um táxi. Jade assim que o enxergou não conseguiu controlar a vontade de chorar e antes que pudesse piscar, sentiu-se envolvida em um abraço terno do homem que amava.
– Minha mãe... – soluça ela com as mãos trêmulas apertando a camisa dele enquanto o mesmo a consolava a apertando sobre si.
A garota sentia que algo estava se perdendo, escorregava pelas suas mãos e não tinha como pegar de volta.
– Vamos ver ela. – assegurou Cobra entrando no táxi juntamente com Jade agradecendo João com os olhos que observava a cena em silencio e assentiu.
Lucrécia Gardel faleceu naquele dia, as sete e meia da noite, vítima de um câncer de mama cuja a quimioterapia não conseguiu tratar.
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