Verão Para Alunos Recuperáveis
7 Os sapatos estalavam o piso de madeira
Os sapatos estalavam o piso de madeira. Por mais que estivesse frio, eu sentia calor.
Não ousei olhar pra nenhum dos meus colegas de classe quando cheguei, por mais que eles conversassem o tempo todo, me concentrei em um dos livros da matéria que estava prestes a começar. Por mais que eu tentasse lê-lo, as conversas baixas dos estudantes pareciam bem mais interessantes, ou quem sabe incomodantes.
Por mais que o sol estivesse fraco, eu sentia ele esquentando meu rosto.
Sapatos apertados demais. O uniforme novo tinha um cheiro que eu odiava.
Desde o momento que entrei estava concentrada no tal livro. E os passos do professor começaram a se tornar audíveis, silenciando qualquer conversa ou qualquer som. Uma gota de suor escorreu do meu rosto, afinal eu sabia que matéria iria começar.
Um tique nervoso no pé me chamou atenção. Um sapato masculino agitando-se constantemente ao meu lado, meus olhos se prenderam nesse sapato, por mais estranho que pareça não conseguia levantar o olhar para encarar quem quer que fosse o dono daquele pé.
Quando o estalo dos passos do tal professor se sessou, aquele tique nervoso também. Então meus olhos subiram, encarando subitamente alguém que eu já conhecia.
–Garoto da nuca – Disse em bom tom.
O garoto não desviou o olhar do quadro. Não olhou pra mim e nem sequer deu sinal de ter ouvido minha voz. Provavelmente já esperava por minha reação e contentou-se apenas ouvindo-a.
Alguns estudantes me encararam e eu virei ligeiramente incomodada por outro lado, tentando olhar aquele professor. Dois olhares difíceis. Duas pessoas difíceis.
Professor Gold. O homem que me indicou para o programa V-PAR, o mesmo homem que se sentiu ligeiramente ofendido com a imitação perfeita de sua voz e jeito. O mesmo homem que me olhava nesse mesmo instante.
Nossos olhos se encontraram, e se desviaram logo depois.
–Eu fui convidado para dar aula à vocês, tolos recuperáveis. – Sua voz grave cortava os nossos ouvidos, alguns alunos se encolhiam toda vez que aquele homem terminava uma frase.
Quase não havia existência de cabelo em sua cabeça, e veias transpareciam em sua testa, pescoço e braços. Ele como de costume caminhou pela sala, estalando seus sapatos mais uma vez. Quando passou por mim fez questão de parar, como se não estivesse deixado claro que eu não havia notado sua presença.
–Alunos Recuperáveis, se chamam recuperáveis por que tem uma futura recuperação. — Disse ele com o nariz torto. – Qualquer indisciplina da parte de qualquer um de vocês e considere-se expulso de Towcland.
Nunca mencionei o nome dessa escola antes. É difícil de se pronunciar pra mim.
Sr. Gold disse aquilo especialmente pra mim, eu pensava. Até ele virar-se pra Pow, olhando-o amargamente. O garoto o encarou também, ignorando qualquer disfarce se quer existente.
–Poole Nestorov esse ano zombou de mim como qualquer outro aluno nunca zombou.
Abri a boca perplexa, fechando-a logo em seguida. Tinha certeza que eu havia feito a maior humilhação a ele.
Sorri inocentemente, Pow acabou de deixar claro que tipo de aluno ele era. Mas meu sorriso desmanchou quando olhei a cara carrancuda dele, ainda encarando Gold.
Nenhum outro aluno ousou dar um sorriso, apenas cochichando baixinho e fazendo críticas negativas a atitude do garoto.
Os olhos do garoto da nuca estavam nublados, escurecidos pelo ódio que sentia do Sr. Gold, pensei. Até notar que parecia ser outra coisa. Pow estava enfeitiçado? Havia se tornado um Recuperável?
Então tudo fez sentido, o porquê de sua presença, por que os guardas apareceram para nos buscar também. Pow foi pego e forçado a contar tudo que sabia sobre os Irrecuperáveis, incluindo nossa localização, nomes e aparências. Assim como eu e Colin havia previsto.
Senti meus olhos lacrimejarem.
–Espero que tenha aprendido a sua lição Nestorov. – Disse o professor Gold sorrindo satisfeito.
Depois disso, Pow agiu naturalmente, assistindo o resto da aula como qualquer outro recuperável ali. Gold parecia ter me deixado de lado, talvez a imitação fosse demais pra ele, deixando-o com vergonha até de expor o ato pro resto da sala.
A aula terminou e como todos os recuperáveis passaram a conversar tranquilamente, me virei e olhei diretamente nos olhos de Pow. Seus cabelos ondulados estavam devidamente penteados e seus pertences organizados. O garoto parecia estar ocupado com deixar os lápis devidamente alinhados.
Não podia deixar que ele notasse como eu me sentia. Ou deixar que qualquer um notasse. Recuperáveis não ficam abalados, apenas se errarem algo nos estudos. O garoto percebeu que eu o encarava e virou o rosto também. Seus olhos estavam do mesmo jeito daquele dia em que fugiu. Obscuros, perdidos em longos pensamentos, incapaz de serem decifrados.
–Seu cabelo. – Ele disse mirando em cima dos meus olhos. – São familiares.
–Legal. – Disse, e levantei o braço para acenar. Mas não é o que garotas legais fariam numa hora dessas. Abaixei a mão.
–Você tem amigos aqui? – Perguntou ele.
–Alguns.
–Minha amiga tem um nome bem difícil de pronunciar. Quer ver? – Disse ele com os olhos brilhando levemente. – Te desafio a pronunciar corretamente isso.
Ele escreveu algo num papel com rapidez e me entregou.
Biblioteca depois do almoço.
Ainda estou acordado, e sei que você está.
–Anastazia – Disse tentando ser séria. Meu coração acelerou, meus olhos tremeram levemente com a felicidade que veio à tona.
–Quase, se pronuncia anas-tá-cia.
–Anastácia
–Isso. – Ele disse sorrindo.
–----x-----
Almocei com garfadas rápidas, comendo o mais rápido que pude. Observei alguns Recuperáveis que estavam no refeitório, garantindo que entre eles estivessem Amy, Joe, Colin, Garoto-Panda e Kat. Todos eles estavam agindo bem e já haviam se misturado. Caminhei rapidamente até o meu quarto, evitando passar por qualquer corredor escuro e suspeito, ou encarar qualquer inspetor. Não queria que suspeitassem de mim logo agora.
Quando entrei no meu quarto encontrei minhas duas colegas. Ambas recuperáveis e ligeiramente dispostas a estudar.
Ambas sabiam meu nome, Amy não me deu um nome falso como o dela. O simples motivo é que eu já tenho um quarto no dormitório, sou novata no projeto V-PAR. Então se inventasse um novo nome pra mim, eu não poderia usar a cama de Molly Evans.
O que Colin fez quando me contou onde seria o meu quarto e minha cama, foi apenas me informar o meu verdadeiro quarto e cama. Quando entrei no meu quarto ontem à noite, achei uma mala desconhecida em cima da minha cama com alguns uniformes e livros, junto uma carta que dizia:
Roupas novas, bons estudos.
Joe.
Perdi a minha mala original no dia em que abandonamos a base no.7, nesse momento os inspetores já devem ter encontrado ela junto com todas as nossas outras coisas que deixamos pra trás, já que eles já sabiam onde estávamos quando foram nos procurar.
Uma de minhas colegas de quarto tinha a voz mais fina que já ouvi, uma voz que penetrava minha mente e dava tapinhas irritantes nela, a garota era loira com os cabelos cacheados até o ombro. Seu nome era Pene Swan.
A outra garota era calada, ouvia constantemente a loira, tinha os cabelos extremamente negros, sua pele era negra também. O curioso sobre Mabel Corgis é seu olhar, ligeiramente tranquilo, deixando quem a observa tranquilo também.
–----x-----
A biblioteca estava tranquila, frequentemente ouvia-se livros sendo folheados e as vezes perguntas sendo respondidas por outros recuperáveis com vozes sonoramente inteligentes.
Caminhei nos corredores estreitos coloridos por livros. Diferente da biblioteca secreta no andar de cima, essa biblioteca era bem iluminada durante o dia, as cortinas haviam sido abertas fazendo com que tudo se tornasse mais tranquilo. O ar fresco era ótimo também.
Não encontrei o garoto da nuca em lugar algum. Por outro lado, encontrei alguém que havia esquecido no passado.
A garota pálida sorria pra mim, caminhando em minha direção com três grandes livros equilibrados nos dois braços. Seus óculos refletiam na luz, e seu cabelo extremamente preto brilhava. Ela havia nos ajudado a sair da biblioteca secreta que nos perdemos no primeiro dia de aula, a primeira garota com sintomas recuperáveis que eu encontrei. Manipulei ela obrigando-a a nos ajudar a achar a saída da biblioteca secreta aquele dia.
–Molly Evans? – Ela perguntou baixinho.
Assenti com a cabeça, hesitante.
–Venha comigo por favor, eu encontrei o livro de física que pediu.
Ela me levou para a porta com a plaquinha escrito Bibliotecária. A sala onde encontramos a garota pálida, e a escada que nos levou à biblioteca secreta no primeiro dia de aula ficava lá.
Dessa vez o cômodo estava bem iluminado também, e extremamente limpo.
–Parece distante o momento em que eu entrei aqui pela primeira vez. – Disse Pow.
O garoto da nuca estava sentado em uma poltrona em frente a escrivaninha da bibliotecária. Seus cabelos ondulados foram bagunçados.
–Como se fosse bem mais de dois dias. – Virou-se me encarando. Ficou de pé e abaixou a cabeça – Desculpa por ter abandonado vocês Molly. – Falou sussurrando.
Meu coração acelerou, ninguém nunca havia me pedido desculpas. Ninguém nunca fez nada errado comigo, ou cometeu um erro. Ouvi-lo dizer isso me incomodou.
–Eu fiquei sabendo que vocês foram achados no dia seguinte.
–Ninguém foi pego, você não precisa se preocupar. – Disse encarando o mesmo chão.
Ficamos um minuto em silêncio.
–Vocês não deviam fazer encontros na minha sala. – Disse a garota pálida de repente.
–Snow, por favor, cale-se. – Disse Pow gargalhando.
Nunca havia visto ele rir, foi estranho.
–Isso não é engraçado Pow! E se meu pai descobrir? – Ela disse abraçando os livros com força.
–Se aquele careca descobrir você tem que dizer que ele devia se importar mais com as rugas dele. – Disse Pow zombando.
Ela não levantou nem uma sobrancelha com o comentário. Proibição de Bullying. Isso era um sinal de recuperável.
–Espera, você é filha do professor Golden? – Perguntei perplexa, fazendo Snow balançar a cabeça positivamente.
–Ela ainda é meio recuperável Molly. – Disse Pow, indiretamente. – Mas eu vou arrumar um jeito de deixa-la irrecuperável.
Por mais que Pow falasse sobre como ela ainda estava em um estado de transe, a garota entendia como se ele fosse um rebelde e ela fosse uma certinha, assim como sua vontade de continuar certinha pelo resto da vida não era influência de Sr. Clary.
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