Notas iniciais
Hey! Cheguei! Primeiramente, muito obrigada a Winston, pela ajuda com as correções, e a Laah Di Angelo, pelo voto de confiança! ^^ Para esse capítulo, teremos algumas... surpresas. Espero que aproveitem!

– Primeiramente, eu quero deixar bem claro duas coisas.

Katherine e Dean estavam novamente na pedra sobre a cachoeira. Ty, que não saíra do lugar, se acomodou ao lado da irmã. Dean novamente sentou extremidade que pendia sobre a água, ocasionalmente respingando em sua camisa.

– Primeira coisa — Kath ergueu o indicador, enfatizando. — Você pode demorar o quanto for necessário para responder. O momento é oportuno, mas você não precisa necessariamente aproveitá-lo. É muita coisa para processar, muita coisa para se pesar e muito a ponderar para pedir uma resposta imediata.

"Segunda", ela ergueu o dedo médio. "Independentemente da resposta, ela não tem que ser obrigatoriamente permanente. Se você aceitar e mudar de ideia depois, pode cair o fora a qualquer momento, sem compromisso, e não guardaremos mágoas. Da mesma forma, se recusar agora e mais tarde quiser voltar, será igualmente bem vindo. Ou mesmo se recusar e quiser visitar-nos de tempos em tempos. Sem compromisso, sem pressão."

– ...Certo — concordou Dean. — Qual é a proposta?

– Antes de mais nada, você tem que saber que existem dois tipos de Viajantes. Aqueles como nós — ela gesticulou, indicando ela e Ty. — que sabemos o que somos e aproveitamos isso ao máximo. Alguns de nós vivem aventuras, participam de batalhas e ajudam Domos inteiros, enquanto outros escolhem viver a vida com simplicidade. Viajando de vez em quanto, só para dar um tempo, ou mesmo ficando a vida inteira no mesmo Domo. Mas esses não são todos. Muitos Viajantes nascem e morrem sem saber o que são.

– Só ser um Viajante não quer dizer que você tem que viver uma vida de aventuras e perigo. — disse Ty. — Ele só te dá a capacidade de ir de um Domo a outro.

– A nossa proposta é a seguinte: — continuou Kath. — Se você negar, pode voltar para casa agora mesmo, e vamos fazer de conta que nada aconteceu. Você vai poder viver a sua vida como bem entender. Só nos intrometeremos se você quiser. Mas, se aceitar, você pode passar um tempo aqui, como uma experiência. Nós vamos te mostrar esse mundo e todas as coisas interessantes nele, e podemos até ensinar alguns truques úteis. Você usa esse tempo para conhecer o máximo possível da nossa vida e cotidiano, e, se te interessar, você pode ficar aqui como um aprendiz. Quando estiver bom e habilidoso, podemos te levar para as nossas aventuras e te apresentar os outros Domos, além de vários amigos nossos.

– E então? Está interessado? — perguntou Ty, sorridente.

Dean pensou um pouco na proposta.

– Por que eu ia querer uma vida de aventuras e perigo? — perguntou, ponderado.

– Ah, isso eu já não posso responder — Katherine sorriu com a pergunta (não, sério, como eles podiam sorrir tanto?!) e riu discretamente, divertida. — Não é o tipo de coisa que se pode simplesmente explicar; você tem que decidir isso por si só.

O garoto ponderou.

Havia muita coisa que ele tinha deixado em seu Domo quando saiu. Seus irmãos. Sua escola. Seus amigos.

Por outro lado... já havia algum tempo que ele não era feliz ali. Nunca tinha sido muito popular. Seus pais viviam viajando à trabalho. Em casa, ele não era mais do que um fardo, que sempre causava preocupação ao irmão mais velho.

Se fosse para casa, pouca coisa o esperava. Ele teria que se matar de estudar para passar de ano. Entraria em uma faculdade barata, já que dificilmente conseguiria passar em uma pública e não tinha dinheiro sobrando. Faria alguma faculdade relacionada à exatas, que ele ainda não sabia bem o quê.

Mas se ficasse ali, agora... o que poderia fazer? Não, melhor, o que não poderia? Ele poderia ir para qualquer lugar, viver como quisesse. Ele seria livre.

Ele ponderava, pelos seus irmãos. Katherine dissera que poderia voltar quando bem entendesse, e por quanto tempo quisesse, mas ele não sabia como seria sua vida. Poderia passar dias ou semanas longe de casa. Era possível até que não voltasse... simplesmente iria embora um dia e nunca mais apareceria. Mas ela mesma dissera que ele não precisava lutar se não quisesse... se resolvesse simplesmente viver passeando pelos Domos, sem nenhuma obrigação, não havia nada que o impedisse.

Seus irmãos o faziam hesitar, mas não havia realmente nada a ponderar.

E então? Está interessado?

– Sim — respondeu. — Eu... quero ficar aqui... e conhecer o mundo de vocês.

Por algum motivo, ao dizer essas palavras, seu coração acelerou, exultante. Por que será?

Ao ouvir a resposta, a reação foi universal. Kath sorriu seu sorriso mais largo e radiante, e Ty acompanhou-a, rindo divertido, como quem contém a empolgação.

Katherine riu.

– Nesse caso, bem vindo ao bando, Deaniel Gray!

.

– Ei, você falou alguma coisa sobre um 'momento oportuno'...? — perguntou Dean, pegando o que sobrara do pedaço de pão que deixara pela metade.

– Em dois dias, Kath e eu planejamos ir para os Reinos do Norte — explicou Ty.

– Eu tenho que levar uma proposta a um velho amigo — continuou Kath. — Tenho uns amigos perto da fronteira que são especialistas. Eles poderiam te ajudar a conhecer o nosso mundo do jeito que quer.

– Especialistas? — Dean ficou curioso. — Em quê?

Kath e Ty se entreolharam, e então sorriram.

– Em tudo.

'Especialistas em tudo'. Certo.

– Parece interessante — comentou Dean com sinceridade.

– E é — concordou Kath. — Eles são muito legais. Com certeza vão adorar ajudar você.

– Além dos Reinos do Norte, que reinos existem? — perguntou o garoto, interessado.

– Bom, nós não temos uma divisão muito precisa — esclareceu Ty. — Basicamente, temos os Reinos do Norte, que são um conjunto de reinos bem delineados separados por grandes muralhas onde vivem as pessoas mais... temerosas com a natureza.

– Não que eles temam a natureza — acrescentou Kath, rapidamente. — Eles apenas vivem um pouco mais afastados das florestas... mantêm um sistema mais primitivo de sociedade, com moedas, casas de pedra, comércio, hierarquias... esse tipo de coisa.

– Além de toda aquela história de 'mais ou menos nobre' — acrescentou Ty, com visível desdém.

– Depois, temos o Reino do Leste, que é onde nós estamos agora. — continuou a garota. — Nós somos o Povo do Leste. Há outras comunidades além da nossa, dispersas pela floresta, mas nós somos a mais unida e mais... 'firme', por assim dizer. Muitos estão começando agora, e ainda não são tão ligados à natureza, então têm dificuldade para satisfazer as necessidades como alimentação e moradia.

– E, por fim, temos o Reino do Oeste. — retomou Ty. — O Povo do Oeste é um pouco... bem, difícil de entender. Eles costumam manter distância do ser humano. Nós não sabemos se são humanos que se adaptaram à natureza ou a natureza que se adaptou ao ser humano, mas sabemos que eles são o elo mais profundo que nos conecta. São como a natureza reencarnada em entidades com o objetivo de conseguir ligar o ser humano à floresta em caso de necessidade.

– Como uma espécie de ponte ou portal. Quando alguém que não tem a habilidade de se comunicar diretamente com a Floresta precisa dessa conexão por algum motivo, é com as Gêmeas que ele consegue essa comunicação. Digamos que elas são como... 'filhas da Floresta'. Ou algo assim.

– Você disse que os Reinos do Norte são mais primitivos — comentou Dean. — Por que diz isso?

– Deixa eu adivinhar — Katherine riu. — Você acha que nosso povo é primitivo, certo?

Dean sentiu o rosto corar. Hesitante, ele assentiu.

– No seu mundo, conexões com a Natureza são consideradas coisas primitivas, assim como as pessoas que vivem longe das cidades e da tecnologia. Mas isso não é bem verdade — disse Ty, dando uma mordida em uma fruta redonda e vermelha do tamanho da sua mão.

– Digamos que esse Domo é uns... — Katherine pensou um pouco, como se calculasse mentalmente. — ...dois ou três bilhões de anos mais velho que o seu.

Naquele momento, Dean engasgou. Engasgou feio, e foram precisos vários segundos para que conseguisse recuperar o controle. Seus olhos ficaram úmidos pelas lágrimas.

Os dois irmãos riram, parecendo achar graça.

– Pois é. — comentou o loiro. — O nome 'Velha Floresta' não é à toa.

– Mas... mas como os humanos ainda existem?! — perguntou Dean, incrédulo. — Eles não deviam estar extintos?

– Isso já é uma coisa muito longa e complicada demais para explicar agora. — respondeu Kath. — Vamos dizer que é tudo parte de um ciclo que se repete infinitamente na história da Terra, e nós estamos em uma nova fase desse ciclo. Por enquanto, apenas tenha em mente que enquanto aqui ainda existem humanos, em outros Domos a espécie predominante já é outra. Não que possamos dizer que somos a espécie predominante — riu ela, baixinho.

Finalmente satisfeito, Dean inclinou-se para frente e ajudou os dois irmãos a guardar as sobras de volta na mochila.

– O que vocês fazem? — perguntou, de repente. — Tipo, de aventuras e coisas assim?

Kath abriu a boca para responder, mas Ty adiantou-se, ansioso.

– Eu não faço muita coisa — afirmou. -, mas a Kath é incrível! Ela já participou de um monte de batalhas e ajudou a parar guerras e rebeliões... Ela é uma guerreira nata! Já salvou mais pessoas do que posso contar!

A cada palavra, Katherine corava de prazer com os elogios, parecendo encolher-se.

– Ty, você está me acostumando muito mal! — acusou. — Sabe o que acontece com o meu orgulho quando você fala assim? Se você estivesse lá, faria exatamente a mesma coisa. E você também — acrescentou, olhando para Dean.

Dean ouvia os dois conversando, distraidamente. Pelo que tinha visto de Katherine até agora, era perfeitamente possível que ela tivesse feito todas aquelas coisas.

Exceto por um pequeno detalhe.

– Mas... guerras e rebeliões não são coisas violentas? — perguntou, hesitante. — Você é muito... — ele procurou as palavras certas, mas desistiu. — ...bom, você não parece o tipo de coisa que já presenciou uma guerra.

Mesmo Dean não sabia direito o que queria dizer com aquilo. Ele já vira muitos documentários sobre guerras na escola. As batalhas dos livros e filmes que já vira — não que tivesse lido muitos livros — eram sempre belas e épicas, mas as da vida real não chegavam nem perto. Todo aquele sangue e desespero... não parecia possível que alguém pudesse passar por aquilo e não ficar marcado, de alguma forma. E ele não via qualquer 'marca' em Katherine.

Como se não bastasse, a garota era jovem demais. Dean não conseguia imaginá-la indo por conta própria a uma guerra de verdade.

– Guerras são coisas repletas de dor e medo — começou ele, tentando encontrar as palavras. — E você não parece...

O que quer que fosse dizer, ninguém nunca soube, pois naquele momento as palavras ficaram presas em sua garganta.

Ao ouvir a observação de Dean, como quem já o havia ouvido muitas vezes antes, Katherine pôs-se de pé rapidamente. Virando-se, ela levou as mãos à barra da camisa e a ergueu, expondo suas costas.

Por toda a sua extensão, sua pele era repleta de cicatrizes.

Cicatrizes pálidas e róseas, de cortes e queimaduras. Marcas grandes e pequenas, discretas e indiscretas. De pontos ou cicatrização natural.

Só então Dean percebeu seus braços. Ele não sabia quando ela havia tirado as bandagens, mas de repente eles também estavam repletos de marcas.

– Quando Viajo, eu as escondo para não chamar atenção — disse Katherine, com a voz rouca, distante e indiferente, mas profunda. Agora, ela falava com seriedade. — Você não precisa me dizer sobre os horrores da guerra.

Dean estava ao mesmo tempo fascinado e assustado. Inconscientemente, sua mão estendeu-se, hesitante, para tocar a pele exposta. Quando Katherine não fez menção de impedí-lo, seus dedos deslizaram com cuidado e suavidade pelas inúmeras cicatrizes.

Apenas uma pergunta escapou de seus lábios, quase em sussurros:

– Por quê...?

Com aquele 'por quê', ele queria dizer muitas coisas. Por que ela se arriscava por outras pessoas? Por que ela voltava ao campo de batalha? Por que ela gostava tanto do que fazia, se tudo o que ganhava eram cicatrizes?

Katherine não precisou pensar na resposta.

– Cada marca que ganhei, ganhei no lugar de outra pessoa — disse, com simplicidade. — Se para cada ferida eu puder salvar ao menos uma vida, então tudo terá valido a pena.

"Eu tenho orgulho das minhas cicatrizes."

Notas finais
E aí? O que acharam? A história dos irmãos ainda vai se arrastar um pouco... afinal de contas, logo, logo começa a verdadeira aventura ^^ (logo, logo = daqui uns 15123562462462 capítulos XD ^^') Pois é... alguém aí ficou surpreso com a Kath? Comentem o que acharam desse capítulo! ^^