Notas iniciais
Obrigado pelos comentários que ando recebendo e me perdoem pela demora! Boa leitura!

Perdida num devastador tsunami de pensamentos, Caroline vagava sem destino pela praia, com o vento forte batendo em seu corpo. A lua ainda estava no céu, porém, observando o horizonte, avistando o além por trás do mar de um azul pálido e brilhante, ela podia ver uma clara camada de azul turquesa emergir do fim.

O dia estava amanhecendo e ela estava envergonhada demais para expor o rosto a quem quer que aparecesse a sua frente.

Como ele pôde fazer isso comigo?

Uma dor imensurável a atingia sem piedade e destruía cada parte dela lentamente. Não era uma dor comum, como aquela que você sente quando leva um arranhão ou se machuca, era uma dor na alma.

Ela se sentia burra como uma vadia usada.

Ela sentia como se alguém que amasse muito tivesse morrido.

Se é que ele não estava morto para ela...

Por um instante, ela foi convencida de que seus pais estavam certos. Tyler era apenas mais um canalha afim de tirar a virgindade da filha alheia e depois descartá – la como uma prostitua num bordel. Mas aí, num piscar de olhos, lembranças de tudo que ele havia feito por ela invadiram – lhe os pensamentos. Seriam aquelas demonstrações de amor apenas uma simples mentira? Tudo havia sido tão real e – pelo menos aparentemente – sincero...

Oh Deus, como eu pude ser tão burra...

E de repente ela pôde ver a si mesma, apoiada na mesa da cozinha de sua antiga casa, conversando com Mamãe.

Aquilo havia sido alguns dias depois da primeira vez dela. Acanhada, ela contara a mãe como tudo havia sido. Elizabeth sorriu, pensativa.

– Estou vendo que a minha Carol cresceu...

Caroline pôde sentir emoção na voz da mãe, mas não disse nada.

– Você não vai dizer isso para ele, vai? – perguntou ela, desconfiada, olhando por sobre o ombro para a mãe que lavava a louça do jantar.

– Você quer dizer para o seu pai? – Mamãe encarou – a, sorridente. – Não. Ele te mataria se soubesse.

Caroline suspirou aliviada.

– A nossa primeira vez também foi assim, no início do namoro. – prosseguiu ela, alguns instantes depois, sem que Caroline perguntasse. – Meus pais não permitiam que eu transasse, é claro, mas eu não me importava com eles. Eu estava numa fase rebelde da vida e o seu pai parecia o homem capaz de realizar todos os meus desejos. – Mamãe suspirou, nostálgica. – Ele era um homem tão bom, Caroline. Nem parece a mesma pessoa...

Caroline permaneceu calada. Falar do pai era o que ela mais odiava, mas ela sentia necessidade de ouvir aquilo.

– Bem, na primeira transa eu fiquei grávida de você. – Ela sorriu. – Seus avós me deram uma surra tão traumatizante que eu jurei jamais transar novamente. – Apesar das circunstâncias serem tristes, Caroline não conteve a gargalhada. Mamãe gargalhou junto com ela. – E seu avô obrigou o seu pai a se casar comigo, ameaçando matá – lo, ou capá – lo, pelo menos. – Ela gargalhou de novo. – As coisas eram assim naquela época... Engravidou tinha que casar.

– E o que houve após isso? – perguntou ela, após alguns segundos silenciosos na cozinha.

– Nós nos casamos. – respondeu ela, sem parar para pensar.

– E ele começou a te bater. – O tom na voz de Caroline era ríspido e mamãe, ao ouvir aquilo, sentiu como se facas a tivessem perfurado.

– Caroline... – disse ela, com a voz embargada de dor.

– Não, mamãe – interrompeu ela. – Eu não sou obrigada a aceitar o que ele faz com a senhora.

– Eu sei que não – disse mamãe, encarando – a seriamente –, mas ele é seu pai. Você deve respeito a ele.

A expressão na face de Caroline se tornou agressiva.

– Como você ainda o defende? – perguntou ela, indignada.

Mamãe ignorou a pergunta.

– As coisas não aconteceram nessa ordem. Seu pai era muito amoroso comigo no começo do nosso relacionamento, até o dia em que eu... – A voz dela fraquejou e ela caiu aos prantos. – Até o dia em que eu abortei o seu irmãozinho, Caroline.

Uma pontada de surpresa a atingiu e Caroline ouviu aquilo descrente. Mamãe não seria capaz de matar uma criancinha, seria?

– Eu não queria outro filho. – prosseguiu ela, em meio aos soluços. – Eu queria curtir a vida ao lado do seu pai, assim como quando éramos namorados. Mais uma criança atrapalharia os meus planos e eu era muita nova na época, não tinha consciência dos riscos...

Caroline ouvia aquilo tudo calada.

– É claro que eu me arrependi depois, mas já era tarde demais. Quando o seu pai soube, ficou louco. O sonho dele era ter um menininho, e eu simplesmente o destruíra. A partir daí ele se tornou agressivo... mas nunca havia chegado a me bater. Ele só me bate, aliás, quando bebe.

– Isso não justifica ele te bater até hoje. – respondeu Caroline, decidida.

– É muito fácil julgar um caso de forma superficial, Caroline. Se ponha no lugar do seu pai. Pense em como você ficaria se alguém destruísse o seu maior sonho.

Caroline não queria aceitar aquilo. Era injusto demais para ser deixado de lado, mas ficou calada. Ela sabia que mamãe não mudaria de opinião e, por um lado, Caroline até a entendia. Ela sabia que mamãe se sentia culpada e que apanhar era uma forma de punição, uma espécie de cruz a ser carregada por um pecado imperdoável.

– Mas porquê você está me contando isso? – perguntou ela, alguns minutos depois.

Mamãe respirou fundo.

– Porque homens são imprevisíveis, Caroline. – respondeu ela, pensativa. – Eles te amam, te fazem sentir viva e depois te tratam como lixo.

– Você está querendo dizer que o Tyler vai me decepcionar? – A expressão no rosto de Caroline era nervosa. – Se você está achando que o Tyler é que nem o papai você está...

– Não se iluda, filha. – interrompeu mamãe, enquanto secava as mãos na toalha acima da pia. – Como todo homem ele, um dia, vai te magoar e te deixar triste.

E saiu da cozinha, sem dar a Caroline o direito de resposta.



E mamãe estava certa esse tempo todo...

Caroline olhou para o céu. O sol já começava a surgir no leste, deixando tudo ligeiramente claro como a paz, derramando um brilho levemente dourado em tudo que a cercava. Ela mal percebera, mas, durante aqueles minutos em que pensava no passado, havia ficado parada. Tanta beleza e tanta luz a deixavam nauseada, pois além da fome que lhe perfurava o estômago, ela pensava em como seria bom se ele estivesse ali, com ela...

Oh Tyler, porque você fez isso? Nós estávamos tão felizes...

E, mais uma vez, ela olhou para o céu. Gaivotas grasnavam bem longe dali, voando rumo a luz que vinha do sol nascente. O ar, percebera ela, estava impregnado com os aromas de água salgada e maresia e ao fechar os olhos e relaxar, ela podia ouvir o barulho das ondas quebrando.

De repente, uma vontade desenfreada de voltar a água a atingiu. Tudo bem, ela não estava feliz como estava a horas atrás, mas ela sentia que pelo menos algumas das dores que sentia seriam curadas. Sem hesitar, ela passou a ir em direção a água, a areia morna da praia lhe envolvendo os dedos, porém, num piscar de olhos, uma voz que ela conhecia muito bem passou a gritar por ela.

– Caroline!

Era ele. Tyler.

Ela queria correr, queria fugir dali e esquecer dele para sempre, mas simplesmente não conseguia. Era como se os seus pés estivessem grudados a areia da praia.

– Caroline! – gritou ele mais uma vez. – Ainda bem que eu te encontrei, já estava ficando preocupado.

E tocou o ombro dela, que não demonstrou reação alguma ao toque dele.

– Oh, Caroline – disse ele, ao perceber a mágoa que exalava dela. –, me perdoe, eu te amo e não queria ter que dizer aquilo, mas...

Caroline levantou a cabeça e o encarou. Olhos nos olhos.

Um raio de luz solar passava bem no meio deles, o que tornava as feições mais claras e sinceras.

– Tyler, eu já entendi o seu recado.

– Não! – gritou ele. – Não entendeu. Me dê uma chance de explicar...

Ela respirou fundo. Pescadores se aproximavam deles ao longe.

– Então me explique. – A expressão dela era crua, aparentemente sem sentimentos. – Se você realmente me ama, porque vai me deixar?

Ele respirou fundo, sem encontrar palavras para prosseguir.

– Caroline, eu...

– Me diga a verdade! – gritou ela, firme. – Ou vai me perder para... sempre.

A voz dela fraquejou nas últimas palavras. Ele a olhava sufocado, como se algo estivesse o destruindo rapidamente.

– Porque eu... – ele respirou fundo mais uma vez e olhou para baixo. Levantando os olhos e a encarando de forma firme, prosseguiu. – Porque eu sei que estou marcado para morrer.

Notas finais
E ai, o que acharam?