Notas iniciais
Mais um capítulo...

Dean soltou um berro surpreso quando as garras afiadas afundaram em seu ombro através da camisa.

O animal parecia lutar para se equilibrar, mas acabou escorregando para a mochila, que Dean prontamente largou no chão.

Ele reconheceu o felino de imediato. Era um gato de rua que vivia rodeando sua casa e o terreno da escola. Seus pelos eram de um tom alaranjado e formavam uma estampa rajada com algumas partes claras, como a barriga.

Vários cadernos escorregaram da mochila aberta sobre o asfalto. Provavelmente o gato prendera as unhas ao escorregar e puxara o zíper.

Impaciente, Dean se abaixou para pegar tudo, lançando um olhar furioso para o bichano. Júlia e Will fizeram menção de ajudar, mas Dean recusou com um aceno de mão.

Novamente de pé, ele olhou em volta. Ergueu uma sobrancelha; exceto pelo muro da escola, que era apenas meio metro mais alto que Dean, não havia nenhum outro lugar de onde o gato poderia ter caído. Ou pulado. Parecia que ele tinha literalmente caído do céu...

Dean bufou, como sempre fazia quando decidia que não estava a fim de entender alguma coisa, ou que ela simplesmente não valia seu esforço.

– Ei, o que é isso?

Dean virou-se a tempo de ver Júlia estendendo a mão para pegar uma folha de papel meio pendurada para fora da mochila.

– E-ei...! — ele se virou, um tanto aflito, tentando pegá-la de volta, mas Júlia era mais ágil; logo ela já estava a vários passos de distância e segurava-a estendida com as duas mãos.

Will debruçou-se para olhar por sobre o ombro de Júlia. Os olhos da garota examinavam o desenho com atenção.

Então, ela percebeu do que se tratava, e seu olhar se tornou sério.

– ... É ela, não é? — disse, virando o desenho para Dean. — A garota dos seus sonhos.

Por um momento, Dean ficou perdido. Era como se a imagem da menina o atordoasse. Seu olhar e sua falta de reação já eram como uma resposta para Júlia, mas ainda assim ele confirmou com um sinal fraco de cabeça.

Júlia olhava a cena com um olhar triste.

Ela conhecia Deaniel desde bem pequena. Ele sempre tinha sido seu melhor amigo; ela, Dean e Will eram o trio inseparável. E, agora, havia dois anos que ele era também seu namorado.

Apesar de seu jeito largado e discreto, Dean sempre tinha sido independente. Seus pais viajavam a negócios quase em tempo integral, e embora Daniel, seu irmão mais velho, fizesse o possível e o impossível para substituí-los, havia coisas que estavam fora de seu limite. Mas Dean sempre lidara bem com a situação, e até ajudava o irmão com o caçulinha Simon.

Vê-lo tão dependente – tão intimamente ligado a algo — a abalava.

Júlia não sabia o que fazer.

Desorientada, ela enfiou o papel indolentemente na mão de Dean e disse, com a voz rouca:

– Faça o que tiver que fazer.

Ela pegou novamente a mochila no chão e jogou no ombro. O caminho que seguiu era exatamente contrário ao que seguia antes e dava para sua casa, o que deixava claro que ela não pretendia fazer a prova. Não que ela precisasse: era inteligente e estava na lista dos melhores alunos do primeiro ano.

Will e Dean observaram-na enquanto ela sumia à distância. Então, Will pegou a própria mochila, colocou-a nas costas tomou o caminho que seguiam de início.

– Te espero na sala de prova — disse.

E logo, ele também já estava longe. Dean estava sozinho.

.

Ele não sabia o que fazer.

Devia ir para a escola? Se fosse fazer a prova e acabasse por deixá-la em branco novamente, não haveria milagre que o permitisse recuperar a nota. A sra. Parks já estava na sua cola... se desperdiçasse a primeira prova do bimestre, ela já não teria mais motivos para se segurar. E tudo o que ele não precisava era de uma suspensão.

Mas... se fosse para casa, o que aconteceria? Ele perderia a prova e a chance de recuperar a nota. Provavelmente repetiria de ano, e mesmo se não repetisse, sua nota não seria muito acima da média. Ele estava na corda bamba. Além disso, Daniel certamente pediria uma explicação para ele ter faltado à aula.

Ele ponderava, pensativo. Será que Júlia estava certa? Será que ele devia contar a Dan?

De repente, o gato silvou.

Dean virou-se para ele justamente quando o animal saltou sobre ele, prendendo as unhas no tecido da blusa.

Com muita paciência, ele ajudou o felino a se desvencilhar. Irritado, atirou-o longe, praguejando. Sua camisa decididamente não sobreviveria a mais uma dessas.

O gato caiu de pé. Raivoso, ele tornou a silvar e eriçou os pelos. Então, virou-se e disparou para a rua.

– Que gato doido...! — resmungou Dean. O que deu nele hoje?

O desenho não estava mais na sua mão. Devia ter caído enquanto ele desprendia o animal de sua camisa. Ele olhou para o chão, procurando-o.

A imagem novamente desnorteou-o por um momento, mas ele tentou ignorar a sensação e inclinou-se para pegá-la.

Porém, quando sua mão aproximou-se do papel, uma brisa atingiu-o, balançando de leve sua franja e movendo o papel para o lado.

Respirando fundo, o garoto virou um pouco e tornou a abaixar-se, já um tanto precipitado.

Mas uma nova corrente de vento o fez mover-se para trás no chão, e, de repente, o papel ergueu-se no ar, serpenteando.

Confuso, ele estendeu a mão para pegá-lo, mas, como um ágil beija-flor, a brisa fez com que ele se movesse e desviasse habilmente do garoto.

Uma nova rajada fez com que a folha flutuasse um pouco mais para longe, e Dean andou mais um passo, tentando pegá-la. Mas, como se o provocasse, o vento o levou ainda mais para trás.

Dean não sabia se ficava irritado ou intrigado. A cada passo que dava em direção ao desenho, o vento o carregava mais para longe. Ansioso, o garoto começou a andar mais e mais depressa, mas o papel acompanhava o ritmo. Logo, ele começava a cruzar a linha entre o andar e o correr.

O desenho esgueirava-se pela cidade aleatoriamente, sem destino. Atravessando ruas e parques. Virando esquinas.

O que está acontecendo?

Mesmo sem correr em sua maior velocidade, o tempo começou a trazer os efeitos da sua falta de preparo físico. Ele começou a sentir o cansaço subir por suas pernas.

Mas nada o faria diminuir a velocidade. Ele precisava alcançar aquele papel.

Subitamente, a distância entre o desenho e o garoto começou a aumentar.

Mais uma vez, o vento mudou de direção. Em um movimento repentino, a folha virou a esquina. Com alguns instantes de atraso, Dean o seguiu.

Mas o que viu ao virar na rua foi algo diferente do que esperava ver.

Suas pernas congelaram, prendendo-o ao chão. Sua mente precisou de segundos para entender, mas seu subconsciente processou de imediato.

Ela parecia estar na faixa dos treze anos. Seus singelos olhos negros contrastavam com sua pele clara. Os longos cabelos de um dourado profundo estavam presos em um rabo de cavalo que alcançava-lhe a cintura. As maçãs do rosto eram coradas e o nariz, descascado pela longa exposição ao sol.

Suas roupas eram um tanto singulares. Ela vestia uma camiseta sem mangas de gola rolê justa, quase como uma gola alta, de um pálido verde metálico. Sua calça legging cinza clara chegava até pouco abaixo dos joelhos. Ela andava descalça, deixando os calos dos pés à mostra, e seus braços estavam encobertos do pulso até quase o ombro por faixas de tecido branco-creme semelhantes a bandagens. Levava uma mochila turquesa escura e discreta a tiracolo.

Mas nada chamava mais a atenção do que seus olhos.

Ela estava na beira da calçada, como se pretendesse atravessar a rua, e seus pés estavam erguidos em uma meia-ponta, como se fosse uma ave prestes a alçar voo.

Dean só pôde ver o movimento por uma fração de segundo. O instante em que virara a esquina, exatamente quando o papel passara voando rente à ela.

Em um movimento ao mesmo tempo gracioso e preciso, ela nem hesitara em estender a mão para pegá-lo. Agora, ela o segurava meio erguido, na altura em que voava quando o pegou, com cuidado para que não amassasse, mas também com firmeza, para que não escapasse.

Enquanto Dean observava, um pássaro semelhante a um pardal, mas de elegância e graça ímpares, desceu do céu e pousou no ombro esquerdo da garota, em silêncio.

– Hey! — chamou ela, indicando o papel em sua mão. — Isso é seu?

Dean percebeu que ela falava com ele.

– S-sim — respondeu.

A garota sorriu, divertida.

– Parece bem cansado — comentou. — Teve trabalho para pegá-lo? Deve ser importante.

Ela começou a andar em direção a ele. Caminhava sem pressa, calmamente, mas também não ia devagar. Andava com um gingado, uma segurança, um descompromisso marcado nos movimentos. Até o jeito que andava era singular.

Ela pareceu perceber o nervosismo do rapaz, porque disse, sorrindo novamente:

– Fique tranquilo. Eu não vou ler — ela andou alguns passos em direção a ele e estendeu o papel.

Porém, enquanto Dean estendia a mão para pegá-lo, uma leve brisa fez com que o desenho se esticasse a partir do ponto em que ela o segurava, e por um instante, a imagem ficou perfeitamente clara.

Droga...!

A garota enrijeceu, paralisada.

– E-eu tenho que ir — ela gaguejou. — Combinei com meu irmão de encontrá-lo atrás do parque...

Murmurando mais algumas coisas confusas, baixo demais para que Dean pudesse entender, ela começou a afastar-se. A ave sobre seu ombro levantou voo, como se entendesse o que estava para acontecer.

– E-espere! — ele tentou chamá-la, aflito.

Mas ao som de sua voz, a garota disparou.

Dean nunca tinha visto alguém correr tão rápido em tão pouco tempo. Antes mesmo que ele conseguisse pensar em alguma coisa, ela já se distanciava velozmente.

Ele já estava cansado da corrida, mas quando começou a segui-la ficou ainda mais surpreso com a diferença de seus desempenhos.

Ela corria com muita facilidade e com uma postura própria. Não parecia gastar tanta energia quanto ele, e mesmo com a mochila tinha uma enorme vantagem.

Mas ele estava determinado.

– Espere! Por favor!

Mas seu pedido teve o efeito oposto do desejado: ao ouvi-lo chamar, sua velocidade pareceu dobrar.

Dean continuava tentando equipará-la, mas simplesmente não conseguia.

Ela não parecia familiarizada com as ruas. Corria sem destino, percorrendo um trajeto escolhido a esmo no calor do momento. Passou por um parque, por uma ruela que separava duas lojas, e continuou percorrendo os caminhos mais aleatórios. Os únicos momentos em que Dean via uma chance de alcançá-la eram as curvas, quando o peso adicional atrapalhava em suas manobras.

Depois de mais de dois minutos, a velocidade da garota começou a diminuir.

Dean deu um último impulso, se aproximando.

Porém, ela fez algo que ele não tinha previsto: ao virar na esquina seguinte, a mochila escorregou de seu ombro com brusquidez e chocou-se violentamente contra o muro.

Dean não sabia quanto peso ela carregava na mochila, mas quando a largou, o efeito foi rápido e visível.

A mudança foi instantânea. Sua velocidade multiplicou-se novamente. Agora ela movia-se com uma rapidez que parecia incompatível com uma garota comum, e suas chances de alcançá-la pareceram desabar até quase desaparecer.

Mas ele não podia desistir. Agora, não.

Ele acelerou novamente, com força renovada. Talvez não ganhasse no condicionamento físico e na agilidade, mas ganhava em determinação.

Estranhamente, a rua continuava vazia, mas qualquer um que o visse naquele momento não poderia entender o porquê de sua insistência.

Mas ninguém precisava entender.

Havia um ano que ele era atormentado por seus sonhos. No começo, não pareciam nada de mais, mas agora era diferente. A floresta. A garota. Tudo isso... tinha acabado de ganhar um novo significado a seus olhos.

Havia pouco menos de um ano que aquela sensação estranha tinha começado. Aquela mistura terrível de ansiedade e angústia. Uma mistura que deixaria qualquer um louco.

E, agora, lá estava ela. A garota misteriosa.

Depois de tanto tempo, de repente, ela estava ali. Talvez ela não o conhecesse, mas era coincidência demais. Talvez ela fosse a resposta para todas as suas perguntas. Talvez... talvez ela pudesse ajudá-lo.

Ele não podia deixá-la ir. Não agora.

Um banco surgiu em seu caminho, mas sem deter-se por um momento sequer, ela pulou-o. Dean não teve tanta agilidade, mas isso não o barrou.

Ela parecia ter decidido que os obstáculos eram sua chance de deixá-lo para trás. Pulou mais um banco, subiu em uma fonte, passou por debaixo do corrimão da escada da entrada de uma empresa, mas nada. Dean, apesar de desajeitado, ainda a seguia.

Eles chegaram ao muro que cercava a praça pelo lado sul, onde ele dava para a escola. Dean tinha andado em um círculo enquanto corria.

Era um beco sem saída para ela.

Dean estava quase relaxando, quando ela novamente o surpreendeu.

Uma árvore alta e um tanto escorregadia crescia ao lado dos muros de pedra. Sem deter-se por um instante sequer, ela rapidamente saltou sobre a árvore e, com a destreza de um verdadeiro habitante das matas, escalou-a.

Antes mesmo que dois segundos se passassem, ela já saltava sobre o obstáculo.

Ficou imediatamente claro que, se tentasse imitá-la, ele estaria em desvantagem. Então, olhou em volta rapidamente, e quando viu um banco convenientemente colocado perto do muro, correu até lá e subiu.

Quando o viu atravessar atrás dela, a garota procurou outro lugar oportuno. A menos de cem metros, ela viu outra árvore, rodeada de canteiros, plantada perto do mesmo muro.

Novamente, ela subiu, mas ao invés de saltar sobre o muro, ela começou a correr em cima dele.

Dean não tinha outro lugar por onde subir. Aflito, temendo perdê-la, ele voltou até o lugar onde tinha subido. Outro banco tinha sido arrastado para lá havia alguns meses, onde os estudantes gostavam de trocar ideias com os amigos do lado de fora durante o intervalo.

O garoto tornou a subir e tentou alcançar a garota, que já desaparecia.

Um momento de tensão foi quando eles viraram na dobra do muro, onde o ele deixava de separar o parque da escola e passava a fazer par com a rua que passava à frente desta, que era geralmente por onde os alunos chegavam e onde se amontoavam na saída.

Seu golpe de sorte foi quando ela perdeu o equilíbrio por um momento e cambaleou, terminando por descer desajeitadamente do muro.

Ela parecia ter caído de joelhos, pois sua mão apertava com força a pele ralada, que sangrava um pouco.

Quando ele desceu também, seguindo-a, ela imediatamente pôs-se a correr, mas o joelho dolorido parecia prejudicá-la.

Finalmente, Dean estava perto de alcançá-la.

– Espere, Katherine! — pediu, estendo a mão para tocar-lhe o ombro.