Viagem Ao Subterrâneo
4 A árvore vermelha
Ana e Kevin esperavam na caverna a chegada de Samuel e Jorge. Já estava escuro, não que durante o dia era claro, mas agora estava mais sombrio, ainda mais debaixo da plataforma de um metrô.
Todos permaneceram em silêncio durante a noite. O sofrimento da morte de Brenda podia ser visto nas faces de todos, até mesmo Jorge que mal a conhecia, não se sentia bem. Após algumas horas Samuel foi embora dando um abraço de despedida em cada um. Kevin continuou na caverna dando apoio a Ana.
– Ela tratava todo mundo mal, mas sempre que precisávamos de algo, ela estava lá – O lamento era de Ana.
– Todos nós gostávamos dela! – Kevin limpava as lágrimas da garota os dedos.
Jorge até então não tinha chorado, mas vendo aquela cena não conseguiu conter, aquelas pessoas que haviam conhecido apenas há um dia já fazia parte da vida dele.
– Eles costumam matar todos os rejeitados?
– Sim, e não são apenas os rejeitados, qualquer coisa que atrapalhe a sociedade perfeita deles – Ana percebeu então que não devia ter falado aquilo na frente de Kevin – Não... Não estava me referindo a sua raça de uma forma geral, mas daqueles lá em cima.
Kevin continuou olhando para baixo. Jorge se lembrou de quando estava percorrendo a cidade, tinha avistado uma árvore vermelha, que nunca tinha visto na superfície.
– O que era aquela árvore perto no palácio?
– É onde os de nossa espécie se desenvolvem – Kevin parecia mais disposto – Nós surgimos como microrganismos, e para sobrevivermos precisamos ser inseridos em um corpo, no caso dos humanos pelo pescoço, é a árvore também que sustente a cidade, ela gera toda a energia da cidade e não precisa da luz do sol para realizar a fotossíntese.
Kevin abaixou a cabeça novamente e se levantou indo até a porta, Ana também se reergueu do chão e o acompanhou. A garota voltou e sentou-se ao lado de Jorge, os dois ficaram se olhando, estavam sem palavras, a cena do tiro ficava voltando da mente deles, até que Ana conduziu a mão até a do garoto com uma expressão de lamento.
– Já faz quase dez meses que estou aqui, ás vezes fico pensando no que deve estar acontecendo lá em cima.
–Você nunca tentou escapar?
– várias vezes, mas não é tão fácil quanto parece.
– Mas e a árvore? se ela fosse destruída não seria possível escapar?
– Se ela morresse todos iriam morrer aqui embaixo, não posso fazer isso com Kevin.
Jorge pensou em como seria viver ali embaixo para sempre, não podia ser esse seu futuro, seus sonhos, sua vontade de se tornar escritor e de descobrir coisas novas, tudo tinha sido destruído, não podia ser.
– Kevin não é um rejeitado? Então ele é diferente, ele é bom, e não se sente bem aqui, talvez lá em cima pudesse ser feliz.
– Não tinha pensado nisso, mas até que não é má ideia.
Ana imaginou todos fora dali, de volta à superfície, sendo feliz, mas aí se lembrou de como era sua vida antes de cair no buraco, não era muito boa, porém melhor do que agora.
– Já está na hora de dormir! – A garota interrompeu seus sonhos, pois sono já pesava em seus olhos.
Os dois viraram de lado e se cobriram com os pedaços de retalhos, que formavam uma coxa. Jorge olhou para cima e não viu a lua pela primeira vez.
***
Mesmo de manhã o lugar ainda estava escuro, Jorge se levantou com o chamado de Ana. O café da manhã de ambos foram barras de cereais que a garota tinha conseguido surrupiar do armazém.
– Estive pensando no que você me disse ontem – Ana estava com olheiras por não ter conseguido dormir pensando nesse assunto.
– Sobre fugir daqui?
– Sim, mas não vejo nenhum jeito de conseguir acabar com a árvore, ela é cercada por um sistema de segurança.
– Quando cheguei aqui em baixo, aquele homem, o Aragão, disse que quem estava cuidando disso era uma tal de Karidade. Na hora não dei muita importância porque não sabia do que se tratava.
– Nunca ouvi falar dessa, mas deve ficar lá no palácio com o ministro.
– Quem é esse ministro?
– É a maior autoridade daqui, ele é quem controla os servidores.
– Servidores?
– São aqueles homens que usam uniformes.
Jorge ficou encarando os cascalhos do chão, forçando para ter uma ideia, e teve.
– E se entrássemos lá dentro e conseguíssemos informações.
– Isso seria loucura! A segurança daquele lugar é muito grande, nunca conseguiríamos permanecer, mais que dez minutos lá dentro.
– Mas se conseguíssemos aqueles uniformes, poderíamos se passar por servidores.
Ana pensou que aquilo tudo era uma loucura, mas viu que não tinha nenhum outro plano e não queria passar o resto da vida no subterrâneo.
– Existe algum jeito do parasita ser expulso do corpo dos humanos.
– Não sei, talvez se a árvore for destruída eles também serão.
Os dois se sentaram em cima do coxão e com uma pedra a garota desenhou no chão a estratégia para invadirem o palácio.
– Kevin e o Samuel podem ajudar! – Disse Jorge empolgado com o plano.
– Não, o Kevin tem que ficar de fora, mesmo sendo diferente dos outros, ele não conseguiria destruir a sua espécie... – Ana ficou seria e fitou o garoto com os olhos angustiados
Mas se todos parasitas fossem destruídos junto com a árvore, Kevin também seria, Jorge pensou.
– Talvez aja um jeito, devemos investigar.
– Não posso fazer nada de mal para ele, mesmo com tudo isso de ser um rejeitado foi ele a primeira pessoa que me estendeu a mão aqui embaixo.
Jorge lembrou-se da tarde passada no armazém, em como Kevin tinha sido legal com ele, como tinha sido bom em não se importar com ele e Ana serem humanos, e viu que não podia fazer mal a ele. Poucos humanos o tratavam bem na superfície, o rejeitado havia o tratado melhor do que muitos lá de cima.
Durante todo o dia Jorge permaneceu na caverna, enquanto Ana subia com os amigos até a cidade. Depois do ocorrido com Brenda, Kevin e a garota acharam melhor ir apenas os dois que já habitavam aquele mundo há mais tempo, até Samuel ficou de fora.
Jorge andava de um lado para o outro sentindo falta da superfície, não que ele era muito feliz lá em cima, mas já sentia falta da mãe e do irmão pequeno, quando Samuel entrou.
– Pelo visto também te deixaram aqui embaixo!
– É a Ana achou melhor ir sozinha com o Kevin – Jorge respondeu.
O garoto passou por Jorge e se sentou no coxão.
– Já tá com saudades lá de cima?
– Um pouco, queria ver minha família.
– Mas só está aqui há dois dias!
– Eu sei, mas é que tenho medo de não conseguir voltar mais.
– Não é medo, é a realidade!
– Nunca tentou fugir daqui?
Samuel fitou o teto rochoso da caverna com uma expressão de sofrimento. Um filme do seu passado passou pela cabeça do garoto, que ficou um tempo imóvel antes de responder.
– Sim, mas lá em cima não era muito melhor do que aqui.
– Mas lá em cima todos eram livres.
– Eu não...
Jorge não entendeu o que ele quis dizer, até que passou pela sua cabeça que talvez o garoto talvez tivesse sido preso.
– Vim parar nesse lugar enquanto fugia da polícia.
– Mas o que você fez para estar fugindo?
– Roubei. Minha irmãzinha estava com fome e minha mãe tinha acabado de morrer, erámos só nós dois, tive que dar um jeito de conseguir comida para ela, foi ai que comecei a roubar.
– E onde está ela?
– Perdida na superfície.
Os dois se entreolharam, a expressão de Samuel era de tristeza e angústia. Jorge queria não ter começado com aquela conversa.
Ana chegou fazendo muito barulho com uma sacola na mão, despejou todo o conteúdo dela e três uniformes de servidores caíram sobre o chão.
– Pronto, temos um jeito de entrar no palácio.
– Palácio, vocês estão loucos? – Samuel estava perdido com o que estava acontecendo.
Os três se sentaram no chão e Ana pôs Samuel à parte do plano, no começo ele achou que tudo aquilo era uma maluquice, mas no fim concordou em ajudar.
– Amanhã nós três invadiremos o palácio.
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