Viajantes do Apocalipse
3 Capítulo 2- Escolhidos
Kelda:
Acordei com os raios do sol batendo nos meus olhos. Os abri devagar para evitar que fossem queimados e logo vi que estava no quarto de hóspedes da casa de Rick. Minha mochila está encostada na cama, então abro o zíper e pego os óculos de sol e o protetor solar de proteção máxima para adiantar o “tratamento de beleza” pra sair na rua. Me levanto e vou ao banheiro andando vagarosamente. Ao chegar, tranco a porta e me olho no espelho. Hoje é meu último dia de folga, o que significa que amanhã terei que enfrentar aquele sol escaldante para ir trabalhar. Desde que descobri a eletrocinese, tenho trabalhado escondida em uma usina próxima à cidade desenvolvendo tecnologia para energia sustentável. Sou super dotada com a inteligência além da eletro, o que faz de mim uma gênio nessa área. Graças a isso, o trabalho não tem sido difícil. O difícil tem sido esconder da mamãe, que não quer que James e eu trabalhemos. Ela sinceramente acha que ficarmos o dia todo trancados em casa por causa do sol é uma maravilha. Parecemos até com aqueles animais extintos, os morcegos. Pensando nela, acabo me lembrando do aviso da FIDM que foi transmitido na noite passada. Um meteoro na reta de colisão com a Terra, e somente algumas pessoas poderão se salvar através de um sorteio que será feito! Com certeza isso tem mãos dos Estados Remanescentes da América. Saio do banheiro e já ouço vozes vindas da cozinha e é para lá que me dirijo. Chego devagar já escutando os gritos de Rick.– CARA, como PODE ser uma coisa dessas? Isso não é possível! – Ele grita e gesticula, e quando me vê dá um grito maior ainda – AH, você está aí, KELDA! Venha dizer para nós por que essa idéia ridícula da FIDM é insustentável!– Bom dia pra você também, Rick... – digo ainda sonolenta – Qual o motivo de tanta discussão? – sorrio olhando para meu irmão que está na mesa sentado na minha direção.– Sabe Kelda... – Rick diz – Acho que esse plano da FIDM não é aceitável. Todos nós vamos morrer se olharmos assim. Qual é a chance de sermos escolhidos por esse sorteio? Se esses caras descobriram que o meteoro ia cair a tanto tempo, por que não criaram naves que poderiam salvar todas as pessoas da Terra?– É... temos uma chance em cerca de cinco mil pessoas, que é a população do nosso país atualmente. — digo.– Desculpe a interrupção, mana – era James que falava – mas não posso deixar de concordar com a Força de Inteligência. Já que não podemos salvar a todos, que possamos salvar alguns apenas. Contanto que um deles seja eu, claro!– Sabe... – olhei para ele com o olhar de desaprovação da irmã mais velha – Não é querendo discordar com você, James, mas acho que o Rick tem toda razão em perguntar e questionar. Considerando que eles fizeram a descoberta há um certo tempo, faz todo sentido querer saber o porquê de não serem construídas naves para todas as pessoas. Sei de muita gente que tem mutações e gostaria de morrer, e outras que são doentes e também gostariam. Mas não são todas. Esse aviso só vai causar mais mortes e outros problemas...porque tenho certeza que as pessoas vão fazer de tudo para se salvarem.– AHÁ! Tá aí a opinião de uma pessoa inteligente! Valeu Keldinha! – ele piscou pra mim e eu ri.Beatriz, que até aquele instante estava calada e perdida em pensamentos, levantou a cabeça e disse:– Me desculpe James...Mas devo concordar com ela! – e sorriu – Do que vocês estão falando mesmo?Todos caímos na risada. Beatriz as vezes era um pouco distante e isso só servia pra nos fazer chorar de rir depois. Me levantei ainda rindo e disse:– O papo tá bom mas eu tenho que ir... James, você vem?– Acho que vou ficar mais um pouco... Por que você tem que ir agora?– Você sabe que tenho resolver algumas coisas antes de amanhã, não sabe?– Ué! Keldinha guardando segredinhos dos amigos agora? – Rick provocou enquanto James e Beatriz riam e eu enrubescia. Ninguem sabia do meu emprego a não ser James e alguns amigos bem próximos.– É...e- eu não tenho... segredos! – disse rapidamente, mas gaguejando – São apenas documentos da escola que preciso organizar. Vamos, James?– Ok. Eu vou. – ele disse ainda rindo, mas fazendo cara de chateado por ter que ir para casa – Mas quando chegarmos lá o console e a tela de projeção cinemática é toda minha pelo dia todo.– Tudo bem! – falo revirando os olhos – Não vou ter tempo pra isso mesmo... – resmungo baixo pra eles não escutarem.Antes de sairmos, passamos protetor solar de proteção máxima mais uma vez e colocamos os óculos de sol. Nos despedimos de Beatriz e Rick e já vamos saindo.– TCHAU, irmãos Martin! – ele grita, acenando loucamente ao lado de Beatriz enquanto vamos caminhando pela rua – Não desapareçam por dias de novo, ou roubo os óculos de vocês!Vamos rindo até a esquina, quando eu abro a mochila, pego minha prancha voadora e começo a me aprontar para um voo.– Ei! Onde você arrumou essa prancha? – James pergunta confuso.– Desculpe! – respondo rindo – Mas quando a gente trabalha, consegue essas coisas para se locomover mais rápido. E eu ainda a adaptei para receber energia dos meus pés ao invés de precisar recarregar em alguma tomada. Tecnicamente, nunca vai faltar energia para ela andar. A não ser que eu esteja muito fraca. – olho para ele com olhar de superioridade.– Ah! Eu também queria um emprego! – James diz chateado.– Não seja bobo, Jam, você não tem emprego porque não quer. Já te disse que na usina estão precisando de muita mão de obra. Eu posso falar com a Régine pra você.– Claro que não, Kel, você é uma mutante e além de tudo super dotada. Eu não tenho nada a não ser os olhos de cores diferentes. Eu queria ser um mutante, mas não sou, então não tenho oportunidades como você. – ele olha pro chão desanimado.
– Olha Jam, não é nada divertido ser um mutante. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Não é só diversão. Nunca é. Acha que gosto de ter isso? – ele balançou a cabeça em negativa e eu continuei – Não é divertido receber descargas elétricas como um para raio na hora das tempestades. Às vezes, eu queria ser como o Chad, que só tem olhos diferentes. Mas vamos, suba na prancha e vamos pra casa. O sol está torrando minha pele.Ele subiu e em minutos chegamos em casa. Na calçada, ele desceu e entrou batendo a porta, ainda com raiva. Entrei e vi que já estava na hora do almoço. Abri a geladeira e peguei alguns pacotes de comida desidratada e água para preparar a comida. Desde a guerra não se planta mais nada. O sol é tão escaldante que nada sobrevive. Então a NASA, a única instituição que sobreviveu a 3ª guerra, instituiu a comida desidratada para todo mundo. Estou preparando o “almoço”, quando a campainha toca. Tenho certeza que James está assistindo alguma coisa no telão, pois ouço barulhos do sound surround vindos de cima, do quarto, e não poderá atender. Corro até a porta e olho no observador. Só então abro.– CHAAAD! Que saudade de você! – caio nos braços dele o abraçando. Chad Westerfeld é meu melhor amigo desde a infância. Ele é um garoto normal e sua única mutação são os olhos alaranjados que ele possui. Quando criança, seus pais haviam morrido em uma explosão de uma mina terrestre abandonada da 3ª Guerra, e desde então ele passou a morar com a avó dele, a vovó Margô, como eu a chamo.– Também estava com saudades, Kelda! – ele grita – Como estão as coisas?– Está tudo legal. Fora que podemos morrer dentro de poucos dias, ta tudo ótimo! – digo sendo irônica.– Eu assisti a transmissão da sua mãe como você me disse. Passou em rede nacional no jornal da noite depois. Mas mesmo assim acho que muita gente não está sabendo. Falando em sabedoria, cadê o James? – ele riu.– O James ta lá em cima jogando alguma coisa com certeza. – digo olhando em direção a escada, mas logo me viro e continuo – Mas você não veio pra ficar parado na porta, veio? Entra logo, mané!Chad entra e se senta no sofá. Ele considera nossa casa como se fosse a dele. Eu retorno a cozinha e continuo fazendo o almoço.– Mas como vai a vovó Margô? – pergunto.– Ela está bem, apesar do câncer. Odeio dizer isso, mas acho que ela não agüenta mais por muito tempo. Ela já está bem idosa e como você sabe sobreviveu a guerra. Ela era uma criança na época, então você pode imaginar a idade dela. Só que a guerra acabou tem 75 anos! – ele diz triste.– Eu sei... Vai ser uma pena quando ela morrer. Apesar que todos podemos daqui a vinte dias se o meteoro cair. – digo servindo o almoço para mim.– Jam! – grito – Venha almoçar! – logo escuto o barulho do meu irmão correndo na escada e o vejo chegando a cozinha.– Oi Chad! Quanto tempo! – ele grita.– Oi James... Quanto tempo. – Chad responde.– Jam, preciso que você arrume tudo depois. Tudo bem? – digo cautelosa, pois sei que ele odeia tarefas – Preciso sair com o Chad pra resolver uns problemas da escola.– Tudo bem, Kel. – ele responde animado, o que acho estranho já que ele odeia esse tipo de coisa.– Jam... você ta bem? – pergunto e ele logo responde; — Estou ótimo! Nunca estive tão bem na vida. – ele sorri um sorriso esquisito.– Ta boom... – digo estranhando tudo, mas continuo almoçando.Após o “banquete”, Chad e eu nos aprontamos e saímos para resolver os problemas. Eram documentos da empresa que precisavam ser preenchidos pela escola para confirmar a minha matrícula na instituição, pra continuar a trabalhar na usina energética. Não pude usar a prancha porque ele não sabe que a recebi por ser mutante. Ele também trabalha na usina e só pode usar a dele lá. Os mutantes têm direito a levar as deles para casa, para tentar expandir o potencial do poder com elas. Por isso, o que demoraria meia hora com a prancha voadora durou a tarde toda e já estava escurecendo quando ele me deixou em casa.– Até mais, Chad! – digo acenando e entrando.– Até Kelda! – ele acena, sorri e vai embora com as mãos nos bolsos. Entro e percebo a casa escura, nem parecia que James estava em casa.– Jam? Você está aí? – grito.Uso a energia para acender tudo de uma vez e subo até o quarto dele. Ele está dormindo no meio de toda a bagunça dele– James! Acorde! – o sacudo e ele resmunga dormindo. – Não Paty...eu não to saindo com outra... – dou risada e grito novamente.– Jaaamees! Acorda!Ele acorda assustado e ao me vê do seu lado diz:– Oi Kel, já chegou? – ele se levanta – Ah, a mamãe mandou uma mensagem no tele comunicador depois do almoço, dizendo que precisa falar com a gente hoje a noite.– Já é noite Jam... – começo a rir e saio – e arrume esse quarto. A mamãe ficaria muito brava se visse ele assim...Ouço o barulho da porta batendo e desço para tomar um Ersatzcafé, uma espécie de chá desidratado que substitui o café verdadeiro. Logo após James desce e começa a arrumar a transmissão para ouvirmos o que nossa mãe tem a nos dizer. Duas horas de espera a toa depois, o sinal dela começa a vibrar e ela aparece no nosso telão.– Oi meninos! – ela diz. Parece preocupada, e esfrega as mãos nervosamente – Como vocês estão?– Olá mamãe! – dissemos juntos – Nós estamos bem. – digo.– Que bom. Pois tenho uma noticia boa e uma ruim pra vocês. Qual querem que eu diga primeiro?– A boa. – digo – Não, a ruim. – diz James.– Pois então digo as duas. – ela afirmou – A boa é... Vocês irão se salvar da destruição da Terra. E a ruim é que cada um de vocês precisam escolher dez pessoas para se salvarem quando vocês forem.– O QUE? – não consegui me controlar e gritei – Quer dizer que fomos escolhidos? – olho para James e ele está branco como papel e pasmo de nervosismo.– Sim, vocês foram sorteados para se salvarem. – ela confirmou.– Mas essa chance era minúscula, mamãe! – James finalmente consegue gritar.– Não, não é. Vocês foram escolhidos porque sou a única aqui que tem filhos. Todos os outros serão salvos, mas quase nenhum tem família. Então eles deixaram que eu pudesse levar vocês, independente de sorteio. – ela confessou – O sorteio nacional será outro. Mas vocês ficarão sendo como se fossem os escolhidos aí da cidade. A transmissão original foi manipulada somente pra cidade de vocês para que pensem que foram os escolhidos do país.– Mamãe, isso é trapaça! – gritei.– Fale mais baixo comigo, mocinha! — ela fecha a carranca — Sei que é trapaça, mas obedeço a ordens superiores e não posso fazer nada. Apenas façam o que eu mandei. Deveriam estar agradecidos por serem salvos. Preciso ir agora. Os formulários de inscrição estão chegando pela impressora ai. Vocês só têm quinze dias antes da queda! Amo vocês! Até mais...E a imagem sumiu. A impressora começou a fazer as cópias dos formulários. Ficamos sentados no sofá ainda chocados com a notícia por meia hora. Escolhidos, mas por trapaça e não podíamos fazer nada!Fomos para o quarto, mas já sabíamos que aquela noite seria só mais uma noite sem dormir.
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