Notas iniciais
Aqui vai o capítulo VI pra vocês ^^

Na manhã de sábado, Dean acordara relativamente cedo. Por um momento, nem acreditara que eram apenas sete horas; costumava acordar acerca das dez, e isso com a ajuda do despertador.

Uma semana.

Uma semana havia se passado desde a última vez que vira Katherine.

Dean não sabia como pensar ou reagir. Então, fez a única coisa que poderia ter feito: nada.

Embora sua mente ainda se agitasse, a sensação tinha mudado. A ansiedade permanecia, mesmo que mais amena, mas parte da angústia tinha sido substituída por outra coisa. Algo mais... sereno. Suave.

Então, ele esforçou-se para levar uma semana normal — provavelmente a semana mais normal que já passara de todo o último ano. O que era definitivamente estranho, levando em conta os últimos acontecimentos.

Assim, não passava das nove e meia quando Dean parou em frente à loja.

Al' Mirrors. O nome era um jogo de palavra com "Al", apelido de Albert, filho dos donos, e "all", de "todos" em inglês.

– Ah, oi, Dean! — cumprimentou Al de trás do balcão, esfregando distraidamente um pequeno espelho de mão com a ajuda de um pano de um azul cinzento envelhecido.

O rapaz era alguns anos mais velho do que Dean, e um antigo colega de faculdade de Dan. Infelizmente, ambos haviam desistido do ramo da arquitetura. Al, para tocar os negócios da família. E Dan, para cuidar de casa. Não que ele admitisse; dizia que queria dar um tempo dos estudos, que não tinha certeza do que queria cursar.

Isso só fazia Dean se sentir ainda mais culpado.

Al tinha uma fisionomia simpática e sorridente. Tinha cabelos loiro-claros, casualmente bagunçados. Seus olhos traziam as marcas da genética: por sorte ou empatia, ambos os pais de Al tinham heterocromia. O pai tinha um olho castanho e um vermelho — cor que já era rara por si só -, e a mãe, um púrpura e um cor-de-caramelo. Os dois haviam sofrido na escola por causa da doença, mas Al, apesar de também possuí-la, tinha sorte. Seu olho esquerdo castanho e seu olho direito azul mais atraíam que causavam repulsa nas pessoas. O azul ele puxara do avô paterno.

Dean se sentia muito à vontade com o garoto mais velho. Na época dos estudos, Al costumava ir revisar na casa de Dan, e sempre que esquecia um livro ou caderno lá era Dean quem o devolvia.

– Veio dar uma olhada? — perguntou Al.

– Na verdade, vim ver se o espelho ficou pronto — respondeu Dean.

– Ah! É claro — recordou-se ele. — Já vou pegar lá atrás. Era o espelho da sala, certo? — arriscou, já sumindo na porta atrás do caixa, que dava para o depósito.

– Da cozinha, na verdade — corrigiu Dean, rindo um pouco. Al era realmente distraído, o que tornava ainda mais surpreendente as suas notas impecáveis no colégio.

Depois de alguns minutos, Dean ainda ouvia um ou outro barulho ocasional de algo caindo, mas, como Al não voltava, resolveu dar uma olhada na loja.

Al' Mirrors vendia praticamente todos os tipos de espelhos que você pudesse imaginar. Espelhos pequenos, grandes, médios, corpo-inteiro, de mão, de prego, de base, metal puro, quilates, aço inox, plástico, sem-moldura, emoldurado. Era de se esperar que, depois de tanto tempo, Dean já tivesse decorado cada mínimo arranhão de cada espelho da loja, mas a movimentação no pequeno empreendimento familiar era maior do que se podia esperar de uma loja especializada em espelhos, e os artigos mais antigos estavam sempre sendo substituídos por novos. A variedade era tão grande que, às vezes, Dean brincava de classificá-los em dóricos, jônicos e coríntios.

Dean serpenteou pelos poucos corredores da modesta loja absorvendo todos os detalhes por mais alguns minutos, até que um espelho chamou sua atenção.

Era um espelho de corpo inteiro. Sua moldura era de um belo e pálido ouro, e o tema lembrava vagamente as colunas coríntias da Grécia Antiga, mas com muito mais detalhes.

Era toda trabalhada em esculturas de folhas e vegetação. As folhas eram tão precisas que era possível distinguir o caule, o limbo e até mesmo os vasos de seiva que passavam sob a superfície, e o trabalho, tão bem feito que era como se houvesse um verdadeiro jardim atrás do espelho, e as folhas que ele via eram aquelas que conseguiam se esgueirar através do espaço deixado pela moldura.

Havia folhas do topo à base. As da base pareciam vagamente samambaias, com folhas longas subindo do chão em diagonal, enquanto as do topo pareciam as folhas da copa de uma árvore, várias com um formato que lembrava um coração, e várias flores solitárias salpicavam o quadro geral de forma aparentemente aleatória, mas equilibrada, e davam um toque final à bela paisagem.

Dean sentiu-se estranhamente atraído e fascinado pelo curioso objeto. Aproximou-se com interesse, observando cuidadosamente.

Sem que percebesse, seus dedos ansiosos puseram-se a deslizar delicadamente pela superfície irregular, assimilando cada minúcia da obra.

Era uma coisa maravilhosa. O garoto demorou-se em uma das folhas coração. Ele observou as veias, as rugas, os recortes de sua borda que lhe caíam tão naturalmente.

De repente, algo aconteceu.

Uma pequena pontada ardeu brevemente em seu dedo, ao mesmo tempo em que um piado indignado quebrou o silêncio quase absoluto que reinava.

Quando olhou para o pedaço da moldura onde sentira a bicada, seu fôlego abandonou-o e seus olhos se arregalaram.

O que ele pensava ser apenas um amontoado de folhas era, na verdade, um pássaro.

O pequeno passarinho lembrava vagamente um pardal, mas suas penas eram de nada menos do que ouro puro. Não só eram de ouro, como também tinham a forma e a textura de folhas.

Perante o olhar perplexo de Dean, o pássaro balançou a cabeça para os lados, como se se alongasse. As irregularidades começaram a se dissipar, e a textura das folhas logo deu lugar gradualmente a uma superfície lisa e impecável. Parecia uma escultura em acrílico, com o porém de ser ouro e mover-se como uma criatura viva; sequer tinha qualquer tipo de articulação.

Dean estava paralisado, o dedo estendido pairando próximo à ave. Com um olhar de interesse, o pássaro deu dois pulinhos em direção a ele, usando o galho de baixo como apoio, e deu-lhe uma bicada amigável.

Dean, ainda atordoado, não conseguia deixar de admirar a beleza da ave.

Hesitante, ele esticou a mão para tocá-la.

Como se sentisse o nervosismo do garoto, a ave deu mais um pulinho para frente e esticou a cabeça, esfregando-a em sua mão.

Dean estava perplexo, mas maravilhado ao mesmo tempo. Uma vez ele fora à casa de Al entregar um dicionário que ele tinha esquecido, e assim que entrara pela porta a gata andara até ele e se esfregara em suas pernas, pedindo carinho. O gesto do pássaro era inesperadamente semelhante. Sua superfície, agora lisa e desprovida das irregularidades que indicariam a presença de penas, era macia e gostosa de acariciar. Ele nunca sentira nada parecido.

Depois de alguns minutos, alguma coisa mudou. Enquanto observava e afagava a ave, ele começou a sentir sua superfície mudando. Uma tonalidade esverdeada começou a tomá-lo à partir do ponto em que Dean a tocara.

Primeiro, era só uma mancha discreta, sutil. Mas logo ela começou a se espalhar, e, junto com ela, uma nova textura.

Onde antes Dean sentia uma superfície lisa e macia, agora ele começava a sentir a superfície enrugada e irregular de uma folha, mas agora não era uma folha de ouro.

Era uma folha real.

Dean afastou a mão do pássaro. Desconcertado, ele apenas observou quanto o verde começou a espalhar-se para as folhas da moldura.

Em menos de um minuto, não havia mais uma moldura.

Ele esticou a mão para tocar uma das folhas-coração, mas não precisava de nenhuma prova para saber que era real.

Diante de si, onde antes havia uma moldura dourada, agora havia um verdadeiro jardim secreto.

O pássaro anda saltitava entre as folhas, mas agora os galhos balançavam sob seu peso. A própria ave era feita de folhas, que faziam as vezes de penas.

Mesmo sem brisa, as folhas oscilavam e tremulavam, transbordando vida.

Dean sentiu-se como se desligasse do mundo à sua volta por alguns momentos. Seu cérebro era incapaz de processar o que tinha acontecido.

Mas logo foi chamado de volta pelo piar do pássaro, que o encarava com intensidade. Dean não entendeu o que ele queria dizer, mas, insistente, a ave voou brevemente até uma das folhas mais próximas do espelho, e virou a cabeça, como se dissesse para olhar.

Só então ele viu.

Se era possível surpreender-se mais do que já tinha, naquele Dean o fez naquele momento. Um breve grito de surpresa escapou de seus lábios quando ele saltou para trás, instintivamente.

Assustado, ele olhou para trás. Nada. Atrás dele, só havia a loja. A velha e familiar loja de espelhos.

Mas não era o que o espelho mostrava.

Atrás da própria imagem, Dean podia ver o reflexo de uma bela floresta. Embora bem-delineada, a imagem parecia vagamente desfocada, de um jeito incompreensível.

Era um lugar de aparência tranquila e viva. Alguns raios de sol transpassavam as copas das árvores, projetando no solo as sombras estampadas da folhagem. As árvores eram altas, e seus troncos, vivos, firmes e fortes.

As cores pareciam resplandecer de tão bonitas. Toda a natureza era grandiosa naquele lugar.

Novamente, Dean olhou por cima do ombro, mas só confirmou o que já sabia: ainda estava em Saint Laurel.

Quando tornou o olhar para o espelho, Dean foi tomado por uma súbita sensação de calmaria e paz.

Ele olhou o pássaro, que ainda o encarava. Ele continuava apontando o reflexo com a cabeça, de vez em quando saltitando e batendo rapidamente as asas, sem sair do lugar.

Finalmente, Dean compreendeu.

Ele deu um passo para o lado, ficando exatamente de frente para o vidro.

Então, estendeu a mão e o tocou.

Onde esperava tocar uma superfície sólida, não havia senão uma vaga sensação gelada, e nenhuma barreira ofereceu resistência quando sua mão atravessou o espelho.

Seu primeiro instinto foi o de puxar de volta a mão, com brusquidez.

Porém, os olhos da ave o fitavam com um misto de intensidade, profundidade e expectativa.

Dean, hesitante, voltou os olhos novamente para o reflexo.

Ele lembrou-se do que Katherine lhe dissera.

É só questão de tempo até tudo fazer sentido. Ou não. Aí depende da pessoa.

Será que era isso que ela queria dizer? Ele devia atravessá-lo?

Se o atravessasse, encontraria as respostas que procurava?

Dean prendeu a respiração.

O mundo é um lugar confuso. É, sempre foi e sempre será. Se vai entendê-lo ou não, só depende de você.

Então, em um único impulso de coragem, ele deu um passo para dentro do espelho.

Seu corpo foi engolido pela luz e o frio envolveu-o quando o chão sumiu sob seus pés.