Viajantes - O Príncipe de Âmbar [HIATUS]
11 Capítulo X
Notas iniciais
Já era noite quando Dean e Ty separaram-se de Katherine para se aprontarem.
Kath recusou-se a contar a Dean qualquer coisa sobre a Festa da Fogueira, e ele estava morrendo de curiosidade.
Ty havia emprestado-lhe mais algumas roupas, e Dean percebeu a diferença entre as que usava antes e as que acabara de receber. As novas eram mais limpas e menos amassadas, e alguns detalhes pareciam ter sido alterados para ficar mais formal. Era difícil perceber: as diferenças de suas roupas formais e casuais eram muito mais discretas do que aquelas às quais ele estava acostumado. Um botão aqui, um bordado ali...
– Então... o que é essa festa, afinal? — perguntou ele a Ty, enquanto calçava um par de botas que recebera de um rapaz das cabanas próximas.
– É uma comemoração diária — respondeu o garoto, penteando descompromissadamente o cabelo com a ponta dos dedos. — Kath propôs pouco tempo depois de chegar aqui...
A resposta pegou Dean de surpresa.
– O quê? Como assim, 'depois de chegar aqui'? Ela não é daqui?
– É... bem... é uma longa história — respondeu ele, pensando. Parecia não saber como explicar. — Você vai entender melhor mais tarde.
– Sim, mais tarde. Já sei — respondeu Dean, um pouco impaciente. — Vocês vão mesmo me dizer tudo o que eu quiser saber depois, né? Não vão tentar desviar o assunto ou algo do tipo, certo?
– Fique tranquilo — respondeu ele, com simplicidade. — Kath é totalmente contra esconder qualquer coisa de qualquer um. Você vai ter todas as respostas que quiser depois da festa. Ela foi totalmente sincera quando disse que só queria que aproveitasse a noite — esclareceu, encarando Dean com um olhar inquisitivo, como se o desafiasse a duvidar das boas intenções da irmã.
– ...Certo — disse Dean, um pouco mais tranquilo.
– Mas, continuando — Ty retomou a explicação. — Quando chegou aqui, ela percebeu que, apesar de tudo estar indo bem, as plantações estarem estabilizadas e os reinos estarem em um momento de relativa paz, nossos dias estavam um pouco... vazios, por assim dizer. Ela sempre teve um espírito alegre — ele riu. — No começo, ela era até meio tímida, mas logo que se acomodou desandou a propor todo o tipo de festivais. Comemorações para agradecermos a cada dia de nossas vidas. A Festa da Fogueira é a homenagem que marca o início da noite. A noite que separa o último dia de um mês do início do mês seguinte é uma comemoração especial, mas a noite de hoje tem um tipo diferente de singularidade. Enfim, a Festa da Fogueira é basicamente um momento para todos se reunirem em volta da fogueira, conversarem, comerem e dançarem até cair de exaustão.
– Parece divertido... eu acho — terminou Dean, com um certo tom de dúvida.
– E é — afirmou Ty, com firmeza. — Pelo menos, na minha opinião.
Eles ouviram passos apressados.
– Hey — cumprimentou Kath da porta. — Prontos?
– Aham! — respondeu Ty, alegre.
– Você vai descer pela escada, Dean? — perguntou a garota, sentando-se na beira da varanda, próxima à corda de nós, enquanto Ty sentou-se ao lado da escada de cordas.
– É. Ainda não estou pronto para descer toda essa distância assim, na raça.
Ela riu da expressão.
– Bom, nos encontramos lá embaixo!
.
O nome 'Festa da Fogueira' não era de graça.
Quando voltaram à praça próxima ao penhasco, Dean quase não pôde reconhecer o lugar.
No círculo demarcado com as pedras que Dean notara mais cedo, havia uma enorme fogueira. O fogo em si não alcançava os três metros de diâmetro — a demarcação parecia ser mais uma margem bem estreita de segurança — mas não passava muito longe, e era muito maior do que todas as fogueiras das quais ele já ouvira falar. O fogo facilmente três metros de altura, talvez mais, e iluminava toda a área à volta com surpreendente clareza.
O calor chegava até uma distância razoável das chamas, mas ninguém parecia se importar.
A Cidade Erguia, apesar do nome, não era muito populosa. Estava mais para um vilarejo. Assim, toda a cidade pôde se reunir para a comemoração. Havia bancos dispostos ao redor do círculo de pedras e outros mais distantes, próximos às casas. Também havia algumas pedras grandes próximas aos bancos, um pouco mais altas do que as pessoas e de largura não muito menor, onde vários jovens e adultos apoiavam as costas ou simplesmente sentavam-se em cima. A região intermediária estava vazia por parte dos bancos, mas lotada por parte das pessoas: a faixa inteira estava livre para todas as pessoas corajosas que se dispunham a dançar na frente de todos sem se preocupar com o mico — o que equivalia a, basicamente, todo mundo.
Um pequeno grupo tocava músicas com flautas artesanais, alguns sentados no chão, outros em um banco e alguns sentados em cima da maior de suas pedras próximas, seus pés quase tocando o cotovelo dos companheiros. Ao redor deles, alguns outros músicos batucavam em alguma espécie de tambores, e várias outras pessoas espalhadas pela praça acompanhavam a batida com os pés ou mesmo as mãos, aplaudindo no ritmo. O grupo era animado, e a música das flautas, apesar de não ser tão boa quanto algumas composições feitas no computador que Dean conhecia, era muito alegre e bonita, e preenchia o ar com uma sensação de entusiasmo e euforia que as músicas artificiais não possuíam.
Conversas e risadas envolviam tudo em um ambiente caloroso e convidativo, e as danças pareciam não ter parâmetros ou restrições. 'Não descanse seus pés e não pare seus braços' parecia ser a única regra.
A maior parte dos que dançavam eram jovens, mas havia exceções. Um exemplo era o adulto que dançava com Kath. Estava na faixa dos quarenta, os cabelos negros marcados com alguns resquícios grisalhos, mas emanava vitalidade. Katherine estava novamente com o cabelo solto, e ambos dançavam em círculos. Ele simplesmente dançava com os pés, enquanto Kath dava piruetas e traçava longos arcos com os braços enquanto saltitava nas pontas dos pés inquietos ao som da música.
Ela sorria e gargalhava, o cabelo bagunçado caindo sobre a face, e ele parecia divertir-se com a energia e a intensidade da pequena, rindo junto com ela, contaminado por sua alegria contagiante. Tão logo o homem se retirou, dominado pelo cansaço, ela pôs-se a dançar sozinha em volta da fogueira, esgueirando-se entre as pessoas. Em um movimento contínuo, parada num lugar, sem nunca descer das pontas dos pés... ela só fazia o que dava na telha.
Ty logo juntou-se a ela. Os dois deram as mãos e começaram a saltitar em círculos, como que em uma ciranda coreografada em forma de dança tradicional. Kath deu uma pirueta, inclinando-se para trás sobre as costas e Ty a acompanhou. Então, soltaram as mãos e continuaram dançando um de frente para o outro, saltando de um pé para o outro.
Dean sentou-se em uma das pedras mais baixas — bom, baixa para as pedras; ele estava mais de uma cabeça mais alto que o homem de pé ao seu lado. Ele não sabia dançar, e nunca soubera. E ainda não estava confortável o suficiente para se misturar no meio de estranhos em uma terra estranha. Ele se sentia como um forasteiro. Bom, exceto por Ty e Kath.
Mas certamente era um forasteiro muito bem-vindo.
Dean observou os dois enquanto lembrava-se do que Ty lhe dissera mais cedo.
'Kath propôs logo depois de chegar aqui...'
Então, Katherine também não era de lá. Ela e Ty não eram irmãos, como ele havia pensado. Pelo menos, não de sangue.
Mas... ela combinava tanto com o povo de lá. Dean nunca perceberia se não lhe dissessem.
Tanto os moradores quanto ela eram alegres. Ambos se davam bem com a natureza e ambos gostavam de festejar — e, ele tinha que admitir, apesar de simples, aquela comemoração o divertira muito mais do que qualquer outra da qual já tivesse participado.
Além disso, com a lua radiante e as muitas estrelas brilhantes no céu, a floresta à sua volta adquirira um nível quase etéreo de beleza.
Finalmente, Kath, ofegante e suada por causa da proximidade com o fogo, parou para descansar. Ela sentou-se sobre uma das pedras mais altas, a qual escalou com a agilidade e graça que lhe eram características. Lá em cima, ela estava um pouco mais alta que Dean. Kath inclinou-se para a frente e balançou os pés ao ritmo da música.
Logo começou uma cantoria animada, acompanhando o fundo musical. Dean mal prestou atenção na letra, mas conseguiu captar alguns versos. Era uma letra bonita, que falava da floresta como se estivesse viva, e brindava a cada ave, cada flor e cada mínimo detalhe do dia a dia do povo da Cidade Erguida. As batidas o faziam ter vontade de dançar também, mas Dean sabia que só passaria vergonha, então conteve-se.
– Agora você, Kath! — exclamou um garoto mais ou menos da idade de Dean, com pele clara e olhos e cabelos cor de amêndoa.
Várias pessoas balançaram a cabeça, em concordância, parecendo aprovar a ideia. A garota balançou a cabeça em negativa e enfatizou o gesto com as mãos, mas logo formou-se um coro de 'Kath! Kath!', que dominava a quase todos. Por fim, ela se rendeu.
Os músicos alteraram um pouco o tom e o ritmo da música, deixando-o ainda alegre, mas em um tom diferente... como descrever?... mais gentil. Gracioso. Puro.
A batida permaneceu por vários segundos enquanto Katherine pensava. Então, ela ergueu a cabeça, para que sua voz saísse clara, e começou a cantar.
Quase todo o tempo, eu não sei o que fazer
Mas passo a minha vida em busca do prazer
E se há algo de que tenho certeza
É que a vida precisa ser vivida
Sinto a terra aos meus pés e as folhas em meu rosto
Enquanto corro, a brisa me faz sentir bem
Eu busco a plenitude além do céu, depois do mar
Quando vejo a lua à noite deixo o vento me levar
E quando mergulho nas águas, sejam quentes ou geladas
Eu me sinto livre para voar
Eu passei a minha infância em busca da razão
Mas agora vejo que há outra opção
Abandonar a fé na mente e seguir o coração
Sua voz não era o que Dean chamaria de uma 'voz treinada', mas era surpreendentemente suave. Infantil e reconfortante, como seria o canto de uma ninfa.
Se a música e a letra já não admirassem por si sós, o conjunto da voz, a melodia e o acompanhamento instrumental era encantador e sublime. De alguma forma, a canção fazia Dean se sentir bem.
E não parecia ser só ele a ser afetado pela música. Várias pessoas ao redor da fogueira pareciam se sentir mais leves ao ouví-la.
Ao fim da música, Katherine foi ovacionada. Aplausos vinham de todos os cantos da festa. Ela encolheu-se, corando intensamente e sorrindo com um misto de orgulho e timidez.
– Bonito, né? — Ty comentou, subindo na pedra ao seu lado.
– Ela ensaiou isso? — perguntou Dean, curioso.
– Não — ele riu. — É tudo de improviso, mesmo. Ela não é muito chegada a ensaios.
Curiosamente, Dean não se surpreendeu.
Era engraçado... nem parecia que Dean a conhecia havia apenas sete dias...
Tempo suficiente para ela salvar a sua vida.
De repente, Dean ouviu alguém exclamar:
– Já é meia-noite!
Assobios e comemorações de todo tipo percorreram a praça, mas Dean não entendeu logo de cara o porquê daquilo.
Então, tudo aconteceu.
.
De vários pontos da floresta, barulhos surgiram. Não... 'barulhos' era um termo muito grosseiro para descrever.
O som de pássaros tomava o lugar da música alegre que havia pouco dominava o ambiente. Eram cantos, parecidos com assobios, mas sutis o bastante para assemelharem-se ao vento. Soavam divinamente aos ouvidos de Dean, como a mais bela sinfonia da natureza.
Diante dos olhos de Dean, a luz da lua foi recoberta por um estranho brilho azulado. As cascas marrons das árvores gradativamente se tornaram em um belo tom azul acinzentado. Todas as folhas das árvores se tornaram mais claras, e como se lâmpadas se acendessem debaixo das copas das árvores, todas as suas frondes se iluminaram em um resplendoroso azul-elétrico. As chamas da fogueira também começaram a mudar, e, a partir da base, assumiram uma coloração azul e branca que só podia ser descrita como grandiosa.
Toda a floresta agora resplandecia em ciano, e, mesmo sendo noite, o mundo brilhava e transbordava vida sob a luz da lua.
A luz não iluminava a floresta como se fosse dia. O céu ainda estava escuro no céu, com as estrelas graciosas como eram, mais numerosas do que qualquer céu que Dean já tivesse visto. Ainda havia aquela sombra próxima ao chão, não feia, não assustadora, mas divina. A floresta não estava clara. Apenas impossivelmente bela.
Nem em seus sonhos mais loucos Dean poderia imaginar mais belo paraíso.
De repente, ele já não tinha mais medo de passar vergonha.
Quando a flauta retomou o ritmo alegre e exultante, o garoto não hesitou. Saltou da pedra onde passara a noite inteira e começou a dançar.
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