Viagem Pela Highland
15 Highlander Arrependido
Notas iniciais

Depositou-a lentamente sobre a cama com estremo cuidado para não despertá-la e a assustar sem motivo. Esticou seu corpo com delicadeza no conforto e cobriu-a com dois lençóis para aquecê-la. O corpo dela jazeu imóvel em todo o processo e isso o preocupou como um inferno.
A mulher parecia morta. Sua pele estava muito pálida, mais do que o normal e sua boca estava sem cor. Identificou rastros úmidos de lágrimas pelo seu rosto e isso lhe golpeou como um soco no estômago.
Ela devia ter estado tão apavorada quando ele avançou como o próprio demônio em cima dela. Quase a matou!
Seu coração errou uma dolorosa batida com o conhecimento do quão próximo a mulher esteve da morte.
Como pôde ter sido tão estúpido a ponto de nem sequer perceber que nunca teve o mínimo controle sobre a maldição? Antes que se desse conta, já tinha perdido o controle. Era como se o mal tivesse trancafiado a alma de Naruto em alguma caixa sólida invisível que impedia de estabelecer o controle sobre seu corpo. Ele tentou mais de uma vez recuperar as correias da maldição, mas ela era forte, perversa e escura demais. Só queria saber de aniquilar Gaara a todo custo sem pensar nas consequências.
A maldição não percebeu, mas Naruto viu o exato momento em que a mulher recolheu a arma do chão e avançou como se fosse uma Deusa da Justiça disposta à fazer jus ao seu nome.
Foi como ter uma adaga sendo cravada no fundo do seu coração quando a atenção da maldição que o controlava mudou seu foco para ela. Parecia que podia ver o que aconteceria nos segundos seguintes em que sua parte escura pusesse suas mãos sobre a jovem.
Iria matá-la. Sem dó ou piedade. Iria destruí-la por completo e muito provavelmente riria a cada segundo, gozando de toda a crueldade. O sangue dela faria um tapete macabro no campo de treinamento dos guerreiros. Os olhos da morena, que antes tão fascinantes e perfuradores ficariam sem vida e opacos, igualmente à sua pele que estaria tão seca e fria quanto mármore.
Segundos antes de a coisa fincar suas garras no rosto de Hinata, grito agoniado de sua própria alma congelou por completo seu corpo e a maldição. Não podia deixar Hinata morrer.
Naruto percebendo a brecha tentou recuperar o controle, só para ser jogado violentamente para trás pela mesma parede invisível de antes.
Maldição! Ele tinha sentido a brecha! Se tivesse sido mais rápido poderia ter tomado o controle.
Oh, Deus, e agora? O que aconteceria com Hinata?
Mesmo estando com medo da resposta, ele olhou. O que viu a seguir o surpreendeu.
As grossas e agudas garras afiadas ainda estavam a milímetros do rosto de Hinata, totalmente imóveis, como se permanecessem congeladas no tempo. Naruto nem sequer ousava respirar de onde estava. O medo de que a besta fizesse mal à mulher era forte demais. Os instantes seguintes transcorreram agonizantemente por vários segundos.
O guerreiro podia ver cada garra posicionada perigosamente a menos de uma respiração do rosto cada vez mais pálido dela.
Mais uma vez, tentou retomar o controle, mas foi frustrado pela segunda vez. A coisa dentro dele estava completamente atento a cada tentativa dele e ao mesmo tempo, fascinado o suficiente por Hinata.
Ato seguinte, Hinata repreendia sua besta descontrolada.
Tanto Naruto quanto a maldição olharam para ela incrédulos. O loiro podia ver o quanto ela estava apavorada, mas sua voz firme e exigente balançou algo dentro dele e da criatura.
Mais uma repreendida.
Sua maldição já estava, literalmente, de quatro, pelos comandos e a demonstração de fortaleza que a mulher exalava a cada poro do seu corpo. A cada instante, o ser sombrio se sentia mais e mais envergonhado do que tinha feito, um fato inédito. Naruto estava de boca aberta.
Então a mulher começou a falar de forma mansa, mas firme, como uma mãe que tinha repreendido seu filho e agora fazia um cafuné em sua cabeça dizendo que tudo ficaria bem, a tal ponto que até ele mesmo queria acreditar em cada palavra que saía da boca dela.
Ela reconfortou a maldade e o fez baixar a guarda. Exatamente nesse instante, Naruto agarrou a oportunidade e retomou o controle. Pensou que ia ser difícil, mas a massa negra só se recolheu no fundo de sua mente, sem lutar e nem mesmo grunhir em protesto.
Quando percebeu, ele já estava de volta e com uma forte bofetada em forma de boas-vindas.
Tudo bem que ele mereceu. A mulher estava assustada como o inferno.
E mesmo assim, ela se manteve firme e controlada até o final, fazendo uma grande parte dele reconhecer e admirá-la por isso.
Ele só percebeu o quão mal ela estava, quando a morena desmaiou em seus braços um pouco depois de chorar aos prantos. Deus, ele nunca tinha se sentido tão miserável e desgraçado como havia se sentido com cada lágrima dela arrastando por sua bochecha.
Ele a tinha feito chorar.
E isso o deixava tão mal que queria quebrar a parede a socos e cabeçadas.
O silêncio do quarto foi quebrado por uma sequência de batidas fortes e impacientes na porta. Nem dois segundos depois, mais batidas descontroladas, fazendo o quarto ecoar com o som estressante. Um músculo pulou da mandíbula de Naruto quando a maldita e frenética batida se fazia mais forte e estrondosa.
Maldito fosse quem estava batendo na madeira! Acabaria acordando a mulher se não parasse naquele exato momento.
Caminhou com pesados e furiosos passos em direção à porta tentando segurar a imaginação de seguir a linha de pensamentos de tortura gratuita para o condenado por trás da porta. Abriu-a com um puxão e deparou-se frente a frete com... Mas que diabos o garoto estava fazendo ali?
Olhou mais uma vez para a criança que tinhas os olhos diferentes, de pé a sua frente, encarando-o como se Naruto fosse um assassino de bebês.
– Onde ela está!? – Gritou o garoto olhando por cima do ombro de Naruto.
– Seu tom está muito alto garoto. Não estou gostando dele. – Grunhiu o loiro mais irritado do que estava alguns segundos antes.
– Pouco me importa. – Rebateu no mesmo tom irritado.
Naruto arqueou uma sobrancelha, incrédulo por tamanha coragem de alguém tão novo. Se fosse um de seus inimigos já teria sido decapitado há tempos. Observou o garoto com olhos analisadores enquanto o reconhecia de tempos atrás. Se não lhe falhava a memória seu nome era Kaleb, o menino órfão.
Por um instante uma onda de simpatia caiu no loiro. Mas logo o sentimento foi embora quando lembrou que o garoto era o ser que espancava a porta. Ele respirou fundo e orando por tranquilidade para enxotar o menino sem mata-lo antes. Não seria boa coisa se ferisse um inocente. Ainda mais uma criança!
– Kaleb... – Pronunciou num grunhido.
O garoto que tentava ver por cima de seus ombros pulou ao ouvir seu nome sair da boca de Naruto. Seu rosto ficou momentaneamente pálido e até mesmo, linhas de suor apareceram em sua testa.
Bom. Assim estava bem melhor.
– E-Eu não vou... – A voz dele tremeu.
Naruto respirou forte e impaciente.
Infernos! Essas crianças não eram tão corajosas há algum tempo atrás.
Ou você perdeu o jeito, estúpido... Disse para si mesmo. No mesmo instante sentiu a vibração dentro de sua cabeça da risada maléfica e grotesca retumbar pelos cantos de sua mente. Ficou tenso esperando pelo pior, mas depois de alguns segundos sem nada acontecer, pôde respirar mais uma vez.
Deus, como odiava não poder fazer nada contra a desgraça que carregava dentro de si!
Olhou mais uma vez para Kaleb, pensando se iria mesmo discutir com o garoto ou até mesmo ameaça-lo mais um pouco.
Com um alto suspiro resignado, afastou um pé da porta e logo depois outro. Kaleb olhou para ele com o cenho desconfiado, mas não hesitou em dar um passo a frente e entrar no quarto.
– Cinco minutos garoto. – Murmurou com uma promessa silenciosa de sangue caso o contrariasse.
Naruto percebeu que o garoto estava pronto pra rebater e, por Deus, o loiro não estava a fim de bater em uma criança, mas faria se continuasse a testar sua paciência. No mesmo instante que percebeu o semblante aprofundado de Naruto, o menino engoliu seco e mudou de ideia quanto a protestar. Entrou no quarto com passos firmes, mas silenciosos e posicionou-se ao lado da cama onde jazia Hinata.
– Ela... – A voz do garoto falhou. – Ela está bem?
– Não.
Pensou em mentir, mas não viu o bem que isso lhe traria. Além do mais, não podia contrariar o obvio. Ela definitivamente não estava bem. Sua pele tão pálida com cor de enfermidade estava suarenta e o corpo pequeno dela não parava de tremer.
Infernos! Por que ela continuava tremendo?!
Recolheu outro lençol na cômoda ao lado da cama e estendeu-o sobre ela. Colocou as bordas do pano para de baixo dela com muito cuidado para não despertá-la e assustá-la mais uma vez.
Mais uma vez...
A frase ressonou em sua mente com um peso devastador de culpa.
A mulher estava assim por sua causa. Tinha-a assustado tanto que pusera tão doente que até a cor de seus lábios se desvaneceram.
– Ela vai morrer... – A voz quebrada de Kaleb o arrebatou de seu devaneio.
– O que disse? – Perguntou sem entender o que o garoto dissera.
– Ela vai... morrer... – Outra vez, sua voz se quebrou.
Uma dor dilacerante cortou através do seu peito como se esmagassem seu coração. Olhou para o rosto desprovido de emoções da jovem aguardando ela acordar e desmentir o pivete. Quando alguns segundos se passaram e nem sequer seus cílios estremeceram, o pânico agudo tomou conta dele.
Não! Infernos! Ela não iria morrer!
Quem ele pensava que era para afirmar algo tão repugnante como a morte dela? A mulher... Curandeira... Bruxa... Ou seja lá o que fosse só estava cansada! Não iria morrer!
Voltou sou olhar meio enlouquecido para o jovem certo de que o menino não sairia vivo dali se fizesse outra afirmação ridícula como aquela e congelou quando viu o mais puro terror nos olhos lacrimosos de Kaleb que encarava Hinata sem piscar.
Outra onda de pânico caiu sobre o loiro.
Maldição! Ela não iria morrer!
– Não. – Rugiu mais para confortar a si mesmo do que ao garoto. – Não vou deixa-la morrer. Ouve-me?
Kaleb piscou como se saísse de um transe embutido por sua própria mente e respirou profundamente enquanto o ar saía tremeluzente de sua boca. Ele consentiu com a cabeça e aproximou-se da cama.
– Me dê sua palavra de honra que não a deixará morrer.
Sua palavra de honra? Será que ainda sabia o que era isso?
– Tem a minha palavra garoto. – Mesmo se não tivesse honra, antes morreria ao deixar Hinata falecer. – Agora saia. – Caminhou até a porta e a abriu para o ele.
– Mas ainda não deu cinco minutos. – Protestou.
– Mudei de ideia. Saia. – Soltou um palavrão enquanto olhava para o garoto.
O jovem abriu a boca para rebater, mas pensou melhor e fechou-a logo em seguida. Ergueu o olhar para o guerreiro e acenou mais uma vez com a cabeça.
Ao invés de sair de uma vez, o menino deu a volta e caminhou em direção a Hinata. Depositou um rápido beijo em sua testa e sussurrou algo como: “Por favor, não morra” no ouvido da jovem e caminhou para fora do quarto.
– Garoto...
Kaleb parou sua caminhada no meio do corredor, de costas para Naruto.
– Ela não vai morrer. – Sua promessa ecoou pelo corredor até que o som se extinguiu alguns segundos depois.
– Sei. – Respondeu Kaleb em um tom meio morto antes de voltar a caminhar e sumir em uma curva no corredor.
Logo que fechou a porta caminhou rapidamente para a mulher em sua cama. Não podia evitar a ansiedade que o garoto Kaleb instalara nele. Naruto queria evitar com todas as forças e negaria para qualquer um que perguntasse, mas não podia enganar a si mesmo. Estava profundamente assustado com a possibilidade de Hinata morrer. A sensação era tão crua e vil que lhe causava arrepios.
Infernos! Ele se sentia completamente bagunçado. Não entendia o porquê de estar tão frenético em relação ao bem estar dela, só sabia que ela não podia morrer. Encontrou-se orando silenciosamente pelo bem dela e isso o assustou mais que o inferno.
Sem querer pensar mais sobre isso, sentou ao lado de Hinata e encostou a palma de sua mão na testa da jovem.
Gelada.
Maldição! Porque ela não aquecia com o tanto de cobertores que tinha colocado em cima dela?!
Mais uma vez, tentou ignorar a sensação de desespero que tentava domina-lo e deitou ao lado dela.
De uma coisa tinha certeza:
Ele não deixaria a mulher morrer.
Mas, Deus, como estava fria! Ela não conseguia se aquecer!
Como se algo estivesse estalado em seu cérebro, a resposta para aquela encruzilhada dançou a sua frente.
Mas que tolo! Como não havia pensado naquilo antes?
Sem perder mais um segundo, infiltrou-se com a destreza de um gato por dentro dos lençóis até que localizou o corpo frio da mulher. Passou um braço por baixo de seu pescoço meio úmido e arrastou levando seu corpo para próximo dela.
Instantaneamente, ouviu o próprio coração retumbar nos ouvidos e a própria respiração sair dificultosa por sua garganta.
Não se lembrava de estar próximo assim de qualquer mulher em muito tempo e não sabia como proceder diante da sua reação meio exagerada.
Respire primeiro, bastardo. Ouviu o grunhido da besta enquanto o amaldiçoava.
Mas que diabos? Estava enlouquecendo ou a coisa dentro dele acabou de manda-lo respirar?
Sugou o ar que não sabia que estava prendendo até que as batidas do seu coração voltaram um pouco a normalidade. Engoliu seco e procurou a parte negra dentro de si.
Ela estava encolhida num canto silencioso de sua mente. Olhando... Analisando.... Preocupado?
Maldição! O que infernos estava acontecendo?
Um farfalhar de roupa o roubou de sua concentração e sua cabeça girou diretamente para Hinata.
Por todos os céus! Pensou segurando a respiração não ousando mover um centímetro sequer enquanto observava a mulher mexendo ao seu lado se aproximando cada vez mais. A cabeça dela se arrastou preguiçosamente para seu peitoral, enquanto que seu braço direito envolvia a cintura de Naruto em busca de calor.
Deus, a mulher estava fria!
Mas por que será que ele se sentia tão malditamente quente?
Acompanhou cada movimento da jovem com olhos analisadores. Ela ainda estava profundamente adormecida, mas seu corpo controlava seus movimentos em busca de algo que aplacasse o gelo de sua pele.
Naruto tentou arduamente não ficar duro de excitação por ela. Mas era impossível quando cada movimento que ela fazia, roçava em sua dolorida e suplicante masculinidade que rogava para estar dentro dela.
Oh, Deus, me dê forças... Rezou silenciosamente.
Outro roçar, mais próximo e íntimo dessa vez arrancou um rouco gemido do fundo de sua garganta.
A mulher ia mata-lo desse jeito. Porque se continuasse assim ou morreria de tensão sexual ou a atacava ali mesmo com ela inconsciente e a submeteria a ele.
Não! Maldito fosse! Controle-se Naruto! Repreendeu a si mesmo.
Ele não era um animal.
Respirou profundamente esperando que seu desejo ardente por Hinata não o enlouquecesse a ponto de fazer uma besteira.
***
Porra, ela realmente estava com frio. Será que tinha morrido e não sabia?
Oh Deus, que eu não esteja no inferno. Rezou silenciosamente.
Ela não era uma má pessoa para ir para esse lugar onde só as piores almas da terra paravam. Além do mais, nunca tinha ouvido falar sobre o ser inferno gelado. Se bem que ao lembrar-se da famosa frase sarcástica “É, e o inferno é gelado” trouxe violentos calafrios em sua alma.
Maldição! Nunca teve tanto frio em toda sua vida. Nem mesmo quando era criança e seu primo Neji – O grande bastardo – prendeu-a na geladeira por quase uma hora lembrava de ter sentido nada perto daquilo.
O que estava acontecendo com ela? Será que estava morrendo? A última coisa que podia lembrar era da vontade incontrolável de bater em Naruto.
O filho da puta realmente tinha a assustado como o inferno. Aqueles olhos vermelhos e garras desumanas não eram normais. Ela jurava ter podido sentir a certa presença ameaçadora e escura do corpo do homem quando ele estava fora de si. Mais como se tivessem possuído o corpo dele.
E de repente ela tinha a sensação de ser a fodida chapeuzinho vermelho sendo perseguida pelo lobo mal. Bom... Naruto dava um lobo mau e tanto e ainda era sexy que só o inferno. Então, ela podia se imaginar correndo pela floresta densa e perigosa enquanto o lobo mau a perseguia implacavelmente. Com aqueles olhos vermelhos... Dentes pontiagudos... Garras enormes...
Totalmente pelado... Adicionou sua vadia interior.
Sim. Pelado era bom. Ela podia imaginar aquilo muito bem. Talvez até deixasse que a capturasse se ele prometesse comê-la.
Isso aí...
Boa garota!
A vadia e a puta aplaudiram alegremente e sua cabeça.
Oh Deus, como estava pervertida!
E, merda, o frio não acabaria nunca? Talvez se abrisse os olhos... Tentou dez vezes seguidas despertar, mas cada tentativa foi um fiasco atrás do outro. Era como se suas pálpebras tivessem pregada uma na outra. Tudo que ela podia ver e sentir eram escuridão e vazio. Parecia que tinha se perdido no nada.
Outro arrepio. Dessa vez não tinha a ver com o frio.
Olhou para os lados sombrios a sua volta e tentou focalizar alguma coisa, mas nem sequer uma maldita sombra apareceu.
Graças a Deus.
Gritou uma ou três vezes por ajuda enquanto corria para todo canto, mas só recebeu como a resposta o eco arrepiante da sua voz.
Engoliu seco.
Onde infernos estava?
– Olá? – Chamou mais uma vez encarando a escuridão.
Olá....
Ola...
Ola... Sua voz ecoou novamente até que o som morreu dramaticamente. Parou a corrida e começou a andar reto, sem um destino certo.
Porra. Isso não tinha graça. Não era nem por um maldito momento divertido encarar a aterrorizante escuridão em quanto tremia de frio, ou medo – ela não sabia dizer – quando só tinha a solidão como companheira.
Engoliu outra vez e tentou não pensar na possibilidade de alguma coisa aparecer e tentar ataca-la.
Parou de andar e respirou fundo.
Toda sua pele arrepiou e ela teve que se embalar com os braços.
Puta merda. Maldito frio! E por que tinha que estar tão escuro? Já não bastava que estivesse a ponto de congelar?
Encolheu-se mais ainda em formato de bola enquanto sentava no chão. Pouco tempo depois, todo seu corpo tremia como se estivesse em convulsão. Seus dentes batiam ritmicamente e, se possuísse um espelho naquele momento, teria certeza que seus lábios estavam azuis.
Alguns minutos depois, já não podia sentir os dedos dos pés. Poderiam cortá-los com uma faca que não sentiria nada.
Foda... Não acredito que vou morrer assim!
Quando Hinata já estava perdendo a consciência sentiu uma repentina onda de calor. Parecia um cobertor estendido sobre todo seu corpo proporcionando deliciosas chamas no fundo do seu ser.
Deus... Aquilo era bom.
Tentou se apegar à fonte que afastava do frio, mas não tinha nada para segurar. Ela quase podia sentir junto do seu corpo, mas não conseguia nada quando tentava agarrar. Era frustrante, mas não queria que acabasse nunca. Lentamente, o calor espalhou-se por suas veias silenciosamente pedindo por mais. Fundiu-se com seu sangue, que, surpreendentemente, não tinha virado gelo e derreteu-a docemente enquanto a livrava do frio. Antes que pudesse perceber, somente o calor sobrara e parecia que ela podia respirar mais uma vez.
A única coisa que lamentava naquele meio era a maldita escuridão que nunca acabava. E por mais estranho que fosse, não se sentia sozinha na intensa imensidão de nada.
Lentamente, uma doce e perigosa dormência começou a se espalhar pelo seu corpo. Um alerta vermelho começava a piscar no fundo do seu crânio como se fosse sinalizador de avião indicando o perigo de se entregar a sedutora dormência.
Aquilo não era bom. Não mesmo. Ela tinha que fazer algo para não cair no estado de inercia. Se ela fizesse, de algum modo sabia que não conseguiria voltar.
Mas como ela faria isso se tudo conspirava para que ela fechasse os olhos e se entregasse?
Não...
Ouviu o longo e torturado gemido sendo ecoado num sussurro feroz e desesperado. A voz gutural vinha de lugar nenhum e de todo lugar. Estava tão longe quanto tão perto.
Mas que diabos? O que era aquilo?
Desfez-se de seu próprio abraço e olhou para os lados mas somente a escuridão estava presente.
– Quem está aí? – Percebeu que sua voz estava assustadoramente fraca e sem vida enquanto escutava sua pergunta ecoar mais três vezes antes de morrer dramaticamente.
Os pelos das suas costas arrepiaram enquanto só ouvia a resposta do silêncio.
Apoiou suas mãos no chão e impulsionou seu corpo para cima, com esperança de que pudesse se levantar e achar uma saída daquele lugar mas se surpreendeu quando seus braços começaram a tremer violentamente enquanto tentava sustentar seu corpo que estava mais pesado que chumbo. Arrastou lentamente uma perna apoiando o tremente joelho no chão e tentou mais uma vez se levantar. Como da primeira vez parecia impossível. Seu corpo pesava quatro vezes mais que antes. Ela sentia a impossível pressão jogando-a pra baixo com toda intensidade até que finalmente não pode aguentar e deixou-se cair como um peso morto.
Tentou mais duas vezes seguida, mas parecia que toda sua energia tinha sido roubada. Ela mal conseguia mover um dedo.
Outra onda de dormência caiu sobre seu corpo. Dessa vez mais forte e mais exigente. Queria levá-la. E não iria parar até que conseguisse.
Ela queria continuar lutando, brigando com unhas e dentes para permanecer acordada, mas no final ela sabia que nada durava.
Ela sabia que não havia escapatória quando a morte te encontrava.
Nããão....
Outro grunhido. Mais potente e feroz dessa vez. Estava mais próximo também.
O que era aquilo? A voz não era humana. Pelo contrário. Era grotesca e perversa.
Hinata engoliu seco. Droga. Ela realmente morreria. Só desejava que morresse antes que o dono da voz assustadora chegasse até ela.
Com esse pensamento, decidiu que não adiantava resistir. Ela morreria de um jeito ou de outro. Ou a morte buscava-a agora quando se entregasse para dormência sedutora, ou o monstro malvado aparecia e a fazia em pedacinhos. Ela nem precisava pensar sobre isso. De modo que somente fechou os olhos e deixou a bruma negra e espessa invadir sua visão.
Nããããão!
A voz frenética implorou. Outro arrepio subiu pela sua espinha quando abria os olhos em frestas e olhava para cara do mostro.
Ele não teria chance de mata-la agora que estava quase morta. Queria sorrir e jogar isso na cara dele.
Abriu os olhos, mas não podia ver. Estava escuro demais. Ela sentia a densa bruma negra em sua visão querendo leva-la para longe.
– Espera — Ela tentou dizer. – Eu quero ver...
Sim... Ela queria ver a cara do mostro. Mas a dormência já estava a levando, reivindicando a vida dela.
Não...
Não era um grito agora. Era um choramingo triste e sem esperança.
Minha...
Disse a voz rouca e pesada mais uma vez. Ela poderia jurar que a criatura chorava.
Minha...
Outra vez o gemido torturado repetiu.
Minha...
Sentiu seu corpo resgatado do frio e duro chão. Sentiu-se sendo embalada por um corpo sem formato e frio.
Minha...
Ela já estava morta, certo?
Minha...
A criatura das sombras balançou seu corpo inanimado como se fosse um bebê. Ele ficava gemendo e chorando enquanto a tinha embalada por um de seus braços ou seja lá o que aquilo era.
Se ela já estava morta, porque ainda estava ali?
Uma gota solitária caiu em sua bochecha. Começava a escorregar pelo seu rosto quando outra gota caiu.
E outra.
E mais uma.
A criatura estava chorando?
Queria abrir os olhos. Queria ver o que era o ser que chorava por ela, mas era tão difícil. Seu corpo não respondia aos seus comandos.
Minha...
Os gemidos torturados ficavam cada vez mais baixos e mais infelizes.
Minha...
Agora ela podia perceber o toque de raiva vindo da palavra.
Minha...
A raiva ficava cada vez mais aparente na voz.
Minha...
Minha...
Minha...
Porra... Aquilo não era bom.
Silêncio. A voz se calou e agora só ouvia o silêncio.
Tinha finalmente morrido.
Oh, Deus. Ela não queria morrer.
Porra. Ela de verdade não queria morrer tão nova.
O grito estridente e sombriamente assustador quebrou todo silencio de alguns segundos antes. Ela sentiu seu próprio corpo pular pelo susto e seus olhos abriram abruptamente. Sentia seu coração prestes a pular para fora do peito quando finalmente a criatura parou de gritar. Demorou alguns segundos para se ajustar a escuridão novamente e nesses instantes ela ouvia o soluço solitário do ser malévolo. Quando finalmente seus olhos se ajustaram, ela identificou a sombra que segurava seu corpo como se ela fosse uma boneca d pano sem vida. Ele estava ajoelhado no chão com sua cabeça erguida para o alto. Ela podia perceber a silhueta de um homem, mas vários tentáculos negros pairavam por trás de suas costas dando um efeito macabro. Estudou mais um pouco e percebeu sulcos de sangue vindo dos olhos fechados da criatura ao longo do seu peitoral escuro.
Cuidadosamente, ela passou um dedo pelo seu próprio rosto e percebeu sangue em sua bochecha, como se o ser tivesse chorado lágrimas de sangue e algumas de suas lágrimas tivessem caído nela.
Respirou superficialmente e engoliu seco. Parecia não ter ar suficiente em seus pulmões e seu coração batia feito um louco.
O corpo do ser tremeu com um soluço mal contido enquanto ele a segurava mais firme.
Firme, mas espantosamente suave e cuidadoso.
Porque a criatura estava chorando?
Sem poder se controlar, levantou seu braço involuntariamente e tocou o rosto da besta que congelou ao seu toque. Ele não olhou para ela durante alguns segundos, mas quando o fez, o olhar lacrimoso vermelho sangue da besta a deixou paralisada.
Não de medo.
De algum jeito ela sabia que ele não a machucaria.
Mas sim de reconhecimento.
Já tinha visto aquele olhar antes, mas lastimosamente não recordava.
Ela devia ter medo. Sabia que sim. Mas alguma coisa naqueles olhos violeta não a deixava temer. Pelo contrário. Ela sentia um forte impulso de tranquilizar o ser que ainda tinha sangue nos olhos.
– Shhh.... – Ela começou. – Vai ficar tudo bem... – Sussurrou passando a mão na bochecha, ou o que quer que fosse aquilo, dele. – Está tudo bem agora...
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