Notas iniciais
He-ey! Cheguei com o décimo quinto capítulo! Mais uma vez, obrigada a todos que comentaram no último capítulo! Infelizmente, só tenho escrito até aqui, então os próximos demorarão um pouco para chegar. Sinto muito mesmo! >

Como ela é forte.

Era esse o pensamento recorrente na mente de Dean durante boa parte da manhã.

Não importava em que momento olhasse, Katherine em hora alguma deixou transparecer qualquer sinal da recaída súbita que sofrera havia apenas pouco menos de meio dia. Era como se ela tivesse tecido à sua volta uma dura carapaça, ainda mais resistente pela secura que o tempo atribuíra aos úmidos fios que trabalhava em seu escudo. Os ataques podiam até atingir sua parede protetora, mas embora o ricochete abalasse momentaneamente seu equilíbrio quase sempre impecável, nenhum dano real conseguia alcançá-la através de sua proteção — proteção essa que só era possível adquirir pela experiência.

E, dentro dessa carapaça, a alegria em sua forma mais pura. Definitivamente era algo que valia a pena proteger.

Só de lembrar o quanto se abalara pela mera imagem de uma perda, era difícil acreditar que Katherine havia vivido um número suficiente delas para o simples pensamento fechar a expressão normalmente despreocupada de Ty, e ainda assim conseguia manter a força e a leviandade que mantinha agora. Por vários momentos, ele pegou-se pensando em como sua vida teria sido mais fácil se ele tivesse essa determinação para levantar-se e seguir em frente que ela parecia possuir com tanta naturalidade.

Porém, conforme o dia precoce avançava para a manhã brilhante do meio-dia, ele começou a perceber que, embora não muito claramente, podia entender um pouco do que se passava na cabeça da garota. Ou, mais internamente ainda, em sua alma.

Era aquela mesma sensação tranquilizante da floresta que o arrancara de suas preocupações e o pusera a dançar no dia da festa ao redor do fogo. Não importava como olhasse, não havia tristeza, amargor ou angústia que perseverasse naquele éden distinto. Ali, onde até mesmo a insegurança parecia apenas uma frágil brisa, uma realidade distante, e o medo era claramente uma força de menor importância. Por mais que se preocupasse com os pequenos detalhes que vinha percebendo sobre aquilo que inicialmente lhe parecera um sonho virando realidade, desde as cicatrizes até as experiências marcantes de uma vida que só podia ser chamada de uma faca de dois gumes, não conseguia se preocupar de todo. A beleza das árvores e criaturas e de quase tudo o que vira na Terra da Velha Floresta faziam mais do que bem seu papel de afastar as perturbações e inquietações pendentes. Ali, a água parecia mais fresca, o ar parecia mais puro e o sol, mais caloroso. As árvores pareciam mais vivas, os animais, mais alegres, e tudo lembrava — mesmo que apenas de relance — uma versão do paraíso.

— Está tudo bem, garoto?

Dean ergueu os olhos para Kath. A garota observava-o com uma curiosidade que escondia certa preocupação.

— Você parece bem tenso. Aconteceu alguma coisa?

Dean balançou a cabeça em negativa.

— Não é nada. Só estou um pouco cansado.

A garota parecia ponderar se devia ou não acreditar — pendendo mais para a dúvida do que para a crença.

Porém, apenas sorriu e disse:

— Ok. Mas saiba que, qualquer coisa, é só falar, está bem?

De novo, aquele sorriso gentil. Sincero. Contagiante.

De repente, a garota soltou uma exclamação.

— Ei, Dean! Venha ver isso! — chamou, começando a afastar-se e deixando a mochila cair no chão.

Dean também largou a sua e, um pouco mais devagar, andou até ela.

A garota estava parada perto de uma árvore, a mão apoiada em seu tronco. Quando se aproximou, Dean viu o que ela via.

Onde um raio de sol atravessava uma fresta nas folhas abundantes das copas, alguns passarinhos brincavam no chão gramado. Pareciam ser uma família, dois um pouco maiores do que os outros, e saltitavam e planavam em voos baixos.

Detalhe: no lugar de penas, eles tinham fileiras e fileiras de folhas.

Uma sombra de reconhecimento passou pelo rosto de Dean.

— Eu já vi isso! — disse.

— Sério? — Katherine pareceu surpresa. — Onde?

Rapidamente, Dean resumiu a história de quando entrara no espelho, ajudado pelo pequeno passarinho verde e dourado.

— Ah — ela pareceu compreender. — Deve ser um dos portais da Imperatriz. Às vezes, quando é a primeira vez da pessoa, ela procura mostrar um pouco do mundo para onde ela vai, para que ela não fique confusa ou surpresa demais ao atravessar, ao mesmo tempo em que transforma isso em uma opção, uma escolha.

— Então, se eu não tivesse entrado...?

Katherine assentiu.

— Sim. O portal sumiria e você provavelmente demoraria um pouco para ter outra chance.

Os dois ficaram imóveis, observando as aves. Se Ty estava por perto, Dean não ouvia. Sua atenção estava totalmente voltada para as magníficas criaturas.

Katherine irrompeu de sua cobertura sob as árvores em um passo, e outro, e outro. Assim, sem qualquer pressa ou hesitação, aproximou-se das aves, que não fizeram menção de fugir, e desceu sobre um joelho.

Ela estendeu-lhes o indicador, e um dos pássaros respondeu ao chamado. Em um voo gracioso, ele subiu ao pretenso poleiro e pousou.

Katherine olhava fundo em seus olhos e ele retribuía o olhar quando ela falou.

— Thaibatís. São ao mesmo tempo as mais polidas e as mais gentis das Aves Trimorfas. Não são afetuosas, mas também não são ariscas. Quando estão em paz, suas penas são como folhas. Quando acuadas, se tornam no mais puro ouro. Porém, quando agressivas, seus bicos são como lanças, e seu corpo dourado irradia nas mais sublimes chamas.

Seu tom ao falar era profundo e emanava o mais profundo respeito. Dean, encantado pelas criaturas e fascinado pelas palavras da garota, não tinha controle sobre seus pés quando aproximou-se lentamente da cena.

Também se ajoelhando, ele estendeu a mão para tocar uma das aves. Ela não recuou, e os gestos do garoto eram marcados pela deferência e desprovidos de hesitação ao acariciar o pescoço e o papo do belo pássaro, que recebia as carícias com prazer.

Ele estava encantado.

O som escapou de seus lábios suave como o vento, sem que percebesse.

—... Que seres incríveis... — murmurou, deslumbrado. Seus olhos prendiam-se às aves em um estado de puro encanto.

Quando Katherine olhou para ele, um sorriso enigmático brincava em seus lábios.

— E não são?

Devagar, o canto de sua boca retorceu-se ainda mais em um sorriso torto, que lembrava um predador ao avistar a presa.

Ou uma aventureira ao sentir um começo de aventura.

— Quer ver mais?

Dean não pensou para responder.

— Com certeza.

.

Dessa vez, os movimentos de Katherine não tinham firmeza ou rigidez ao correr pela floresta.

Se antes ela corria de uma forma disciplinada, com os braços rígidos ao lado do corpo e a velocidade como o único objetivo, agora nem ela nem Ty traziam qualquer um desses traços em seus movimentos.

Seus corpos se moviam com a liberdade e descontração de uma criança. Apenas a ponta de seus pés chegava a tocar o chão, e eles divertiam-se ao saltar os obstáculos no meio do caminho. Os risos ecoavam pela floresta.

Dean corria um pouco atrás. Mesmo com os dois irmãos apenas brincando, ele tinha que se esforçar para acompanhar o ritmo.

Mas era um esforço bom.

A grama lambia-lhe os pés, agora descalços. Sem o peso das mochilas, ele sentia liberdade e uma leveza inesperada em seus ombros. O vento batia em seu rosto, refrescando-o, e balançava seus cabelos de um jeito brusco, mas agradável.

De vez em quando, Katherine virava-se para ele, ainda correndo, só que de costas. Sem sequer diminuir a velocidade, ela desviava de cada tronco e pedra como se tivesse decorado tudo ali, e mandava-lhe um sorriso brincalhão, dizendo:

— E aí? Você não vem?

E tornava a desvirar-se, rindo.

Dean quase nunca corria por diversão. Na verdade, provavelmente não o fazia havia mais de cinco anos.

Porém, duvidava que qualquer corrida pudesse equiparar-se àquela.

O som de seus passos misturava-se ao do ambiente, como se de alguma forma fizesse parte daquele cenário. O riso dos dois irmãos fazia-o sorrir também.

E de repente, ele se deu conta.

.

Vozes.

Vozes radiantes. O som de pés descalços correndo sobre a grama.

E risos. Risos pueris melodiosos como sinos.

.

Eu encontrei, percebeu, perplexo.

Ele já havia percebido o fato havia muito tempo, mas, por algum motivo, era como se nunca tivesse realmente compreendido. Como se nunca tivesse assimilado.

Mas agora, ele compreendia. A percepção finalmente viera, súbita e imprevisível como o vento.

Encontrei a Katherine de meus sonhos!

A compreensão foi como uma injeção de entusiasmo. Era como se, naqueles poucos segundos, ele tivesse nascido de novo.

Com renovada energia, ele acelerou, e, gradualmente, diminuiu a distância até os dois irmãos.

Katherine, vendo-o se aproximar, ficou surpresa por um momento.

Então, sorriu-lhe mais uma vez, agora um sorriso radiante.

— He.

Ele conseguiu.

— Venha logo! — brincou. — Achei que ia ter que te esperar!

E tornou a virar-se para frente, seus cabelos balançando ao vento em belas ondulações.

Era uma sensação estranha... Dean sentia-se como se estivesse dentro de um sonho. As cores. Os sons. O cheiro. O vento e a grama. A informação era simplesmente demais para processar; seus cinco sentidos estavam encantados. Não... quase hipnotizados.

Nunca lhe ocorrera que a floresta poderia ter sons. Nunca lhe ocorrera que a floresta poderia ter cheiro. E nem mesmo em seus sonhos mais belos ele conseguira imaginar cores tão vivas quanto as que via agora.

Mas elas existiam. Elas existiam, e estavam ali agora.

Finalmente, eles chegaram ao pé de uma enorme árvore. Por seu tamanho, provavelmente era uma árvore centenária.

Macacos não o fariam com mais agilidade; imediatamente, Kath e Ty agarraram-se com unhas e pés à lateral do tronco, usando as fissuras para se firmar, e começaram a subir, até finalmente alcançarem os galhos mais baixos, já a vários metros do chão. A partir daí, as acrobacias levaram-nos cada vez mais e mais alto, saltando de galho em galho. Giravam e balançavam nos troncos como acrobatas, movendo-se com a graça de dançarinos e subindo com a agilidade de primatas.

Era lindo de se ver.

Apesar da empolgação, ao pé da grande árvore, Dean viu-se detido. Seu olhar deslizou para cima, enquanto ele dava-se conta da enorme altura que teria que subir.

Ele engoliu em seco.

Com os dedos, ele procurou algum lugar para apoiar-se no tronco. Finalmente, encontrou uma pequena fenda e enfiou as unhas com força. Com os pés, procurou algum apoio.

Mal subiu dois passos, a fissura em que se segurara fraquejou e ele perdeu o equilíbrio, caindo de costas no chão.

Mais uma vez ele olhou para cima, mas, dessa vez, apertou os lábios, determinado.

Sua mão tremia com o esforço quando ele subiu, mão a mão, pé a pé, os primeiros vários metros da superfície irregular.

Finalmente, ele viu o galho mais baixo se aproximando. Porém, assim que estendeu a mão para agarrá-lo, o apoio de seu pé se despedaçou.

Ele sentiu o pânico dominá-lo naqueles poucos instantes sob a perspectiva de uma queda de vários metros, mas antes que caísse, uma mão agarrou a sua com força.

Ele olhou para cima e viu Ty sorrindo-lhe, inclinado para trás para compensar o peso da carga que tentava erguer, os joelhos flexionados ao extremo.

Em um único e lento esforço, ele puxou Dean para cima do galho também. A partir daí, tudo ficou mais fácil.

Ele não tinha a facilidade dos irmãos para escalar a árvore, mas agora que subira todos aqueles metros sem apoio, era inacreditavelmente fácil subir os galhos grossos e firmes. Mesmo sem um pingo da elegância de Ty e Kath e nem um pouco de sua agilidade, ele conseguiu subir com muito mais eficiência do que esperava de si mesmo, e sentiu um certo orgulho.

Pouco abaixo da maior concentração de folhas, Katherine abaixava-se, aguardando-os. Não estava de joelhos, mas apoiava-se nos próprios calcanhares. Estava praticamente sentada, mas ao mesmo tempo pronta para levantar-se de imediato a qualquer instante.

Por algum motivo, quando ficava assim, ela parecia selvagem. Como um animal flexível e sempre pronto para atacar.

Mas seu sorriso não era selvagem, e sim largo e radiante.

— He!— riu ela. — Está pronto?

Dean, ofegante, o cansaço subindo-lhe pelos membros como fogo, também respondeu sorrindo, um sorriso frágil que escondia sua força de vontade.

— Sempre.

Katherine sorriu ainda mais.

E virou-se, saindo da escuridão das folhas para o que quer que os aguardasse do lado de fora.

Ty seguiu-a, e logo em seguida foi a vez de Dean.

Ele lutou para abrir caminho entre os galhos mais e mais próximos, na concentração cada vez mais densa, até finalmente apoiar os pés no mais alto dos galhos, grosso o suficiente para não precisar de esforço para manter o equilíbrio do lado de cima. Por fim, com as folhas apenas um pouco acima do nível de seus tornozelos e pouco abaixo dos joelhos, ele ficou de pé.

O ar fugiu de seus pulmões com o que viu.

.

Era o começo do fim da tarde. O céu ainda estava claro, e o sol, brilhante, mas o entardecer começava a lançar suas primeiras sombras laranjas e rosadas sobre a enorme imensidão azul.

As nuvens, esparsas e dispersas, refletiam o belo tom salmão alaranjado. Até mesmo elas tinham sua beleza única.

E ali perto, não muito acima das copas, voavam famílias e famílias de Thaibatís.

As aves esverdeadas voavam em agrupamentos de cinco ou seis, em círculos elegantes, mas não eram as únicas aves. Vários outros pássaros voavam, todos dispersos pelo enorme céu. Embora houvesse muitas aves por ali, não era algo que se pudesse chamar de 'concentração'. Na verdade, eram o complemento perfeito para a paisagem delicada e equilibrada, que não trazia um só traço da poluição visual a que Dean estava acostumado. Ali só se via o estritamente necessário, e nada mais.

Próxima ao fim do galho no qual se apoiavam, Katherine estava na ponta dos pés escondidos sob as folhas. O vento ali era mais forte, e seus cabelos balançavam ainda mais, acompanhando o movimento imprevisível das correntes. Seus braços estavam abertos, como se ela tentasse abraçar aquele pedacinho de natureza. Ela ria.

Engraçado... a comparação era estranha, mas... por que Dean realmente sentia como se ela estivesse conseguindo?

É possível abraçar a natureza?

Tão logo essa dúvida surgiu em sua mente, uma segunda vozinha respondeu-lhe, como um pensamento discreto vindo de uma parte nova e inexplorada de sua consciência.

E por que não?

Não pela primeira vez, ele reparou no riso de Katherine. Havia algo de especial nele, mas era difícil precisar o quê. Era um riso comum, mas ao mesmo tempo não era; era espontâneo, alegre, pueril. Era incontido e jovial, mas ao mesmo tempo grácil. Era divertido e espirituoso.

Era sincero.

Talvez fosse difícil acreditar pelo que ele apenas começava a descobrir sobre a garota, mas não havia dúvida de que seu riso, tal como seu sorriso, eram os mais sinceros que Dean já presenciara.

E, tal como a paisagem que lhe servia de fundo, era hipnotizante.

Logo ao seu lado, Dean viu Ty sorrir. Seu sorriso não era radiante como o de Katherine, mas terno e suave, carinhoso e protetor. Ele era mais jovem do que a irmã, mas havia nele uma maturidade responsável da qual Katherine carecia... ou pelo menos, parecia carecer.

Como será que era Katherine no meio de uma aventura? Seria ela responsável? Paciente? Talvez séria?

E Ty? Ele dissera que fazia pouca coisa, mas o que era 'pouco' para gente como eles? Será que ele pensava antes de agir? Planejava tudo até os mínimos detalhes, garantindo a segurança de todos?

Tão rápido quanto surgiram, seus pensamentos subitamente dissiparam-se. Naquele momento, aquilo não importava muito.

Só o que ele queria era aproveitar ao máximo aquele momento.

E assim, os três permaneceram, os rostos erguidos sorrindo para a grandiosa floresta sob o grandioso céu.

Notas finais
Exagerei nas descrições? Maus ^^' eu queria descrever direitinho a sensação. Eu já me senti assim. Alguém mais? Alguém estava curioso a respeito das Aves Trimorfas? Logo deve aparecer mais uma. A última só vai surgir lá pro final do livro; é muito arisca. Para quem quiser saber, há três espécies de Aves Trimorfas: os Thaibatís, os Thaianís e os Thaiatís.