Notas iniciais
— Pacto?! Você é completamente maluco! — ele alterava a voz, a cada pergunta que eu fazia, me deixando assim, sem nenhuma resposta concreta — Não vou ficar trabalhando como faxineiro, com você por cem anos nessa banheira furada. Você pensa que eu sou retardado?!
— Achei que você já tinha aprendido garoto! Nunca, mas nunca, em hipótese alguma, menospreze um Capitão ou seu navio! — alterei minha voz, dando um tabefe na cara do ex-protegido — Mas estou começando a achar que você gosta de apanhar! Até agora você não me deu motivos para pensar outra coisa. Por acaso você é masoquista?!
— Prefiro apanhar, a seguir ordem de um Capitão decadente! — ele disse, dando uma cusparada de sangue na minha cara — Pelo menos se você tivesse lábia para me enrolar, talvez eu pensasse em outra coisa, mas nem isso você tem! É capaz de você afundar essa relíquia com sua estupidez!
— Não tenho lábia mesmo, e daí?! Mas conheço alguém que tem e que vai te fazer mudar de ideia rapidinho, pois senão, vou deixar ela fazer o que quiser com você, inclusive cortar sua cabeça! — eu respondi à ele, devolvendo uma cusparada em sua cara — Aguente ai! A é, que pena, você não consegue sair dai mesmo! — eu continuei, dando risada da cara de bosta que ele fez.
Eu só estava irritado com uma coisa: obviamente, aquele palerma, estava repleto de razão, eu não tinha lábia alguma, eu era péssimo nisso, mas meu marujo mais inteligente conseguirá faze-lo aceitar, fácil, fácil.
— Ali? — eu disse, me referindo ao marujo, colocando minha mãe em suas costas — Preciso de uma ajudinha da sua lábia. Será que ela pode ser usada agora?!
— Sim, Capitão! — o marujo me respondeu, dando um sorriso que ia de uma orelha até a outra — O que o grande Phil Ruffalo precisa?!
Não falei nada, fiz sinal com a mão para me seguir, e o mesmo assentiu. Gotículas de águas salgada batiam em meu rosto, estávamos andando próximo as bordas, e as ondas estavam em uma altura razoavelmente altas. Finalmente chegamos ao porão, que ficava abaixo da proa, era mais um alçapão.
— Apresento-lhe, meu marujo que vai fazê-lo desistir! — disse ao protegido, apontando o dedo indicador para Ali — Fique à vontade com esse protegido teimoso, Ali!
Quando vi que James, olhou diretamente para meu marujo e começou a rir, fiquei até com pena do que ele poderia fazer com ele naquela hora.
— Melhor marujo?! — ele me disse ironizando, minhas falas e colocando a mão na boca, para trancar uma gargalhada — Uma mulher?! É sério?! Uma mulher? Você acha que uma mulher vai me fazer desistir das suas loucuras?
— Eu não teria dito isso, seu verme! — respondi virando as costas e me dirigindo a porta, a fumaça de raiva que saia da orelha de Ali dava para se enxergar a uns dois quilômetros — Acho que você vai se arrepender de ter menosprezado uma mulher, você tem que aprender isso também garoto. Nunca menospreze uma mulher, você sempre vai apanhar!
Olhei de novo para o pobre protegido, e vi a cara de susto que ele fez ao ver a rapidez de Ali, ao tirar seu Florete da proteção e apontar para o pescoço dele.
— Se você não quer que essas sejam suas últimas palavras, se ajoelhe agora, e peça perdão! — ela disse com muita raiva, e cada vez mais colocando a ponta do Florete para dentro da pele dele — Eu tenho nojo desse tipinho de homem, que menospreza o poder de uma mulher! Estamos quase entrando no século XVIII, e ainda tem homem que pensa como você! Ajoelha agora!
James estava se borrando de medo, gotas de suor escorriam pela sua testa, enquanto o mesmo se ajoelhava na frente dela, fechando as mãos como se estivesse prestes a começar uma oração, para ela não decepar a cabeça dele.
— Perdão, senhora Ali! — ele gaguejava de medo — Eu sou um monte de lixo, mas não mereço morrer, pelo menos não ainda.
— Se não quiser morrer, obedeça ao Capitão, ele é o homem das ordens! Pessoas como você, deviam obedecer e nada mais! — ela disse tirando o Florete do pescoço do homem, um pouco de sangue começou a escorrer pelo seu pescoço, ele enfiou o florete bem aonde eu tinha cortado com a peixeira — Obedeça e viva, ou desobedeça e morra! Escolha!
— Acho que prefiro morrer! — ele disse cerrando os olhos, esperando Ali cortar seu corpo em dois pedaços — Se eu tiver que morrer, faça agora! Vamos!
— Nem pense nisso querida! — me meti no meio da discussão dos dois, segurando a mão de Ali, que iria matá-lo sem pensar duas vezes — Mesmo eu não querendo, ainda precisamos dele vivo, pelo menos para poder tirar algumas moedas de ouro daquela rainha de merda. Ali, pode voltar ao convés, acho que agora ele entendeu quem manda no navio e nos marujos.
A garota entendeu e saiu do porão, ficamos novamente só eu e ele lá em baixo. Aquelas cenas já estavam virando monótonas, ele continuava negando o nosso "pacto", e negando, negando e negando. Nada de que eu fizesse, ou falasse, o fazia mudar de ideia. Eu não entendia como ele ainda continuava a se negar depois de eu ter arrancado todas as unhas da sua mão esquerda. O garoto era realmente muito forte. E isso era bom para meus negócios, além de forte, o garoto fora de grande ajuda na luta contra o Kraken, ele sabia de coisas do meu navio que nem eu mesmo conhecia, como o maravilhoso "mastro de Thor"!
— Escuta filho, você pode não querer fazer o pacto, e trabalhar feito um escravo no meu navio... — dei uma pausa, tentando não parecer muito grosso, necessitava que ele aceitasse, e essa era minha última chance — Mas eu vi, e sei como você foi de grande ajuda ontem com o Kraken, eu gosto de pessoas assim... De marujos assim!
— Não sou seu marujo, Capitão! — ele respondeu.
— Mas pode ser! — eu remendei — Veja só, já me chamas de Capitão! Eu sei que você quer ser pirata, pois se tu não quisesse, porque invadir meu navio e fingir ser um de nós?
— Como você pode ter certeza que eu invadi pra ser um de vocês? — ele me jogou essa pergunta na cara — E se isso fosse um plano do governo? E eu fosse um espião? E tivesse apenas estudando vocês para quando atracarem em algum porto serem todos presos?
— Posso não ter lábia, mas eu conheço um blefe de longe! — respondi — E não adianta vir com esse choro, o "pó dos tolos", é vendido só no mercado negro, junto com rins, pulmões e restos de vísceras, o governo não sujaria suas patinhas pra por um espião entre o Viúva Negra! Escolha se juntar a nós, ou terei que chamar algum outro marujo pra cuidar de você, e eu tenho duas marujas que adorariam cortar seu pescoço, filho de Marieta!
Escutei-o engolindo a saliva em seco, ele não imaginou que eu era, digamos, muito inteligente, achou que o blefe dele me colocaria medo, mas quem está com medo agora é ele.
— Escuta, não respondo nada com ameaças! Digo que posso pensar, mas se eu entrar, não quer dizer que irei obedecer suas ordens, ou que serei seu amigo! — ele me respondeu, curto e grosso — E se você quer um novo marujo que tal começar dando comida para ele?
Andei por trás dele, e puxei minha pequena adaga da bainha, o barulho da lamina afiada passando pelo couro já velho, era de arrepiar até cadáver, escutei outro engolir de saliva dele, puxei suas mãos para cima, e cortei o pedaço de corda que as prendiam. Depois me dirigi à porta de saída do porão, e me virei para ele, esperando que me seguisse, acho que ele entendeu, pois agora já estava de pé, se dirigindo para onde eu estava.
Quando ele sentiu a luz do Sol, bater em seu rosto parecia que não via ela há uns dez anos, e logo o tapou com a palma da mão. E isso logo chamou a atenção da tripulação, praticamente todos dos meus melhores marujos estavam me observando com os olhos cerrados: Joe, Hello e principalmente Ali, que virou os olhos, furiosa ao ver que ele ainda estava vivo.
Joe veio correndo até mim.
— Capitão Phil, agora que o senhor pegou esse ai, acho que voltaremos para Noruega estou certo? — ele me pediu ansioso pela minha resposta.
— Podemos voltar! Como eu sei que vocês amam aquela porcaria de rum, eu vou recompensa-los com mais daquela droga! — eu respondi erguendo minha mão direita — Mas não para deixar James lá, agora ele é um de nós e mesmo ainda sendo sangue azul, ele merece nosso respeito, ele agora é um pirata! Mas prevejo que você tem assuntos pendentes não? É com sua irmã de novo?
Ele balançou a cabeça positivamente com seu olhar triste, eu sabia que pra ele a irmã era mais importante que a própria vida, ele tinha seus princípios e eu os meus, eu também lutava por uma coisa muito importante, pena que a mesma nem ligava mais para mim.
— Ótimo! — eu disse, olhando para ele, e o mesmo olhava para mim ao mesmo tempo em que mexia em seu colar, que ganhou de sua irmã — Logo que atracarmos no porto, vou com você até sua casa, e todos desejaremos melhoras à Jade!
Senti que ele ficou comovido, disfarcei a minha felicidade. E é por coisas assim que a poucas brigas e discussões acontecem no Viúva, eu respeito meus marinheiros. Acho que também deve ser por isso, que o último motim foi há uns três anos, onde eu consegui o lugar de Capitão.
Olhei para o lado e vi James, me olhando com uma cara espantada, talvez tenha pensado que eu também não fosse "bonzinho". E aquelas caras e bocas que ele fazia a cada coisa nova que descobria me dava raiva. Isso me tirava do sério e eu queria faze-lo caminhar na prancha a cada levantada de sobrancelha.
— Chega de melancolia, seus frouxos! — Hello disse, virando as costas para James e começando a mexer nos cabelos — Parecem duas garotinhas protegidas tricotando sobre o príncipe da província vizinha!
— Dá para ver que pouco conheces das províncias, senhora! — James teve coragem de falar, diretamente para Hello — Os filhos dos protegidos das províncias são apenas homens, e somos nós quem desejamos as nossas princesas!
— Não te pedi nenhuma aula de história protegido de sangue azul! — ela disse, colocando a mão na sua escopeta — Agora também é o protegido do Capitão?! Não tens vergonha de ser um adulto, que se não fosse por grandes pessoas, estaria que nem uma bosta de cavalo?! Esmagado no chão!
— Eu não pedi ajuda do seu Capitãozinho! — ele respondeu, com mais estupidez — Na verdade foi ele quem pediu a minha! — eu só observava essa discussão, com a mão na minha espada, para poder para qualquer golpe não calculado sobre o protegido.
— Abaixa o tom, ao falar com ela! — Ali se meteu na conversa — Você é um mero ingênuo, duvido que saiba segurar em uma lamina com firmeza!
Ele foi ao lado de Joe, e puxou a espada da cintura dele. E a balançou na frente do corpo de Ali, e Hello, as chamando para um duelo. As duas puxaram suas laminas e logo foram para cima dele. Apesar de ser um protegido do governo, o desgraçado já estava sobrevivendo há uns três minutos. Hello era uma gênia nas espadas, quando tinha sua própria tripulação era ela quem ensinava os novatos a duelar com as espadas. Ali era uma deusa com seu florete, seus cabelos ruivos balançando junto com seu corpo esbelto, era um colírio para meus olhos, a mesma aprendeu a duelar com os piratas que um dia a sequestraram.
Joe e eu sentamos no convés e ficamos só olhando, afinal estava sendo um espetáculo perfeito e, ainda por cima não desembolsamos nenhuma moeda de ouro para ver isso.
— Aposto três moedas que ele vai cair logo, logo! — eu disse olhando para aquele espetáculo magnifico — O que acha Peste? Tá a fim de apostar? — Peste era um apelido que Joe ganhou de um marujo que morreu em uma batalha com Hello.
— Aposto cinco, que ele derruba pelo menos uma! — ele me disse com coragem, colocando as cinco moedas no espaço que tinha entre a minha perna e a dele — O que acha?
— Fechado! — eu disse colocando minhas moedas junto às deles — Mas acho que eu vou levar essa!
Depois daquele momento, ficamos ali sentados, esperando apenas pelo momento em que algum deles cairia e eu estava esperando que ele caísse.
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