Viajantes - O Príncipe de Âmbar [HIATUS]
21 Capítulo XX
Notas iniciais

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A primeira coisa que viram ao entrar na taverna foi um garoto deslizando sobre a comprida mesa em sua direção.
– WOOOA! — gritou ele.
Pouco antes de cair, suas mãos agarraram com afinco as bordas da superfície de madeira, conseguindo frear em tempo por muito pouco.
– Arranjando encrenca de novo?
O estranho ergueu os olhos para a garota à sua frente.
– Hey! É a Kath! — sorriu ele. O sorriso era largo, malandro, com dentes inesperadamente brancos. Um cacho de seus cabelos castanhos pendia sobre seu olho. — Minha antiga companheira de 'encrencas'! Como me encontrou?
– Segui o rastro de destruição. As outras tavernas que te receberam devem ter ficado muito felizes ao vê-lo ir embora — respondeu a garota, com um ar divertido.
Nesse momento, alguém gritou alguma coisa, e uma garrafa passou rente à cabeça de Elliot. Katherine abaixou-se bem a tempo da garrafa espatifar-se na parede às suas costas. Quando levantou-se, não parecia surpresa. Na verdade, era como se nada tivesse acontecido — pelo menos, nada inesperado.
– Preciso da sua ajuda — ela estendeu a mão e puxou Elliot da mesa pelo pulso. Outro projétil foi lançado, mas os três abaixaram-se a tempo, e dispararam porta afora.
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– O que te trás aqui, garota? — gritou Elliot, em plena corrida.
– Nada de mais — respondeu ela, abaixando-se novamente quando uma tigela de cerâmica quase roçou seus cabelos ao passar. 'Peguem-nos!', alguém gritou furioso. — Pelo menos, nada fora do comum.
– Isso é bom! — ele respondeu. Um copo foi lançado em sua direção, dessa vez almejando seus pés, mas ele habilmente saltou-o. — Se tem alguma coisa que você nunca enfrentou antes, não quero nem imaginar o que é!
– Querem parar de tagarelar de uma vez? — gritou Dean, correndo desajeitado no fim da fila, já com a camisa manchada de tomates, vinhos e algo que ele não conseguia identificar. — E arranjar algum lugar para a gente se esconder?
– A feira é logo em frente! — Elliot respondeu. — Você é devagar assim sempre?
– Ele é novato! — explicou Kath.
– Ah! Tá explicado!
Finalmente alcançaram a entrada da cidade. A feira começava logo após a passagem no muro. Dean não conseguia chegar perto das enormes entradas em arco sem sentir-se diminuído, mas ali os estandes e as várias pessoas ajudavam a diminuir a sensação.
– Ali estão eles!
Elliot olhou rapidamente por sobre o ombro para seus perseguidores.
– Se abaixem! — gritou, puxando Dean pela barra da camisa para baixo e se encolhendo atrás de uma barraca de frutas. Katherine abaixou sozinha. Um objeto vago, mas definitivamente maior do que os habituais copos e cerâmicas, passou voando por cima de suas cabeças.
– Eles estão ficando irritados! — disse Katherine, rindo.
– Então, acho que é melhor a gente dar o fora! — respondeu Elliot, também gargalhando.
Dean apenas olhou para os dois, incrédulo.
– Cuidado!
Kath levantou-se de repente, pouco antes de outro objeto espatifar-se sobre o lugar onde ela se escondia havia poucos instantes.
– Vamos! — disse ela, puxando Dean pelo braço para levantá-lo depressa.
A corrida até o centro foi um completo caos, repleto de silhuetas vagas vindas de todas as direções, até seus perseguidores finalmente não terem mais o que lançar. Os três fugitivos revezavam-se se abaixando, saltando ou se escondendo rapidamente atrás de uma proteção mais sólida quando necessário.
Finalmente chegaram a uma parte mais tranquila da cidade. Como de comum acordo, os três viraram na primeira oportunidade e entraram em uma rua deserta.
Katherine e Elliot já estavam sem fôlego de tanto rir, mas nem isso os fazia parar. Já Dean estava sem fôlego por outro motivo.
– Isso foi muito legal! — exclamou a garota, apoiando as costas na parede e deslizando para baixo até sentar-se, rindo e ofegando. — O que você fez dessa vez?
– Sabe que eu nem lembro? — respondeu Elliot, apoiando as mãos nos joelhos, na mesma situação.
Os dois riram ainda mais com a resposta. Dean, assim como eles, estava suado da corrida, e completamente ofegante.
– Vocês dois são doidos...! — disse ele sem pensar, deixando-se desabar no chão de terra.
– Obrigado! — respondeu Elliot, sorrindo para ele. — Eu tento me esforçar!
Em seguida, virou-se para Kath, subitamente calmo.
– E então, o que a trás aqui? Você disse que não era nada de mais, mas faz algum tempo que você não vinha fazer uma visita. Aconteceu alguma coisa?
– Não sabemos ao certo — respondeu ela. — O Povo do Oeste sentiu uma estranha agitação na Ilha de Gelo, mas estou indo identificar. Mas não é sobre isso que eu vim falar com você.
Na última frase, sua voz se tornou mais séria. Elliot percebeu, e sua expressão também se tornou grave.
– Está tudo bem com você? — perguntou ele, preocupado.
– Sim, eu estou bem — respondeu ela, tranquilizando-o. A expressão do garoto se suavizou. — O problema é outro. Eu, Dean e Ty estamos nos hospedando na livraria do Henric e do Shira por enquanto. Podemos falar sobre isso lá? Acho que eles também vão querer ouvir.
Ao falar seu nome, Katherine indicou Dean com um gesto de cabeça.
Elliot assentiu com um gesto de cabeça.
– Tudo bem. Quer ir agora?
A garota balançou a cabeça em negativa. Um sorriso divertido voltou aos seus lábios.
– Acho que é melhor deixarmos o novato descansar um pouco antes, não acha? — respondeu. Elliot, pego de surpresa com a resposta brincalhona, riu um pouco.
– Ok, então. Vamos descansar.
Katherine andou até Dean e sentou-se ao seu lado, enquanto Elliot sentou próximo à parede oposta da rua estreita, de frente para eles. Foi a primeira vez que Dean pôde olhar para ele com calma.
Ele não devia ser muito mais velho do que Kath. Provavelmente tinha a mesma altura de Shira, ou algo perto disso. Sua pele era um pouco mais morena do que a média daquele Domo, mas ainda era um pouco mais clara do que a de Dean. Seus cabelos, que pendiam entre o ondulado e o cacheado, tinham o mesmo tom castanho de seus olhos intensos.
Enquanto descansavam, Dean percebeu que seu rosto quase sempre carregava uma expressão descontraída. Ele parecia uma pessoa de poucas preocupações, do tipo que sabia que a vida estava ali para ser vivida, e para ser vivida direito.
Assim como Katherine.
Esse elo que os conectava não se estendia a Dean. Ele não conseguia entender como eles podiam carregar aquele princípio de forma tão leviana, mas ao mesmo tempo com tanto afinco.
Costas apoiadas na parede e a cabeça pendendo para trás, observando o céu, Dean se perguntou se algum dia conseguiria fazer o mesmo.
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– Já voltaram? — Henric cumprimentou-os à porta. — Conseguiram achá-lo?
Sorrindo, Katherine apontou por cima do ombro, indicando o garoto logo atrás com o polegar.
– É difícil não achar! — respondeu ela, divertida.
– Olá! — cumprimentou-o Elliot, com um sorriso largo. — Como vai, doutor?
– Vou bem, obrigado! — respondeu o doutor.
Quando os três recém-chegados entraram, ele fechou a porta às suas costas.
– Querem um chá? Ou alguma outra bebida? — ofereceu ele.
– Eu estou bem, obrigada. — afirmou Kath, sentando-se no chão.
– Eu acho que vou aceitar — respondeu Elliot educadamente, também sentando-se. — Você teria um chá de erva primavera, por favor?
– Ela tem esse nome por causa da época em que é colhida — sussurrou Kath no ouvido de Dean. — Ela só começa a crescer no início da estação e só pode ser colhida no final.
– Sim, acho que ainda tenho algumas folhas — respondeu o doutor. Então, virou-se para Deaniel. — Vai querer alguma coisa, garoto?
– Ãhn... acho que vou experimentar um pouco disso, também — respondeu ele.
– Certo! — sorriu. — Volto em alguns minutos. — e, dizendo isso, sumiu no segundo andar da loja, onde aparentemente ficava tudo o que não era a livraria.
Todos ficaram em silêncio por alguns momentos, até Ty quebrá-lo.
– E então, Dean? — disse ele, erguendo uma sobrancelha em um sorriso discreto. — O que achou da experiência?
O garoto estava sentado perto de uma parede, embaixo da janela, agora escura. Já era tarde, e o céu de trás do vidro começava a se tingir do tom de azul que sucedia o rosa do fim da tarde
– Foi... inesquecível — respondeu Dean, depois de uma pausa.
Todos os presentes riram com a resposta.
– Imagino que tenha sido — comentou Shira, também sorrindo um pouco.
Alguns minutos depois, Henric voltou com duas xícaras de chá.
– Aqui... — ele inclinou-se para entregar a de Elliot, que pegou-a com delicadeza e acenou com a cabeça em agradecimento. -... e aqui. Espero que goste!
Dean também agradeceu com um singelo gesto de cabeça e estendeu a mão para pegar a sua.
Quando ele fez menção de levá-la à boca, percebeu que todos os olhos da sala estavam voltados para si.
Katherine percebeu seu desconforto e sorriu.
Vai! Experimenta!
Ao receber a mensagem que ela passava com os olhos, Dean não conseguiu evitar de sorrir.
Inclinou a xícara nos lábios e tomou o primeiro gole.
O silêncio era absoluto enquanto todos aguardavam o veredito.
– E então? — perguntou Kath. — O que achou?
Dean ficou em silêncio por alguns instantes. Ele ergueu o olhar para ela...
E lambeu os lábios.
– Isso é muito bom!
Sua resposta foi descrente, e seguida de grande comemoração. Katherine e Henric riram de seu tom incrédulo. Elliot bateu palmas e ovacionou. Shira e Ty sorriram, achando graça.
Elliot ergueu sua xícara no ar com cômicos ares de grandeza:
– O mundo está dividido entre as pessoas que gostam e as pessoas que não gostam de erva primavera. — disse, com um falso tom de seriedade que não condizia com seu rosto também falsamente sério, mas que tinha naturalmente aquele jeito de quem não leva nada realmente a sério. — Meus parabéns, Dean. De hoje em diante, você é oficialmente um membro dos Adoradores de Chá de Erva Primavera. Ergam suas xícaras para saudar o novo membro.
Ninguém, é claro, tinha xícaras, a não ser os dois, mas todos ergueram as mãos e dobraram os dedos como se segurassem uma xícara invisível.
– Saúde! — gritaram em uníssono, e então caíram novamente na gargalhada.
Dean virou o resto do chá de uma só vez. A bebida era para o paladar o que a essência de baunilha era para o olfato, senão melhor. Ele nunca imaginara que chegaria o dia em que beberia algo que se comparasse ao cheiro de seu irmão preparando bolo para o lanche da tarde, mas esse dia havia chegado, e lá estava ele.
A livraria permaneceu agitada até altas horas, quando o céu lá fora se tingiu em tons de azul e preto. Dean começou a sentir seu olhar pesar sob suas pálpebras.
Foi quando Elliot tocou no assunto que estava lá para tratar.
– E então, Kath? — perguntou, dirigindo-se à garota pequena. — Sobre o que você queria falar?
Foi como se Katherine tivesse sido puxada para a realidade de uma ilusão agradável da qual adorava participar. Seu rosto primeiro demonstrou surpresa com a súbita mudança de assunto, e então, por um momento, se tornou sério.
Logo sua habitual expressão neutra e serena retornou, mas todos podiam perceber que o assunto do qual ela trataria não devia ser levado com leviandade. Se sua expressão era serena, seu coração era pesado e devia ser levado a sério.
Todos os presentes reagiram instantaneamente. Elliot curvou-se um pouco para a frente, atento. Shira deixou de concentrar todo o seu peso em uma só perna, subitamente demonstrando firmeza em sua postura, apesar dos ombros baixos. Henric se mostrou um tanto preocupado, com as sobrancelhas bem juntas aos olhos, inclinadas em tensão.
– Ty... — chamou a garota. — Você poderia levar Dean para o quarto? Já está ficando tarde.
Ty cruzou olhares com ela e os dois se entreolharam por vários instantes, em uma conversa silenciosa.
– Certo. — assentiu. — Vamos.
Dizendo isso, ele se levantou, gesticulando que Dean se levantasse também.
A última coisa que Deaniel viu ao olhar por cima do ombro ao subir a escada foi a estranha reunião, que, mesmo não tendo começado a falar, já tinha a atenção muito longe dos dois que deixavam o círculo.
Por algum motivo, a variedade de expressões que viu no grupo foi o que mais assustou Dean.
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