Viajantes - O Príncipe de Âmbar [HIATUS]
9 Capítulo VIII
Notas iniciais
Dean não sabia quem ela era, mas naquele momento, não importava.
Só o que ele via era a brancura absoluta e a o fulgor que ela parecia emanar em meio às trevas que os rodeavam. Sua figura superava em muito todas as expectativas que ele tinha a respeito de uma divindade.
Mas Dean nunca a tinha visto antes. Disso tinha certeza.
Então... por que ela lhe parecia tão familiar?
Bem vindo, Viajante.
A voz falava diretamente em sua cabeça, mas Dean não se surpreendeu. Na verdade, sentia como se não pudesse esperar nada diferente.
Você atravessou o Portal, mas isso é apenas o começo, continuou ela. A você será dada uma escolha. Quando isso acontecer, pense bem em sua resposta: ela decidirá o rumo de toda a sua vida.
O que eu devo escolher?, perguntou ele, também em pensamentos.
Era difícil dizer com exatidão, mas, por um momento, ela pareceu sorrir.
O que você quiser. Se não fosse assim, não seria uma escolha, certo?
Dean sentiu uma brisa refrescar sua face, não fria, mas morna e calorosa como a luz do sol de um belo amanhecer.
Eles o estão chamando, disse ela. Devem estar preocupados. Você deve voltar.
Quem são eles?, indagou o garoto, com certa urgência. Ele sentia que seu tempo com a misteriosa entidade estava acabando, e tinha muitas perguntas não respondidas que o atormentavam já havia tempo demais.
Provavelmente, aqueles que mudarão a sua vida para sempre. Ela olhou-o fundo nos olhos. Naquele momento, Dean sentiu como se ela pudesse lê-lo até o fundo de sua alma, mas não ficou assustado. O mundo é feito de escolhas, Deaniel Gray, e está na hora de fazer as suas.
Sempre e para sempre. Que seja eterna enquanto dure.
.
Assim que acordou, vários flashes vieram à mente de Dean. Rostos fitando-o, preocupados. Um vislumbre esverdeado. O dia passando diante de seus olhos.
Ele piscou algumas vezes, cautelosamente. Seus olhos pareciam secos e estavam um pouco irritados, mas ele logo se acostumou.
Em sua testa, repousava um pedaço de pano cuidadosamente dobrado, umidecido em água morna. Ele tirou-o e colocou-o de lado, e, devagar, sentou-se. Não sentia mais dores de cabeça, dormência nos braços ou qualquer outra coisa. Na verdade, ele sentia-se bem melhor do que quando desmaiara algum tempo antes.
Havia quanto tempo que ele estava dormindo? Ele não fazia ideia. Talvez algumas horas. Algo em torno disso.
Ele olhou em volta. Estava em uma cama simples de madeira, com um colchão e um cobertor de um material parecido com algodão grosso.
Ele estava em uma espécie de cabana rudimentar. O chão era de madeira, o teto era de madeira e a parede era de finos troncos presos uns aos outros com algum tipo de corda de maneira tão rústica que era surpreendente pensar que ainda estava de pé.
Além da cama, só havia uma mesinha de canto e uma cadeira como mobília. Toda a luz do cômodo vinha das frestas entre os troncos nas paredes e de uma janela acima dele. A porta, feita do mesmo jeito que o resto da parede, estava fechada, mas não parecia trancada.
Todo o quarto não devia ser maior que a cozinha de Dean, e tinha um formato perfeitamente circular, como se tivesse sido feito por um compasso. Porém, não parecia haver qualquer outro cômodo, como se a casa inteira se resumisse àquilo.
– Hey, você acordou!
Um garoto loiro apareceu na porta da cabana e andou até Dean. Era o mesmo garoto que estava com Katherine quando eles se encontraram na semana anterior.
Ele arrastou a cadeira até esta ficar próxima à cama, sentou-se e inclinou-se para a frente, sem se importar com a postura.
– E aí? Como está se sentindo?
Dean não sabia responder. Estava tão confuso que não conseguiria agir normalmente, nem que tentasse.
– Estou — gaguejou. — E... ahn... — como se agradecia alguém por salvar a sua vida? Ele nunca tinha vivenciado qualquer coisa semelhante para saber. — Obrigado por me salvar. Você é A... — ele quase o chamou de 'Alguém', nome que dera para ele em meio aos delírios, mas conteve-se. — ... a pessoa que me ajudou, né?
O sorriso do garoto se alargou e Dean viu uma pontada de orgulho em sua expressão.
– Nem. Desculpa, mas eu não conseguiria. Se tentasse, morreríamos os dois. — justificou, dando de ombros. — Na verdade, você teve muita sorte. Quando estava se afogando, a pessoa que te viu era a única pessoa capaz de nadar naquela água.
Dean lembrou-se das vagas imagens de tinha do Anjo, a garota que o salvara da morte.
De súbito, um pensamento surgiu em sua mente. Então a garota que o salvara era...?
– Por quanto tempo eu dormi? — perguntou ele, tentando juntar as peças em sua mente.
O garoto pensou um pouco para responder.
– Hmm... mais ou menos dois dias.
– DOIS DIAS!?
Não, não era possível. Como havia se passado tanto tempo? Tudo estava tão confuso...
– Aliás, qual é o seu nome? — perguntou o garoto loiro, interrompendo seus pensamentos. — Nos conhecemos há tão pouco tempo mas já passamos por tanta coisa, e nem sabemos como se chama...
– Meu nome é Deaniel. Deaniel Gray — respondeu Dean, aliviado pela proposta de um assunto com o qual ele sabia lidar. — Mas todo mundo me chama de Dean.
O garoto estendeu a mão, animadamente.
– Prazer, Dean. Meu nome é...
– Ty — completou Dean, apertando-lhe a mão. Então, surpreendeu-se. Como ele sabia o nome do garoto? Provavelmente de seus sonhos, assim como a garota, Katherine.
Ty inclinou a cabeça para o lado, curioso.
– Como você sabe?
– Eu... adivinhei — Dean ficou envergonhado com a desculpa esfarrapada, mas o que podia dizer? Que sonhava com ele e com a irmã havia um ano inteiro? A garota já sabia, mas nada indicava que Ty também tivesse ouvido naquele dia, já que corria muito à frente de Katherine quando Dean gritou.
Depois de alguns minutos de silêncio, Ty perguntou:
– Você já pode se levantar?
Dean tentou apoiar-se nos braços e girar os tornozelos. Tudo parecia estar em ordem. Nada congelado.
– Acho que posso. — respondeu. Ele virou-se até os pés tocarem o chão ao lado da cama.
– Que bom. O que acha de agradecer pessoalmente à sua salvadora? — sorriu Ty. — Tenho certeza de que ela vai adorar!
.
Fora da cabana, o ambiente não era parecido com nada que Dean já tinha visto, mesmo não havendo nada especialmente estranho que prendesse sua atenção.
A cabana de onde saíra era parte de um complexo ovalado. Várias outras construções iguais àquela contornavam o que parecia ser uma espécie de praça, sempre exatamente lado a lado com as vizinhas. Não havia nada atrás ou à frente: apenas uma única linha contínua, atrás da qual erguia-se uma grandiosa floresta, dos tons mais vivos e vibrantes que Dean jamais vira. A floresta do espelho.
A 'praça' era um terreno de formato elíptico, cujas fronteiras eram indicadas pelas cabanas que a cingiam. O gramado verde e radiante tornava-se mais rarefeito conforme aproximava-se do centro do círculo, terminando em um outro círculo muito menor — mal passando dos três metros de diâmetro — demarcado com várias pedras simples.
Porém, o complexo de cabanas se quebrava em um ponto, onde uma abertura na sequência dava para um enorme penhasco rochoso, razoavelmente mais comprido, muito mais largo e com a divisão entre terra e rocha bem mais sutil do que naquele em que fora salvo. Além disso, no penhasco de que se lembrava, a floresta começava imediatamente após as rochas. Não havia nenhum tipo de vila ou praça.
A única palavra para descrever esse cenário era "impressionante".
– Dizem que, alguns séculos atrás, ouve um terremoto tão grande que balançou todo o continente. Por isso, ele acabou ficando com um dos lados bem acima do nível do mar. Como um prato inclinando-se para o lado, sabe? — explicou Ty, percebendo o que se passava na cabeça de Dean. — O Povo do Oeste lado teve alguns problemas com o mar avançando sobre suas casas, mas nós demos uma ajuda a eles, então a grande maioria ficou bem depois do acidente. A natureza conseguiu adaptar-se sozinha.
– Nem dá para sentir a inclinação... — disse Dean, depois de alguns instantes.
– A ilha é bem larga. A inclinação é mais sutil do que parece. — ele deu de ombros.
– Ah... entendi.
Várias pessoas caminhavam na praça. Crianças, jovens, adultos, pessoas mais velhas. Loiros, morenos.
Só então Dean percebeu que estava com uma roupa diferente da sua. Vestia uma camiseta de algodão igual à de Leo, de mangas curtas e gola larga, de um branco escuro ou creme acinzentado, além de uma calça confortável até os joelhos do mesmo tecido, de algum tom de marrom desbotado.
– Ah, as roupas são minhas. Espero que não se importe — explicou Ty. — Não podíamos deixar você com aquelas roupas molhadas.
– Mas quem... quem me...?
– Ah! Não se preocupe com isso — disse ele, em tom reconfortante. — Foi minha mãe, Sarah. Ela já tem prática vestindo garotos.
Ficou claro que ele estava falando de si mesmo.
– C-certo. — Dean sentiu-se ruborizar.
Conforme andavam, várias pessoas olharam para eles. Uma dupla de garotas que Dean nunca tinha visto até gritou:
– Oi, menino! Que bom que você está melhor!
Por algum motivo, Dean ficou incomodado de elas o chamarem de 'menino'. Não era como quando Katherine o chamava de 'garoto'. Ele sabia que não devia se perturbar, já que elas não sabiam seu nome, mas...
Dean percebeu que Ty o guiava para o penhasco.
E, de repente, ele gritou. Um grito tão agudo que mais parecia um assobio, mas que provavelmente alcançava uma área muito maior. Igual ao que a garota fizera ao chamar Lyssa.
Dean assustou-se com o barulho súbito, quase saltando de surpresa. Ty viu a reação.
– Desculpe — disse, levando a mão à cabeça, sem jeito. — Gritos são muito mais confiáveis do que qualquer assobio ou apito na hora H, e nós tentamos evitar margem para erros.
Eles permaneceram de pé por quase dois minutos inteiros.
Novamente, Dean por pouco não caiu para trás. De repente, uma grande criatura de pêlo amarronzado surgiu rente ao penhasco, voando diretamente para cima, tão perto que Dean sentiu as correntes de ar balançarem seus cabelos e roupas.
Voar diretamente para cima nunca era uma boa coisa, ainda mais em um animal de penas ou pelo curto, onde não dava para se segurar.
Mas era o que ela fazia.
Depois de subir até onde a vista de Dean podia acompanhar, ela tornou a descer, na mesma inclinação.
Apenas poucos metros acima da pedra ela tornou a estabilizar a montaria em uma posição mais natural, e, então, pousou.
Seu pouso era ao mesmo tempo cheio de graça e precisão, como o movimento com que pegara o papel na primeira vez em que o garoto a vira.
Quando o animal pousou na pedra, mais uma corrente súbita de vento atingiu Dean e Ty, além de algumas outras pessoas que haviam se juntado para ver o retorno da garota.
O animal era mais ou menos do tamanho de um cavalo, mas não era nem de longe o que parecia: à sua frente, Dean via uma grande águia, incrível em toda sua beleza e grandeza.
Era certamente um animal que merecia respeito.
De cima da águia, saltou a garota.
Os cabelos de Katherine, agora soltos, estavam molhados e grudavam em suas costas, assim como suas roupas. Ela vestia algo que poderia ser a versão feminina das roupas de Ty, com uma camiseta regata sem mangas e uma calça justa, também até os joelhos. Diferente de Ty, Katherine ainda corria descalça. Seus cabelos já tinham uma tonalidade única naturalmente, mas a água e a luz do sol refletindo em sua imagem faziam com que parecesse ainda mais profunda.
Diferente de Ty, que possuía um corpo esguio, Katherine tinha braços e pernas relativamente musculosos para seu tamanho e idade, e ambos eram facilmente mais que uma cabeça mais baixos que Dean. Mas apesar das poucas diferenças, ele nunca havia visto duas pessoas mais parecidas. Ambos tinham uma aparência que só se podia descrever como infantil; o mesmo brilho nos olhos, a mesma extroversão, o mesmo jeito infantil e enérgico, como se tudo fosse uma grande aventura da qual eles adoravam participar. Como se cada coisa fosse um desafio.
Porém, naquele momento, algumas coisas chamavam a atenção em Katherine. Sua pele estava pálida, e os lábios, roxos. Dean se sentiu culpado.
– Hey! — cumprimentou ela, com o que parecia ser uma expressão tradicional para os dois irmãos. Uma de suas mãos foi para a cintura, enquanto a outra brincou com os cabelos da nuca. — Que bom que acordou! Ficamos preocupados. — seu sorriso era radiante e contagiante. — Desculpe ter demorado tanto para te encontrar... acho que cheguei muito em cima da hora, não é?
– N-não, é claro que não! — exclamou Dean, alarmado e sem jeito. — N-não precisa se desculpar. Eu é que devia estar te agradecendo...
Ele deu um passo em sua direção, mas ela exclamou 'Não!' e recuou um passo, erguendo as mãos à frente do corpo.
– Não precisa chegar perto — disse. — Eu estou molhada, e... não deve fazer bem para você tocar em mim agora.
Instintivamente, Dean parou de avançar, mas sentiu-se ainda mais culpado.
– Eu achei isso perto das pedras há uma meia hora. Achei que devia ser importante para você... — ela estendeu uma pulseira de macramê. — Pensei que talvez tivesse alguma outra coisa sua lá embaixo, então fiquei rondando por mais algum tempo, mas não achei nada.
A pulseira era decorada com contas verdes e tecida em duas fileiras de fio creme. Era a pulseira que Dean ganhara de Simon e Dan no seu aniversário.
Um peso ainda maior desceu sobre seus ombros. Então ela tinha pulado naquela água gelada outra vez apenas para pegar aquilo?
– ...Obrigado — agradeceu, envergonhado, estendendo a mão para pegar a pulseira. — Me... me desculpe... por fazer você descer na água, e...
– Não se desculpe! — interrompeu ela, novamente abrindo a expressão num largo sorriso. — Eu gosto de ajudar as pessoas. E nem estava tão frio assim...
Nesse momento, um tremor rápido passou por seu corpo, contradizendo suas palavras.
– Ah, mana, não seja modesta — Ty andou até ela e se esticou para apoiar o cotovelo em seu ombro. — Você sabe que é a única que consegue nadar lá a essa hora do dia. Ele teve muita sorte de ser você a vê-lo. Você podia aprender a aceitar elogios de vez em quando — brincou.
– E você vá te catar, antes que eu me esqueça — replicou ela, no mesmo tom de brincadeira, empurrando-o de leve e dando um tapa de raspão na cabeça. — Eu já sou orgulhosa demais sem aceitar desculpas das pessoas que ajudei.
Rindo, os dois se separaram.
– Aliás, como se chama? — perguntou Katherine.
– Meu nome é Deaniel, mas meu apelido é Dean — respondeu ele.
– Bom... Prazer em conhecê-lo, Dean. — ela virou-se para o irmão. — Ty, você já viu alguma coisa para ele comer?
– Ainda não. Ele só acordou alguns minutos antes de você chegar. Até que foi bem rápido, na verdade...
– Então, imagino que ainda não tenha mostrado a Cidade Erguida... — murmurou ela. — Bom, por que não vê se a mãe da Rowan já preparou alguma coisa para o lanche de hoje? Ainda é cedo, mas acho que ela não deve se importar. E depois pode mostrar a ele a Cidade. Ele pode ficar no meu quarto por enquanto.
– Pode deixar! — assentiu Ty, prontamente.
– Encontrou vocês depois! — se despediu Katherine, e disparou em direção a uma das cabanas.
Depois de a garota desaparecer dentro de uma das pequenas construções, Ty virou-se para Dean.
– Então, vamos lá?
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