Kelda:

Olho pra carteira vazia de Matt e entro na sala com passos arrastados. Onde teria se metido aquele garoto? O professor chega e começa a dar sua aula, mas minha cabeça parece estar nas nuvens. Só consigo pensar no que disse o Ômega e no desaparecimento de Matt. Começo a ficar nervosa e já sinto o inicio da estabilidade energética no ar.

– Calma Kelda — começo a dizer pra mim mesma — Sem nervosismo. No fim da aula, você irá ligar pra usina, falar com a Régine que está doente, e que não poderá trabalhar hoje. Enquanto isso, irá procurar o Matt.

Respiro fundo, e me concentro. O professor escreve cálculos na lousa e avisa que aquilo é um trabalho que valerá pontos importantes. Enquanto isso, o sinal toca, os alunos e o professor saem, mas continuo sentada como se estivesse presa na cadeira. Me debruço na mesa e começo a chorar. Preciso ir embora, os dias cada vez tem sido piores pra mim com a escolha dos acompanhantes que se salvarão comigo, o jeito estranho de Jam, o sangue frio da mamãe, os Ômegas atacando com mais frequencia, o prazo acabando e agora, pra completar, o desaparecimento de Matt. Por que comigo? Por que?Ainda estou debruçada na mesa, quando sinto uma mão sobre o meu ombro. Me levanto, enxugo as lágrimas e um garoto está me olhando com curiosidade.

– Kel? É você? — ele pergunta e eu o reconheço.

– Sim. — digo, ainda limpando as lágrimas — Sou eu, Phillip. Tá tudo bem.

Fazia muito tempo que não via Phillip Collins. Ele era basicamente, meu "ex- namorado". Coisas de criança. Quando estávamos na terceira série, Phillip me deu uma flor que tinha pego no jardim da escola escondido, e desde aí éramos supostos namorados. O ano acabou, e nem nos vimos mais. Fim do namoro. Mas agora, eu nem sabia que ele tinha poderes. Uma vez, Régine havia me dito que ele tinha umbracinese, mas não dei muito crédito. As pessoas descendentes de asiáticos não costumavam ser mutantes, o que era e ainda é motivo de estudo de muitos cientistas. Um mistério! E como Phillip é japonês, não acredito que ele tenha poder.

– Tá tudo bem mesmo, Kel? — ele diz — Ouvi você chorar lá de fora. Está passando mal? Quer que a acompanhe até a enfermaria? — ele sempre tão prestativo..

– Não, tudo bem sim. — digo, terminando de enxugar as lágrimas, me levantando e saindo. — São só problemas pessoais.

– Problemas com a Inteligência? — estou indo em direção à porta, mas quando ouço, me viro, ele me olha sério. — Com a sua mãe e os planos da FIDM? Eu sei de tudo Kelda. Desde a escolha sua e do seu irmão, até viagem que farão em poucos dias.

Meu coração bate acelerado, e minha mente está a mil. Como Phillip sabe sobre tudo aquilo? Eu só contei pro Matt!!

– Como você sabe? — pergunto, tentando me controlar por dentro.

– Sei que Lex te encontrou hoje cedo. — ele diz — Ele é meu amigo. Agora preciso ir, já que você não irá precisar de ajuda. Mas saiba, lembre-se sempre disso. Vocês estão sendo usados, desculpa por isso, mas acredite, NADA é real!

Ele se vira e abre um portal idêntico ao de Matt, desaparecendo nele e me deixando mais confusa ainda, parada no meio da sala. Me viro também e deixo a sala, disposta a ir embora. Minha cabeça gira, e não estou em condições pra suportar mais aulas hoje. Vou até um local reservado, pego a prancha, a energizo e subo lentamente voando pra casa. Vou aproveitando o voo, sobrevoado a cidade, como há muito tempo não faço. Mesmo devidamente vestida, o sol está escaldante, fazendo com que a roupa faça trocas de resfriamento com uma frequencia maior que o normal. Deve ser por causa do meu nervosismo também.

Chego em casa,olho o relógio, percebo que gastei quase duas horas sobrevoando e já é quase a hora do almoço. Vejo também duas mensagens no comunicador. Uma de Esther, me convidando pra ir a casa dela, pois tem uma surpresa e outra de Rick, pedindo que eu avise a Jam para ligar o comunicador, pois precisa falar com ele urgente. Paro no meio da sala, e me jogo no sofá.

– Mas...se Jam não está com Rick, onde ele se meteu? — digo alto. — Não vou me preocupar! Na verdade, quando ele chegar, vou fingir que ele estava na casa do Rick e que não sei de nada.

Me levanto e vou até a cozinha preparar o almoço. Coloco um pouco de água na comida desidratada e logo tenho uma torta de maçã pronta. Comida desidratada é meio ruim, mas é o que há. Almoço calada e lentamente, e quando estou terminando, o comunicador toca e vejo que é Esther e atendo.

– Colé doida! — ela grita ao telefone — Esqueceu meu endereço?

– Oi Ther! O dia hoje não está muito bom pra mim... O Jam sumiu e não faço ideia de onde ele possa estar. — decido não falar sobre Matt e os Ômegas.

– AAAH e o que há de mal nisso? — ela grita e dá risada — Você se livrou de um encosto! O Jam é um chato!

– THER! — digo — Ele é meu irmão! Mesmo sendo um trouxa as vezes, é minha obrigação cuidar dele quando a mamãe não está!

– Que isso Kel. Ele só deve ter saído pra dar uma voltinha, ou ido na casa de algum amigo. Não se preocupe tanto. Agora, pode tratar de vir aqui em casa, pois quero te mostrar uma coisa. Anda! Go go!

– Ok, eu vou. — digo desanimada — Em cinco minutos estou aí. — e desligo.

Me levanto, pego a bolsa, e saio vestindo o casaco térmico. A casa de Esther ainda é no mesmo lugar de antes, isto é, a dois quarteirões da minha casa, então não corro riscos de encontrar algum Ômega no caminho. Ando apressadamente, e quando avisto a casa dela, envio a mensagem e logo vejo Esther sorrindo na porta a me esperar.

– E aí Keldinha! — ela grita e ri enquanto me aproximo — Pronta pra surpresa?

– Estou...Contanto que a surpresa não seja um Ômega atrás da porta pronto pra me atacar... — dou uma risada nervosa.

– Wow! Que mente imaginativa, parceira! Claro que não é um Ômega... — ela cai na gargalhada enquanto entro,e ela fecha a porta. — Pronta?

– Sim. — digo enquanto me sento,observando que a casa dela continua a mesma.

– Kel, quero que você conheça uma pessoa...- ela diz isso, e um garoto enorme entra na sala. — Meu namorado Neo. Ele chegou ontem. Não pode vir comigo antes.

– Muito prazer Kelda. Neo Stevenson — ele diz com um sotaque bem puxado e estende a mão para me cumprimentar. — Ouvi muito falar sobre você. A Ther te adora! — ele riu.

Neo é garoto do jeito que Ther sempre sonhou. Alto e forte, além de parecer excêntrico como ela. Afinal, não é todo dia que se vê um cara de cabelos brancos. O estilo dele demonstrava que não era da região, pelas roupas diferentes e o cabelo. Soube que Ther tinha visitado alguns estados distantes, onde com certeza havia conhecido Neo e adquirido aquele cabelo roxo tão diferente.

– Neo também é mutante. — ela diz toda empolgada e me — Ele produz chamas verdes. Mas não só isso...porque elas contém ácido capaz de destruir tudo. Nos conhecemos em um evento de lutadores. Ele não é divino? — e o beija.

– Nunca tinha te visto tão feliz antes, Ther. — digo — Vocês são perfeitos um pro outro! Fico muito feliz por vocês...- o que não é mentira, pois os dois parecem se dar muito bem.

– E o que vocês acham de comermos alguma coisa? — ele diz animado. — Podemos fazer alguma coisa com o que trouxe da Vila.

Com a destruição de quase tudo, as cidades não tem mais nomes. São apenas chamadas de vilas, parques,ou industriais. Depende do que a rodeia e no que é baseado a sua economia, digamos assim. Nós moramos em um Industrial, pois tudo aqui vem da usina de energia. Imagino que ele tenha vindo de longe, pois Vilas não são comuns por aqui.

– É uma ótima ideia! — diz Esther — É até bom que a Kel melhora esse humor e diminui a preocupação.

– Preocupação? — Neo se interessa.

– Não é nada... — digo — Só o meu irmão que saiu sem avisar, e como somos sozinhos, fiquei um pouco preocupada.

– Anime-se garota — diz Esther, já me puxando pra cozinha e chamando Neo pra prepararmos algo. — Logo ele volta, e você se preocupou a toa. Curte um pouco, vem cozinhar com a gente, e depois te levamos pra casa.

A tarde passa rapidamente com os dois. Neo tinha trazido coisas que nunca tinha visto, como frutas e ingredientes que não eram usados desde antes da guerra. Deduzo que ele deve ser rico, por ter dinheiro pra tudo aquilo. No fim, preparamos um lanche com suco de maracujá,biscoitos de avelã com chocolate e bolo de laranja, comemos como nunca e até acabo me esquecendo dos problemas. Depois, os dois me acompanham até em casa, e após me despedir, caio no sofá e tiro um cochilo.

Acordo com barulhos estranhos na parte de cima da casa, olho o relógio, e vejo que dormi por uma hora. Me levanto, já pensando que pode ser Jam que chegou.

– James? É você? — digo ainda parada perto da escada.

– Sim. — ouço a voz dele e respiro fundo aliviada, subo correndo, abro a porta e o vejo.

– Foi pra casa do Rick e não avisou, não é? Seu mandrião! Acho que vou tatuar na sua testa, "Se for sair, deixe um bilhete"! — digo um pouco brava, mas não histérica, como sempre faço.

– Foi mal! — ele diz e dá aquele sorrisinho amarelo de vergonha.

– Eu deveria falar para a mamãe sobre isso,- digo — mas não vou chateá-la. Bom, você está vivo e isso que importa. — viro as costas e saio.

Vou indo devagar pro meu quarto, pensando que havia alguma coisa diferente em Jam. Mas o dia foi tão agitado, que só penso em cair na cama e dormir tranquilamente.

– Isso deve ser coisa da minha cabeça... — me deito, e logo caio no sono.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.