Verzweiflung
1 Capítulo 1: A família
Notas iniciais
O pavimento era feito de tábuas escuras, envernizadas, encaixadas e coladas com betume. Hans admirava especialmente o piso de sua casa, pois passava grande parte do dia de castigo, ajoelhado e olhando para baixo. Ele era tão macio e frio, que os joelhos de Hans nem ficavam feridos ou marcados. Vivia de castigo desde que tinha fraldas, então não se importava tanto em ter que ficar ajoelhado naquele canto da cozinha, olhando o assoalho de madeira negra, enquanto sua mente vagava em reinos encantados, onde ele corria e brincava o dia inteiro, sem que ninguém se incomodasse com isso, nem se sentisse ofendido por ele ser um menino traquina. O chão da cozinha era seu lugar marcado naquela casa.
Quando a mãe se lembrava de tirá-lo do castigo, ele corria para fora, em direção ao bosque ao redor da casa. As galinhas e as cabras há muito o esperavam. O cachorro Strahlend já o aguardava ansioso e festivo. Ambos corriam com tanta energia e ímpeto, que quando o cansaço os alcançava, estavam muito longe de casa. Hans tinha 10 anos, mas muitas vezes se sentia com 15, e forte e esperto o suficiente para ir para guerra. Ele e todos os de sua família sabiam de histórias de garotos de 13, e até mesmo de 12 anos, que foram aceitos no exército, lutando bravamente na grande guerra. Hans tinha certeza de que ele se sairia mil vezes melhor, do que muitos daqueles garotos soldados de 13 anos.
As árvores do quintal de sua casa eram altas, de cascas enrugadas e resistentes. Os galhos eram tão fortes, que Hans os julgava mais resistentes do que ferro, segundo seu pai o metal mais resistente do mundo. Seus primos quando os visitavam no verão, gostavam de pendurar-se nos galhos das árvores, onde amarravam cordas, pregavam lascas de madeira velha ou restos de carpintaria, à maneira de casa de passarinhos, ou como era conhecido na intimidade dos meninos, seu avião de guerra. Hans não gostava de pendurar-se nas árvores como os primos, pois achava que suas centenárias amigas não agüentavam aquela horda de irrequietos demônios mirins. Hans achava que os galhos poderiam quebrar-se, chegando a fazer um escândalo, quando uma das raízes da velha árvore ficou exposta no chão, entre as gramíneas.
No inverno as chuvas eram mais frequentes, e algumas vezes chegavam a cair flocos brancos do céu. Hans não gostava do tempo mais frio. Sua família já dormia amontoada, e os meninos todos se abraçavam para espantar o frio natural da madrugada, mas quando a paisagem cobria-se de branco era pior, com seus irmãos mais novos urinando sobre os outros, e os avós e parentes mais idosos gemendo a madrugada inteira com reumatismo. Sua mãe deixava a lareira acesa quando nevava, o que garantia pés quentes, mas isso também significava que Hans e os outros mais velhos teriam que cortar lenha, para garantir que o estoque não acabasse antes do inverno chegar ao fim.
Hans levantou-se pela manhã de um dia frio de inverno. Tratou de afastar-se rapidamente quando seus dois irmãos começaram a discutir. Aparentemente Franz, seu irmão mais novo que ainda usava fraldas e aproveitava as roupas velhas de Hans, havia quebrado um estojo de Kurt, seu irmão mais velho que já estava andando de mãos dadas com Sophie Lukas, e passara a fazer uma ridícula ginástica vespertina, para adquirir músculos segundo ele, mas os outros meninos das redondezas diziam que ele estava cansado de apanhar de valentões. Hans sabia bem como terminavam essas discussões com Kurt. Logo o choro de Franz se fez ouvir, pois Kurt o estava espancando. Quando Hans já estava alcançando a mesa do café da manhã, sua mãe passou correndo por ele em direção aos meninos.
A mesa do café estava posta. Havia mingau de aveia como sempre, café, leite de cabra, manteiga, queijo, creme de leite, lingüiças brancas, pão e... Surpresa! Sua mãe havia feito torta de maçã.
– Bem esperemos que não. A torta de maçã de mamãe é horrível, mas a de vovó é um sonho. Só há um modo de desfazer essa dúvida cruel. — Hans pegou a faca e tirou uma fatia fininha da torta de maçã. Comeu e revirou os olhos. "Vovó".
– Kurt... Quantas vezes já lhe disse... Que você não pode bater nos pequenos? — Sua mãe gritava sem fôlego, enquanto surrava Kurt com um cinto de couro puído e em tiras.
– Ele mereceu. Mexeu e quebrou meu estojo. Era a única coisa de valor que eu tinha. — Kurt exclamava irritado, mas em um tom mais baixo do que sua mãe. Ele agüentava a surra imposta em deferência a sua mãe, mas se quisesse poderia facilmente desarmá-la e atirar o cinto de couro ao lixo.
– Pare com isso Marie, ele já é um rapaz. Não fica bem surrá-lo como um menino. Se quiser realmente castigá-lo chame seu marido. Ele irá corrigi-lo como merece. — Falou vovó Magdalene.
Mamãe Marie parou de espancar Kurt e afastou-se pisando forte, em direção a seu quarto para guardar o cinto de couro. Vovó Magdalene pegou Franz no colo, embora este fosse grande o suficiente para andar muito bem sozinho, e afastou-se em direção à cozinha dando um olhar reprovador e decepcionado para Kurt. Este olhar teve o efeito que as lambadas de cinto de couro não produziram. Kurt sentiu vergonha de si mesmo e baixou a cabeça para não encarar a avó.
Hans foi para o lado de fora da casa, para lavar o rosto junto a uma pia rústica de pedra. Pegou um pouco de água do poço e passou a lavar o rosto e as mãos. Sua velha escova de dente completou o serviço. Estava tão acostumado com aqueles pequenos incidentes logo ao acordar, que não se importava com gritos, choros, e surras de cintos. Ele achava que chegaria a sentir falta de toda aquela barulheira, se algum dia viesse a morar longe da família. Seus outros irmãos logo se aglomeraram no mesmo lugar que ele, e o empurraram para o lado, para que pudessem também escovar os dentes.
– Mãe posso passar creme na torta? -Perguntou Wilhelmina enquanto ficava de joelhos, na grande cadeira de madeira com espaldar alto, pois se sentasse não poderia ver o que havia na mesa do café da manhã.
– Vó, esta não é minha xícara. Otto pegou minha xícara e colocou a dele para mim. Eu quero minha xícara de volta. — Reclamou Erich, enquanto empurrava a xícara de porcelana gasta, igualzinha a todas as outras, para longe de si.
– Vó, eu também quero ir pro colo. Se Franz pode então por que também não posso? — Reclamou Hertha com cara de choro.
– Mãe, Elsa derramou café na mesa. Bate nela mãe, bate. — Falou Josephine.
Era isso a manhã toda, com direito a repetição no almoço e jantar. Porém, quando o pai estava em casa, as crianças eram mais comedidas. O pai não tolerava conversas durante as refeições. Ele não aturava brigas e duscussões entre os garotos. Ele nem mesmo gostava de ouvir-lhes o som da voz, a não ser se lhes dirigisse a palavra. Somente a mãe e a avó tinham permissão de falar com o pai quando lhes desse vontade, mesmo assim, não era certo que ele lhes respondesse ou lhes explicasse alguma coisa. Desde muito pequeno, Hans aprendera que seu pai era alguém muito sobrecarregado de problemas, que por ser o chefe da família, o peso em suas costas era maior. Todavia Hans nunca vira o pai se incubir de nada dentro de casa. Não sabia o que ele tanto fazia na rua, ou por que só ele era obrigado a trabalhar fora de casa por tanto tempo.
Havia uma época de festejos na cidade, em certa época do ano. As mulheres faziam quitutes e os expunham em uma grande mesa ao ar livre. Os homens competiam entre si, para ver quem cortava um tronco de árvore mais rápido, ou quem agüentava beber mais cerveja. As crianças maiores brincavam de cabra cega, e os menores assistiam teatro de marionetes. Havia também música, dança, bebida, e noitadas que só acabavam quando o sol nascia. Hans não tinha permissão de participar dessas noitadas, apesar de sua precocidade, de sua indiscutível sagacidade, resistência física e artimanhas. Sua mãe só lhe permitia assistir o teatro de marionetes, além de ridículas brincadeiras de roda, e cânticos de músicas tradicionais.
– Mãe, por favor, não me obrigue a ficar perto desses borra-fraldas. Eu já sou um rapaz, já fiz 10 anos. Isso não fica bem. — Reclamava Hans ao ver-se obrigado a sentar-se no chão próximo a Franz e outros garotos pequenos.
– Filho, você está aqui para proteger os pequenos. Eles são novinhos demais para tomarem conta de si. — Falava sua mãe.
– Não me interessa. Que suas mães venham tomar conta de seus filhos. — Respondia Hans impertinente.
– Hans! Meça suas palavras moleque. Se você sair daqui e não cuidar de seu irmão, bem como desses outros bebês, irá sentir o cinto nos lombos. Agora cale a boca. — Respondia sua mãe, sempre apelando para castigos físicos, como único meio de fazer valer sua vontade.
O teatrinho de marionetes não era de todo mau. Quando mostrava o imperador ganhando batalhas com sua cavalaria era eletrizante. Quando mostrava fábulas infantis como "os três porquinhos" ou "o gato de botas" era interessante. Mas quando contava histórias de amor era uma coisa maçante. Ninguém suportava aquilo de "meu amor", "minha princesa" e "sempre te amarei"... Simplesmente horrível. Hans chegava a ter vontade de jogar coisas no pequeno palco das marionetes. Certamente que depois que jogaram ovos e tomates nas primeiras encenações, levando a que todas as crianças presentes fossem surradas, ninguém nunca mais se atreveu a fazê-lo.
Kurt em uma dessas festas entregou-lhe escondido uma caneca de chope, esperando que Hans a entornasse de uma vez, para levá-la de volta para a mesa da festa. Hans ficou com soluço e viu tudo balançando a sua frente, como se ele estivesse deitado nas saias bordadas das princesas da festa, moças belíssimas em trajes típicos. Ele até sentiu vontade de sacudir tais saias bordadas com fios dourados, e rosas carmins com folhas verde-água. O problema foi que as moças caçoaram dele, e ficaram correndo para evitar que ele tocasse em suas saias. Isso perdurou até que Van Losch, um homem alto como uma árvore, e diga-se a verdade, mais resistente que uma rocha, o agarrasse pelo cangote suspendendo-o do solo até a altura de seu rosto, sentindo assim o bafo de álcool que exalava de Hans.
Antes que Van Losch o espancasse, pois se aceitava naqueles tempos que um morador antigo da cidade poderia corrigir uma criança que não fosse sua, desde que os pais não o corrigissem, sua mãe veio buscá-lo e passou a surrá-lo em público, com uma rama de arbusto cheia de espinhos. Ao chegar a casa, mais castigo o aguardava, seu pai ao saber do acontecido, aplicou- lhe palmadas com uma palmatória de madeira que havia em sua casa, guardada em lugar visível, para que todas as crianças vissem o que lhes aguardava se agissem errado. Hans ficou sem conseguir sentar-se por um punhado de dias. A surra de rama de arbusto produziu-lhe doença na pele, obrigando sua avó a passar-lhe lenimentos para aliviar-lhe o mal estar.
Fim do capítulo
Hey, que tal ler outra fic original? Tente esta: Meu Guardião
Fale com o autor