Viajantes do Apocalipse
2 Capítulo 1- 20 Dias para a Colisão
James:
A noite estava chegando, eu estava quase aplaudindo de pé este momento, já fazia um tempo que não saia de casa na luz do dia, mal se via nuvens no céu... Mas é claro, o que poderia esperar de um planeta que na atual situação vem apresentando vários problemas ambientais. Eu não era fã de carteirinha da noite, mas pelo menos eu poderia sair um pouco de casa.Desculpa minha falta de educação, meu nome é James Martín, moro no que sobrou do Brasil juntamente com minha irmã gêmea, Kelda Martin. Somos uns dos poucos sobreviventes da 3ª Guerra Mundial, uma guerra que achei tão idiota (mesmo que não tenha presenciado os acontecimentos, pois foi antes de eu e minha irmã nascer). Esse desejo de poder que os países tinham, causou toda essa desgraça no mundo. No fim, ninguém saiu vitorioso e levaram junto o resto do mundo pro fundo do poço. E pra ajudar, eu e minha irmã nascemos com algum tipo de doença ou mutação genética causada pela grande exposição radioativa... Não sei como explicar isso direito.Com a mutação, minha irmã adquiriu uma inteligência fora do comum e nossas pupilas tornaram-se violetas... E pelo que sei, minha mutação é apenas isso, a cor dos olhos. Como nós somos gêmeos, eu tinha que ter algo de semelhante a minha irmã né?Mas enfim...Já podíamos ver o sol nos dando aquele breve adeus.–Finalmente! — eu gritei comemorando com as mãos para o alto.– O calor estava insuportável hoje. — disse Kelda, minha irmã.– Sempre está, mas hoje ele se superou — ela riu e eu fiz o mesmo — Bom, vamos, precisamos sair daqui logo, não aguento mais ficar nesse estado vegetativo em casa.– Tá, mas temos que ter certeza se esta noite não vai ter nenhuma surpresa, como ontem que do nada começou a nevar.– Ah não... Não seja pessimista... É um risco que corremos, mas faz quase três dias que não vemos os nossos amigos, preciso ver outras pessoas! — eu implorei a ela e a mesma fez uma careta pra mim.– Ok, concordo com você, não aguento mais ver essa sua cara — ela começou a rir.– Obrigado pela parte que me toca, sua sensibilidade me comove!Pegamos nossas mochilas, com alguns itens necessários, pois nunca se sabe... Vai que temos alguma surpresa no meio do caminho!Saímos de casa já ligando as lanternas, ainda podíamos contar com a pouca luz do sol que ainda estava se pondo, mas é como eu disse "nunca se sabe". Tínhamos que estar atentos, o mundo havia mudado bastante. Tudo estava mais perigoso, os recursos estavam, em partes, mais escassos e isso fazia muitos usarem seus instintos de sobrevivência fazendo pessoas que uma vez foram pacíficas a se tornarem assassinos para conseguir mantimentos e até mesmo por causa de um território. O Brasil, isto é, o que restou dele, sofreu bastante com a guerra, grande parte da população foi dessa pra melhor e por sorte os recursos para nossa sobrevivência não foram totalmente destruídos.Mesmo que as casas dos nossos amigos não ficassem muito distantes, era sempre bom andar acompanhado e bem "equipado". Enquanto caminhávamos peguei meu tele comunicador da bolsa, parecia um celular, mas tinha a função de se comunicar com as pessoas através de imagem e não somente por voz. Digitei o número do meu amigo Rick Cavalcante, que atendeu quase de imediato.– MANO... Pensei que vocês tinham morrido! — ele gritou. Da tela pude ver sua expressão de alívio.– Onde foi parar o "Oi", "Tudo bem?", "Como vai?"... Você não muda né? — disse rindo — Kelda e eu estamos bem. — ontem enquanto conversávamos o sinal havia caído e não consegui falar com mais ninguém.– Relaxa cara... Ha Ha... – Oi Rick! — Kelda pegou o comunicador da minha mão.– Ei... — tentei reclamar.– Oi Keldinha! — gritou Rick — Como vai você?– Vou bem obrigada... Mas sabe, poderia nos recepcionar na entrada da sua casa?– Pra ela tem "Oi" e "Como vai você?"... — resmunguei– Tá com ciúmes, James? — Kelda tirava onda da minha cara.– Claro, meu melhor amigo trata minha irmã melhor do que eu... Feriu meus sentimentos cara, pra quê isso? — caímos na risada.Ao nos aproximarmos da casa de Rick, o vemos na porta de braços cruzados e ele logo acena para entrarmos. Quando vamos entrar, paro na porta, começo ter uma sensação estranha, como se alguém estivesse me observando. Olho por cima do ombro, mas não vejo ninguém.– Algum problema brother? — Rick me pergunta.– Não, não... — dou mais uma olhada e entro.Eu sempre ficava fascinado quando ia à casa do Rick, a decoração da entrada misturava a tecnologia com o universo medieval... Escapadas e escudos de um lado, painéis holográficos de outro... Era lindo aquilo!Estávamos próximos a cozinha quando minha irmã e eu somos surpreendidos com massa de bolinho na cara. Era Beatriz Bowden, a pessoa mais legal e estranha que você poderia conhecer. Ela tinha cabelos curtos e cacheados em um tom avermelhado, era uma incrível cozinheira, porém era dura na queda e super habilidosa com armas de longa distância.Ela então se aproxima mais de nós rindo.– Sejam bem vindos! — ela diz. – BEATRIZ... Mas que droga! — eu e minha irmã falamos ao mesmo tempo.Rick e Beatriz caíram na gargalhada.– Pelo menos não foi na roupa — observou Kelda rindo agora — Como sempre engraçadinha, não é Beatriz? Sabia que isso é desperdício de comida?
– Ah, qualquer coisa eu coloco pra assar e o Rick come, não seria a primeira vez... — disse ela rindo, mas agora era da cara que Rick fazia.– Como assim? — Rick reclamou — Não gostei disso.– Gente, agora falando sério — Kelda então atraiu a atenção de todos — Hoje... é, vai ter uma mensagem ao vivo das Forças de Inteligência...– Nossa mãe nos ligou ontem, depois de um mês sem se comunicar com a gente — interrompi Kelda — ela disse que hoje será transmitido para todo o mundo um recado... ou melhor, um aviso importante. Apenas por painéis holográficos que recebam sinal de satélite, é claro.– Vocês não sabem sobre o que seria essa mensagem? — pergunta Rick curioso. – Não, ela não deu detalhes — Kelda então fica encarando o chão por um tempo — Apenas disse que era muito importante. – O clima deu uma caída aqui — Beatriz agora se manifestava — Vamos comer e ficar um pouquinho mais felizes!Beatriz tinha feito bolinhos doces, era o nome que ela deu, eu também não sei como ela fazia, mas eram incríveis. Segundo ela, a própria que inventou a receita, devia ser verdade, pois nunca comi nada igual.Então quando estava de boca cheia me lembro de um detalhe.– Onde está o resto do pessoal? — pergunto – Não sei, acho que o sinal não está totalmente perfeito, não consegui falar com ninguém — Rick me responde — Exceto a Patrícia...– Qual das duas? — pergunto de imediato.Rick faz uma cara maliciosa percebendo meu interesse, pois sabe do que eu realmente sinto por ela.– Sim meu caro amigo, ela mesma, Patrícia Roth, o amor da sua vida! — Rick começa a rir.– Não sei do que está falando... — me fiz de desentendido.– Ah, não me venha com essa — Beatriz me acerta com pedaço de bolinho na cabeça — Todos já estão cientes da situação de vocês dois. Vocês se gostam já faz um tempão bem nenhum se manifesta... Isso já virou novela. – Ah, não enche... — todos começam a rir.Tento mudar de assunto pra ver se esquecem, por um tempo que fosse...– E os caras da Ômega, teve mais algum problema com eles? – existe uma organização que tem o objetivo de dominar áreas que possuem recursos, mas alguns grupos também têm só o objetivo de roubar alguns locais. Atualmente nos vimos em uma confusão entre alguns grupos que rondam as áreas por aqui perto, Rick é um dos que mais tem problemas com eles.– Ontem mesmo uns cinco caras tentaram invadir aqui – ele disse – Mas sabe, eu sempre acabo dando umas descargas elétricas neles e todos saem correndo como um bando de menininhas desesperadas – enquanto ele falava podia ver seus olhos brilharem. Rick, como a minha irmã, sofre de uma mutação em que ele pode dominar a eletricidade... É literalmente chocante – Mas tem uma coisa que me toquei.– Sobre? – Beatriz pergunta.– O objetivo desses caras da Ômega é claro – então Rick começou a explicar – Estava um pouco na cara, mas demorei a entender o que eles fazem. Funciona assim:– Eles tem o objetivo de dominar áreas com mais recursos pelo mundo, então eles devem descobrir primeiro onde seriam essas áreas, não é? – então sua explicação começou a fazer sentido – É por isso que vemos estes babacas por aí, os caras mandam um pequeno grupo pra investigar e procurar essas áreas. Eu havia comentado sobre isso com Kelda, mas ontem isso se confirmou.– Com assim? – Kelda agora estava curiosa.– Digamos que um deles me contou... Meio a força sabe?– Entendo... Mas qual o motivo de insistirem em atacar por aqui? – então foi estranho o que aconteceu, Kelda e Rick trocaram olhares, pareciam esconder algo.– Talvez... talvez eles estejam querendo essas armas que tenho... sei lá.– É pode ser isso – nunca fui curioso, mas aquela reação que Rick e minha irmã tiveram despertou esse sentimento, mas resolvi não insistir... Pois é, sou assim, se eu vejo que estão escondendo algo de mim não faço questão de descobrir, se quiserem que eu saiba, então eles que me contem. – Então gente, chega desse papo que eu tô sentindo cheiro de coisa no forno.– Pra onde vai tanta comida garoto? – Beatriz pergunta.– Tenho um grande armazenamento interno! – todos dão risada.Depois de um tempo batendo papo, rindo e relembrando alguns fatos engraçados, me levanto e vou até o banheiro. No caminho fico admirando toda a decoração da casa. Rick era meu melhor amigo, desde criança ele colecionava várias coisas e o sonho dele era ter uma casa e decora- la com seus itens... E ele conseguiu. Ao voltar percebo que algo está estranho, meus amigos e minha irmã conversavam baixo, como se estivessem falando de um segredo que eu não podia ouvir.Fui caminhando lentamente, se aproximando da cozinha bem lentamente pra tentar ouvir algo. Me sentia um espião... Então escuto...– ...e é claro que ele vai gostar — era a voz de Rick — Tenho certeza disso, vejo como ele adora essas coisas.– É claro — minha irmã é que falava agora — Ele aprendeu com você isso.– Gente... tem um detalhe — agora Beatriz falava — James é péssimo pra lidar com isso, ele mal sabe lutar... Lembra daquela vez que...Eles falavam de mim, isso era óbvio. Os três estavam armando alguma coisa e que provavelmente iria gostar, mas meu aniversário já passou. Isso não me cheirava bem...Então resolvo entrar...– Rick — disse um pouco alto fazendo todos se assustarem, finjo que não percebo a reação deles — Cara, aquele seu novo quadro medieval... Onde achou ele?– Ah... E... Claro, o quadro... — ele gaguejava, pois ainda não tinha se recuperado do susto — E-eu achei... lá no porão de casa em uma caixa velha...– O que foi? Tá esquisito, até parece que viu um fantasma! — começo a rir.– Impressão sua, só estou um pouco curioso com a tal mensagem importante...Finjo que acredito, sou ótimo ator! Nem minha irmã, que é super inteligente consegue perceber quando realmente estou fingindo. Me junto a eles e logo me vem aquela sensação de estar sendo observado. Me levanto da cadeira novamente e faço de conta que vou pegar um copo d'água, olho pela janela, fico alguns segundos observando atentamente, percebo que havia sim alguém nos observando, não sabia ao exato como tinha essa certeza, mas eu tinha.Mais ao longe vejo um vulto passando rapidamente, dou dois passos para trás com o susto.– O que foi James? — Beatriz pergunta.– Nada não, apenas senti um ar gelado. Vou fechar um pouco essa janela — faço uma cara de despreocupado.– Verdade, tá ficando frio, será que vamos ter mais uma nevasca? — disse Kelda.Logo ouvimos um barulho estranho vindo do quarto de Rick.– Esse barulho é do meu projetor do quarto — entendemos na hora o que significava. Corremos em direção ao quarto dele.Chegando lá vemos um projetor holográfico do tamanho de uma bola de futebol em cima de uma escrivaninha, vemos uma mensagem que diz:"Mensagem ao vivo em 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1..."Kelda e eu nos surpreendemos ao ver o holograma de nossa mãe. Ela usa um jaleco branco, que é comum na Força de Inteligência. Ela começa a falar:– Boa noite a todos que estão vendo esta mensagem. Me chamo Clarice Martín, sou chefe do departamento 3 de pesquisas e desenvolvimento da FIDM (Força de Inteligência e Desenvolvimento Mundial) — percebo que minha mãe está nervosa, um tanto preocupada também — Nós do departamento, durante várias pesquisas e estudos viemos fazer um comunicado muito importante e que não é muito agradável. Descobrimos que por causa dos efeitos que o planeta sofreu durante a última guerra o planeta se tornou alvo de um meteoro, a gravidade sofreu leves alterações e com isso um meteoro que estava a milhares de distância da Terra mudou sua rota e o ponto de impacto será nosso planeta.Enquanto ela explicava víamos uma simulação do meteoro atingindo a terra, era perturbador.– Esse fato ficou em sigilo, pois resolvemos estudar o meteoro e achar um meio de destruir ou mudar a rota do mesmo. — ela continuava a explicar — Chegamos à conclusão de que nada iria funcionar e a única saída era a construção de naves. Essas naves irão abrigar uma certa quantia de pessoas, com recursos para sobrevivência e para recomeçar uma nova vida.Tudo aquilo era loucura, nossa mãe escondeu algo tão grave de nós, somos filhos dela. Aquilo me deixou um perturbado demais.– Logo em breve, entre o mundo todo vão ser escolhidos para cada país dois representantes (um homem e uma mulher) e eles serão responsáveis por escolherem 10 pessoas cada um, os escolhidos vão ter o privilégio de embarcar na nave. Entendam que não temos muitos recursos a ponto de abrigar a todos do planeta e essa foi a única forma de salvarmos uma parte dos seres humanos.
"Lembre-se, temos 20 dias até o impacto e em breve os sorteados vão receber um comunicado, os mesmos devem entregar os dados de todos os escolhidos até 5 dias antes do embarque. Mais uma vez, peço para que todos entendam nossa situação... — do nada a transmissão acaba.– Não deixaram ela terminar — falei — Que loucura tudo isso...Todos nós nos entreolhamos assustados ficando um longo silêncio.Rick então tenta quebrar o clima que havia ficado.– Ainda estou confuso com isso que acabamos de ouvir — ninguém quis falar nada até sentirmos um cheiro de algo queimando na cozinha.– Mas que m... — Beatriz saiu correndo até a cozinha e todos a seguiram — Esqueci que tinha deixado alguns biscoitos no forno...– Quem serão os sorteados? — Rick ainda insistia no assunto — Será que tudo isso é verdade?– Parece ser — Kelda então resolveu dizer — Nossa mãe estava estranha de uns tempos pra cá e nessa mensagem ela estava muito preocupada com esta situação. – Bom, seja como for — Rick disse — vocês três durmam aqui em casa, já está tarde e com esta mensagem o povo deve estar ainda mais fora de si...– Verdade, valeu cara — agradeci.Aquele encontro de amigos terminou de um jeito estranho, o clima ficou tenso e aquela noite ninguém, absolutamente ninguém conseguiu dormir direito.
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