Vertigem Selvagem

4 A xicara de Café


Após voltar da viagem, decidi que não deixaria nada me afetar. Eu queria paz. Queria fazer meu trabalho sem me preocupar. Afinal, eu nunca tinha ficado fora de mim daquela forma; nunca precisei refazer algo por um descuido meu. Quem me conhecia e trabalhava comigo sabia exatamente como eu era no trabalho. Isso não vai dar certo.

— Ótimo dia, Sr. Jorge. Finalmente nosso time nos deu uma alegria ontem.

— É, meu caro… os ventos estão soprando a nosso favor.

Desta vez, decidi tomar meu café no balcão.

— Sr. Jorge, pode me preparar um café?

— Aqui, meu jovem. Vejo que está de bom humor hoje.

— Coloquei umas ideias no lugar, Sr. Jorge.

— Uma mulher?

— Nada importante.

Naquele momento, eu apreciava meu café enquanto pensava nas tarefas da semana.

— Bom dia, Sr. Jorge.

Droga… reconheço esse tom de voz.

— Bom dia, Beatriz. — respondeu ele com um sorriso.

— Sr. Jorge, me diz uma coisa: sua neta gostou da apresentação?

— Gostou, sim. Inclusive, ela disse que quer ver novamente.

— Ah, que ótimo.

Nesse momento, ela se sentou no balcão ao meu lado.

— Bom dia, Sr. Cal… Bom dia, senhor.

Assenti com a cabeça enquanto bebia meu café.

Mantive a postura firme, como se a presença dela não me importasse.

Enquanto finalizava meu café, fiquei observando, meio de lado, ela conversando com o Sr. Jorge. Estava de cabelos soltos, sorrindo o tempo todo. Usava um brinco que balançava cada vez que gesticulava com as mãos. Eu me perdi completamente visualizando aquela cena.

Tanto que meu café já tinha acabado, e eu não havia percebido. Estava levando a xícara à boca quando ouvi:

— Sr. Jorge, seu amigo precisa de mais café… — disse ela, sorrindo.

Fui pego novamente em constrangimento. Perdi totalmente o foco, mas mantive a calma e respondi:

— Você gosta de fazer piadinhas com todos?

— Talvez… — respondeu ela.

Esse tom sarcástico dela me irritava. Por acaso ela sabe com quem está falando? Ela mal me conhece.

— Você é muito engraçadinha. Trabalha no circo?

— Quem me fez rir foi você. Então já sabemos aqui quem é o atrapalhado.

Que abusada. Desta vez, me deixou sem palavras… eu apenas sorri.

— Sr. Jorge, até amanhã. — disse eu.

— Tudo bem, meu filho. Bom trabalho.

Quando eu ia saindo do balcão, ela disse:

— Bom trabalho, senhor.

— Igualmente, moça.

— Pode me chamar de Beatriz.

Apenas acenei com a mão.

Tudo o que eu tinha pensado, tudo o que eu tinha colocado na cabeça, se desfez em segundos.

Ela me tira do sério.