Notas iniciais
Piratas me mordam! Essa viagem está realmente conturbada. O Viúva está a todo vapor e a Noruega ainda nem chegou às nossas vistas. Ainda me pergunto o quê o Jasper estava fazendo no covil daquelas bruxas ─ eu tenho minhas teorias de pirata, porém até agora ele não fez nada que me chamasse a atenção, mas estou de olho nesse pirata de meia boca. Se fizer qualquer coisa de errado, ele vai ver com quantos marujos se faz uma boa tripulação!
— Pensando em sua irmã, Joe? — Hello lançou a pergunta ao ar, recebendo um leve beliscão de Ali no seu braço esquerdo como sinal de "ei ele não gosta quando tocamos nesse assunto". Ela entendeu, todavia continuou teimosamente, igual ela só o Phil — Afinal quando você pensa nela, fica mexendo nesse colar bobo.
— Bobo? Bobo é essa sua cara de mulher mal... — quando ele percebeu a besteira machista que ia falar, corou e resolveu nem completar a frase, afinal Hello já estava bufando de raiva. Como bom mentiroso que era, resolveu mentir sobre seus devaneios — Sim, eu estava pensando nela. Pelo menos eu tenho alguém em quem pensar. Talvez um dia quando algum homem te amar, você tenha um pouco de noção sobre o que é amar alguém de verdade.
Hello virou a cara quando Joe passou por sua frente, olhou para Ali com o rosto vermelho e molhado e cheio de lágrimas. Ela não se conteve, pelo menos ela tinha alguém com quem contar, Ali era a única que sabia de seu segredo e a mesma jurou nunca comentar nada dele com ninguém.
— Ali, como ele pôde falar isso? Ele não sabe que eu deixei de amar quando o desgraçado do meu pai tirou minha filha de mim — ela disse baixinho, para que mais ninguém pudesse ouvir seu segredo — Aquele pedaço de carne, meu pedaço de carne, da minha carne, meu sangue, meu pai teve coragem de tirar dos meus braços e colocar na mão de uma estranha. Se ele soubesse que um dia fui muito amada, ele nunca pensaria isso de mim...
— Sim, eu sei. Mas você tem que entender que mesmo sem querer você cutucou a ferida dele. Chumbo trocado não dói não é mesmo? — terminou Ali, a mesma viu que após suas palavras, o seu ombro ficou mais molhado ainda.
As duas continuaram ali paradas, sozinhas, quietas, chorando...
[…]
A noite estava bastante calma. Eu estava segurando o leme, ah que bela vista que eu tinha! O Sol nascendo ao leste, e a Lua se pondo no oeste, não era sempre que eu podia ver aquela cena, isso acontece por uma semana de meio a meio milênio, o Viúva já viu quatro vezes isso. E sempre acontece no mês de Odin, minha mãe me contava que isso acontecia, pois a Lua e o Sol eram casados, e tinham apenas uma semana para se encontrarem, contudo, Odin como bom Deus que era, criou essa semana, onde as estrelas tinham sete dias para saciarem seus desejos, assim, todas as noites o Sol encontrava sua amada, quando o ponteiro do relógio encontrava sua outra metade. Não acreditava em tudo aquilo, afinal, a maioria das coisas que minha mãe me contava era fruto da imaginação dela, como ela era filósofa ela inventava coisas que as pessoas gostariam de ouvir e a maioria das pessoas, com certeza, gostavam daquela teoria.
Estávamos rumando já havia um bom tempo, mas durante o caminho tivemos muitos imprevistos, e agora finalmente estamos prestes a ver a ponta da torre da Igreja Gótica, que ficava no centro da Noruega, era o ponto mais alto. Se você estiver navegando ao amanhecer, sempre o enxergará. E não demorou muito para eu avistar alguma coisa. O leme tremia em minhas mãos por causa da grande quantidade de algas e corais que aquela região tinha. Por sorte eu sou um ótimo capitão!
— Já estou vendo a ponta da cruz da Igreja Gótica seus cuzões, levantam essas bundas e comecem a recolher a vela. — ordenei, eu realmente queria parar logo no porto e correr para uma taverna beber um rum decente, e eu queria isso rápido — Vamos rápido! A primeira rodada de rum é por minha conta!
Nunca vi aqueles bundas-moles fazerem as coisas tão rápido e tão bem feito, com a rapidez deles em um piscar de olhos já estávamos atracando no porto e isso era bom, mas ruim ao mesmo tempo. Bom por finalmente termos chegado e ruim pelo motivo que a taxa que os piratas pagam para ficarem atracados é muito mais alta que os navios normais pelo simples fato de sermos odiados pelos protegidos, como tenho nojo desses bundões! A taxa foi de 74 moedas de ouro, navios normais tem a taxa de 30 moedas e os navios dos protegidos podem até afundar o seu se não tiver espaço, desgraçados!
Um tempo depois, chegava até a ser lindo de ver toda a tripulação correndo para a taverna. Fiquei mais louco ainda quando vi Jasper, o novato, correndo também, como se fosse da tripulação há séculos. É hoje que minhas moedas acabam.
Demorei um pouco para abrir a porta da taverna, estava respirando ar puro, o cheiro da terra. Fazia tempo que não sentia, na verdade fazia muito tempo que não pisava em solo norueguês. Abri a porta e a primeira visão já me cegou: aquele corpo escultural, lindo, mas que só podia ser descrito como maravilhoso, sim era ela. Cabelos louros ondulados que vão até o ombro, aqueles maliciosos olhos verdes que faziam minhas pernas tremerem, e aquelas curvas, que faziam eu a despi-la com os olhos, aquela viúva era a mais linda que eu já havia visto. Katherine era incrivelmente linda. Se eu não acreditasse que fora ela quem matou seu antigo marido, eu até que falava com ela fora do lado pessoal, mas seu lado sombrio me deixa com medo, muito medo.
— Phil meu velho parceiro, venha cá! Quero te ver de perto. — disse a loura caminhando rapidamente até mim, fazendo tudo, TUDO, balançar. Quando me alcançou, agarrou meu pescoço e me deu um forte abraço. Pelo menos ela parou com a mania de beijar todo mundo que encontra — Que saudades meu pequeno pupilo!
— Poderia dizer o mesmo, mas acho que saudades é algo que eu não sinto de você... ‘Mestra’ — terminei, eu simplesmente odiava quando ela me chamava de pupilo, ela só me ensinou uma coisa: roubar — Afinal carrego as cicatrizes que deixou em minha barriga até hoje, lembra-se desse triste dia?
— Como não lembraria? O dia em que alguém finalmente fez um corte no tão consagrado Sabre Negro. É claro que me lembro! — ela respondeu mordendo os lábios, e isso me cheirava mal, muito mal — Lembra como aconteceu? — tentei impedi-la falando no meio, todavia foi em vão — Nós dois na cama, você achando que finalmente ia transar com a meretriz Katherine. Deus meu, te enganei direitinho. Mas pensando bem agora, fui burra. Deveria ter transado e depois te atacado, até pelo motivo que você não é tão ruim assim. E eu gostei do que vi por debaixo dessa roupa.
Todos os marujos começaram a rir, chegavam a soluçar de tanto que gargalhavam. Bando de virgens, nunca vão saber como é olhar para o corpo despido dessa meretriz.
Que raiva, não sabia que Katherine tinha comprado essa taverna também. Meu peito já esta doendo da faca que ela vai cravar, vai me cobrar os olhos da cara, afinal é pelos preços altíssimos que ela é conhecida e, claro, pelo seu "trabalhinho fora de casa".
— Mudando de assunto agora... — eu comecei — Falei que ia pagar a primeira rodada desses bêbados, você podia dar um descontinho né?! Afinal olha quanto tempo se passou desde a última vez que nos vimos.
— Escutaram gente? — ela chamou a atenção de todos com sua voz sexy — O Phil quer um desconto! Que bobo não é?! — ela começou a abaixar o tom de voz e sussurrou no meu ouvido — Deixa tudo por conta da casa, pelos velhos tempos!
Aquilo me deu até um frio na espinha, ela não iria cobrar ali na hora, mas eu sei que essa desgraçada vai me cobrar em algum momento, se ela não pedir meu rim, eu já estou feliz. Mas depois de toda aquela cena que acontecia, eu percebi que não era só a minha tripulação que estava ali enchendo a cara, junto deles, em uma mesa separada, estavam dois homens, com a mesa cheia de rum e diversas meretrizes ao redor deles, fazendo insinuações porcas de danças eróticas.
— Escuta Kath... — sussurrei perto de sua orelha esquerda, e vi que a mesma se arrepiou — Quem são aquelas almas penadas cercadas por aquelas meretrizes?
— Nossa Phil, já iria me esquecer, que bom que continua atento garanhão. — ela largou seu veneno irônico — Eles querem falar com você, mas cuidado o menor parece vestir roupas dos protegidos.
"Protegidos". Essa palavra maldita ficou sobrevoando meu cérebro, era só o que me faltava, em pleno mês de Odin ser levado até a prisão, ou pior, ser enforcado em praça pública. Pela primeira vez acho que isso não deveria acontecer comigo. Comecei vagarosamente chegar perto deles, o cheiro daquelas mulheres dava para se sentir de longe, fragrância de avelã, legítimas meretrizes. Vi o mais alto mexer as mãos em direção às meretrizes e as mesmas obedeceram ele saindo dali.
— Capitão Phil, que prazer estar falando com você! Sinto até receio, eu um pobre vadio, falando com você. Um dos melhores capitães dos mares gelados! — ele começou, sua voz era seca e ele parecia estar sendo totalmente irônico, já não gostei dele. Eu vi sua postura defensiva como uma defesa. — Meu nome é Keith. O baixinho se chama Nico e já lhe digo, só confie nele quando ele te chamar de 'amigo', antes disso, nem pense em contar nenhum segredo a ele, ele não presta, não é mesmo baixinho?
— Isso eu já entendi, eu só tenho duas perguntas... — eu disse, queria parecer o mais curto e grosso — Vocês são protegidos? E o que vocês querem?
Os dois se entreolharam assustados, pareciam ainda mais suspeitos para mim, estava com medo que a qualquer momento algum deles tirasse uma carabina e apontasse na minha cara. Minha mão já estava em cima do sabre, qualquer coisa que fizessem iriam levar. Vi também que Hello e Ali estavam ali perto com as mãos no mesmo lugar, se alguma coisa acontecesse uma carnificina iria acontecer com toda a certeza.
— Que ideia Phil, nó não somos nada disso... — começou falar o baixinho, até que a voz dele não era infantil, parecia realmente um homem feito — Eu sou Nícolas Underwood, um ladrão, para falar a verdade o melhor de todos! Ele é Keith MacGyver, um vadio. Também posso dizer que é o melhor!
— Isso mesmo! — completou Keith, antes que eu pudesse falar qualquer coisa — E estamos aqui para apenas uma coisa, entrar no Viúva. E não adianta dizer que não tem mais espaço, acabamos de dar trezentas moedas de ouro para dois de seus marujos, e eles nem se importaram.
— Vocês fizeram o que? Estão ficando loucos, vocês não podem sair pagando todo mundo para terem o que vocês querem isso é legitima coisa que protegidos fazem, e eu nem sei se quero vocês dois à bordo do meu navio! — perdi o controle e gritei. Hello e Ali que já estavam perto agora estavam mais ainda, e agora era tudo ou nada — Vocês meras crianças achando que sabem algo sobre navios, vocês por acaso sabem pegar no leme?! Sabem puxar a âncora?! Crianças não fazem isso!
— Capitão... — Joe puxou meu braço direito, arregalando os olhos para mim como se quisesse dizer 'calma, são só dois vadios' — É melhor se acalmar um pouco, venha comigo, vamos tomar um pouco de rum, sua garganta está seca!
— Phil... Acho que tendes de aceitá-los, afinal agora você esta sem dois marujos, se eles fizerem alguma coisa, obrigue-os a assinar um contrato! — me disse Katherine — Como você mesmo disse eles são meros vadios!
Pensando pelo lado dela ela tinha razão, seria muito bom fazê-los assinar um contrato, coitados, iriam ter que entregar suas almas em troca de trabalho duro no convés, esfregando o chão, polindo o leme, e quem sabe até sofrendo nas mãos dos marujos! Chacoalhei a mão para trás em forma de dizer "tanto faz agora mesmo, subam no Viúva", eles entenderam, escutei um estrondo que pareciam as suas mãos batendo uma na outra, como disse antes: meras crianças!
Outro barulho mais forte que esse, foi escutado por todos, me virei para trás e vi o príncipe da Noruega escancarando a porta com um chute, junto dele toda a guarda dos protegidos, meu coração gelou, chegou o que eu não esperava.
— Phil Ruffalo, capitãozinho da banheira atracada no meu porto, venha até aqui antes que uma bala passe pela sua garganta e eu acabe com... — ele simplesmente parou de falar quando seus olhos encontraram com os dos James — O que pensa que está fazendo aqui James?
— Eu sou um pirata agora... — James o respondeu com um sentimento metade raiva metade medo — Irmão...
Fale com o autor