Vertigem Selvagem
10 O Presente
Acordei por volta das sete e meia com o telefone do quarto tocando.
Era a recepção.
— Senhor, o que gostaria para o café da manhã?
— Para mim, pode trazer um café puro e um pão francês.
— Certo. E para a moça que está com o senhor?
— Pode deixar para mais tarde. Ela precisa descansar.
— Combinado.
Aproveitei que Beatriz ainda estava dormindo e fui dar uma volta pela cidade. Passei por uma loja de artigos esportivos e comprei uma lembrança para o Sr. Jorge.
No caminho de volta para o hotel, passei por uma floricultura.
Seria estranho levar flores para ela...
Voltei para o hotel e encontrei Beatriz na recepção.
— Ah, o senhor está aí...
— Fui dar uma volta. Dormiu bem?
— Sim, sim. Me sinto renovada.
— Já tomou café?
— Já. Agradeço a preocupação.
— Ótimo. Partiremos por volta das quinze horas.
— Certo. Já deixei minhas coisas arrumadas. Vou aproveitar para dar uma volta pela cidade. Quero levar uma lembrancinha para o Sr. Jorge.
Desta vez, deixei Beatriz ir sozinha. Não queria parecer invasivo.
Voltei para o quarto para descansar até a hora de partir.
Quando já estava quase saindo, meu telefone tocou. Levei um susto.
Era Beatriz.
Eu tinha me esquecido de que havia salvo seu contato... e ainda por cima usando aquela foto que tirei.
— Leo, já voltei para o hotel. Quando formos sair, pode bater na minha porta?
— Ah, sim. Pode deixar.
Na hora de partir, bati na porta do quarto dela.
Beatriz apareceu com três malas e uma quantidade impressionante de sacolas.
— Precisa de ajuda?
— Sim, haha. Estou com mais coisas do que quando cheguei — respondeu, rindo.
Pegamos as malas e as sacolas, descemos para o saguão e chamei um táxi.
Quando ele chegou, acomodamos tudo no porta-malas e seguimos para o aeroporto.
Ao chegarmos, notei Beatriz observando uma senhora que vendia flores.
Ela falou tão baixo que parecia estar pensando em voz alta:
— Que pena... Já comprei coisa demais.
Despachamos as malas. Faltava pouco menos de uma hora para a decolagem.
— Beatriz, pode me esperar aqui um instante?
Ela apenas assentiu.
Então caminhei até a senhora que vendia flores.
— Pode me dar uma dessas orquídeas, por favor?
— Claro, meu filho. Só um momentinho.
Ela escolheu uma das mais bonitas e, enquanto a embalava, sorriu para mim.
— Sua namorada vai adorar.
Apenas acenei com a cabeça.
Peguei o vaso de orquídeas cuidadosamente embalado. A senhora fez questão de escolher o mais bonito.
Quando voltei, avistei Beatriz de longe.
Ela ainda não tinha me visto com as flores.
Estava concentrada no celular.
No instante em que levantou a cabeça e me viu, seu sorriso se abriu.
Percebi que, toda vez que sorria daquele jeito, levava a mão ao cabelo e o ajeitava atrás da orelha esquerda. Parecia um gesto involuntário, daqueles que a pessoa nem percebe que faz.
— Não acredito...
— Eu vi você admirando essas flores desde o dia em que chegamos.
Ela riu.
— Ah, o senhor é fogo... Eu amei essas flores. Queria muito levá-las.
A felicidade dela estava estampada no rosto.
Ela observava as orquídeas com tanto carinho que parecia conversar com elas em silêncio.
Quando me virei para seguirmos para o embarque, senti sua mão tocar meu braço.
Antes que eu pudesse reagir, ela me abraçou.
— Muito obrigada, Leo... Eu amei o presente.
O perfume dela.
O calor do corpo dela contra o meu.
Tudo aquilo me pegou completamente desprevenido.
— Nã... não precisa agradecer — respondi, gaguejando.
Seguimos para o voo.
Desta vez, Beatriz parecia muito mais tranquila durante a decolagem.
Algo havia deixado calma e segura. Quase perguntei se o medo tinha passado.
— Nossa, Leo... Fiquei tão feliz com as flores que nem percebi o avião decolar.
— Já estava pensando onde iria colocá-las?
— Exatamente.
Ela sorriu para o vaso apoiado sobre o colo.
— Que bom que isso ajudou a esquecer a decolagem.
Ela estava feliz.
E, para mim, aquilo era o mais importante.
— Acho que vou tirar um cochilo — avisei.
Coloquei os fones de ouvido, escolhi uma música tranquila apenas para relaxar e, sem perceber, acabei dormindo.
— Senhor...
Ouvi uma voz distante.
— Senhor...
Depois veio novamente:
— Leo... Leo... Já chegamos.
Abri os olhos devagar.
— Oi... Nossa, eu dormi tudo isso?
— O senhor parecia cansado, então achei melhor não acordá-lo.
Passei a mão pelo rosto e só então percebi alguns detalhes.
Havia uma coberta sobre mim.
Meu assento estava reclinado.
E meus fones não estavam mais onde eu os havia deixado.
Fiquei olhando para aquilo por alguns segundos.
Eu definitivamente não lembrava de ter feito nada disso.
Fomos buscar as malas, e eu ainda estava meio sonolento.
Depois seguimos para a entrada do aeroporto para chamar um táxi.
— Bom, acho que é aqui que nos despedimos.
— Sim... Nos encontramos amanhã no Sr. Jorge.
— Bom descanso, Beatriz.
— Para o senhor também.
Cheguei em casa, deixei a mala em um canto e fui preparar um café.
Sentei-me no sofá e fiquei relembrando tudo o que havia acontecido durante a viagem.
O jantar.
As conversas.
As flores.
O abraço.
Sorri sozinho.
Talvez aquela tivesse sido a melhor viagem que eu fizera em muito tempo.
Depois de terminar o café, fui me deitar.
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