Vertigem Selvagem

2 O café derramado.


O cheiro forte de café, ao som de Djavan e da chuva, tornava aquele ambiente perigosamente confortável.

Atrás do balcão estava Sr. Jorge, como em todas as manhãs. Os cabelos grisalhos já dominavam boa parte da cabeça, e a barriga denunciava seu amor pela própria cozinha. Tinha sempre um pano de prato jogado sobre o ombro e um sorriso tranquilo no rosto. Eu nunca o via apressado.

Eram pouco mais de sete da manhã. A cafeteria do Sr. Jorge ainda estava vazia, como acontecia quase todos os dias naquele horário.

— Sr. Jorge, bom dia. Aquele nosso time ainda vai nos matar de angústia.

— Nem me fale, meu filho. O mesmo de sempre?

— Hoje eu quero um duplo. Vou precisar.

— Já preparo.

Sentei-me à janela, como de costume, para observar as pessoas que por ali passavam, quando ouvi:

— Bom dia, Sr. Jorge. Como tem passado?

— Bom dia, Beatriz. Estou bem. O mesmo de sempre?

— Hoje preciso de um duplo, tenho muito trabalho.

— E como vão as aulas?

— Ah, Sr. Jorge, as aulas estão me matando.

Virei o rosto sem muita atenção… e o mundo pareceu desacelerar por um instante.

Lá estava ela. Eu perdi completamente as palavras.

Ela virou e me pegou observando-a; tentei disfarçar, o que só piorou a situação.

— Mas que merda… logo hoje que tenho uma reunião importante.

Beatriz segurou o riso e olhou para o Sr. Jorge.

— Acho que seu amigo vai precisar de um pano.

Sr. Jorge soltou uma risada baixa enquanto pegava alguns guardanapos.

— Tudo bem, meu filho? O que aconteceu aí?

Passei a mão no rosto, constrangido.

— Ah, Sr. Jorge… nem eu sei. Acho que me distraí com besteira.

Beatriz pegou seu pedido, agradeceu e saiu.

Depois daquela cena vergonhosa, tive que passar em casa para trocar a calça novamente.

Depois de dias procurando por ela, quando finalmente a encontro, passo por aquela situação. O universo hoje me deu uma rasteira.