Notas iniciais
MINHA PRIMEIRA RECOMENDAÇÃO! *-* Eu dedico esse capítulo totalmente a Silvia Costa!!!! Mil vezes obrigada!!! *-* Divirtam-se com a segunda das Aves Trimorfas!!!

Quando Dean acordou no quinto dia, Katherine já estava inquieta.

– O que foi? — perguntou Ty, dobrando o saco de dormir.

A garota estava sentada com as costas contra uma árvore, os joelhos flexionados e os cotovelos apoiados, uma das mãos servindo de suporte para o queixo. Seus olhos estavam voltados para um ponto fixo, e sua expressão era séria e concentrada.

– Alguma coisa está errada. — respondeu ela, uma voz um pouco distante, pensativa. — Às vezes a Imperatriz demora para responder a um chamado, já que é muito ocupada. Mas Pinmur não está nem mesmo conseguindo contactá-la.

O silêncio pairou por vários segundos.

A expressão de Ty se tornou séria. Mesmo sem entender o que estava acontecendo, Dean percebeu pela expressão do garoto que a implicação do fato era algo importante.

– O que isso significa? — perguntou ele.

Katherine não ergueu os olhos para responder.

– Significa que, o que quer que esteja acontecendo na Ilha de Gelo, é algo maior do que pensávamos.

O silêncio se estendeu por mais vários minutos. Nem Ty nem Dean ousaram interferir enquanto a garota pensava, sem mover um músculo. Sua concentração absoluta era ao mesmo tempo inquietante e solene, como algo que merecia respeito.

Por fim, ela respirou fundo e pôs-se de pé, puxando a mochila para o ombro direito.

– Certo. Eu vou para o Norte. Preciso falar com Elliot e verificar o que está acontecendo. Dean, você volta para o Leste. — ela olhou para Ty. — Ty, você pode levá-lo?

Ty concordou com um gesto de cabeça.

– E-ei, espera aí! — exclamou Dean. — Do que vocês estão falando?

– Se algo grande assim está acontecendo, os Reinos são um lugar perigoso demais para você. — afirmou a garota. — Eles ficam muito próximos da Ilha de Gelo, o que significa que, seja lá o que for, pode estar acontecendo lá também.

– Mas... mas...!

Dean cerrou as mãos, pensando no que dizer. Por algum motivo, não lhe agradava a ideia de voltar agora. Já haviam andado tanto...

Mas não era só isso. Uma outra sensação... uma espécie de ansiedade. De alguma forma, apesar do tom ponderoso da garota, ele sentia certa curiosidade quanto ao que encontraria no Norte. Curiosidade sobre a outra vida da pequena garota de cabelos dourados. Sobre como seria uma aventura com ela. O que seria algo 'grande'? O que seria algo 'grande' para ela? Por algum motivo, ele queria muito saber.

– Eu... eu quero muito ir com vocês — disse ele por fim, em voz baixa.

Katherine olhou-o fundo nos olhos. Não fora totalmente desprovida de surpresa que ela recebera as palavras do novato. Sua expressão deixava transparecer parte da preocupação com que ela ponderava seu pedido. Seus ombros caíram com o peso de uma decisão.

Ela sabia o que devia escolher.

Mas também sabia o que sua própria experiência havia lhe ensinado. A vida que levava não deixara de deixar suas marcas em sua forma de pensar.

Ela apertou os lábios enquanto cuidadosamente escolhia as palavras seguintes.

– Dean, — respondeu. — Se você for, eu não vou poder garantir sua segurança.

Ainda quer vir?

Dessa vez foi a vez de Dean apertar os lábios. Ele desviou o olhar para o alto, passando de canto a canto da visão. Sabia que estava sendo impulsivo, e que o mais seguro seria voltar agora, enquanto podia. Mas algo nos cantos mais profundos de sua mente, uma vozinha misteriosa vinda de lugar nenhum, que nunca antes lhe dissera uma só palavra, mas que nos últimos tempos começara a agitar-se, como que despertando de um estado de inércia, insistia-lhe que devia ir.

– Eu... sim. Eu ainda quero ir.

A última frase foi dita com firmeza.

Katherine fechou os olhos. Suspiro.

– Está bem. Você pode vir.

Quando se virou, já preparando-se para, mais uma vez, embrenhar-se floresta adentro, Katherine sentiu uma mão sobre seu ombro.

– Kath, — falou Ty, suavemente. — você muito estressada. Devia tentar relaxar um pouco antes de seguirmos viagem.

Sem querer, Katherine olhou para Dean por sobre o ombro. O garoto agora arrumava as próprias coisas. Depois de colocar o saco de dormir na mochila, sentou-se no chão e tirou de lá uma pequena fruta, que comeu em pequenas mordidas. Pinmur voava sobre sua cabeça, e Dean acompanhava-o com os olhos. Sorrindo, estendeu-lhe a fruta, e o Protetor pousou em seus ombros para mordiscá-la. Parecia estar se divertindo, totalmente alheio à conversa que se desenrolava.

A garota suspirou novamente.

– Você sabe que não é nenhum perigo imaginário, Ty. Nem uma situação sem precedentes.

– Você está deixando o passado influenciar o seu presente. — afirmou ele. — Está espelhando em Dean o que viu acontecer com outros. Mas você tem que entender que só porque ele está perto de você, não significa que vai morrer. Se lembra dos primeiros?

Katherine sorriu um pouquinho. 'Os primeiros'. Sim, ela lembrava.

Para muitas pessoas, as primeiras aventuras poderiam ser um choque, mas não para Kath. Ela tivera sorte. Suas primeiras aventuras haviam sido as melhores, e com as melhores pessoas que poderia querer. Apesar do medo e da confusão, não havia nenhuma outra pessoa que a garota quisesse ao seu lado senão eles. Juntos, haviam quebrado barreiras, ultrapassado limites.

Ty e Elliot eram apenas dois deles.

–... Você tem razão. — admitiu ela. — Acho que estou me deixando levar...

Ty sorriu.

– Com certeza. Além do mais, você mesma disse: o que quer que seja, pode estar acontecendo lá. Mas também pode não estar.

Kath ergueu os olhos para ele, erguendo uma sobrancelha em uma expressão de brincadeira. Já sabia para onde a conversa rumava.

– Certo. E qual seria o seu sábio conselho para eu me... 'desestressar'?

– A Lagoa de Vidro é só a algumas horas de distância — respondeu ele. — Podemos fazer um pequeno desvio e dar uma passada lá. Aposto que o garoto adoraria conhecer os Thaianís.

Talvez fosse uma má ideia prolongar a viagem até os Reinos do Norte, ainda mais sabendo que algo estava acontecendo por lá, mas a possibilidade de uma visita ao Lago de Vidro a atraía profundamente.

Ela fora fisgada pela sugestão de Ty.

–... Você fez isso de propósito, não foi? — acusou, tentando conter o sorriso, sem sucesso.

– Eu? — o loiro fez-se de surpreso e desentendido. — Não, imagina...

Rápida como um raio, Katherine desferiu-lhe um tapa rasante na cabeça, balançando seus cabelos já naturalmente bagunçados.

E então, sorriu.

–... Obrigada, Ty.

.

A Lagoa de Vidro era como uma piscina natural ao pé da cachoeira.

O nome não era à toa: a água era absolutamente cristalina. Na verdade, se não fosse a suave coloração ciano ou cerúlea, dizer-se-ia completamente transparente.

Era de longe mais funda do que aparentava quando vista da superfície; tinha vários metros de profundidade.

– Dean, venha ver uma coisa — chamou Katherine.

Ela deu a volta na lagoa até o outro lado. Dean, curioso com o que ela queria lhe mostrar, seguiu-a. Ty vinha logo atrás.

Finalmente chegaram às pedras úmidas e parcialmente imersas próximas ao pé da cachoeira.

Assim, os três se ajoelharam nas proximidades, observando.

– Ali. — disse a garota, apontando.

Primeiro, Dean não viu nada. Então, percebeu um ligeiro movimento em cima das pedras.

Só quando olhou com mais atenção ele percebeu o que eram.

Pássaros.

Pequenos pássaros, muito semelhantes à forma dos Thaibatís em sua versão dourada, mas eram de algo que em muito se assemelhava a vidro. Eles ficavam na parte da pedra mais próxima da água, e várias vezes pulavam na superfície cristalina e começavam a chacoalhar, se banhando e se refrescando. Nesse momento, pareciam se perder, sua transparência somada à da água.

– Thaianís. — explicou Kath. — São outra das três Aves Trimorfas. Os Thaibatís são conhecidos como os Pássaros dos Bosques, enquanto os Thaianís são chamados de Pássaros das Águas, e os Thaiatís, os Pássaros dos Céus.

Dean admirou-os com os olhos arregalados enquanto a garota continuou sua explicação.

– Em seu estado natural, eles são de vidro, mas quando ficam acuados, se tornam prata. Quando estão furiosos, ficam tão gelados que um mero toque renderia para o frio o membro de qualquer um. E não subestime as bicadas deles: não duvido que cortariam até diamante, se quisessem. Mas acho que nunca os vimos em guerra. São as mais carinhosas e mais amigáveis das Aves Trimorfas.

Percebendo pelos olhos do garoto seu fascínio, ela pôs-se de pé e ajudou-o a levantar.

– Venha! Vamos ver mais de perto — convidou.

Quando se aproximaram, as aves não fugiram.

Pelo contrário: quando Dean estendeu a mão para tocá-los, um dos pássaros deu alguns saltinhos em sua direção e pôs-se a esfregar-se nela, pedindo carinho.

A dureza da superfície não fazia dela menos agradável de acariciar. Ainda era surpreendente como algo tão duro como vidro podia mover-se com tamanha naturalidade, sem qualquer tipo de engrenagem ou dobra. Apenas aquela superfície arredondada de estátua de acrílico.

Algumas das aves voaram para seus ombros e os de Kath. Outras se aglomeraram aos seus pés. Outras se esfregavam em suas mãos. Todos pediam por atenção.

Kath, Dean e Ty se sentaram cruzando as pernas, recebendo a todos à sua volta.

Um dos pássaros deu uma bicada amigável em seu dedo. Ao invés de assustar-se, lembrando do que dissera a garota, ele apenas achou uma graça, e não pôde conter o risinho que brincou em seus lábios.

Algum tempo mais tarde, retornaram à outra margem, onde haviam deixado as coisas.

Eles não tinham 'roupas de banho', mas como lá as manhãs eram frescas e os dias, agradavelmente quentes, decidiram que, depois de nadar, apenas deitariam ao sol para secar e seguiriam viagem.

Dean prontamente tirou a camiseta, assim como Ty, prontos para entrar na água. Porém, quando Katherine levou as mãos à barra da camisa e começou a erguê-la, seu alarme interno apitou.

– E-espera, você vai tirar a camisa também? — perguntou.

Katherine, ao ouvir a pergunta, tornou a baixar as mãos.

Sorrindo, ela levou a mão à nuca.

– Ah, é... tinha esquecido disso — desculpou-se. — Lá no seu mundo, só os homens podem ficar sem camisa, né?

– É que, aqui, nós não fazemos distinção dos sexos — explicou Ty, sentando-se para tirar o sapato do pé. — Afinal, é tudo a mesma coisa. Só muda que o seio tem leite, e o nosso peito, não.

Dean sentiu o rosto corar conforme o garoto falava. Em sua casa, sempre que ouvia a palavra 'seio', ficava vermelho como um pimentão. Ainda mais quando era Júlia fazendo piadas sobre isso.

– Está tudo bem, Ty... — disse Katherine. — Se isso o incomoda, não me importo de nadar de camiseta hoje.

Dean repassou mentalmente as palavras de Ty. Como quase tudo o que ouvia ali, ele tinha que admitir — apesar da vergonha — que parecia perfeitamente lógico. Mas ele ainda não tinha coragem de discutir com a decisão de Katherine de continuar vestida, de forma que, naquele dia, ela nadou com a camiseta.

A garota foi a primeira a entrar na água. Ela correu até em cima da cachoeira, deu alguns passos para trás e então saltou, mergulhando de cabeça.

A cachoeira não era muito alta, mas Dean achou-a louca de fazer aquilo. Ele próprio resolveu começar devagar. Primeiro colocou um pé na parte mais rasa, depois outro, e adentrou a lagoa a passos simples.

Quando chegou à altura de nadar, resolveu apenas manter a cabeça acima d'água. Do outro lado das águas, ele viu os passarinhos mais uma vez brincando de mergulhar e banhar-se nas águas cristalinas. Era uma cena linda.

Quando Katherine emergiu de repente ao lado dele, ele tomou um susto, fazendo-a dar risada.

– Ei, você sabia que, aqui, dá para abrir os olhos debaixo da água sem problemas? — disse ela. — Você devia experimentar.

E então tornou a submergir.

Foi mais levado pela curiosidade que ele experimentou ouvir a sugestão da garota. Qual não foi sua surpresa quando viu que era verdade?

Quando abriu os olhos, Katherine estava sentada bem no fundo da lagoa, vários metros abaixo.

A garota olhou para ele, e sorriu. Seus olhos pareciam ainda mais brilhantes ali. Seus cabelos ainda mais dourados balançavam com as correntes. Ela estava com as pernas cruzadas e não mexia os braços; não fazia nenhum esforço para continuar sentada.

Quando Dean tentou chegar mais perto, viu que a água apresentava uma resistência contra ele.

A garota então apoiou os pés no chão, 'levantando-se', e, em um único impulso, nadou até onde o garoto estava.

Ela parecia flutuar à sua frente, os movimentos suaves e graciosos. Se ele não o conhecesse, provavelmente acreditaria ter encontrado ao acaso um anjo ou uma ninfa.

Por longos segundos, eles se encararam.

Então, sem aviso, a garota sorriu. Se estivesse acima d'água, provavelmente seria um riso, mas ali embaixo era apenas um sorriso, divertido e espontâneo...

... ao qual Dean não sabia como reagir. Ele apenas a encarava, sem perceber, fascinado por ela quase tanto quanto, havia pouco, estivera pelos Thaianís.

Duas criaturas distintas. Duas entidades tão belas e únicas, vindas de um mesmo mundo.

Com um belo movimento de braços, a garota olhou para cima e impulsionou-se para a superfície. Seus longos cabelos balançavam atrás, ao ritmo da corrente criada por ela mesma ao abrir caminho pelas águas. Dean, em movimentos muito menos belos, seguiu-a.

– O que foi? — perguntou ela.

– Como você consegue sentar lá embaixo? — indagou ele.

– Você só tem que tirar todo o ar dos seus pulmões — respondeu ela. — É meio difícil, leva tempo e demanda prática, mas vale a pena. — ela sorriu. — Mas tem alguns truques. Por exemplo, respirar fundo várias vezes antes de descer, para oxigenar o cérebro. Ah! — ela fez uma expressão surpresa. — Lembrei de uma coisa que tenho que dizer a Ty. Volto em alguns instantes!

Dizendo isso, ela se retirou, nadando crawl até onde Ty brincava, perto dos Thaianís.

Dean resolveu tentar fazer o que ela dissera.

Respirou fundo, e de novo, e de novo, sem pressa.

Um... dois... três.

Então, tentou expulsar dos pulmões todo o ar que conseguiu dos seus pulmões e submergiu.

Ele tentou forçar-se para baixo com os braços. Porém, logo que começou a se aproximar do fundo, mais uma vez sentiu resistência.

Logo seus pulmões em chamas forçaram-no a subir de volta.

– Ei, Dean! — ouviu chamarem.

Ty acenava para ele de perto das pedras, ao lado de Kath.

Dean nadou até lá, e encontrou os dois irmãos com os cotovelos apoiados nas pedras negras, metade do corpo imerso e as pernas quase pendendo, balançando apenas sutilmente.

Dean encontrou seu lugar ao lado deles e apoiou-se para observar o que eles assistiam com tanto interesse.

Dois passarinhos brincavam entre si. Pareciam um casal, dando voltas em seus pequenos voos rasos e saltitando um ao redor do outro ou em círculos. Um deles adiantou-se e começou a escovar o outro com o bico carinhosamente.

Então, algo que parecia um diamante ou cristal rolado começou a tremer.

As duas aves se aproximaram e os três humanos curiosos fixaram toda a sua atenção na pequena esfera ovalada.

Primeiro, foi uma pequena rachadura. Depois, a rachadura se alargou, cada vez mais comprida, em pequenos impulsos, até dar a volta na esfera inteira.

Então, a parte de cima da esfera se soltou.

O filhote de Thaianí não era como as outras aves que Dean já vira nascer. Era mais magra que seus pais, e muito menor, mas não era feia. Era maravilhosa, bela e fascinante desde o primeiro segundo de vida.

Os dois pais se aproximaram e puseram-se a escovar o bebê recém-nascido, aninhando-o carinhosamente. Como se tivessem se apaixonado uma segunda vez, não só por seu parceiro, mas por seu filhote.

Era uma cena bela de se ver.

Notas finais
Quando à história da camisa, não é só isso. Talvez isso seja só o que eu mostre sobre esse outro 'lado da história', mas há várias coisas no Povo do Leste que são diferentes do que estamos acostumados. Isso acontece porque eles têm uma visão mais igualitária a respeito de tudo e todos.