Viagem Para O Infinito
1 O começo do recomeço.
Notas iniciais
PDV — Cecília
Nossa, que barulho irritante. É um zumbido escroto...
Hum... não quero me mexer, a posição perfeita e quentinha é exatamente essa... Droga, o barulho ta ficando mesmo, mesmo, mesmo, irritante. Merda.
Abri meus olhos tão devagar e sonolenta quanto pude, queria retardar ao máximo sair dos meus sonhos. É, era o despertador.
– Um dia você ainda vai aprender a voar pela janela. – murmurei para o aparelho sem vida e suspirei, desligando-o e empurrando do criado mudo. Respirei fundo pedindo forças interiores para conseguir me levantar.
– Ei, garota. Acorda. Hoje tem o teste de matemática, vale nota. – Ouvi minha irmã falar enquanto empurrava a porta, deixando-a entreaberta. Alice não tinha um mau humor matinal como o meu, ela fazia questão de lembrar os outros a delícia dos afazeres do dia, e as responsabilidades.
Caminhei descalço pelo quarto ainda com os olhos meio fechados. Desliguei o ar condicionado e rapidamente o quarto ficou abafado. Que delícia é esse verão, adoro ficar suada e desidratada, uhul.
Olhei-me no espelho por uns logos minutos, refletindo sobre tudo o que me cercava. Que merda de vida. Que rotina ruim. Que prisão sufocadora. Olho meu reflexo e consigo contar pelo menos 5 coisas que gostaria de mudar no meu corpo. Outra prisão, essa imposta pela sociedade: estereótipos.
O celular apitou, era mensagem. Peguei-o enquanto andava pro banheiro:
“Bom dia, dlç. Vamo sair dps da escola? Sdd de te beijar”
Meu namorado era tão gentil quanto uma porta. Respondi “Não sei.” e joguei o aparelho na cama, já tirando a roupa e entrando no banheiro, imediatamente ligando o chuveiro e entrando debaixo dele.
Me... sentia vazia, entende? Cansada. E o pior: estava há muito tempo cansada. Já estava ficando cansada de estar cansada. Refletia isso enquanto tomava um banho, tentando relaxar, não surtar. Eu só precisava fazer alguma coisa.
Depois de me arrumar, escovar os dentes e descer para pegar uma fruta ou algo do tipo rápido pra comer enquanto andava pra escola, vi meu irmãozinho brincando sentado no tapete. Arthur tinha 1 ano e alguns meses, era a coisa mais fofa na eternidade.
– CIIIIIIII, CIIIIIIIIIIIIII, dadinho! DA-DI-NHO! – “disse” ele com um dadinho de esponja, todo colorido com vogais.
– Ah, meu anjo – Sorri verdadeiramente ao me encaminhar para meu irmãozinho. Ele me deixava de bom um humor sempre. – A Ci não pode brincar agora porque a Ci tem que ir pra escola estudar coisa que ela não gosta, pra fazer uma faculdade detestável, pra ganhar dinheiro mas não ser feliz, entende?
Meu irmão olhou pra mim com uma cara de quem só escutou a parte que eu não podia brincar, fez uma carinha de choro de dar dó, então a minha mãe chegou na sala.
– Filha, você ta atrasada. Cadê a Alice?
– Aqui, mãe. Bora, Ceci, ainda preciso chegar cedo, tenho trabalho da faculdade.
Alice era a filha perfeitinha, fazia Direito na universidade mais conceituada da cidade e era tão responsável quanto se pode ser aos 22 anos. Eu, me arrastando aos 17, era cobrada constantemente pra ser tão boa quanto a minha irmã. Algo tipo médica, advogada, nada que fugisse disso. O problema é que eu queria... bem, escrever, ser escritora. E segundo meus pais, eu não teria futuro.
Não é como se eu não escrevesse bem, eu simplesmente era boa com as palavras (e sabia muito bem), mas eles alegavam que não dava dinheiro, e eu precisava ter dinheiro. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. No final, se resumia tudo nisso. Às vezes, sabe, eu penso que fui adotada... me sinto tão diferente de todos aqui! E não, não sou adotada, não tem como, sou a cara da minha mãe – só que loira, como meu pai.
Cheguei na escola antes de sequer perceber, sai do carro da minha irmã, sorri pra ela e disse:
– Bom dia, Ali.
– Bom dia, maninha. Me liga quando sair, talvez eu possa vir te buscar.
– Tudo bem, até.
Eu amava a minha irmã. A culpa não é dela de ser tão perfeita pro mundo, ela realmente não se esforçava... era natural, ela simplesmente tinha aptidão em conviver e se adequar à sociedade, diferente de mim. Ela era sempre muito gentil e eu perdi a conta das vezes que ela me defendia dos meus pais. Claro que ela era chata, que a gente brigava, mas a gente se amava, até nas brigas. Resumidamente, meus pais eram o problema.
Meus pais e o mundo.
– Ei, acorda! Vamos ser sociáveis, senhora Cecília?
– Oi, Dan. – Sorri e abracei meu amigo. – Desculpe, não consigo ser sociável pela manhã.
– Eu sei, por isso AMO te encher pela manhã.
Daniel era aquele tipo de amigo que dá vontade de você guardar num potinho e levar pra todo o lugar. Basicamente, ele era meu único amigo, a única pessoa do mundo na qual eu tinha um refúgio.
– Idiota. Eu to tão afim de não vir mais pra essa escola... – olhei ao redor, suspirando. – Até as paredes estão me enjoando!
Ele sorriu pra mim. Dan tinha um sorriso digno de um comercial de pasta de dente, e as covinhas malditas o faziam parecer um bebê. Tinha a pele negra, os cabelos em cachinhos curtos e os olhos cor de mel. O maldito era lindo, e safado, mas ainda lindo.
– Cara, você só reclama! Tens uma vida muito boa, sabia? Se parar de ser cega por um minuto...
– Eu sei, mas eu to enjoada da minha vida, quero mudar tudo.
– Conte comigo quando for fazer isso. Vais fazer 18 anos amanhã, anime-se! E... olha só, o teu amado namorado.
Olhei pra trás e Vinícius andava em minha direção, rindo que nem um babaca com um bando de amigos escrotos.
– Oi gostosa – Ele me olhou rindo e se aproximou de mim, o que me fez sentir o bafo de cerveja. Ele virou o rosto pro Dan e riu – E oi, viadinho.
– Oi, ser anecéfalo.
Vinícius parou um pouco de falar, provavelmente querendo compreender o significado de “anecéfalo”, mas desistiu pelo tom da risada. Voltou a olhar pra mim e riu.
– Quero te ver hoje depois da aula.
– Se até lá você não tiver em coma alcoólico. Cerveja de manhã cedo, sério isso?
– Ah, Cecília, não enche. Fui pra uma festa ontem, então vim direto pra cá. To imendado.
Ri sarcasticamente. Era a cara do Vinícius fazer isso. O que eu tava fazendo namorando com esse cara?
– Você se acha tão descolado fazendo isso, não é? – Dan disse, arqueando a sobrancelha.
– Pelo menos eu não fico trancado numa biblioteca comendo as menininhas nerds.
Ah, sim, o Dan constantemente ficava com umas meninas entre as estantes da biblioteca. Ele era safado, mas safado de um jeito legal. E era meu melhor amigo, podia ser um puto, mas ainda era melhor que a maioria. E nem foram tantas assim... eu acho.
– Parem os dois. Vini, eu tenho aula agora, depois a gente conversa.
Empurrei-o pra longe de mim, saindo andando. Eu estava cansada dele. Dele e de tudo.
– A gente conversa depois, gatinha. – Ele disse alto enquanto os amigos o zoavam pelo fora.
Entrei na minha sala e estava tanto barulho que meus ouvidos zuniram. Dan estava logo atrás de mim e me cutucou quando achou um lugar na fileira de cadeiras, sentamos um do lado do outro e começamos a falar algo banal até o professor chegar. Era aula de biologia – o que, bem, não é lá a melhor matéria do mundo quando se está com a cabeça cheia. Voei a aula toda, minha cabeça ia pra um mundo paralelo e voltava uma vez ou outra quando o tom de voz do professor aumentava por algum motivo.
O sinal tocou e eu quase gritei “ALELUIA” ao invés de sussurrar. O professor de português entrou na sala e foi falando com alguns alunos da primeira fila. Meu celular vibrou e eu olhei. Era uma mensagem multimídia de um número bloqueado, achei estranho, mas abri.
A foto era tão nítida que me revirou o estômago. Se tratava de Vinícius e uma outra garota, uma morena – acho que da escola – ela sem camisa e só com sutiã, ele sem calças e só de camisa. E era nítida, ali, uma relação sexual.
Única coisa que me passou na cabeça nesse exato momento: filho. Da. Puta.
– Cecí? Ei, que houve? – Dan sussurrou enquanto olhava pra mim com um vinco de preocupação na testa.
– Sou corna. – Sussurrei com a voz engasgada e ao mesmo tempo risonha.
Quer dizer... porra, corna, qual é, a vida não pode ser tão escrota. Sim, mas ela pode. E ela foi comigo.
Olhei pra ele e mostrei a foto.
– FILHO DA PUTA! – Dan berrou alto e toda a sala olhou pra ele. – Opa...
– Daniel, que falta de respeito é essa em sala de aula? – O professor falou em voz de desaprovação.
Ergui a cabeça e olhei pro professor, estava prendendo o choro e provavelmente isto estava visível no meu rosto.
– Ah... Cecília e Daniel, podem ir buscar... café, pra mim? – ele disse, dando a entender que nós dois podíamos sair da sala.
Esse era um dos motivos pelos quais eu amava português: Miguel era uma inspiração como professor.
Dan passou o braço pelo meu e saiu quase me arrastando. Atravessamos os corredores e eu completamente enjoada. Entramos na biblioteca – a essa hora, praticamente vazia – e eu despenquei assim que paramos de andar. E eu chorei. Admito, chorei.
– Ei... ei... por favor, não chora por ele...
– Não é por ele... – respirei fundo, tentando me acalmar – eu realmente não gosto dele o suficiente pra chorar por ele ter ficado com outra. O problema foi ele ter feito isso enquanto tava COMIGO! O desrespeito foi a pior parte.
– Desculpa, mas ele não foi nunca um exemplo de respeito com você.
– Eu sei. Eu devia ter terminado a pelo menos a dois ou três meses. Eu só tava... acomodada. Era costume ter ele pra dar uns beijos quando eu queria. Foi preguiça de minha parte.
– Você é extremamente babaca.
– Eu sei.
– Ta, e agora?
– Terminar com ele. E esse será só o começo da mudança da minha vida.
– É, porque ter chifre é uma baita mudança.
– cala boca! – ri e dei um tapa no braço de Dan, que idiota!
Vinícius que me aguarde.
(...)
Recompus-me rapidamente e estava prontamente decidida quando caminhei, no horário da saída até o cafajeste. Ele estava sentado nas escadas da saída da escola, rodeado de amigos e, adivinhem? A garota da foto estava ali perto, olhando-o como se ele fosse um deus. KKKKKKK, É, KKKKKKKKKK ELES SE MERECEM KKKKKKKKKKK.
– Oi delícia! – disse ele enquanto colocava alguns Cheetos na boca e tomava refrigerante em seguida. Olhei pra ele indiferente, e isso fez um certo silêncio se instaurar na rodinha.
Ele ficou pálido, pareceu que sabia muito bem o que eu sabia.
– Ei... amor... minha gata...
– Vinícius, só cala a boca. Acabou. Você está definitivamente fora da minha vida.
– É O QUE?
– É, eu sei que você andou comendo merda... – olhei pra menina com um sorriso de desculpas – desculpa, mas é. E, bem, não nasci pra ser corna.
A garota ficou vermelha, mas tão vermelha de raiva, que eu não contive o riso.
– Olha aqui, sua vadia... – ela começou querendo briga e foi ai que eu ri mesmo.
– Garota, quem ficou com cara comprometido aqui foi você, qual seu conceito de vadia? E... sério, não se mete, não precisa brigar, ele é todo seu.
Você acha que ela ficou na dela? Claro que não. A garota deu um empurrão de leve em mim, que me fez dar um passo pra trás. Dei um risinho – eu sinceramente tava achando aquilo tudo uma palhaçada, não dá pra não rir, de verdade. Ela esta realmente disposta a brigar por esse garoto? Eu não estava exatamente deixando ele todo e inteiramente pra ela? Não era o que ela queria? Pelo amor de Deus, né.
Peguei o copo de refrigerante de Vinícius – que estava até bem cheio – e joguei na cara da menina. Molhou todo o uniforme, a cara, o cabelo, e fez a maquiagem dela escorrer. Ela piscou e o cílio postiço – QUEM USA CÍLIO POSTIÇO PRA IR À ESCOLA, CÉUS?! – começou a descolar e ficou pregado perto da sobrancelha. Aquilo foi tão patético que me deu pena. Prendi o riso e voltei a olhar pro meu atual ex namorado.
– Então, é isso, boa sorte, acabou.
– Você não pode me deixar! Eu te amo!
– Vinícius, você nunca me disse isso, é a primeira vez agora e logo depois de você ter mantido relações sexuais com essa menina que agora ta só o bagaço. Desculpa, mas você tem pouquíssima credibilidade.
Olhei pra frente, um pouco distante dali, estava Dan vermelho de tanto rir, curvado com as mãos na barriga e tentando não gargalhar tão alto, e foi quase involuntário não voltar a rir também.
– A gente só termina quando eu disser que terminamos. – Vinícius disse com uma voz irritada e segurando no meu braço. Olhei pra ele arqueado a sobrancelha.
– Me solta.
– Você está fora de si! Ela foi um erro!
– Cara, não adianta, não quero você faz muito tempo.
Ele apertou mais e doeu. Suspirei e puxei o braço, ele não soltava.
– Solta ela agora, Vinícius! – Dan estava do meu lado, completamente sério.
EITA , AGORA QUE FUDEU.
– Não to falando com você, garoto. – ele respondeu, olhando pra ele.
E eu agi rápido: enfiei a mão na embalagem de Cheetos que Vini ainda tinha em mãos, apertei na mão e senti esfarelar e foi o bastante pra esfregar na cara dele, o que o pegou de surpresa e fez com que soltasse meu braço, e eu me afastei imediatamente.
Os amigos dele ficaram assistindo tudo isso entre gargalhadas, o que me deu tempo de afastar mais. Dan estava quase sem ar de tanto rir, e realmente era hilário: O bonzão da escola com farelo de cheetos na cara e em toda a parte próxima do rosto, e a cara de choro só deu o toque final à obra.
Eu e Dan saímos andando rápido enquanto o menino parecia estar catando a dignidade do chão.
– Eu realmente queria dar um soco nele.
– Você realmente acha que vale a pena? Ele tem cheetos até no âmago, não precisa chutar cachorro morto.
Dan riu e concordou com a cabeça. Caminhamos até o estacionamento onde estava a moto do meu amigo, ele me deu um capacete e subimos na diana (sim, ela tinha um nome) e fomos embora.
(...)
Eu dedilhava meu violão, pensando em toda a minha vida, em todo o cansaço que eu sentia. Daniel estava brincando de jogar uma bola pra cima enquanto me ouvia tocar.
Tinha tirado um peso das minhas costas. Amanhã eu faria 18 anos e... pensando bem, era uma ótima hora pra mudar tudo. Ultimo dia de aula, novamente solteira, legalmente adulta... eu poderia simplesmente ir embora dessa cidade pequena, sufocante... eu poderia ganhar o mundo, era só decidir.
– D, se eu te pedir pra fazer uma loucura comigo...
– Desista, Cecília, eu não quero te pegar! – ele fez uma cara de ultraje absurdamente engraçada que quase me mata de rir.
– KKKKK PARA, CARA!
– Não é nada contra você, tens um corpo lindo, e é loira (eu realmente gosto de loiras), mas seria como enfiar a língua na boca da minha irmã! – fez cara de nojo.
Ri alto enquanto deitava no gramado. Estávamos embaixo da árvore – única e soberana no quintal não-tão-grande-mas-ainda-grande da minha casa – e ali era a parte mais legal e cômoda daquela cidade, em minha opinião.
– Pare de graça, eu não quero seu corpo nu. Eu quero... fugir.
– Fugir?
– Sim, amanhã terei 18 anos, nossas aulas acabam, as férias serão longas, essa cidade é tão pequena que não dá pra curtir nada direito... vamos...
– Pra onde?
– Qualquer lugar...
– Isso é tão específico! Cecília, onde você quer chegar com tudo isso?
– Não sei onde quero chegar... talvez eu não queira chegar em lugar nenhum, só quero encontrar. Me encontrar. E encontrar o infinito que tem dentro de mim.
– É, me convenceu. Vou com você, senhorita.
– Mesmo sem saber pra onde?
– Mesmo sem saber pra onde.
– Mesmo só sendo você, eu, a diana, pequenas mochilas e uma estrada?
– Iria até o fim do mundo com você – principalmente se nesse processo tiver muitas paradas, gente bonita e comida de postos de gasolina pra motoqueiros.
– Feito. Promessa de dedinho?
– Promessa de dedinho. – Entrelaçamos os dedinhos e depois rimos.
É, era o começo da minha vida feliz. Ou recomeço. O começo do recomeço.
Amanhã tudo iria melhorar.
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